{"id":504860,"date":"2025-10-13T04:32:59","date_gmt":"2025-10-13T07:32:59","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=504860"},"modified":"2025-10-13T04:32:59","modified_gmt":"2025-10-13T07:32:59","slug":"em-suaves-linhas-a-vida-da-grande-dama-do-modernismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/em-suaves-linhas-a-vida-da-grande-dama-do-modernismo-brasileiro\/","title":{"rendered":"Em suaves linhas, a vida da grande dama do modernismo brasileiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"elementor-element elementor-element-7d2fc729 titulo-post elementor-widget elementor-widget-theme-post-title elementor-page-title elementor-widget-heading\" data-id=\"7d2fc729\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-title.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-59e555ed elementor-widget elementor-widget-post-info\" data-id=\"59e555ed\" 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Henrique Cartaxo e Lenora Barbo*<br \/>\nEspecial para o Correio Braziliense<\/strong><\/p>\n<p>Em 1935, \u00e0s v\u00e9speras do Estado Novo, a Universidade do Distrito Federal \u2014 precursora da Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) \u2014 criou o curso de urbanismo como p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, com dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos. Carmen Velasco Portinho, ent\u00e3o com 33 anos, a terceira engenheira graduada no Brasil, inscreveu-se no curso, dando o primeiro passo para se tornar a primeira urbanista brasileira.<\/p>\n<p>Carmen sempre guardou entusi\u00e1sticas lembran\u00e7as desse per\u00edodo, no velho pr\u00e9dio da Rua do Catete, onde funcionava a UDF e, posteriormente, a Faculdade de Direito da Universidade do Estado da Guanabara. Foram professores daquele curso inaugural, entre outros: M\u00e1rio de Andrade, que passava uma temporada no Rio e ministrava hist\u00f3ria da arte; C\u00e2ndido Portinari, de pintura; e Celso Ant\u00f4nio, de escultura.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ub-expand-full-85938d42-e14a-4891-85f1-38bfc85ddb86\" class=\"ub-expand-portion ub-expand-full wp-block-ub-expand-portion\" tabindex=\"0\" role=\"button\" aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"ub-expand-full-85938d42-e14a-4891-85f1-38bfc85ddb86\">\n<p>A boemia, a conversa irresist\u00edvel, o humor, a gra\u00e7a e a erudi\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio de Andrade \u2014 n\u00e3o apenas nas aulas, mas, sobretudo, nos chopes gelados no Bar da Brahma, na Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco \u2014 ficaram impressas nas boas mem\u00f3rias da jovem Carmen Portinho. A engenheira, modernista e militante feminista j\u00e1 se fazia notar na cena cultural do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, ao definir seu projeto de tese, que lhe conferiria o t\u00edtulo de urbanista, escolheu fazer o \u201cAnteprojeto para a Futura Capital do Brasil no Planalto Central\u201d. Uma ousadia, portanto, 17 anos antes do projeto da cidade de Vera Cruz (a nova capital no Planalto Central), proposto em 1955 por Raul Penna Firme, Jos\u00e9 Oliveira Reis e Roberto Lacombe, integrantes da Comiss\u00e3o do Marechal Pessoa; e 19 anos antes do projeto de Lucio Costa, vencedor do concurso de 1957, que definiu Bras\u00edlia. Carmen Portinho fez o primeiro projeto modernista para a capital do Brasil!<\/p>\n<p>Os documentos mais recentes sobre o Planalto Central, naquele momento, ainda eram os relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o Cruls, de 1892 a 1896. Um estudo in loco n\u00e3o parecia vi\u00e1vel para uma pesquisadora de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Restou a Carmen Portinho debru\u00e7ar-se sobre mapas e dados topogr\u00e1ficos, hidrogr\u00e1ficos, de fauna e flora apresentados pela equipe de Luiz Cruls, na qual se destacavam, entre outros, Auguste Glaziou, Hastimphilo de Moura, A. Cavalcanti, Al\u00edpio Gama, Francisco de Paula Oliveira, Eug\u00eanio Hussak e Henrique Morize \u2014 este, ex-professor de Carmen no curso de Engenharia.<\/p>\n<p>Com uma c\u00f3pia desse relat\u00f3rio, cedida por Morize, Portinho permaneceu dois anos decifrando e analisando o meio ambiente, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, os acessos necess\u00e1rios e os meios de transporte para a defini\u00e7\u00e3o do s\u00edtio onde seria sugerida a edifica\u00e7\u00e3o da nova cidade no Planalto Central. Inspirada nos princ\u00edpios urban\u00edsticos de Le Corbusier \u2014 que j\u00e1 conhecia de forma mais densa desde 1929 \u2014, Carmen elaborou seu projeto dividindo a cidade em \u00e1reas, sistema vi\u00e1rio, sistema de esgoto, passagens para pedestres e edif\u00edcios com gabaritos definidos por andares; cruzamentos de ruas sem intersec\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito; pilotis, brise-soleil e pan de verre.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o seria a mesma j\u00e1 sugerida, em momentos distintos, por Hip\u00f3lito da Costa, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, Adolfo Varnhagen, Auguste Glaziou, Polli Coelho e o Marechal Pessoa: o plano piloto estaria em uma \u00e1rea entre os rios Torto, Gama, Bananal e Riacho Fundo. Curiosamente, ela n\u00e3o previu a constru\u00e7\u00e3o de um lago nem a ele se referiu.<\/p>\n<p>\u201cNa ocasi\u00e3o, estava integrada \u00e0 arquitetura moderna, n\u00e3o s\u00f3 pela minha liga\u00e7\u00e3o com Affonso Eduardo Reidy (companheiro de Carmen), como igualmente por um interesse que vinha desde os tempos da Revista da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal \u2014 projeto editorial criado e por mim dirigido desde julho de 1932 \u2014, na qual publicava artigos de Lucio Costa, Reidy, Jorge Moreira, Oscar Niemeyer, enfim, de todos os arquitetos imbu\u00eddos de concep\u00e7\u00f5es modernas\u201d, explicaria d\u00e9cadas depois a urbanista em seu hist\u00f3rico depoimento a Geraldo Edson de Andrade.<\/p>\n<p>Carmen Portinho nasceu em Corumb\u00e1, no dia 26 de janeiro de 1903, no Estado de Mato Grosso \u2014 ainda n\u00e3o existia o Estado de Mato Grosso do Sul. Seu pai, Francisco Sert\u00f3rio Portinho, nascido em 1871, era ga\u00facho. Sua m\u00e3e, Maria Velasco Blanco, era boliviana, de Cochabamba. Eles teriam se conhecido em Puerto Su\u00e1rez, cidade boliviana n\u00e3o muito distante de Corumb\u00e1. Os Portinho eram maragatos e viviam em lutas nos pampas. Em determinado momento, exilaram-se em Corumb\u00e1. J\u00e1 os Velasco chegaram \u00e0 Am\u00e9rica do Sul com o capit\u00e3o conquistador Pedro de Alonso Velasco.<\/p>\n<p>Sert\u00f3rio Portinho transferiu-se para o Rio, com a fam\u00edlia, em 1908, onde j\u00e1 se encontravam seus irm\u00e3os. Carmen, t\u00e3o logo aprendeu a ler e contar, foi matriculada como semi-interna no col\u00e9gio das freiras francesas Sacr\u00e9 Coeur de J\u00e9sus, localizado na Gl\u00f3ria. J\u00e1 na pr\u00e9-adolesc\u00eancia, comunicou aos pais que queria ser engenheira e iniciar sua prepara\u00e7\u00e3o para a rigorosa sele\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Pedro II. Aprovada em todos os exames com notas altas, Carmen Portinho, al\u00e9m de poder fazer o vestibular para Engenharia, foi autorizada tamb\u00e9m a cursar dois anos na Escola de Belas-Artes.<\/p>\n<p>Com 16 anos, a futura urbanista iniciou o curso de Engenharia na Polit\u00e9cnica e, simultaneamente, o curso na Escola de Belas-Artes, onde conheceu o amigo de sempre, Lucio Costa. Em 1924, j\u00e1 havia recebido o diploma de engenheira e ge\u00f3grafa, mas s\u00f3 colaria grau e receberia o t\u00edtulo de engenheira civil em 1926 \u2014 formalidades e burocracias da \u00e9poca! Era a \u00fanica mulher numa turma de 45 novos engenheiros.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o poderia deixar de ser, foi escolhida por unanimidade para ler, em nome da turma, o juramento da profiss\u00e3o. As celebra\u00e7\u00f5es foram alegres, mas as urg\u00eancias financeiras batiam \u00e0 porta. Com o pai rec\u00e9m-falecido, Carmen, a filha mais velha, precisava trabalhar para sustentar e educar a fam\u00edlia. No \u00faltimo ano da Polit\u00e9cnica, come\u00e7ou a dar aulas no Col\u00e9gio Pedro II \u2014 tornando-se a primeira mulher a ensinar na tradicional escola carioca.<\/p>\n<p>Poucos meses ap\u00f3s a cola\u00e7\u00e3o de grau, foi nomeada pelo prefeito do Rio, Alaor Prata, como t\u00e9cnica na Diretoria de Obras e Via\u00e7\u00e3o da Prefeitura do Distrito Federal. Ela nunca entendeu a distin\u00e7\u00e3o \u2014 soube da nomea\u00e7\u00e3o pela m\u00e3e, que lera a not\u00edcia no Jornal do Brasil, \u00e0 \u00e9poca fazendo as vezes de Di\u00e1rio Oficial. \u201cOnde n\u00e3o se v\u00ea a mulher concorrendo com sua intelig\u00eancia e caminhando pari passu ao lado do homem? Ainda agora, o prefeito, por ato de anteontem, nomeou a senhorita Carmen Velasco Portinho engenheira dos pr\u00f3prios municipais \u2014 mais um pr\u00eamio \u00e0 vontade forte de nossas gentis patr\u00edcias\u201d, escreveu O Globo, em 1926.<\/p>\n<p>J\u00e1 filiada \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o Brasileira pelo Progresso Feminino e s\u00f3cia do Centro Excursionista Brasileiro \u2014 onde praticava alpinismo \u2014, Carmen passou a usar, em suas vistorias de campo, cal\u00e7as caqui do uniforme de execu\u00e7\u00e3o, numa \u00e9poca em que as mulheres s\u00f3 usavam saias. \u201cCal\u00e7as compridas ficavam bem nas artistas de cinema \u2014 tipo Marlene Dietrich, Jean Harlow, Joan Crawford ou Katharine Hepburn \u2014 que lan\u00e7aram a moda\u201d, relembrou Carmen Portinho em seu depoimento.<\/p>\n<p>Na longa e rica vida profissional, pol\u00edtica (nunca partid\u00e1ria ou ideol\u00f3gica) e pessoal de Carmen Portinho, bem como em sua rela\u00e7\u00e3o amorosa e afetiva com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, duas obras se destacam: o Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, mais conhecido como Pedregulho, e a constru\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM).<\/p>\n<p>De volta da Inglaterra, onde passou um per\u00edodo trabalhando e estudando a reconstru\u00e7\u00e3o das cidades destru\u00eddas pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, Carmen prop\u00f4s ao secret\u00e1rio de Obras e Via\u00e7\u00e3o da Prefeitura \u2014 \u00f3rg\u00e3o onde trabalhou at\u00e9 a aposentadoria \u2014 a cria\u00e7\u00e3o do Departamento de Habita\u00e7\u00e3o Popular, um desafio cr\u00edtico e permanente no Brasil e na Europa do p\u00f3s-guerra. A ideia era edificar um conjunto habitacional destinado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de baixa renda.<\/p>\n<p>O projeto arquitet\u00f4nico, inspirado no modernismo, traria um novo conceito de morar. Assim nasceu o Pedregulho, constru\u00eddo numa \u00e1rea de 52.142 metros quadrados. Escolas \u2014 da inf\u00e2ncia ao segundo grau \u2014, piscinas, \u00e1rea de lazer, lavanderia mec\u00e2nica, gin\u00e1sio, centro de sa\u00fade, pequeno mercado e clube. E, claro, obras de arte: Portinari, An\u00edsio Medeiros e Burle Marx.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-504861 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-620x450.webp\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-620x450.webp 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-300x218.webp 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-768x557.webp 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-70x50.webp 70w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-160x116.webp 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-200x145.webp 200w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1-640x464.webp 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/whatsapp-image-2025-10-09-at-18-13-56-59665901-1024x743-1.webp 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Anteprojeto Plano Piloto \/ Carmen Portinho 1939 (foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Em 21 de mar\u00e7o de 1951, foi eleita a nova diretoria do MAM, que passava a ser uma sociedade civil sem fins lucrativos: Raimundo Ottoni de Castro Maia (presidente), Francisco Clementino de San Thiago Dantas (vice-presidente), Niomar Moniz Sodr\u00e9 (diretora executiva), Carmen Portinho (diretora-executiva adjunta), Maria Barreto (diretora-secret\u00e1ria) e Walter Moreira Salles (diretor-tesoureiro). A sede provis\u00f3ria, com projeto de Oscar Niemeyer, foi constru\u00edda sob os pilotis do MEC. Sim\u00f5es Lopes, ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, acolheu bem a ideia.<\/p>\n<p>Em 1958, numa grande solenidade, foi inaugurado o Bloco-Escola do Museu, obra do arquiteto Affonso Eduardo Reidy, ocupando 12 mil metros quadrados, com a presen\u00e7a do presidente Juscelino Kubitschek. Em 1967, depois de longos desafios, foi inaugurada a terceira fase da obra: o Bloco de Exposi\u00e7\u00e3o. O grande Museu sofreria desencontros ao longo do tempo, mas permanece, at\u00e9 hoje, em sua exuber\u00e2ncia modernista no Parque do Flamengo.<\/p>\n<p><strong>*Jorge Henrique Cartaxo, jornalista e diretor de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais do IHGDF |\u00a0Lenora Barbo, arquiteta e diretora do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o do IHGDF<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A boemia, a conversa irresist\u00edvel, o humor, a gra\u00e7a e a erudi\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio de Andrade \u2014 n\u00e3o apenas nas aulas, mas, sobretudo, nos chopes gelados no Bar da Brahma, na Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco \u2014 ficaram impressas nas boas mem\u00f3rias da jovem Carmen Portinho. 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