{"id":503031,"date":"2025-09-26T09:02:45","date_gmt":"2025-09-26T12:02:45","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=503031"},"modified":"2025-09-26T09:02:45","modified_gmt":"2025-09-26T12:02:45","slug":"caruru-de-setembro-como-tradicao-afro-baiana-celebra-fe-e-ancestralidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/caruru-de-setembro-como-tradicao-afro-baiana-celebra-fe-e-ancestralidade\/","title":{"rendered":"Caruru de setembro: como tradi\u00e7\u00e3o afro-baiana celebra f\u00e9 e ancestralidade"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<h2>Servido primeiro \u00e0s crian\u00e7as e ligado aos Ibejis e a Cosme e Dami\u00e3o, o prato refor\u00e7a a identidade cultural da Bahia<\/h2>\n<div class=\"autor\">Jo\u00e3o Lucas Dantas<\/div>\n<div id=\"div-share\"><\/div>\n<div class=\"materia\">\n<div class=\"conteudo_post\">\n<figure id=\"attachment_287963\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-287963\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-287963\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/27123150\/carurusetemeninos.jpg\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"420\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-287963\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Pierre Verger do Caruru de Sete Meninos<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p data-start=\"221\" data-end=\"477\">A tradi\u00e7\u00e3o do caruru para Cosme e Dami\u00e3o, santos celebrados em 26 de setembro, assim como a associa\u00e7\u00e3o desses santos g\u00eameos com os Ibejis, divindades da cultura iorub\u00e1 que protegem as crian\u00e7as e comemoradas em 27 de setembro, continua sendo um dos maiores eventos religiosos da Bahia.<\/p>\n<p data-start=\"479\" data-end=\"844\">Fruto do sincretismo religioso caracter\u00edstico do estado, a celebra\u00e7\u00e3o permite que as influ\u00eancias africanas sobrevivam e se manifestem publicamente, mesmo em um contexto associado ao catolicismo. O prato t\u00edpico, preparado com quiabo, camar\u00e3o seco, azeite de dend\u00ea e outros temperos, \u00e9 servido primeiro \u00e0s crian\u00e7as, por isso conhecido como \u201ccaruru de sete meninos\u201d.<\/p>\n<p data-start=\"479\" data-end=\"844\"><strong>Origens do caruru<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"846\" data-end=\"1087\">Mas de onde exatamente veio o prato? \u00c9 o que responde Pai Saulo de Sakpat\u00e1, l\u00edder religioso do Guerebet\u00e3 Ahuns\u00fa Hund\u00f4, terreiro de na\u00e7\u00e3o mina-jeje em Jambeiro, Lauro de Freitas, e doutor em filosofia religiosa.<\/p>\n<p data-start=\"1089\" data-end=\"1394\">\u201cO caruru \u00e9 origin\u00e1rio da \u00c1frica, de diversas tribos africanas. Cada iguaria que comp\u00f5e aquele prato \u00e9 a oferenda de um vodun [termo usado para designar os esp\u00edritos divinos cultuados pela tradi\u00e7\u00e3o religiosa fon, na regi\u00e3o do Benin], orix\u00e1 ou inquice [seres espirituais das culturas Bantu, origin\u00e1rias especialmente da regi\u00e3o de Angola e Congo, que se manifestam como divindades). E, em um momento de festejo ao culto dos voduns hohos, er\u00eas [entidade espiritual ligada \u00e0 inf\u00e2ncia] e Ibejis [orix\u00e1s g\u00eameos do pante\u00e3o iorub\u00e1], cada um presenteou com sua pr\u00f3pria comida para compor a iguaria\u201d, explicou Pai Saulo em entrevista ao\u00a0<strong>bahia.ba<\/strong>.<\/p>\n<p data-start=\"1396\" data-end=\"1774\">No prato ou mesa de oferenda, al\u00e9m do caruru, acompanham outros alimentos que remetem ao banquete dos orix\u00e1s ou ao ritual religioso, como feij\u00e3o fradinho, vatap\u00e1, abar\u00e1, acaraj\u00e9, farofa de dend\u00ea, banana, cana e rapadura. Tamb\u00e9m h\u00e1 gestos simb\u00f3licos, como o de encontrar um quiabo inteiro no prato, o que pode significar que a pessoa dever\u00e1 ofertar caruru no ano seguinte.<\/p>\n<p data-start=\"1776\" data-end=\"1994\">Como toda tradi\u00e7\u00e3o trazida de diferentes partes do mundo para o Brasil, o caruru tamb\u00e9m passou por transforma\u00e7\u00f5es, com a incorpora\u00e7\u00e3o de ingredientes locais e a mistura cultural entre africanos, ind\u00edgenas e europeus.<\/p>\n<p data-start=\"1996\" data-end=\"2475\">\u201cToda cultura africana, gastron\u00f4mica, art\u00edstica ou religiosa, sofreu muta\u00e7\u00f5es ao chegar ao Brasil, devido ao processo de coloniza\u00e7\u00e3o e \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do catolicismo. As iguarias africanas eram ofertadas nos dias de culto de celebra\u00e7\u00e3o da divindade. Xang\u00f4 [orix\u00e1 associado \u00e0 justi\u00e7a] e Oy\u00e1 [orix\u00e1 dos ventos, das tempestades e dos mortos], por exemplo, recebiam \u00e0s quartas-feiras o amal\u00e1 [prato \u00e0 base de quiabo ofertado a Xang\u00f4] e o akar\u00e1 [nome iorub\u00e1 para o acaraj\u00e9, oferecido a Oy\u00e1]. Assim acontecia com todas as outras divindades, utilizando apenas cebola, camar\u00e3o e azeite de dend\u00ea como tempero\u201d, esclareceu o babalorix\u00e1.<\/p>\n<p data-start=\"2477\" data-end=\"2752\">\u201cQuando os africanos foram arrancados de sua terra e trazidos de forma sub-humana para o Brasil, perderam sua dignidade, fundamentos e alguns cultos \u00e0s divindades. Por isso, houve a necessidade de adapta\u00e7\u00f5es para garantir a continuidade desse legado ancestral\u201d, acrescentou.<\/p>\n<figure id=\"attachment_500913\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-500913\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-500913 size-full lazyloaded\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo.png\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" srcset=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo.png 600w, https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo-300x210.png 300w, https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo-269x187.png 269w, https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo-110x76.png 110w\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"420\" data-src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo.png\" data-srcset=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo.png 600w, https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo-300x210.png 300w, https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo-269x187.png 269w, https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/24114515\/Pai-Saulo-110x76.png 110w\" data-sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-500913\" class=\"wp-caption-text\">Pai Saulo de Sakpat\u00e1<br \/>\nFoto: Acervo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p data-start=\"2477\" data-end=\"2752\"><strong>Significado espiritual do prato<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"2754\" data-end=\"2987\">Para entender o significado espiritual do caruru dos Ibejis no candombl\u00e9 e por que eles s\u00e3o associados \u00e0s crian\u00e7as e \u00e0 fartura, \u00e9 preciso lembrar que as divindades s\u00e3o filhos de Sogb\u00f4, vodun da propriedade, da verdade e da justi\u00e7a.<\/p>\n<p data-start=\"2989\" data-end=\"3438\">\u201cSogb\u00f4 vinha sendo roubado dentro do seu pal\u00e1cio. Todos os dias, fazia a oferenda e a deixava esfriar na janela, mas quando voltava, a comida n\u00e3o estava mais l\u00e1. Pediu ent\u00e3o ajuda aos filhos g\u00eameos, os Ibejis. Brincalh\u00f5es e inteligentes, eles desconfiavam que quem pegava a oferenda era Exu [orix\u00e1 mensageiro e guardi\u00e3o dos caminhos]. Fizeram um trato, tocariam m\u00fasicas para Exu dan\u00e7ar no barrac\u00e3o de Sogb\u00f4 e, se ele se cansasse, teria de revelar o respons\u00e1vel pelo roubo\u201d, relatou Pai Saulo.<\/p>\n<p data-start=\"3440\" data-end=\"3788\">\u201cExu, sem saber que eles eram g\u00eameos, aceitou a proposta. Chegou ao pal\u00e1cio de Xang\u00f4 e come\u00e7ou a dan\u00e7ar, enquanto apenas um Ibeji tocava, o outro se escondia atr\u00e1s da pilastra. Quando um cansava, trocavam de lugar. Exu, exausto, n\u00e3o conseguiu continuar e perdeu a aposta, sendo obrigado a revelar que ele mesmo comia o amal\u00e1 de Xang\u00f4\u201d, continuou.<\/p>\n<p data-start=\"3790\" data-end=\"4152\">\u201cSogb\u00f4 ent\u00e3o fez um acordo com Exu. Antes de comer, ele sempre colocaria os pad\u00eas, oferenda predileta do orix\u00e1, na porta de casa. Assim, n\u00e3o precisaria mais roubar. Como gratid\u00e3o aos Ibejis, pediu que todos os outros orix\u00e1s levassem um pouco de sua comida ao seu reino, para uma festa dedicada aos filhos. Assim surgiu o t\u00e3o desejado prato do caruru\u201d, afirma.<\/p>\n<figure id=\"attachment_119244\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-119244\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-119244 lazyloaded\" src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/26050501\/caruru-sao-cosme.jpg\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"420\" data-src=\"https:\/\/d1x4bjge7r9nas.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/26050501\/caruru-sao-cosme.jpg\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-119244\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Redes sociais<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p data-start=\"3790\" data-end=\"4152\"><strong>Tradi\u00e7\u00e3o das sete crian\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"4154\" data-end=\"4516\">O babalorix\u00e1 tamb\u00e9m explicou a tradi\u00e7\u00e3o de servir o prato primeiro a sete crian\u00e7as, como se faz em Salvador e proximidades, apontando a for\u00e7a simb\u00f3lica desse gesto.<\/p>\n<p data-start=\"4154\" data-end=\"4516\">\u201cComo a oferta \u00e9 feita a divindades infantis, o n\u00famero sete representa caminho. Ao servir as sete primeiras crian\u00e7as, faz-se um pedido de crescimento material, emocional e espiritual para aquelas novas vidas, ainda puras, que constroem novos caminhos\u201d, avaliou.<\/p>\n<p data-start=\"4518\" data-end=\"4928\">\u201c\u00c9 trazer o agrado espiritual de forma material, com sete crian\u00e7as representando os Ibejis: esp\u00edritos novos, de cora\u00e7\u00f5es puros, na perspectiva de bons caminhos. Afinal, ningu\u00e9m nasce ruim; as pessoas s\u00e3o direcionadas ao negativo. A crian\u00e7a crescer\u00e1 de acordo com o que lhe for transmitido. Elas sempre ser\u00e3o a esperan\u00e7a da nossa religi\u00e3o, na cren\u00e7a de dias melhores para todos os adeptos\u201d, refor\u00e7ou Pai Saulo.<\/p>\n<p data-start=\"4930\" data-end=\"5222\">Questionado sobre a import\u00e2ncia de manter o prato e a tradi\u00e7\u00e3o vivos como express\u00e3o da identidade afro-brasileira e da resist\u00eancia cultural dos baianos, o l\u00edder religioso afirma ser necess\u00e1rio reafirmar e fortalecer toda uma ancestralidade viva, desde que seja usada com responsabilidade.<\/p>\n<p data-start=\"5224\" data-end=\"5654\">\u201cNa cultura africana, n\u00e3o se deve consumir azeite de dend\u00ea \u00e0s sextas-feiras, em respeito a Oxal\u00e1, divindade do dia. Na tentativa de desapropria\u00e7\u00e3o cultural, aqui na Bahia, esse foi justamente o dia escolhido para restaurantes servirem essas iguarias, sob o nome de \u2018comida baiana\u2019, quando o correto seria \u2018comida africana\u2019. S\u00e3o oferendas do candombl\u00e9 e precisam ser reconhecidas. \u00c9 uma quest\u00e3o de identidade religiosa\u201d, concluiu.<\/p>\n<p data-start=\"5656\" data-end=\"5992\">Em 2024, o Caruru de S\u00e3o Cosme e Dami\u00e3o foi declarado Patrim\u00f4nio Cultural Imaterial da Bahia. O registro \u00e9 visto como forma de proteger, valorizar e garantir a continuidade dessa tradi\u00e7\u00e3o, que carrega mem\u00f3rias, afeto, identidade cultural, religiosidade e resist\u00eancia. E que n\u00e3o falte caruru na mesa de nenhum baiano nesta sexta-feira ou neste s\u00e1bado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ui items\">\n<div class=\"item\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Servido primeiro \u00e0s crian\u00e7as e ligado aos Ibejis e a Cosme e Dami\u00e3o, o prato refor\u00e7a a identidade cultural da Bahia<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":503032,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-503031","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/carurusetemeninos.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503031","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=503031"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503031\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/503032"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=503031"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=503031"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=503031"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}