{"id":509307,"date":"2025-11-22T10:51:25","date_gmt":"2025-11-22T13:51:25","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=509307"},"modified":"2025-11-22T10:51:25","modified_gmt":"2025-11-22T13:51:25","slug":"conheca-mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-de-lampiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/conheca-mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-de-lampiao\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a\u00a0Man\u00e9 Gaip\u00f3, o \u00faltimo cangaceiro vivo de Lampi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"flex flex-col w-full\">\n<h1 id=\"titulo-kfd7vxsbtf\" class=\"component--titulo font-family-secondary text-[34px] font-semibold leading-[42px] text-tw-theme-text-default md:max-lg:text-[40px] lg:text-[42px] lg:leading-[50px]\"><\/h1>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\">\n<h2 id=\"linha-fina-5ilpv4kx6f\" class=\"text-tw-theme-box-linha-fina-default font-normal text-[16px]\">Cunhado de Corisco e irm\u00e3o de Dad\u00e1, ele viveu at\u00e9 os 116 anos e morreu na \u00faltima semana, em Gl\u00f3ria, Bahia<\/h2>\n<p>Por Moyses Suzart<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\"><\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\">\n<div id=\"imagem-fyqkhriftt\" class=\"w-full\">\n<figure class=\"imagem-notas w-full max-w-full h-auto flex justify-center items-center overflow-hidden\">\n<div id=\"gft-up-divMM\">\n<div id=\"gft-41012-banner-ad_bg\" class=\"gft-up-divMain\">\n<div id=\"gft-41012-banner-ad\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/150790500,44585206\/23568_UP_IMAGE_1_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-509311 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article-620x422.webp\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article-620x422.webp 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article-300x204.webp 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article-768x522.webp 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article-160x109.webp 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article-640x435.webp 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/div>\n<\/figure>\n<p>Man\u00e9 Gaip\u00f3, o \u00faltimo cangaceiro vivo\u00a0<span class=\"font-bold\">Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-nhb2kqyj8q\">A raiz indom\u00e1vel do fen\u00f4meno do canga\u00e7o pulsava na convic\u00e7\u00e3o de que era poss\u00edvel viver sem lei nem rei e ser feliz. Mas o \u00faltimo homem vivo a andar ao lado de Lampi\u00e3o tinha outra concep\u00e7\u00e3o: \u201cNem feliz, nem triste. Apenas viver\u201d. E foi com esta filosofia que o baiano Man\u00e9 Gaip\u00f3, o \u00faltimo cangaceiro vivo, viveu seus 116 anos at\u00e9 ser pego pela tocaia da morte, na \u00faltima semana, no povoado de Cara\u00edbas, munic\u00edpio de Gl\u00f3ria, no nordeste baiano. Sua morte foi tranquila, natural e longe do cen\u00e1rio de caos do sert\u00e3o cangaceiro. Ind\u00edgena Pankarar\u00e9, deixou filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Mas seu legado tamb\u00e9m cheira a p\u00f3lvora. Ele era cunhado de Corisco e irm\u00e3o de Dad\u00e1.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article_mrec_destaque sticky\">\n<div id=\"internas_336x280_01\" data-google-query-id=\"CNmBy-LxhZEDFaarYQYd0FAflA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/44585206\/d_c24h_internas_336x280_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-pwa80151q1\">Nascido no dia 20 de mar\u00e7o de 1909, no povoado Baixa da Ribeira, em Macurur\u00e9, Bahia, Gaip\u00f3 conviveu desde cedo com as mazelas do sert\u00e3o e as consequ\u00eancias do canga\u00e7o, que o perseguiu durante quase toda sua vida. Na verdade, toda sua fam\u00edlia, como numa maldi\u00e7\u00e3o, conviveu com a persegui\u00e7\u00e3o por conta de uma passagem na hist\u00f3ria que mudou a vida dos Ribeiro: sua irm\u00e3 Dad\u00e1, na \u00e9poca uma garota de 13 anos, foi raptada por Corisco, estuprada e acabou entrando de vez no canga\u00e7o, como esposa do Diabo Loiro, que a raptou.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"btn-google-discover\">\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-wauhet9r6w\">\u201cDad\u00e1 entra definitivamente para o Canga\u00e7o, onde se tornou uma lenda, sendo mais conhecida do que muitos cangaceiros, uma mulher com presen\u00e7a marcante no bando de Corisco, que era o seu marido, depois das amarguras que passaram por morte que no passado lhe causou um grande mal\u201d, escreve Sandro Lee, no seu livro \u201cPaulo Afonso &#8211; Hist\u00f3rias e roteiros do canga\u00e7o\u201d. Mas o autor tamb\u00e9m confirma outra coisa: esta entrada rotulou toda fam\u00edlia como bandidos. E isso custou caro para todos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-fpz26420vz\">O pai de Man\u00e9 passou a ser perseguido pela pol\u00edcia e apanhou bastante tamb\u00e9m. Mas o irm\u00e3o de Gaip\u00f3 sofreu mais. \u201cToda fam\u00edlia sofreu demais, inclusive o seu irm\u00e3o Pedro que apanhou da pol\u00edcia, foi a\u00e7oitado pelos soldados com um chicote de couro cru e foi tamb\u00e9m ferrado com um ferro quente, teve as unhas perfuradas a ponta de punhais\u201d, conta Lee. As marcas do espancamento e das chicotadas ficaram vis\u00edveis em Pedro, principalmente no rosto. Ent\u00e3o, Pedro seguiu um fluxo rotineiro no fen\u00f4meno do Canga\u00e7o. Segundo Frederico Pernambucano, historiador conceituado sobre o tema, o cangaceiro se formava, na sua maioria, em tr\u00eas hip\u00f3teses: por vingan\u00e7a, por voca\u00e7\u00e3o ou por fuga.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-rulmrlu4ex\">\u201cO canga\u00e7o tinha sido um meio de vida, uma \u2018profiss\u00e3o\u2019 declarada, notadamente para o proletariado e o pequeno propriet\u00e1rio de terras; instrumento de vingan\u00e7a, para os membros de fam\u00edlias mais remediadas ou mesmo senhoriais, e ref\u00fagio n\u00f4made para perseguidos de toda ordem, da Justi\u00e7a ou da vingan\u00e7a privada dos coron\u00e9is\u201d, conta Pernambucano, autor do livro Guerreiros do Sol, que foi inspira\u00e7\u00e3o para a s\u00e9rie de mesmo nome da GloboPlay.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-8s2mgw101k\">E foi assim que Jo\u00e3o Pedro Ribeiro virou o cangaceiro Avi\u00e3o, o primeiro irm\u00e3o de Dad\u00e1 a entrar no canga\u00e7o. Contudo, n\u00e3o durou muito tempo. Enquanto limpava sua pistola, a mesma disparou acidentalmente e o atingiu seriamente na perna. Imagine voc\u00ea sem recursos, no meio da caatinga. O ferimento infeccionou e ele acabou morrendo. Enquanto isso, Man\u00e9 Gaip\u00f3 permanecia com seu pai cuidando do gado. Mas foi por pouco tempo, pois ele recebeu um chamado do pr\u00f3prio Lampi\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-hvfzmctn8o\">Em meados de 1929, enquanto recolhia o gado da fam\u00edlia com outro irm\u00e3o, Gaip\u00f3 deu de cara com Virgulino Ferreira e seu bando. Neste momento, sabendo se tratar de outro maninho de Dad\u00e1 e j\u00e1 cunhado de Corisco, Lampi\u00e3o o \u2018convidou\u2019 para entrar no bando. Vale lembrar que era bem complicado dizer &#8216;n\u00e3o&#8217; para o capit\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-bp6pc5xnoh\">Manoel Ribeiro da Silva, vulgo Gaip\u00f3, acabou entrando no canga\u00e7o, o terceiro da fam\u00edlia. A partir da\u00ed, a fam\u00edlia passou a ser perseguida ainda mais pelas volantes pois, naquela altura, Dad\u00e1 j\u00e1 era conhecida em todo Nordeste, tamb\u00e9m pela sua habilidade t\u00e1tica. Um par\u00eantese importante: inclusive ela era uma das \u00fanicas mulheres do bando que combatiam. Sua neta, Indai\u00e1, disse ao CORREIO que Maria Bonita era uma esp\u00e9cie de princesa do canga\u00e7o, mas Dad\u00e1 era combatente das melhores. Outra atribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a Dad\u00e1 \u00e9 o fato dela ter sido, segundo alguns historiadores, a primeira a usar a vestimenta com couro marrom, justamente para camuflagem no meio do canga\u00e7o. Antes, a maioria das vestimentas eram azuis e coloridas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article_intext inline-block text-center w-full h-280\">\n<div id=\"internas_336x280_02\" data-google-query-id=\"CNv916XyhZEDFedbuAQd4f8yDw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/44585206\/d_c24h_internas_336x280_1__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\">\n<div id=\"imagem-wicz62luzx\" class=\"w-full\">\n<figure class=\"imagem-notas w-full max-w-full h-auto flex justify-center items-center overflow-hidden\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-509310 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022553-article.webp\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022553-article.webp 600w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022553-article-300x230.webp 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022553-article-80x60.webp 80w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022553-article-160x123.webp 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n<p>Man\u00e9 Gaip\u00f3, o \u00faltimo cangaceiro vivo, ao lado de sua esposa e do historiador Sandro Lee, que o encontrou e se tornaram amigos\u00a0<span class=\"font-bold\">Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-1qhsh2y5gv\">Voltemos a Gaip\u00f3. Ou melhor, as consequ\u00eancias dele ter entrado no bando, mesmo que for\u00e7ado. \u201cO pai foi espancado, foi preso e mandado pra Salvador. Largaram ele pela esta\u00e7\u00e3o da Cal\u00e7ada. Uma das irm\u00e3s morreu com ferro quente no rosto. A outra foi perseguida pelo resto da vida e morreu fugindo\u201d, conta Sandro, que conviveu com Gaip\u00f3 desde 2011 at\u00e9 sua morte. Falaremos deste encontro mais adiante.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-od1irlho4c\">Por meses, Man\u00e9 conviveu com Lampi\u00e3o e seu bando, andando lado a lado com Virgulino, mesmo sabendo que n\u00e3o iria se adaptar. At\u00e9 que, quando o bando se preparava para atacar uma fazenda, Gaip\u00f3 resolveu agir. Chegou a contar para alguns amigos da tropa, que o alertaram ser uma m\u00e1 ideia. Mesmo assim fez. Ele disse a Lampi\u00e3o que estava apertado e precisava \u201ccagar\u201d. Aproveitou a oportunidade e se picou caatinga adentro. Foi sua despedida do bando, mas o canga\u00e7o continuou lhe perseguindo, pois Virgulino, quando soube da fuga, jurou Man\u00e9 de morte. Tomou aquilo como uma trai\u00e7\u00e3o das piores. Olha a sinuca de bico de Manoel: era procurado pela pol\u00edcia e pelo pr\u00f3prio Lampi\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-wnax5f2vd1\">Jurado de morte para todo lado, a vida de Man\u00e9 foi fugir. Ind\u00edgena, conseguiu ref\u00fagio com parentes na Ilha da Miss\u00e3o, em Pernambuco. Depois, retornou \u00e0 Bahia e ficou escondido em Santo Ant\u00f4nio da Gl\u00f3ria. Sua vida ficou menos pior quando sua irm\u00e3 Dad\u00e1 decidiu enfrentar Lampi\u00e3o pelo irm\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-5xtv5vpjpm\">\u201cMan\u00e9 me contou esta hist\u00f3ria. Disse que Lampi\u00e3o chegou at\u00e9 Dad\u00e1 se queixando de Man\u00e9. \u2018Que cabra ruim seu irm\u00e3o, Dad\u00e1, nos deixou\u2019. At\u00e9 que ela resolveu peitar o capit\u00e3o. \u2018Voc\u00ea j\u00e1 me tem no bando, na situa\u00e7\u00e3o que foi com o Corisco, j\u00e1 perdi um irm\u00e3o, voc\u00ea quer acabar com minha fam\u00edlia, Virgulino?\u2019 Lampi\u00e3o respeitava muito Dad\u00e1 e acabou desistindo de perseguir Man\u00e9\u201d, conta Sandro, que ouviu a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio e tem tudo gravado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-c9lp6l9n9j\">Livre dos cangaceiros, mas n\u00e3o das volantes. A paz n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o. Acabou pego pela pol\u00edcia e apanhou muito. Apanhou tanto na cabe\u00e7a que, como consequ\u00eancia, ficou cego. Man\u00e9 disse que sofria amea\u00e7as constantes de que seria castrado e tudo. Chegou a cumprir pena em Salvador por dois anos, at\u00e9 ser solto. Contudo, continuou perseguido. \u201cDepois de 1942, j\u00e1 solto, precisou ficar escondido e se mudando constantemente. Acredite: em 1972, a pol\u00edcia ainda perturbava ele. \u00c9 complicado imaginar mas, at\u00e9 j\u00e1 velho, batia pol\u00edcia na porta dele\u201d, completa Sandro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\">\n<h2 id=\"intertitulo-685pvfdkeo\" class=\"font-family-secondary text-tw-theme-box-titulo-default text-[26px] leading-[38px] font-bold md:text-[31px]\">Hist\u00f3ria escondida<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-elvjw85nli\">Imagine que uma testemunha ocular e toda esta hist\u00f3ria continuaram escondidas durante d\u00e9cadas. Ap\u00f3s longas pesquisas, o historiador Sandro Lee chegou at\u00e9 ele e descobriu a lenda do canga\u00e7o, o santo graal da caatinga, j\u00e1 com mais de 90 anos. S\u00f3 assim sua hist\u00f3ria p\u00f4de finalmente ser revelada. \u201cEssa hist\u00f3ria ficou guardada por mais de noventa anos. Ele estava escondido, sumido na hist\u00f3ria, at\u00e9 eu o encontrar em 2011\u201d, lembra.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-5g61h3ysd3\">Sandro lembra que foi dif\u00edcil convencer Man\u00e9 a falar. \u201cQuando finalmente cheguei at\u00e9 ele, fui escorra\u00e7ado pelos parentes e por ele, que n\u00e3o queria nem tocar no assunto do canga\u00e7o. Era uma pessoa que ningu\u00e9m lembrava, ningu\u00e9m conhecia, at\u00e9 eu conhecer. A filha dele me botava pra correr de l\u00e1, dizia que n\u00e3o podia falar disso de jeito nenhum. Depois de um ano insistindo, consegui. A\u00ed ele foi contando e tudo o que ele contava eu gravava. Ficamos amigos\u201d, conta Lee, que pretende montar um document\u00e1rio com este material. S\u00e3o horas de grava\u00e7\u00f5es, a maioria ainda com o formato VHF.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-na7why6yh9\">A descoberta tamb\u00e9m rendeu encontros. Man\u00e9 chegou a visitar algumas vezes Dad\u00e1, que j\u00e1 estava solta e morava em Salvador, no bairro de Mussurunga. Ap\u00f3s a morte de sua irm\u00e3, no final da d\u00e9cada de 90, o contato com a fam\u00edlia na capital ficou quase nulo, at\u00e9 um quadro mudar tudo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-ajfngdrqez\">Na casa de Man\u00e9, tinha na parede uma cena de casamento, que era a neta de Dad\u00e1, Indai\u00e1, que mora at\u00e9 hoje em Salvador. \u201cResolvi tirar uma foto daquilo e postei na minha rede social. N\u00e3o \u00e9 que apareceu justamente a neta de Dad\u00e1? Perguntando o motivo de eu ter aquela foto, bem desconfiada de como eu tinha aquela foto t\u00e3o pessoal. Eu disse que estava na casa do tio\/av\u00f4 dela. Custou pra ela acreditar\u201d, lembra.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\">\n<div id=\"imagem-67lvbiq0oi\" class=\"w-full\">\n<figure class=\"imagem-notas w-full max-w-full h-auto flex justify-center items-center overflow-hidden\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-509309 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022554-article.webp\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022554-article.webp 600w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022554-article-300x300.webp 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022554-article-500x500.webp 500w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022554-article-150x150.webp 150w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022554-article-160x160.webp 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022554-article-30x30.webp 30w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n<p>Man\u00e9 Gaip\u00f3, o \u00faltimo cangaceiro vivo, recebendo o carinho da neta de Dad\u00e1. Morreu meses depois\u00a0<span class=\"font-bold\">Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-9pmxgpe7wl\">S\u00f3 ent\u00e3o foi promovido o encontro entre a neta de Dad\u00e1 e os parentes de seu tio\/av\u00f4. Indai\u00e1 passou a visit\u00e1-lo constantemente. Ela conta que Man\u00e9 chegou a ir ao seu casamento, por isso o quadro com a foto estava com ele, pois havia ganhado de Dad\u00e1. \u201cEra uma pessoa maravilhosa, de um cora\u00e7\u00e3o enorme. Visitei ele este ano, no seu anivers\u00e1rio de 116 anos. J\u00e1 estava bem debilitado, mas me reconheceu. O quadro do casamento continua l\u00e1 na parede\u201d, conta Indai\u00e1.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-h5gvmilibj\">A partir de toda esta movimenta\u00e7\u00e3o, Manoel se tornou o morador mais ilustre de Gl\u00f3ria. O \u00faltimo cangaceiro vivo passou a ser respeitado na cidade e ganhou um adjetivo que antecede seu nome. Ele passou a ser o Lend\u00e1rio Man\u00e9 Gaip\u00f3 e, mesmo com mais de cem anos, cada giro completo no sol era uma festa no seu povoado. Em mar\u00e7o deste ano, ao completar 116, a localidade parou para comemorar, como um marco hist\u00f3rico. E era.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-zpkibox6mc\">\u201cMan\u00e9 Gaip\u00f3 \u00e9 um s\u00edmbolo de resist\u00eancia, sabedoria e for\u00e7a. Sua trajet\u00f3ria representa a riqueza da cultura ind\u00edgena e a hist\u00f3ria do nosso povo. Celebrar sua vida \u00e9 reconhecer o legado de um homem que atravessou gera\u00e7\u00f5es mantendo nossas tradi\u00e7\u00f5es e valores vivos\u201d, disse a prefeita da cidade, Vilma Negromonte, em discurso no dia do anivers\u00e1rio dele.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-94vrx8yor1\">A prefeitura ent\u00e3o passou a buscar o reconhecimento de Gaip\u00f3 n\u00e3o apenas como o \u00faltimo cangaceiro vivo, mas tamb\u00e9m como o homem mais velho do mundo, j\u00e1 que o reconhecido \u00e9 um cearense de 113 anos. Infelizmente n\u00e3o deu tempo. Ele acabou nos deixando no \u00faltimo s\u00e1bado (15), por causas naturais. Cansou de lutar e resolveu descansar de um mundo que o castigou, mas se manteve vivo e com a cabe\u00e7a no lugar. Seu enterro foi cercado de fam\u00edlia e amigos, mas de forma simples e sem holofotes.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-0rl5y71c78\">Gaip\u00f3 fecha um ciclo de testemunhas vivas de um fen\u00f4meno que moldou o Nordeste e que se tornou um s\u00edmbolo, independentemente de r\u00f3tulos entre mocinhos e bandidos. A \u00faltima mulher viva, que esteve inclusive no fat\u00eddico dia em Angicos, no dia em que Lampi\u00e3o e Maria Bonita foram mortos, morreu em 2022, aos 99 anos. Na \u00e9poca, Gaip\u00f3 j\u00e1 tinha 113.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\">\n<div id=\"imagem-o54anole6f\" class=\"w-full\">\n<figure class=\"imagem-notas w-full max-w-full h-auto flex justify-center items-center overflow-hidden\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-509308 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022549.jpeg\" alt=\"\" width=\"528\" height=\"960\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022549.jpeg 528w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022549-165x300.jpeg 165w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022549-275x500.jpeg 275w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022549-160x291.jpeg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/><\/figure>\n<p>O quadro do reencontro\u00a0<span class=\"font-bold\">Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-z8cfhpac95\">\u201cA ex-cangaceira Dulce integrou o canga\u00e7o em seus momentos finais, pouco antes da morte de Lampi\u00e3o. Sergipana, foi levada ao bando pelo cangaceiro Crian\u00e7a. Dulce foi, ao que tudo indica, a \u00faltima sobrevivente. Ela esteve presente na grota do Angico quando Lampi\u00e3o e outros dez integrantes do grupo foram mortos. Sua morte representou mais uma perda irrepar\u00e1vel para a mem\u00f3ria hist\u00f3rica do canga\u00e7o, assim como ocorreu recentemente com o falecimento de seu Manoel, irm\u00e3o da cangaceira Dad\u00e1\u201d, explica o historiador Rob\u00e9rio Santos. Dulce se entregou e foi poupada do massacre.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-mj1nn6arup\">Se n\u00e3o existe ningu\u00e9m mais vivo para contar a hist\u00f3ria, que ao menos esta passagem crucial do nordeste permane\u00e7a pulsando em livros, mem\u00f3rias e na literatura de cordel. O canga\u00e7o foi e ser\u00e1 sempre muito mais do que a figura midi\u00e1tica de Lampi\u00e3o. Ser\u00e1 a batalha individual de cada nordestino pela sobreviv\u00eancia, que muda contextos, muda o tempo, mas n\u00e3o pode ser esquecida. O fen\u00f4meno do canga\u00e7o foi, sem d\u00favida, um movimento social.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-7vbx90z7dl\">\u201cNa esteira do Descobrimento, houve um Brasil que n\u00e3o se dobrou aos valores trazidos pelo colonizador europeu e se manteve insubmisso. Pontilhou nossa hist\u00f3ria de per\u00edodos de viol\u00eancia, nas esp\u00e9cies bem conhecidas do levante ind\u00edgena, do quilombo negro e da revolta social. Na linha cont\u00ednua, entroncada na mesma postura de irredentismo, temos o canga\u00e7o, convicto que se pode viver sem lei nem rei e ser feliz\u201d, completa Frederico Pernambucano. N\u00e3o h\u00e1 tema brasileiro mais ilustre que o canga\u00e7o. Descanse em paz, Man\u00e9 Gaip\u00f3!<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container-publicidade-single-bot w-full flex items-center justify-center overflow-hidden\">\n<div id=\"single_bot_piano\">\n<p class=\"banner-assine\">Ao apoiar o jornalismo local, voc\u00ea fortalece a informa\u00e7\u00e3o de qualidade e o trabalho de uma equipe premiada.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cunhado de Corisco e irm\u00e3o de Dad\u00e1, ele viveu at\u00e9 os 116 anos e morreu na \u00faltima semana, em Gl\u00f3ria, Bahia<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":509311,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-509307","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mane-gaipo-o-ultimo-cangaceiro-vivo-3022595-article.webp","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/509307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=509307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/509307\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/509311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=509307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=509307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=509307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}