{"id":508737,"date":"2025-11-17T03:02:58","date_gmt":"2025-11-17T06:02:58","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=508737"},"modified":"2025-11-17T03:02:58","modified_gmt":"2025-11-17T06:02:58","slug":"o-maestro-virtuoso-da-ilusao-desenvolvimentista-e-modernista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-maestro-virtuoso-da-ilusao-desenvolvimentista-e-modernista\/","title":{"rendered":"O maestro virtuoso da ilus\u00e3o desenvolvimentista e modernista"},"content":{"rendered":"<div class=\"elementor-element elementor-element-7d2fc729 titulo-post elementor-widget elementor-widget-theme-post-title elementor-page-title elementor-widget-heading\" data-id=\"7d2fc729\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-title.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-59e555ed elementor-widget elementor-widget-post-info\" data-id=\"59e555ed\" 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Lenora Barbo*<br \/>\nEspecial para o Correio Braziliense<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cNo s\u00e1bado, 7 de agosto de 1976, o pa\u00eds levou um susto com o alarme falso de que Juscelino havia morrido em um desastre de autom\u00f3vel na estrada Rio\u2013S\u00e3o Paulo. O desmentido s\u00f3 veio \u00e0 noite, nos jornais, e no dia seguinte, no Fant\u00e1stico, da TV Globo.<\/em><\/p>\n<p><em>Do Rio, pressionada pela reportagem do Jornal do Brasil, Sarah Kubitschek ligou para Vera Brant, amiga de JK em Bras\u00edlia. Vera recebeu tamb\u00e9m telefonemas dos jornalistas Carlos Castelo Branco e H\u00e9lio Doyle.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ub-expand-full-367f24bb-5b17-439e-a846-c4e33ffdbebb\" class=\"ub-expand-portion ub-expand-full wp-block-ub-expand-portion\" tabindex=\"0\" role=\"button\" aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"ub-expand-full-367f24bb-5b17-439e-a846-c4e33ffdbebb\">\n<p><em>Foi imediatamente \u00e0 fazendola de Juscelino, em Luzi\u00e2nia, a 70 quil\u00f4metros de Bras\u00edlia. Encontrou-o, como sempre, extrovertido, mas cercado de jornalistas e muito intrigado. Quando a imprensa saiu, Vera lhe disse:<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Juscelino, acho que jogaram esse alarme falso para avaliar que tipo de emo\u00e7\u00e3o causaria no pa\u00eds a sua morte. Cuidado, que v\u00e3o matar voc\u00ea.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Olha, Vera, sem brincadeira, acho que s\u00f3 com a minha morte ser\u00e1 poss\u00edvel o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o. Eles temem demais a minha volta.<\/em><\/p>\n<p><em>Dois dias depois (9 de agosto), Juscelino desembarcava no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, recebido por seu amigo Serafim Jardim:<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Presidente, o senhor nos deu um susto anteontem!<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Serafim, esses canalhas sonham com a minha morte.<\/em><\/p>\n<p><em>Mais dois dias (11 de agosto), JK voltou a Bras\u00edlia e, no bar do Hotel Eron, abatido, deprimido, olhando o Eix\u00e3o de Bras\u00edlia todo iluminado l\u00e1 embaixo, disse a Vera Brant e Olavo Drummond:<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Ser\u00e1 que n\u00e3o verei minha p\u00e1tria livre nunca mais?<\/em><\/p>\n<p><em>No dia 22 de agosto, JK ia de S\u00e3o Paulo para o Rio, pela Via Dutra, e, em Resende, o carro dirigido pelo motorista Geraldo, com ele no banco de tr\u00e1s, recebeu uma fechada. Segundo testemunhas, ouviu-se um estampido; o ve\u00edculo desgovernou-se para a pista contr\u00e1ria e bateu de frente numa carreta.<\/em><\/p>\n<p><em>Os dois morreram na hora. Quando a pol\u00edcia chegou, alguns senhores de terno, cabelo curto e \u00f3culos escuros fotografavam os corpos. Disseram-se rep\u00f3rteres e sa\u00edram r\u00e1pido numa Caravan marrom, placa 0001.<\/em><\/p>\n<p><em>No necrot\u00e9rio de Resende, para onde foram levados, tropas do Ex\u00e9rcito cercaram o caix\u00e3o do motorista, n\u00e3o deixando ningu\u00e9m aproximar-se. J\u00e1 o de JK podia ser visto por quem quisesse. Anos depois, em 1996, o amigo Serafim Jardim conseguiu a exuma\u00e7\u00e3o dos corpos, constatando-se o cr\u00e2nio do motorista perfurado por um artefato met\u00e1lico, apontado como \u2018prego do caix\u00e3o\u2019\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria est\u00e1 contada em\u00a0<em>Folclore pol\u00edtico<\/em>\u00a0\u2014 Sebasti\u00e3o Nery \u2014 Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2002. Nery (1932\u20132024) foi jornalista, deputado federal, adido cultural do Brasil em Paris e em Roma. Como homem de imprensa, notabilizou-se pelo brilho, talento, humor e seriedade.<\/p>\n<p>Todas as investiga\u00e7\u00f5es sobre a morte de JK sempre conclu\u00edram pelo \u201cfator acidental\u201d. O atentado jamais seria comprovado exatamente. De todo modo, o relato de Sebasti\u00e3o Nery, com seus atores e personagens, e a cr\u00f4nica anunciada da trag\u00e9dia, trazem para a cena hist\u00f3rica do pa\u00eds o impacto do destino contra a virtude p\u00fablica. Dom Pedro II foi escorra\u00e7ado do Brasil numa madrugada fria e solit\u00e1ria. Get\u00falio tiraria a pr\u00f3pria vida com um tiro no cora\u00e7\u00e3o, numa manh\u00e3 de agosto. Juscelino teria a vida interrompida na penumbra de uma cena irresoluta. Menos de dez anos depois, o tamb\u00e9m mineiro, parceiro e amigo de Get\u00falio e de JK, Tancredo Neves seria tra\u00eddo pela sa\u00fade na v\u00e9spera de sua posse como presidente da Rep\u00fablica, em 1985.<\/p>\n<p>JK, o her\u00f3i deste texto, como seu contempor\u00e2neo Winston Churchill, era destemido e determinado na batalha, por\u00e9m magn\u00e2nimo na vit\u00f3ria. Como homem que enfrentou, com rara coragem e sabedoria, as gl\u00f3rias e os infort\u00fanios do seu tempo, Juscelino nos remete ao shakespeariano Benvolio. Primo e amigo de Romeu, Benvolio Montague, no cl\u00e1ssico Romeu e Julieta, exerce o papel de mediador e pacificador na sangrenta disputa movida pelo \u00f3dio e pelos ressentimentos entre as fam\u00edlias Mont\u00e9quio e Capuleto. A raiz latina\u00a0<em>bene\u00a0<\/em>(bom) e<em>\u00a0volo<\/em>\u00a0(desejo) constitui o significado do nome Benvolio: benevolente e pacificador. Assim era o cidad\u00e3o e homem p\u00fablico Juscelino Kubitschek, em seus passos pela na\u00e7\u00e3o, buscando o di\u00e1logo entre a opul\u00eancia e a mis\u00e9ria, a brutalidade e a cordialidade, os descaminhos e o destino.<\/p>\n<p>Jan Nepmuk Kub\u00edcek, bisav\u00f4 de Juscelino, marceneiro de grande talento, nasceu na Bo\u00eamia durante o Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro (n\u00e3o havia ainda a Rep\u00fablica Tcheca). Ruivo e de olhos azuis, Jan chegou ao Brasil em 1835 e logo teve seu nome abrasileirado: Jo\u00e3o Alem\u00e3o. Em 1840, na regi\u00e3o do Serro, em Minas, consta o primeiro registro de Jo\u00e3o Nepomuck Kubitschek no Brasil. Augusto Elias Kubitschek e Jo\u00e3o Nepomuceno Kubitschek, filhos de Jo\u00e3o, tiveram presen\u00e7as distintas na hist\u00f3ria do Pa\u00eds. Elias Kubitschek, comerciante de armarinhos, foi o pai de J\u00falia, m\u00e3e de Juscelino. Nepomuceno Kubitschek, tio-av\u00f4 de JK, foi professor, advogado, jornalista, fazendeiro e vice-governador de Minas Gerais entre 1894 e 1898.<\/p>\n<p>Juscelino nasceu em 1902 na cidade de Diamantina. Seu pai, Jo\u00e3o C\u00e9sar Oliveira \u2014 caixeiro-viajante, garimpeiro e delegado de pol\u00edcia \u2014 faleceu, v\u00edtima de tuberculose, em 1905. Com 32 anos, professora prim\u00e1ria, J\u00falia teria que cuidar e educar duas crian\u00e7as: Maria da Concei\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o com quatro anos, e Juscelino, ent\u00e3o com tr\u00eas anos. Eufrosina, a primeira filha de J\u00falia, nascida em 1900, havia falecido nos primeiros meses de vida.<\/p>\n<p>Em 1914, ent\u00e3o com 12 anos, Juscelino ingressa no semin\u00e1rio diocesano de Diamantina. Em 1919, com o apoio de um tabeli\u00e3o da cidade, alterou sua certid\u00e3o de nascimento para poder se inscrever em um concurso de telegrafista, em Belo Horizonte. Ele tinha 17 anos, e as inscri\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram permitidas para menores de 18. Em maio de 1921, foi divulgada sua nomea\u00e7\u00e3o para telegrafista auxiliar. No ano seguinte, JK prestou vestibular e matriculou-se no curso de Medicina.<\/p>\n<p>Em 1926, j\u00e1 concluindo o curso, iniciou suas atividades profissionais com o cunhado, J\u00falio Soares, na enfermaria da cl\u00ednica de cirurgia da Santa Casa. Famoso entre os amigos pelo gosto de dan\u00e7ar, numa festa Juscelino conhece Sarah Gomes de Souza Lemos, filha do deputado federal Jaime Gomes de Souza Lemos. Em novembro de 1927, conclui o curso de medicina, passando a trabalhar em uma cl\u00ednica particular, como assistente do professor Baeta Viana, e como m\u00e9dico da Caixa Beneficente da Imprensa Oficial do Estado.<\/p>\n<p>Em 1930, Juscelino realiza sua primeira viagem \u00e0 Europa, onde faria um curso r\u00e1pido em Paris \u2014 tr\u00eas semanas \u2014 com o professor Maurice Chevassu. Antes do retorno ao Brasil, esteve em Viena, Berlim e na Tchecoslov\u00e1quia. De volta a Paris, foi informado sobre a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e a vit\u00f3ria de Get\u00falio Vargas. Naquela mesma noite, ele e os amigos C\u00e2ndido Portinari e Leopoldo Fr\u00f3es comemoraram na noite parisiense.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, em novembro de 1931, montou seu consult\u00f3rio, voltou a trabalhar na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia e foi nomeado, com o apoio de Gustavo Capanema \u2014 ent\u00e3o secret\u00e1rio de Justi\u00e7a \u2014 m\u00e9dico da For\u00e7a P\u00fablica. Iria servir como capit\u00e3o-m\u00e9dico do Hospital Militar. Em dezembro, casou-se com Sarah na Igreja da Paz, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Com a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932, JK, como m\u00e9dico-militar, apoiou o governo Vargas nos combates na Serra da Mantiqueira.<\/p>\n<p>Nomeado por Vargas como interventor federal no governo de Minas Gerais, Benedito Valadares convidou JK para sua chefia de gabinete. Com o prest\u00edgio do cargo, ele cuidou de preservar edif\u00edcios hist\u00f3ricos em Diamantina e providenciou a constru\u00e7\u00e3o de uma ponte sobre o Ribeir\u00e3o do Inferno, que ligava Diamantina \u00e0 cidade de Rio Vermelho. Em 1934, foi eleito deputado federal. Essa primeira experi\u00eancia parlamentar foi curta.<\/p>\n<p>Com o Estado Novo em 1937, o Congresso Nacional foi fechado. Em 1940, nomeado prefeito de Belo Horizonte, Juscelino consolida sua lideran\u00e7a no Estado e come\u00e7a a aparecer no cen\u00e1rio nacional com a inaugura\u00e7\u00e3o do Conjunto Arquitet\u00f4nico da Pampulha e a famosa Exposi\u00e7\u00e3o de Arte Moderna, em BH. Em 1945, com o fim do Estado Novo e a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, elege-se deputado federal para a Assembleia Nacional Constituinte. Em julho de 1950, foi indicado pelo PSD como candidato ao governo de Minas. Por ironia, disputou as elei\u00e7\u00f5es com o concunhado Gabriel Passos, casado com a irm\u00e3 de Sarah.<\/p>\n<p>\u201cEnergia e Transporte.\u201d Foi esse o slogan de sua campanha. Minas, com suas montanhas, ainda era um Estado predominantemente rural e agr\u00e1rio. Desenvolvimentista e modernista, JK queria a ind\u00fastria, a t\u00e9cnica e o fasc\u00ednio das grandes cidades. Vitorioso, construiu mais de mil quil\u00f4metros de estradas, 251 pontes e 160 centros de sa\u00fade. Matriculou, at\u00e9 o final de seu governo, mais de um milh\u00e3o de alunos \u2014 quando assumiu, eram 680 mil jovens estudantes. Criou a Companhia Energ\u00e9tica de Minas Gerais (CEMIG), aumentou de forma exponencial a capacidade energ\u00e9tica do Estado com a constru\u00e7\u00e3o de cinco usinas hidrel\u00e9tricas e iniciou investimentos para a edifica\u00e7\u00e3o de uma significativa e transformadora produ\u00e7\u00e3o metal\u00fargica. Foi na inaugura\u00e7\u00e3o da sider\u00fargica Mannesmann \u2014 \u00e0 \u00e9poca um grande investimento de capital alem\u00e3o \u2014 que Vargas fez sua \u00faltima apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica, aceitando o convite de JK. O presidente da Rep\u00fablica se mataria dias depois. Juscelino foi o \u00fanico governador do Pa\u00eds a comparecer ao vel\u00f3rio no Catete.<\/p>\n<p>Eleito presidente da Rep\u00fablica em 1955, num cen\u00e1rio de tens\u00e3o pol\u00edtica e amea\u00e7as de golpe que o obrigaram a tomar posse, em janeiro de 1956, com o Pa\u00eds em estado de s\u00edtio, Juscelino, enquanto presidente, manteria o mesmo vigor e a mesma ousadia que haviam caracterizado suas gest\u00f5es como prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas.<\/p>\n<p>Com o slogan \u201cCinquenta anos em cinco\u201d, JK impulsionou a industrializa\u00e7\u00e3o no Brasil, de certo modo iniciada por Vargas, construiu Bras\u00edlia e ofereceu ao mundo a fei\u00e7\u00e3o da possibilidade de um novo pa\u00eds no concerto das grandes na\u00e7\u00f5es em reconstru\u00e7\u00e3o no Ocidente do p\u00f3s-guerra. Com o desenvolvimentismo e seu arrojado Plano de Metas, fez convergir para a economia brasileira, entre 1956 e 1961, mais de dois bilh\u00f5es de d\u00f3lares em investimentos. O pa\u00eds crescia 7,9% ao ano. A consolida\u00e7\u00e3o do que ent\u00e3o se entendia por progresso parecia inexor\u00e1vel. N\u00e3o aconteceu exatamente assim, mas ele foi, depois de Vargas, o maior estadista da hist\u00f3ria republicana brasileira.<\/p>\n<p>Veio a infla\u00e7\u00e3o e a concentra\u00e7\u00e3o de renda. A elei\u00e7\u00e3o de J\u00e2nio Quadros e sua ren\u00fancia. A crise do governo Jo\u00e3o Goulart e o golpe de 1964. As persegui\u00e7\u00f5es, as inj\u00farias, os processos, as intimida\u00e7\u00f5es, o ex\u00edlio e o sil\u00eancio. A expectativa de um retorno triunfal at\u00e9 a morte surpreendente, em 1976.<\/p>\n<p>*<strong>Jorge Henrique Cartaxo \u00e9 jornalista e Diretor de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais do IHGDF<\/strong>\u00a0|\u00a0<strong>Lenora Barbo \u00e9 arquiteta e Diretora do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o do IHGDF<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Rio, pressionada pela reportagem do Jornal do Brasil, Sarah Kubitschek ligou para Vera Brant, amiga de JK em Bras\u00edlia. 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