{"id":50887,"date":"2014-03-20T00:28:28","date_gmt":"2014-03-20T03:28:28","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=50887"},"modified":"2014-03-19T14:38:19","modified_gmt":"2014-03-19T17:38:19","slug":"golpe-de-64-saiba-como-o-ipes-desestabilizava-o-governo-jango","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/golpe-de-64-saiba-como-o-ipes-desestabilizava-o-governo-jango\/","title":{"rendered":"Golpe de 64: saiba como o Ip\u00eas desestabilizava o governo Jango"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><em><strong>Financiado por grandes empres\u00e1rios brasileiros, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais fez lobby no Congresso para cooptar parlamentares e barrar projetos do governo, deixando Jo\u00e3o Goulart isolado<\/strong><\/em><\/div>\n<div>Felipe Amorim e Rodolfo Machado<\/div>\n<div><span style=\"line-height: 1.5em;\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimainstancia.uol.com.br\/conteudo\/noticias\/68036\/Ultima+instancia+inaugura+especial+a+espera+da+verdade+45+anos+do+ai_5+50+anos+do+golpe.shtml\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/Banner_especial_reduzido.jpg\" \/><br \/>\nClique aqui para ler todas as mat\u00e9rias do especial &#8220;\u00c0 Espera da Verdade&#8221;<\/a><\/p>\n<p>Conhecido por influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica brasileira antes do golpe de 1964, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, ou Ip\u00eas, fundado em 1961 por altos empres\u00e1rios brasileiros, fez muito mais do que imprimir panfletos, editar livros e veicular propaganda para desestabilizar o governo de esquerda do presidente Jo\u00e3o Goulart. A a\u00e7\u00e3o foi bem mais\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/reportagens\/33603\/revista+fortune+revela+ja+em+64+elo+entre+empresarios+de+sp+e+embaixada+dos+eua+para+dar+golpe.shtml\" target=\"_blank\">direta<\/a>\u00a0do que se pode imaginar: entre 1961 e 1964, per\u00edodo de alta instabilidade pol\u00edtica no Brasil, o Ip\u00eas atuou energicamente em Bras\u00edlia, dentro do Congresso Nacional. Trabalhava como emiss\u00e1rio ipesiano um poderoso banqueiro carioca respons\u00e1vel por operacionalizar no cora\u00e7\u00e3o do Poder Legislativo o pesado lobby do instituto, cujo financiamento era sustentado por doa\u00e7\u00f5es de grandes empresas brasileiras e\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/reportagens\/34196\/elite+economica+que+deu+golpe+no+brasil+tinha+bracos+internacionais+diz+historiadora.shtml\" target=\"_blank\">multinacionais<\/a>\u00a0aqui instaladas. Sua fun\u00e7\u00e3o era clara: coordenar uma rede suprapartid\u00e1ria de parlamentares arregimentados pelo Ip\u00eas para barrar os projetos do governo no Congresso. Dessa forma, Jango se veria cada vez mais isolado na cena pol\u00edtica nacional, criando um clima de instabilidade que o levaria a radicalizar o discurso e a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O bra\u00e7o do Ip\u00eas no Congresso Nacional se chamava GAP (Grupo de Assessoria Parlamentar). Conforme identificam historiadores que se debru\u00e7aram sobre o per\u00edodo, com especial aten\u00e7\u00e3o para o car\u00e1ter civil-empresarial do movimento golpista, o GAP \u2014 ou \u201cEscrit\u00f3rio de Bras\u00edlia\u201d, como a diretoria ipesiana, preocupada com a discri\u00e7\u00e3o, recomendava que fosse chamado \u2014 desempenhava a coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da campanha anti-Jango. Sua lideran\u00e7a era exercida por meio da ADP (A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Parlamentar), uma\u00a0<a href=\"http:\/\/cpdoc.fgv.br\/producao\/dossies\/Jango\/artigos\/NaPresidenciaRepublica\/As_frentes_partidarias_durante_o_governo_Goulart\" target=\"_blank\">frente suprapartid\u00e1ria<\/a>\u00a0constitu\u00edda basicamente de deputados da UDN (Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional), de direita, e do PSD (Partido Social Democr\u00e1tico), de centro-direita. A atua\u00e7\u00e3o dessas institui\u00e7\u00f5es, capitaneadas pelo Ip\u00eas, foi marcante no Congresso Nacional. O pr\u00f3prio l\u00edder ipesiano do Escrit\u00f3rio de Bras\u00edlia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/historal\/arq\/Entrevista146.pdf\" target=\"_blank\">reconhecia<\/a>\u00a0que a ADP \u201cera o bra\u00e7o principal\u201d do Ip\u00eas, respons\u00e1vel por fazer \u201cbastante lobby\u201d entre os parlamentares.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/reportagens\/34196\/elite+economica+que+deu+golpe+no+brasil+tinha+bracos+internacionais+diz+historiadora.shtml\" target=\"_blank\">Elite econ\u00f4mica que deu golpe no Brasil tinha bra\u00e7os internacionais, diz historiadora<\/a><\/em><\/p>\n<p>CPDOC\/FGV<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.ultimainstancia.com.br\/media\/galeria\/Mar2014\/Lindona_jgfoto018_1.jpg\" \/><br \/>\nObjetivo do Ip\u00eas no Congresso era barrar projetos do governo e deixar Jo\u00e3o Goulart (foto) cada vez mais isolado<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/reportagens\/33603\/revista+fortune+revela+ja+em+64+elo+entre+empresarios+de+sp+e+embaixada+dos+eua+para+dar+golpe.shtml\" target=\"_blank\">Revista Fortune revela j\u00e1 em 64 elo entre empres\u00e1rios de SP e embaixada dos EUA no golpe<\/a><\/em><\/p>\n<p>O historiador da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) Hern\u00e1n Ramiro Ram\u00edrez classifica como \u201cvital\u201d a atua\u00e7\u00e3o ipesiana do GAP na desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo Jango. Em sua\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/6439\/000485443.pdf?sequence=1\" target=\"_blank\">tese de doutorado<\/a>\u00a0(\u201cOs institutos econ\u00f4micos de organiza\u00e7\u00f5es empresariais e sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado em perspectiva comparada: Argentina e Brasil, 1961-1966\u201d), Ram\u00edrez analisa com profundidade a atua\u00e7\u00e3o do Ip\u00eas no Brasil. Outro que v\u00ea no GAP papel relevante no processo de deposi\u00e7\u00e3o de Goulart \u00e9 o historiador e cientista pol\u00edtico uruguaio Ren\u00e9 Armand Dreifuss. Em seu livro\u00a0<em>1964: A conquista do Estado<\/em>, atesta:<\/p>\n<p><em>O Ip\u00eas, atrav\u00e9s da ADP, for\u00e7ava a um \u201cbeco sem sa\u00edda parlamentar\u201d, bem como a um \u201cponto morto\u201d executivo, que s\u00f3 poderia ser solucionado pelo poder \u201cmoderador\u201d das intensamente aliciadas For\u00e7as Armadas.<\/em><\/p>\n<p>Leia abaixo mais sobre esta atua\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/reportagens\/33603\/revista+fortune+revela+ja+em+64+elo+entre+empresarios+de+sp+e+embaixada+dos+eua+para+dar+golpe.shtml\" target=\"_blank\">extraoficial<\/a>\u00a0do Ip\u00eas \u2014 Instituto fundado, no papel, para defender a \u201cdemocracia\u201d, a livre iniciativa e a economia de mercado. Saiba quais foram suas principais estrat\u00e9gias, os nomes de maior relev\u00e2ncia e como efetivamente se deu a pr\u00e1tica do Escrit\u00f3rio de Bras\u00edlia ipesiano nos corredores do Poder Legislativo:<\/p>\n<p><strong>1.) COMO FUNCIONAVA<\/strong><\/p>\n<p>A ideia, conforme explica Miguel Lins, l\u00edder ipesiano citado por Dreifuss, era \u201caconselhar o Congresso, estar dentro dele, ter um homem do Ip\u00eas dentro dele\u201d. Enquanto os outros grupos especializados do Ip\u00eas discutiam a conjuntura pol\u00edtica do Brasil, unindo figuras militares e empresariais, o GAP utilizava toda essa gama de informa\u00e7\u00f5es produzidas e coletadas para antecipar manobras no Legislativo e fazer prevalecer os interesses do Ip\u00eas. Assim, por meio da ADP \u2014 que tinha pouco mais de\u00a0<a href=\"http:\/\/cpdoc.fgv.br\/producao\/dossies\/Jango\/artigos\/NaPresidenciaRepublica\/As_frentes_partidarias_durante_o_governo_Goulart\" target=\"_blank\">150 dos 409 deputados<\/a>\u00a0da C\u00e2mara em outubro de 1961 \u2014, o Escrit\u00f3rio de Bras\u00edlia conseguia alterar projetos enviados ao Congresso pelo Executivo e fazer aprovar os que o Instituto patrocinava. Faziam parte da estrutura do GAP um escrit\u00f3rio pol\u00edtico e assessores formais. Seus recursos vinham tanto da sede do Instituto no Rio de Janeiro quanto da de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><em>Leia:\u00a0<a href=\"http:\/\/ultimainstancia.uol.com.br\/conteudo\/noticias\/69532\/juristas+de+excecao+homem-forte+dos+anos+de+chumbo+buzaid+preparou+%22livro+da+verdade%22+para+negar+torturas+.shtml\" target=\"_blank\">Juristas de Exce\u00e7\u00e3o: Homem-forte dos anos de chumbo, Buzaid preparou &#8220;livro da verdade&#8221; para negar torturas<\/a><\/em><\/p>\n<p>Arquivo da C\u00e2mara dos Deputados<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.ultimainstancia.com.br\/media\/galeria\/Mar2014\/Credito+_arquivo+da+camara+dos+deputados.JPG\" \/><br \/>\n&#8220;Ter um homem do Ip\u00eas dentro do Congresso&#8221;: munido de informa\u00e7\u00f5es, Instituto fazia prevalecer seus interesses no Legislativo<\/p>\n<p><strong>2) ELES SABIAM QUE ERA IL\u00cdCITO?<\/strong><\/p>\n<p>O historiador Hern\u00e1n Ram\u00edrez afirma, em sua tese, que n\u00e3o faltam documentos indicando as in\u00fameras tentativas de manter essas incurs\u00f5es do Ip\u00eas na cena pol\u00edtica \u201cno maior sigilo poss\u00edvel\u201d. Por esse motivo \u2014 discri\u00e7\u00e3o \u2014, uma carta da diretoria do Ip\u00eas de dezembro de 1962 ditava a seus membros as diretrizes: \u201cToda men\u00e7\u00e3o ao GAP deve ser suprimida. Talvez deva-se falar em termos de Escrit\u00f3rio de Bras\u00edlia, sem mais explica\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Este cuidado por parte do Ip\u00eas indica que suas lideran\u00e7as estavam cientes de que essa rela\u00e7\u00e3o direta do Instituto com a classe pol\u00edtica era, no m\u00ednimo, mal vista \u2014 para n\u00e3o dizer ilegal. N\u00e3o se sabe ao certo de que maneira o Ip\u00eas, por meio do GAP, assegurava a lealdade dos parlamentares arregimentados pela ADP, mas Ram\u00edrez escreve que o Instituto \u201cpatrocinava e at\u00e9 certo ponto controlava\u201d os deputados da ADP.<\/p>\n<p><strong>3.) QUEM ATUAVA<\/strong><\/p>\n<p>O homem forte do Ip\u00eas em Bras\u00edlia era o banqueiro Jorge Oscar de Mello Flores. Al\u00e9m de ipesiano gra\u00fado e diretor da Sul-Am\u00e9rica Seguros, o banqueiro do Chase Manhattan Bank foi nome de relev\u00e2ncia no setor de seguros privados do Brasil. Ajudou a fundar na d\u00e9cada de 1940 a FGV (Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas) e, mais tarde, a Consultec (Companhia Sul-Americana de Administra\u00e7\u00e3o e Estudos T\u00e9cnicos), firma idealizada por Roberto Campos que emitia pareceres sobre solicita\u00e7\u00f5es de empr\u00e9stimos de empresas estrangeiras perante o BNDE. No GAP, Mello Flores era assessorado pelo escritor Rubem Fonseca. Como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/historal\/arq\/Entrevista146.pdf\" target=\"_blank\">o pr\u00f3prio Mello Flores relata<\/a>, seus principais contatos no parlamento eram os deputados Jo\u00e3o Mendes (UDN-BA), presidente da ADP; Herbert Levy (UDN-SP), presidente da UDN; Amaral Peixoto (PSD-RJ) e Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es (UDN-BA), um \u201cbaiano que ajudava muito\u201d, nas palavras dele.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em Bras\u00edlia, quem atuava em fun\u00e7\u00e3o semelhante \u2014 por\u00e9m mais aberta \u2014 no Legislativo era o integralista Ivan Hasslocher, que chefiava o Ibad (Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica). Hasslocher manejou vultosos fundos na campanha eleitoral de 1962, promovendo os candidatos da ala conservadora junto a r\u00e1dios, jornais, revistas e emissoras de TV por todo o pa\u00eds. A rela\u00e7\u00e3o entre Ip\u00eas e Ibad era bem pr\u00f3xima; as institui\u00e7\u00f5es compartilhavam ideais, objetivos e m\u00e9todos de a\u00e7\u00e3o. O pleito de 1962 foi o momento de conv\u00edvio mais intenso entre os institutos; o Ibad, por\u00e9m, teve atua\u00e7\u00e3o mais descarada do que o Ip\u00eas, cuja diretoria era bem mais preocupada com a discri\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>CPDOC\/FGV<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.ultimainstancia.com.br\/media\/galeria\/Mar2014\/Lslfoto246_5.jpg\" \/><br \/>\nO homem do Ip\u00eas no Congresso era o banqueiro Jorge Oscar de Mello Flores II (esq.), chefe do &#8220;Escrit\u00f3rio de Bras\u00edlia&#8221;<\/p>\n<p><strong>4.) EM TERMOS PR\u00c1TICOS, O QUE FIZERAM?<\/strong><\/p>\n<p>Toda a press\u00e3o e os esfor\u00e7os ipesianos no Congresso Nacional tiveram alguns resultados concretos \u2014 seriam os chamados\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/historal\/arq\/Entrevista146.pdf\" target=\"_blank\">\u201catos de of\u00edcios\u201d<\/a>? \u2014 impactando no cen\u00e1rio pol\u00edtico pr\u00e9-64.<\/p>\n<p><strong>Veto a San Tiago Dantas<\/strong><br \/>\nNo dia 28 de junho de 1962, 174 deputados federais votaram para\u00a0<a href=\"http:\/\/memoria.bn.br\/pdf2\/386030\/per386030_1962_03683.pdf\" target=\"_blank\">barrar a nomea\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0do ent\u00e3o chanceler San Tiago Dantas ao cargo de primeiro-ministro, ap\u00f3s a sa\u00edda do pessedista Tancredo Neves. Desde a ren\u00fancia do presidente J\u00e2nio Quadros, em agosto do ano anterior, as for\u00e7as pol\u00edticas legalistas costuraram um acordo instituindo o parlamentarismo no Brasil, o que diminu\u00eda os poderes da presid\u00eancia, mas assegurava a posse do vice, Jo\u00e3o Goulart. Quando Tancredo Neves renunciou, em maio de 1962, San Tiago Dantas era o nome natural \u00e0 sucess\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/memoria.bn.br\/pdf2\/386030\/per386030_1962_03683.pdf\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" title=\"Capa do jornal '\u00daltima Hora' de 28 de junho de 1962 (Clique para ler a edi\u00e7\u00e3o)\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.ultimainstancia.com.br\/media\/galeria\/Mar2014\/Ultima+hora.jpg\" \/><\/a>A partir da\u00ed, conforme relata Hern\u00e1n Ram\u00edrez, o ipesiano Jorge Oscar de Mello Flores deu in\u00edcio a uma forte campanha no Congresso contra o l\u00edder do PTB. Acontece que Dantas representava a ala mais moderada dentro da legenda trabalhista \u2014 opondo-se \u00e0 ala esquerdista capitaneada por Leonel Brizola. Dessa maneira, San Tiago Dantas era um nome bem recebido tanto pela centro-esquerda, quando por certa parcela do empresariado. Como escreveu o historiador Ram\u00edrez:<\/p>\n<p><em>Esse pol\u00edtico representava a \u00faltima possibilidade de forma\u00e7\u00e3o de um governo consensual liderado pela burguesia e sua rejei\u00e7\u00e3o representou, de fato, a rejei\u00e7\u00e3o pelas classes dominantes de uma composi\u00e7\u00e3o com o trabalhismo.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 importante notar, contudo, que os esfor\u00e7os do Ip\u00eas n\u00e3o foram a \u00fanica causa da derrota de San Tiago. O pr\u00f3prio\u00a0<a href=\"http:\/\/bibliotecadigital.fgv.br\/dspace\/bitstream\/handle\/10438\/9619\/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20de%20mestrado%2001%2003%202012.pdf?sequence=3\" target=\"_blank\">Jango n\u00e3o esteve l\u00e1 muito empenhado<\/a>\u00a0na campanha de seu correligion\u00e1rio. O que ele queria era a antecipa\u00e7\u00e3o do plebiscito que restitu\u00edsse seus plenos poderes presidenciais, acabando com o parlamentarismo \u2014 o que de fato aconteceria em janeiro de 1963.<\/p>\n<p><strong>Reformas de Base<\/strong><br \/>\nAs chamadas\u00a0<a href=\"http:\/\/cpdoc.fgv.br\/producao\/dossies\/Jango\/artigos\/NaPresidenciaRepublica\/As_reformas_de_base\" target=\"_blank\">\u201cReformas de Base\u201d<\/a>\u00a0eram a principal bandeira pol\u00edtica de Jo\u00e3o Goulart. Sob esse guarda-chuva estavam profundas mudan\u00e7as nos sistemas banc\u00e1rio, fiscal, urbano, administrativo, agr\u00e1rio e universit\u00e1rio; todas com o objetivo de produzir avan\u00e7os sociais e reduzir a desigualdade no pa\u00eds. O Ip\u00eas, representante das for\u00e7as conservadoras, era firmemente contr\u00e1rio a essas mudan\u00e7as, dando in\u00edcio a uma forte campanha para frear o avan\u00e7o da proposta janguista.<\/p>\n<p>Se Jo\u00e3o Goulart tinha um plano de governo, o Ip\u00eas tamb\u00e9m possu\u00eda o seu pr\u00f3prio. E fez de tudo para imp\u00f4-lo sobre o governo: o Instituto dividiu-se em comiss\u00f5es, setorizou as \u00e1reas tem\u00e1ticas,\u00a0<a href=\"http:\/\/ultimainstancia.uol.com.br\/conteudo\/noticias\/69532\/juristas+de+excecao+homem-forte+dos+anos+de+chumbo+buzaid+preparou+%93livro+da+verdade%94+para+negar+torturas+.shtml?utm_source=akna&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Informativo_UI_10_03_14\" target=\"_blank\">realizou grandes semin\u00e1rios<\/a>, encomendou estudos e publicou incont\u00e1veis artigos em jornais para mobilizar a opini\u00e3o p\u00fablica. E tamb\u00e9m contra-atacou com o Escrit\u00f3rio de Bras\u00edlia: \u201cpor volta de mar\u00e7o de 1963, o Ip\u00eas havia submetido \u00e0 an\u00e1lise do Congresso 24 projetos de lei\u201d sobre o tema, conforme escreve Hern\u00e1n Ram\u00edrez.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, uma carta (dispon\u00edvel no livro de Dreifuss) do chefe do GAP, Jorge Oscar de Mello Flores, ao l\u00edder ipesiano Glycon de Paiva evidencia os esfor\u00e7os do grupo no Legislativo:<\/p>\n<p><em>Se for refor\u00e7ada a organiza\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia, poderei ativar a elabora\u00e7\u00e3o dos projetos de lei consubstanciando as reformas de base. (&#8230;) As vantagens [de agir assim] s\u00e3o: fazer passar \u00e0 defensiva os esquerdistas, petebistas e demagogos, reduzindo suas possibilidades de engendrarem e apresentarem projetos contra o Pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00f5es de outubro de 1962<\/strong><br \/>\nEm outubro de 1962, foram realizadas no Brasil as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas antes do golpe que instaurou a ditadura civil-militar. O pleito p\u00f4s em jogo no pa\u00eds a totalidade das 409 cadeiras da C\u00e2mara dos Deputados, e mais dois ter\u00e7os do Senado Federal, 11 governos e in\u00fameros deputados estaduais, prefeitos e vereadores. Conforme aponta Hern\u00e1n Ram\u00edrez, a rede composta por Ip\u00eas\/Ibad apoiou 250 candidatos a deputado federal, 600 parlamentares estaduais e oito concorrentes a governos estaduais (sobretudo em Pernambuco, onde era grande o empenho para derrotar Miguel Arraes). Como aponta Hern\u00e1n Ram\u00edrez:<\/p>\n<p><em>Em troca de favores, os candidatos eram declaradamente compelidos a assinar um compromisso ideol\u00f3gico atrav\u00e9s do qual eles prometiam sua lealdade ao Ibad acima da lealdade a seu partido e que os comprometia a lutar contra o comunismo e defender o investimento estrangeiro; assim como ligar-se \u00e0 ADP.<\/em><\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o mais ostensiva de campanha pol\u00edtica era feita por Ivan Hasslocher no Ibad, utilizando-se de altas somas de dinheiro vindo de doa\u00e7\u00f5es empresariais e estrangeiras, como o pr\u00f3prio embaixador norte-americano Lincoln Gordon confirmaria posteriormente, em entrevista de 1977 \u00e0 revista\u00a0<em>Veja<\/em>: \u201cHavia um teto por candidato. O dinheiro era para comprar tempo no r\u00e1dio, imprimir cartazes. E voc\u00ea pode estar certo de que eram recebidos muito mais pedidos do que pod\u00edamos atender\u201d.<\/p>\n<p>Embora tenha negado em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/historal\/arq\/Entrevista146.pdf\" target=\"_blank\">depoimento concedido ao CPDOC\/FGV<\/a>\u00a0na d\u00e9cada de 1990, Jorge Oscar de Mello Flores foi incumbido pelo Ip\u00eas de atuar nas elei\u00e7\u00f5es. Em atas de reuni\u00f5es do instituto, o banqueiro aparece compartilhando com colegas ipesianos seu temor pela sua exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Ele acreditava que talvez tivesse que se desligar do Ip\u00eas para preservar sua discri\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o pela qual disse que precisava de uma sala para atuar fora do espa\u00e7o f\u00edsico do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>CPDOC\/FGV<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.ultimainstancia.com.br\/media\/galeria\/Mar2014\/Jgfoto034.jpg\" \/><br \/>\nJango, no centro, cercado de correligion\u00e1rios do PTB: elei\u00e7\u00f5es de 1962 aumentou presen\u00e7a do partido na C\u00e2mara<\/p>\n<p>Ponderando as candidaturas das diversas regi\u00f5es do pa\u00eds no pleito de outubro de 1962, Mello Flores fixou como uma \u201cm\u00e9dia sensata\u201d a quantia de 15 milh\u00f5es de cruzeiros \u201cper capita\u201d (mais de R$ 50 mil, em valores atualizados).<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tivessem sido poucos os esfor\u00e7os de toda a rede empresarial do Ip\u00eas\/Ibad para financiar as campanhas, o resultado do pleito de outubro ficou bem abaixo do esperado \u2014 o que teria, segundo Ram\u00edrez, aproximado as for\u00e7as conservadoras das alternativas pol\u00edticas mais \u201cantidemocr\u00e1ticas\u201d, dando in\u00edcio \u00e0 conspira\u00e7\u00e3o. Conforme aponta a pesquisadora Dulce Pandolfi, em\u00a0<a href=\"http:\/\/cpdoc.fgv.br\/producao\/dossies\/Jango\/artigos\/NaPresidenciaRepublica\/O_cenario_politico_partidario_do_periodo\" target=\"_blank\">breve artigo para o site<\/a>\u00a0do CPDOC\/FGV, o pleito de 1962 modificaria profundamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no Congresso:<\/p>\n<p><em>O PSD manteve a sua tradicional posi\u00e7\u00e3o de maior partido, por\u00e9m o PTB, o partido do presidente, foi o mais votado e passou a ocupar o segundo lugar, suplantando a UDN. Se antes havia uma polariza\u00e7\u00e3o entre o PSD e a UDN, depois de 1962 ocorreu uma redefini\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as e uma maior fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema partid\u00e1rio. Para barrar as reformas, sobretudo a agr\u00e1ria, setores importantes do PSD, por exemplo, alinharam-se \u00e0 UDN.<\/em><\/p>\n<p>Conforme explica Ram\u00edrez, a quantia gasta por essa rede civil-empresarial foi tamanha \u2014 cifra que, para ele, pode ter beirado os US$ 20 milh\u00f5es \u2014 que \u201clevantou suspeita geral quanto \u00e0 nacionalidade e aos objetivos pol\u00edticos dessas contribui\u00e7\u00f5es\u201d. No ano seguinte, seria criada no Congresso uma CPI (Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito) para investigar as origens desse montante de doa\u00e7\u00f5es insuspeitas.<\/p>\n<p>Reprodu\u00e7\u00e3o\/Livro\u00a0<em>Sigla da corrup\u00e7\u00e3o<\/em>, de Eloy Dutra (1963)<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.ultimainstancia.com.br\/media\/galeria\/Mar2014\/20140314151837_00001.jpg\" \/><br \/>\nNa contracapa do livro de Eloy Dutra sobre o Ibad, uma foto de Hasslocher com a legenda: &#8220;Guardem bem esta cara. Manipula bilh\u00f5es<br \/>\npara corromper o processo democr\u00e1tico e transformar o Brasil num quintal dos seus misteriosos patr\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p><strong>5.) AS AUTORIDADES N\u00c3O DETECTARAM AS ATIVIDADES?<\/strong><\/p>\n<p>A partir do momento em que parte do Congresso come\u00e7ou a se movimentar para instaurar a CPI e investigar as doa\u00e7\u00f5es da campanha eleitoral, foram feitas in\u00fameras reuni\u00f5es de emerg\u00eancia na c\u00fapula do complexo Ip\u00eas-Ibad com o objetivo de coordenar a estrat\u00e9gia jur\u00eddica de defesa dos envolvidos. Ao final da CPI, apenas o Ibad seria considerado culpado de corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; seu advogado, Dario de Almeida Magalh\u00e3es, era integrante do Ip\u00eas.<\/p>\n<p>Em setembro de 1963, resultado das investiga\u00e7\u00f5es parlamentares, o governo de Goulart determinaria a dissolu\u00e7\u00e3o do Ibad, comprovando seu envolvimento ilegal nas elei\u00e7\u00f5es da C\u00e2mara. O l\u00edder do Ibad, Ivan Hasslocher, deixou o Brasil e passou a viver em Genebra. Quanto ao Ip\u00eas, por\u00e9m, a CPI fracassou em estabelecer suas liga\u00e7\u00f5es com o Ibad, impossibilitada de quebrar o sigilo banc\u00e1rio de Jo\u00e3o Batista Leopoldo Figueiredo, presidente do Ip\u00eas. Primo-irm\u00e3o do \u00faltimo presidente do ciclo militar, Figueiredo tamb\u00e9m era presidente do Banco Ita\u00fa, da Scania Wabis e de uma companhia de navega\u00e7\u00e3o. Perante a CPI, afirmou que \u201co Ip\u00eas nunca se envolvera em pol\u00edtica partid\u00e1ria ou contribu\u00edra para campanhas eleitorais\u201d.<\/p>\n<p>O fracasso da CPI, segundo Dreifuss, se deu \u201cpor tr\u00eas motivos: por fontes financeiras comuns, pela participa\u00e7\u00e3o de um mesmo membro nas duas organiza\u00e7\u00f5es ou mesmo por a\u00e7\u00e3o conjunta\u201d. O relator da CPI, Pedro Aleixo, que viria a ser o vice-presidente do governo Costa e Silva (1967-1969), embora afirmasse em relat\u00f3rio final que \u201cn\u00e3o foram encontrados vest\u00edgios da participa\u00e7\u00e3o do Ip\u00eas no pleito\u201d, era supostamente articulado com a rede Ibad. Por\u00e9m, conforme pesquisa do historiador uruguaio, \u201co pr\u00f3prio Hasslocher era membro do Ip\u00eas\u201d. Suas liga\u00e7\u00f5es eram t\u00e3o fortes que levaram Mello Flores a comentar que \u201co Ip\u00eas havia meramente se aglutinado ao Ibad\u201d. Dessa forma, conclui Dreifuss, \u201co Ip\u00eas, \u00e9 bem claro, levava uma vida dupla, tanto pol\u00edtica quanto financeiramente\u201d.<\/p>\n<p><em>(*) Informa\u00e7\u00f5es retiradas de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/6439\/000485443.pdf?sequence=1\" target=\"_blank\">Hern\u00e1n Ramiro Ram\u00edrez<\/a>, Ren\u00e9 Armand Dreifuss (\u20181964: A conquista do Estado\u2019),\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/historal\/arq\/Entrevista146.pdf\" target=\"_blank\">depoimento<\/a>\u00a0de Jorge Oscar de Mello Flores ao CPDOC\/FGV em 1996\/1997,\u00a0<a href=\"http:\/\/cpdoc.fgv.br\/producao\/dossies\/Jango\/artigos\/NaPresidenciaRepublica\/O_cenario_politico_partidario_do_periodo\" target=\"_blank\">Dulce Pandolfi<\/a>,<a href=\"http:\/\/bibliotecadigital.fgv.br\/dspace\/bitstream\/handle\/10438\/9619\/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20de%20mestrado%2001%2003%202012.pdf?sequence=3\" target=\"_blank\">Gabriel da Fonseca Onofre<\/a>, Osny Duarte Pereira (\u2018Quem faz as leis no Brasil?\u2019) e outras fontes referenciadas<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Financiado por grandes empres\u00e1rios brasileiros, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais fez lobby no Congresso para cooptar parlamentares e barrar projetos do governo, deixando Jo\u00e3o Goulart isolado<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":50888,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-50887","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/ditadura.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50887"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50887\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}