{"id":507212,"date":"2025-11-03T05:08:16","date_gmt":"2025-11-03T08:08:16","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=507212"},"modified":"2025-11-03T05:08:16","modified_gmt":"2025-11-03T08:08:16","slug":"oscar-niemeyer-a-perola-da-estetica-modernista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/oscar-niemeyer-a-perola-da-estetica-modernista\/","title":{"rendered":"Oscar Niemeyer: a p\u00e9rola da est\u00e9tica modernista"},"content":{"rendered":"<div class=\"elementor-element elementor-element-7d2fc729 titulo-post elementor-widget elementor-widget-theme-post-title elementor-page-title elementor-widget-heading\" data-id=\"7d2fc729\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-title.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-59e555ed elementor-widget elementor-widget-post-info\" data-id=\"59e555ed\" data-element_type=\"widget\" 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Lenora Barbo*<br \/>\nEspecial para o Correio Braziliense<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 o \u00e2ngulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflex\u00edvel, criada pelo homem. O que me atrai \u00e9 a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu pa\u00eds, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas \u00e9 feito todo o universo \u2014 o universo curvo de Einstein.\u201d<\/p>\n<p>A frase cl\u00e1ssica de Oscar Niemeyer talvez defina, com simplicidade e poesia, seus grandes monumentos, pal\u00e1cios, casas, cidades, universidades, centros culturais e igrejas, que se espalharam pelo mundo ao longo do s\u00e9culo 20 e nos primeiros anos do s\u00e9culo 21, durante todo o seu centen\u00e1rio de vida.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ub-expand-full-f5d44abf-d686-4462-8afd-9faff3627a7d\" class=\"ub-expand-portion ub-expand-full wp-block-ub-expand-portion\" tabindex=\"0\" role=\"button\" aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"ub-expand-full-f5d44abf-d686-4462-8afd-9faff3627a7d\">\n<p>Com 22 anos, \u00e0 \u00e9poca trabalhando na tipografia do pai, Oscar Niemeyer, j\u00e1 casado com Annita Baldo, matriculou-se no curso de Engenharia e Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes. Nesse mesmo ano, Le Corbusier faria sua primeira viagem ao Brasil, onde proferiu in\u00fameras palestras no Rio e em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o h\u00e1 registro, naquele momento, de um encontro entre Niemeyer e Corbusier, j\u00e1 famoso urbanista do modernismo em ascens\u00e3o na Europa e nos EUA. Entretanto, em 1930\/1931, com a nomea\u00e7\u00e3o de Lucio Costa, ent\u00e3o com 28 anos, como novo diretor da Escola Nacional de Belas Artes, um novo tempo se inaugurava.<\/p>\n<p>Costa refez toda a estrutura de ensino da tradicional escola carioca, introduzindo as bases est\u00e9ticas do urbanismo e da arquitetura modernistas \u2014 Walter Gropius, Le Corbusier e Mies van der Rohe. Convidou ainda, para aquela turbulenta experi\u00eancia na ENBA, o arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik, que havia projetado e constru\u00eddo a primeira casa modernista no Brasil, em S\u00e3o Paulo, no ano de 1927, por ocasi\u00e3o de seu casamento com Mina Klabin. Integravam tamb\u00e9m o quadro de grande mudan\u00e7a metodol\u00f3gica e de conhecimento promovida pelo jovem diretor as nomea\u00e7\u00f5es de Celso Ant\u00f4nio e do escultor alem\u00e3o Leo Putz.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse clima de refazimentos est\u00e9ticos, institucionais e pol\u00edticos que Oscar Niemeyer inicia o curso superior, concluindo-o em 1934, na antessala de outra grande mudan\u00e7a: o Estado Novo, em 1937. Durante o terceiro ano do curso, j\u00e1 no per\u00edodo do est\u00e1gio profissional, em vez de procurar uma construtora \u2014 como era comum \u00e0 \u00e9poca \u2014, Niemeyer decide trabalhar de gra\u00e7a no escrit\u00f3rio de Lucio Costa, Warchavchik e Carlos Le\u00e3o. \u201cN\u00e3o temos recursos para lhe pagar\u201d, teria dito Costa a Oscar, quando este lhe pediu o emprego.<\/p>\n<p>Essa aproxima\u00e7\u00e3o profissional com Lucio Costa definiria, em grande parte, o destino e o sucesso de Niemeyer no Brasil e no mundo. O revolucion\u00e1rio diretor da Escola Nacional de Belas Artes traria para o urbanismo e a arquitetura brasileiros um novo conceito: a uni\u00e3o da tradicional arquitetura colonial com os princ\u00edpios modernistas (pilotis, fachadas livres, terra\u00e7o-jardim, funcionalidade) e com os novos materiais dominantes \u2014 concreto, vidro e ferro. Dali sairiam as linhas e curvas de Niemeyer.<\/p>\n<p>Depois da transformadora passagem pela Escola Nacional de Belas Artes, Lucio Costa foi convidado pelo ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Gustavo Capanema, para projetar a nova sede do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade. O concurso p\u00fablico para a realiza\u00e7\u00e3o do projeto \u2014 uma sele\u00e7\u00e3o para obras p\u00fablicas institu\u00edda por Vargas \u2014 havia sido vencido pelo arquiteto cearense Archimedes Mem\u00f3ria, o mesmo que projetou o ainda hoje famoso Pal\u00e1cio Tiradentes, antiga sede da C\u00e2mara dos Deputados e atual Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Archimedes n\u00e3o era modernista nem se alinhava aos movimentos est\u00e9ticos liderados por Lucio Costa, tampouco \u00e0s emana\u00e7\u00f5es da Semana de Arte Moderna de 1922, que havia animado S\u00e3o Paulo na d\u00e9cada anterior. \u00c9 importante destacar que Get\u00falio Vargas, j\u00e1 admirado por Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Di Cavalcanti, Ary Barroso e tantos outros, percebia o significado da m\u00fasica, da arte, da arquitetura e do urbanismo para o \u201cnovo Brasil\u201d e o \u201cnovo brasileiro\u201d que tinha em mente \u2014 a transi\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds agr\u00e1rio para uma na\u00e7\u00e3o industrial. E dessa nova est\u00e9tica ele soube fazer bom uso.<\/p>\n<p>Lucio Costa tanto fez e insistiu, e era tamanho o seu prest\u00edgio e credibilidade, que Gustavo Capanema o levou ao pr\u00f3prio Get\u00falio Vargas. Ele n\u00e3o queria apenas a anula\u00e7\u00e3o do concurso; queria mais: que Le Corbusier \u2014 ent\u00e3o j\u00e1 famoso e radiante no mundo \u2014 fosse convidado como consultor do novo edif\u00edcio que desejava como monumento. Lucio e sua equipe \u2014 Carlos Le\u00e3o, Affonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos (Oscar n\u00e3o a integrava inicialmente) \u2014 defendiam um projeto modernista para o minist\u00e9rio, na sua mais ousada concep\u00e7\u00e3o, mas ressentiam-se de uma maior intimidade com a nova est\u00e9tica. Get\u00falio adorou a defesa entusi\u00e1stica do jovem Lucio Costa, deu uma boa gargalhada, duas baforadas e mandou buscar o arquiteto franco-su\u00ed\u00e7o. Prudente, Capanema advertiu: \u201cLucio, o seu convidado ter\u00e1 quatro semanas para concluir o trabalho dele aqui.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEle viajou pelo Graf Zeppelin, que fazia em quatro a cinco dias a rota do Atl\u00e2ntico Sul, pousando em Santa Cruz. E fomos todos, de madrugada, esper\u00e1-lo, em companhia de Hugo Gouthier, ent\u00e3o do gabinete do ministro, chefiado por Carlos Drummond de Andrade. T\u00ednhamos escrit\u00f3rio no Edif\u00edcio Castelo, na Av. Nilo Pe\u00e7anha, 151, onde ele se instalou, mantendo inicialmente certa reserva conosco, pois, ignorando as circunst\u00e2ncias da sua convoca\u00e7\u00e3o, julgava-se convidado por iniciativa do pr\u00f3prio ministro, desejoso do seu parecer sobre a constru\u00e7\u00e3o projetada.<\/p>\n<p>[\u2026] Considerou, de sa\u00edda, o terreno impr\u00f3prio, porque estaria em pouco tempo cercado por pr\u00e9dios inexpressivos. Parecia-lhe que o edif\u00edcio deveria ficar voltado para o mar e o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, fixando-se na \u00e1rea correspondente, antes do segundo aterro, \u00e0quela onde agora se encontra o MAM, e para ela elaborou, com extrema espontaneidade, o belo risco de um edif\u00edcio de partido baixo e alongado, que serviu depois de base ao projeto definitivo. [\u2026] Teve assim que implantar o bloco no sentido norte-sul, com fachadas para leste e oeste, o que resultou numa composi\u00e7\u00e3o algo contrafeita, que n\u00e3o agradou nem a ele nem a n\u00f3s.<\/p>\n<p>Contudo, apesar dessa frustra\u00e7\u00e3o final, ele ainda nos deixaria de quebra, sem querer \u2014 al\u00e9m dos planos para a Universidade, das aulas ao vivo e daquele risco fundamental \u2014, uma d\u00e1diva: \u201cfoi durante esse curto, mas ass\u00edduo conv\u00edvio de quatro semanas que o g\u00eanio incubado de Oscar Niemeyer aflorou\u201d, contaria depois Lucio Costa, sublinhando que Niemeyer havia insistido para entrar na equipe e que, durante aquelas quatro semanas, seria o desenhista de Le Corbusier. E deu no que deu!<\/p>\n<p>Em 1939, dois anos depois da visita de Le Corbusier, Oscar e Lucio, com projetos distintos, participaram do concurso que escolheria o pavilh\u00e3o brasileiro na Feira Mundial de Nova York. Lucio venceu, mas considerou o projeto de Oscar mais identificado com o modernismo. Prop\u00f4s uma parceria com o amigo para juntos produzirem um novo projeto, agora com a colabora\u00e7\u00e3o de Paul Lester Wiener. O sucesso foi absoluto. Niemeyer recebeu do prefeito Fiorello La Guardia as chaves da cidade de Nova York. J\u00e1 em 1940, Juscelino Kubitschek convidou Niemeyer para construir o que ficou conhecido como \u201cConjunto Arquitet\u00f4nico da Pampulha\u201d, no qual se destaca a Igreja de S\u00e3o Francisco de Assis, obra-prima do complexo, com jardins de Roberto Burle Marx e painel de Portinari.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo Oscar concluiu seus projetos na Pampulha, teve in\u00edcio, em Nova York, com grande impacto mundial, a exposi\u00e7\u00e3o Brazil Builds, no Museu de Arte Moderna de Nova York, oferecendo ao mundo a evolu\u00e7\u00e3o da arquitetura brasileira desde o s\u00e9culo 17 at\u00e9 a segunda metade do s\u00e9culo 20. Com o impacto da exposi\u00e7\u00e3o \u2014 que teve destaque especial para o modernismo \u2014, Niemeyer reafirmou sua contemporaneidade e talento perante o mundo. Em 1947, novamente em Nova York, integrou a equipe encarregada de projetar a sede das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Em 1948, inaugurou a sede do Banco Boavista, com sua impactante fachada envidra\u00e7ada, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>J\u00e1 comunista militante, Niemeyer foi impedido pelo governo americano de assumir o cargo de reitor da Escola de Design da Universidade Harvard. Mesmo assim, a partir de ent\u00e3o, suas obras e publica\u00e7\u00f5es se espalharam: o Parque do Ibirapuera (1950) e o Edif\u00edcio Copan (1953-1966), em S\u00e3o Paulo; o Edif\u00edcio Niemeyer e a Biblioteca P\u00fablica, na Pra\u00e7a da Liberdade (1954), em Belo Horizonte. Em 1955, fundou a revista M\u00f3dulo, a mais importante publica\u00e7\u00e3o sobre arquitetura no Brasil at\u00e9 1964. Em 1957, coordenou o concurso para a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Lucio Costa saiu vitorioso com seu plano urban\u00edstico, e caberia a Oscar Niemeyer edificar a monumentalidade da cidade.<\/p>\n<p>Ele estava em Israel, em 1964, quando o presidente Jo\u00e3o Goulart foi deposto. De volta ao Brasil, percebeu que sua perman\u00eancia no pa\u00eds seria imposs\u00edvel. Em 1966, mudou-se para Paris, quando recebeu do presidente De Gaulle autoriza\u00e7\u00e3o especial para exercer a arquitetura na Fran\u00e7a. Depois de abrir seu escrit\u00f3rio na Avenue des Champs-\u00c9lys\u00e9es, Niemeyer foi convidado a projetar a sede do Partido Comunista Franc\u00eas; a sede da Editora Mondadori, na It\u00e1lia; a Bolsa de Trabalho de Bobigny; e o Centro Cultural de Le Havre, entre outros.<\/p>\n<p>Com a abertura pol\u00edtica em 1980, j\u00e1 no governo Figueiredo, Oscar Niemeyer voltou ao Brasil. Uma mir\u00edade de obras caiu em suas m\u00e3os: os Cieps, no Rio de Janeiro; o Memorial JK, em Bras\u00edlia; o Memorial da Am\u00e9rica Latina, em S\u00e3o Paulo; o Pante\u00e3o da P\u00e1tria, em Bras\u00edlia; o Museu Nacional, em Bras\u00edlia; o MAC e o Teatro Popular, em Niter\u00f3i; e a sede da Funda\u00e7\u00e3o Oscar Niemeyer.<\/p>\n<p>Em 2007, no seu centen\u00e1rio, l\u00facido e trabalhando, recebeu o t\u00edtulo de Comendador da Ordem Nacional da Legi\u00e3o de Honra, a mais alta condecora\u00e7\u00e3o do governo franc\u00eas; a condecora\u00e7\u00e3o da Ordem da Amizade, do presidente russo Vladimir Putin; e escolheu pessoalmente, junto com o Iphan, o tombamento de 35 obras suas.<\/p>\n<p>Ainda centen\u00e1rio, fez o Centro Niemeyer, em Avil\u00e9s (Ast\u00farias, Espanha), e a Cidade Administrativa de Minas Gerais. O grande modernista brasileiro \u2014 talvez o arquiteto modernista com mais obras no mundo \u2014 faleceu no Rio de Janeiro, em 2012, aos 104 anos.<\/p>\n<p><strong>*Jorge Henrique Cartaxo \u00e9 jornalista e diretor de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais do IHG-DF<\/strong>\u00a0|\u00a0<strong>Lenora Barbo \u00e9 arquiteta e diretora do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o do IHG-DF<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com 22 anos, \u00e0 \u00e9poca trabalhando na tipografia do pai, Oscar Niemeyer, j\u00e1 casado com Annita Baldo, matriculou-se no curso de Engenharia e Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes. 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