{"id":507247,"date":"2025-11-03T08:35:25","date_gmt":"2025-11-03T11:35:25","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=507247"},"modified":"2025-11-03T08:35:25","modified_gmt":"2025-11-03T11:35:25","slug":"dez-anos-apos-o-zika-surto-de-microcefalia-ainda-traz-desafios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/dez-anos-apos-o-zika-surto-de-microcefalia-ainda-traz-desafios\/","title":{"rendered":"Dez anos ap\u00f3s o Zika, surto de microcefalia ainda traz desafios"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1><\/h1>\n<h2>Associa\u00e7\u00e3o Amae atua em Salvador na aten\u00e7\u00e3o e apoio \u00e0s pessoas e fam\u00edlias afetadas pelo v\u00edrus da Zika<\/h2>\n<div>\n<div>\n<div class=\"atr-article-autor\">\n<p>Por\u00a0Priscila D\u00f3rea<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<figure class=\"mw-article-head-image\" data-article-id=\"1366855\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/Artigo-Destaque\/1360000\/500x300\/Dez-anos-apos-o-Zika-surto-de-microcefalia-ainda-t0136685500202511030735-ScaleDownProportional.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2FArtigo-Destaque%2F1360000%2FDez-anos-apos-o-Zika-surto-de-microcefalia-ainda-t0136685500202511030735.jpg%3Fxid%3D6869568%26resize%3D1000%252C500%26t%3D1762169275&amp;xid=6869568\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/Artigo-Destaque\/1360000\/1200x720\/Dez-anos-apos-o-Zika-surto-de-microcefalia-ainda-t0136685500202511030735-ScaleDownProportional.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2FArtigo-Destaque%2F1360000%2FDez-anos-apos-o-Zika-surto-de-microcefalia-ainda-t0136685500202511030735.jpg%3Fxid%3D6869568%26resize%3D1000%252C500%26t%3D1762169275&amp;xid=6869568\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/Artigo-Destaque\/1360000\/1200x720\/Dez-anos-apos-o-Zika-surto-de-microcefalia-ainda-t0136685500202511030735-ScaleDownProportional.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2FArtigo-Destaque%2F1360000%2FDez-anos-apos-o-Zika-surto-de-microcefalia-ainda-t0136685500202511030735.jpg%3Fxid%3D6869568%26resize%3D1000%252C500%26t%3D1762169275&amp;xid=6869568\" alt=\"Eulina Silva Farias (de rosa) fundadora e presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Microcefalia com Acolhimento e Empatia (AMAE), M\u00e3e de Daividy Farias 9 anos. Com M\u00e1rcia Nascimento (de azul), volunt\u00e1ria na AMAE e m\u00e3e de Ra\u00edssa Nascimento 9 anos.\" data-cls=\"\" \/><\/picture><\/figure>\n<div class=\"mw-image-info\"><span class=\"mw-image-description\">Eulina Silva Farias (de rosa) fundadora e presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Microcefalia com Acolhimento e Empatia (AMAE), M\u00e3e de Daividy Farias 9 anos. Com M\u00e1rcia Nascimento (de azul), volunt\u00e1ria na AMAE e m\u00e3e de Ra\u00edssa Nascimento 9 anos. &#8211;\u00a0<label class=\"mw-image-author\">Foto: Jos\u00e9 Sim\u00f5es | AG. A TARDE<\/label><\/span><\/div>\n<article id=\"article\">Em novembro de 2015, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (MS) declarou emerg\u00eancia nacional diante da explos\u00e3o de casos de beb\u00eas nascidos com microcefalia: entre outubro daquele ano e maio de 2016, o Brasil registrou 1.434 casos de microcefalia. Era um surto sem precedentes, por isso a confirma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da rela\u00e7\u00e3o entre o aumento de casos e o zika v\u00edrus \u2013 transmitido atrav\u00e9s da picada do mosquito Aedes aegypti \u2013 levou pesquisadores, profissionais de sa\u00fade e fam\u00edlias afetadas a se mobilizarem.<\/p>\n<p>Hoje, a S\u00edndrome Cong\u00eanita do Zika (SCZ) possui protocolos cl\u00ednicos espec\u00edficos, pens\u00e3o vital\u00edcia para as fam\u00edlias, um sistema obrigat\u00f3rio de notifica\u00e7\u00e3o e um amplo tratamento direcionado.<\/p>\n<p>Em julho de 2015, o m\u00e9dico especialista em medicina fetal Manoel Sarno, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), estava no Servi\u00e7o de Medicina Fetal da Maternidade Clim\u00e9rio de Oliveira quando percebeu algo fora do padr\u00e3o: quatro fetos com microcefalia foram identificados em duas semanas \u2013 a m\u00e9dia anual antes disso era de seis casos em um ano. Em comum, essas m\u00e3es tinham epis\u00f3dios de erup\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea no in\u00edcio da gesta\u00e7\u00e3o e, nas ultrassonografias, les\u00f5es cerebrais graves sugestivas de causa infecciosa.<\/p>\n<p>\u201cEsses achados me levaram a levantar a hip\u00f3tese de que est\u00e1vamos diante de um novo agente infeccioso com tropismo fetal. Enquanto os dados eram consolidados, outros grupos come\u00e7aram a relatar padr\u00f5es semelhantes em Pernambuco e na Para\u00edba, confirmando a dimens\u00e3o do fen\u00f4meno. Poucos meses depois, o alerta se tornaria global. O Brasil foi pioneiro nesse reconhecimento, o que representou uma virada de paradigma para a ci\u00eancia mundial: foi a primeira vez que um arbov\u00edrus foi estabelecido como terat\u00f3geno humano, capaz de causar malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas\u201d, explica Manoel Sarno.<\/p>\n<p>Dez anos depois, ele v\u00ea o epis\u00f3dio como um divisor de \u00e1guas. \u201cMostrou o poder da observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, da medicina fetal e o valor das redes de colabora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mostrou tamb\u00e9m que as grandes descobertas m\u00e9dicas podem nascer do olhar atento diante do inesperado\u201d, afirma o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>M\u00e3e de Mariana Paix\u00e3o, de 9 anos \u2013 que tem SCZ \u2013, Elaine Paix\u00e3o recorda o medo, a ang\u00fastia e o quanto se sentiu perdida quando os casos de microcefalia dispararam em 2015, enquanto exame ap\u00f3s exame, descobria o diagn\u00f3stico da filha.<\/p>\n<p>\u201cA crian\u00e7a idealizada, sonhada, n\u00e3o era a que a gente iria receber. Foi tudo muito novo, tanto pra mim quanto para o pai dela. Na \u00e9poca, ningu\u00e9m ainda sabia o que de fato estava acontecendo e quando a rela\u00e7\u00e3o com o v\u00edrus Zika foi confirmada, muita coisa mudou. Algumas para melhor, outras nem tanto, pois receber todo o atendimento que ela precisa ainda \u00e9 dif\u00edcil, mas pelo menos conseguimos combater e aprender. Essa primeira gera\u00e7\u00e3o, de 2015 e 2016, serviu de experi\u00eancia para as pr\u00f3ximas. Todos estavam perdidos no in\u00edcio, mas hoje j\u00e1 sabemos como cuidar e para onde encaminhar\u201d, conta Elaine.<\/p>\n<p>M\u00e9dica pediatra e intensivista pedi\u00e1trica pelo Hospital Martag\u00e3o Gesteira, Mariana Oliveira Lessa de Assis, afirma que aquele momento ensinou ao Brasil a import\u00e2ncia da vigil\u00e2ncia integrada, da pesquisa r\u00e1pida e da sa\u00fade p\u00fablica e pol\u00edticas sociais. \u201cFicou claro o papel fundamental da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, reabilita\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os especializados com equipe multidisciplinar para o desenvolvimento e melhor qualidade de vida das crian\u00e7as afetadas. Outro ponto importante \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 equidade. As fam\u00edlias em vulnerabilidade social foram as que mais sofreram com a epidemia\u201d, explica.<\/p>\n<h2>Preven\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Descobrir a origem do surto foi essencial para a diminui\u00e7\u00e3o de casos e preven\u00e7\u00e3o, mas para as fam\u00edlias \u2013 sobretudo as m\u00e3es \u2013 uma outra e importante vit\u00f3ria veio na forma de outras m\u00e3es. \u201cDuvido que algu\u00e9m passe por essa experi\u00eancia e n\u00e3o cres\u00e7a como pessoa. A conviv\u00eancia com v\u00e1rias fam\u00edlias, cada uma com sua demanda, nos transforma. Todos t\u00eam filhos especiais, muitas vezes com a mesma patologia, mas com dificuldades diferentes. E a gente se sente acolhe, divide os medos, ang\u00fastias e experi\u00eancia, e acaba se sentindo abra\u00e7ado de verdade\u201d, afirma Elaine.<\/p>\n<p>Ela e Mariana frequentam a Abra\u00e7o a Microcefalia (@abracoamicrocefalia), ONG criada em 2016 que presta diversos atendimentos para as crian\u00e7as e suas fam\u00edlias. E para a coordenadora da Abra\u00e7o, a Andrea Morais, a descoberta da rela\u00e7\u00e3o da Zika com a microcefalia foi fundamental para que as crian\u00e7as tivessem acompanhamento especializado.<\/p>\n<p>\u201cIncluindo neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia e outras \u00e1reas essenciais para o desenvolvimento e qualidade de vida, por\u00e9m o Estado falha n\u00e3o ofertando esses atendimentos, e a Abra\u00e7o, tenta de alguma maneira cumprir com este papel, mas sem recursos para mantermos as despesas fixas, reduzimos bastante os nossos atendimentos\u201d, conta.<\/p>\n<p>A ONG, que sobrevive de doa\u00e7\u00f5es, t\u00eam 338 fam\u00edlias associadas e atende cerca de 150 por m\u00eas. Entre os principais desafios est\u00e1 a continuidade do cuidado e \u00e0 garantia de direitos.<\/p>\n<h2>Acesso<\/h2>\n<p>\u201cMuitas fam\u00edlias ainda enfrentam dificuldades no acesso a terapias, transporte adaptado, inclus\u00e3o escolar e benef\u00edcios sociais. Al\u00e9m disso, as crian\u00e7as est\u00e3o crescendo, e com isso surgem novas demandas de sa\u00fade e reabilita\u00e7\u00e3o, exigindo pol\u00edticas p\u00fablicas que acompanhem essa fase da vida. Outro ponto importante \u00e9 o cansa\u00e7o f\u00edsico e emocional das m\u00e3es cuidadoras, que muitas vezes n\u00e3o t\u00eam rede de apoio nem oportunidades de trabalho, vivendo uma rotina de dedica\u00e7\u00e3o integral aos filhos\u201d, explica Andrea.<\/p>\n<p>Essa realidade desafiante foi o que fez Eulina Silva Farias fundar a Associa\u00e7\u00e3o de Microcefalia com Acolhimento e Empatia (Amae) h\u00e1 cerca de cinco anos. M\u00e3e do Deividy, de 9 anos, que tem SCZ, ao enfrentar os desafios do diagn\u00f3stico, ela percebeu o quanto as fam\u00edlias estavam desamparadas, sem informa\u00e7\u00e3o e sem pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas. \u201cO reconhecimento dessa rela\u00e7\u00e3o foi um marco hist\u00f3rico para a sa\u00fade p\u00fablica brasileira, mas tamb\u00e9m revelou as desigualdades do nosso pa\u00eds. A maioria das crian\u00e7as nasceu em territ\u00f3rios de vulnerabilidade, e at\u00e9 hoje enfrentamos as consequ\u00eancias de uma epidemia que atingiu, principalmente, mulheres negras e pobres do Nordeste\u201d, reflete ela.<\/p>\n<p>Atualmente, cerca de 50 fam\u00edlias s\u00e3o atendidas na Amae, que oferece acompanhamento psicossocial, orienta\u00e7\u00f5es sobre direitos, articula\u00e7\u00e3o com servi\u00e7os de sa\u00fade e assist\u00eancia social, al\u00e9m de a\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia e fortalecimento familiar. E uma das associadas \u00e9 a M\u00e1rcia Nascimento, m\u00e3e da Ra\u00edssa, de 9 anos. \u201cDez anos depois, ainda tem muita coisa que essas crian\u00e7as precisam. Tem crian\u00e7a com dor, com malforma\u00e7\u00e3o, e ningu\u00e9m olha pra isso. Teve m\u00e9dico que disse que a cirurgia da minha filha era est\u00e9tica, s\u00f3 porque ela n\u00e3o iria andar, ainda falta esse olhar humano\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>E esse olhar humano a pr\u00f3pria M\u00e1rcia tem de sobra, sempre de bra\u00e7os e sorriso aberto para receber as outras m\u00e3es que chegam da Amae. \u201cConverso com elas sobre a vida, sobre os filhos. A gente ri, brinca, compartilha. \u00c9 uma troca. Eu as ajudo, mas elas tamb\u00e9m me ajudam a seguir. Por isso a minha mensagem para as outras m\u00e3es \u00e9: n\u00e3o fiquem sozinhas, voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o sozinhas. Aqui tem outras mulheres que enfrentam desafios parecidos e est\u00e3o dispostas a ajudar, a conversar e acolher\u201d, garante.<\/p>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em novembro de 2015, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (MS) declarou emerg\u00eancia nacional diante da explos\u00e3o de casos de beb\u00eas nascidos com microcefalia: entre outubro daquele ano e maio de 2016, o Brasil registrou 1.434 casos de microcefalia. 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