{"id":519432,"date":"2026-02-23T05:05:41","date_gmt":"2026-02-23T08:05:41","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=519432"},"modified":"2026-02-23T05:05:41","modified_gmt":"2026-02-23T08:05:41","slug":"caso-brasilia-palace-quando-a-defesa-do-patrimonio-so-existe-quando-da-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/caso-brasilia-palace-quando-a-defesa-do-patrimonio-so-existe-quando-da-lucro\/","title":{"rendered":"Caso Bras\u00edlia Palace: quando a defesa do patrim\u00f4nio s\u00f3 existe quando d\u00e1 lucro"},"content":{"rendered":"<div class=\"elementor-element elementor-element-7d2fc729 titulo-post elementor-widget elementor-widget-theme-post-title elementor-page-title elementor-widget-heading\" data-id=\"7d2fc729\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-title.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<h1 class=\"elementor-heading-title elementor-size-xl\"><\/h1>\n<\/div>\n<\/div>\n<section class=\"elementor-section elementor-inner-section elementor-element elementor-element-7e25a070 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"7e25a070\" data-element_type=\"section\">\n<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n<div class=\"elementor-column elementor-col-50 elementor-inner-column elementor-element elementor-element-24f401b5\" data-id=\"24f401b5\" data-element_type=\"column\">\n<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n<div class=\"elementor-element elementor-element-6b34b66e elementor-share-buttons--view-icon elementor-share-buttons--skin-flat elementor-share-buttons--align-right elementor-share-buttons--shape-square elementor-grid-0 elementor-share-buttons--color-official elementor-widget elementor-widget-share-buttons\" data-id=\"6b34b66e\" data-element_type=\"widget\" data-settings=\"{&quot;share_url&quot;:{&quot;url&quot;:&quot;https:\\\/\\\/blogdomagno.com.br\\\/caso-brasilia-palace-quando-a-defesa-do-patrimonio-so-existe-quando-da-lucro\\\/&quot;,&quot;is_external&quot;:&quot;&quot;,&quot;nofollow&quot;:&quot;&quot;,&quot;custom_attributes&quot;:&quot;&quot;}}\" data-widget_type=\"share-buttons.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div class=\"elementor-grid\">\n<div class=\"elementor-grid-item\">\n<div class=\"elementor-share-btn elementor-share-btn_email\" tabindex=\"0\" aria-label=\"Compartilhar no email\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div class=\"elementor-widget-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-519433 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia-620x305.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia-620x305.jpeg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia-300x148.jpeg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia-768x378.jpeg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia-160x79.jpeg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia-305x150.jpeg 305w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia-640x315.jpeg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/hotel-brasilia.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-746f5ae4 elementor-widget elementor-widget-theme-post-content\" data-id=\"746f5ae4\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-content.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div id=\"ub-expand-7e23617e-3f7a-4675-b01b-6c6913d43d97\" class=\"wp-block-ub-expand ub-expand\" data-scroll-type=\"false\" data-scroll-amount=\"\" data-scroll-target=\"\">\n<div id=\"ub-expand-partial-4b9d9377-673a-420a-92f6-c824086ef10a\" class=\"ub-expand-portion ub-expand-partial wp-block-ub-expand-portion\" aria-hidden=\"false\">\n<p><strong>Por Leiliane Rebou\u00e7as*<br \/>\nDo Metr\u00f3poles<\/strong><\/p>\n<p>O caso do Bras\u00edlia Palace Hotel \u00e9 hoje um dos exemplos mais graves de neglig\u00eancia institucional com o patrim\u00f4nio moderno brasileiro. Primeiro hotel da capital federal, projetado por Oscar Niemeyer para receber autoridades, t\u00e9cnicos e visitantes durante a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, o edif\u00edcio n\u00e3o \u00e9 apenas uma pe\u00e7a de arquitetura: ele \u00e9 parte constitutiva da mem\u00f3ria fundadora da cidade.<\/p>\n<p>No entanto, diante da proposta de duplica\u00e7\u00e3o e descaracteriza\u00e7\u00e3o do hotel, promovida pelo empres\u00e1rio Paulo Oct\u00e1vio, o Iphan optou pelo caminho mais c\u00f4modo: permitir, silenciar e se omitir \u2014 como se a defesa do patrim\u00f4nio fosse um princ\u00edpio flex\u00edvel, aplic\u00e1vel apenas quando n\u00e3o interfere nos interesses econ\u00f4micos.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ub-expand-full-4b9d9377-673a-420a-92f6-c824086ef10a\" class=\"ub-expand-portion ub-expand-full wp-block-ub-expand-portion\" aria-hidden=\"false\">\n<p>Segundo a an\u00e1lise t\u00e9cnica do pr\u00f3prio Iphan, a duplica\u00e7\u00e3o do tamanho do hotel \u201cn\u00e3o prejudicaria o patrim\u00f4nio cultural\u201d, uma conclus\u00e3o que beira o absurdo. Como \u00e9 poss\u00edvel sustentar que dobrar a volumetria de uma obra moderna, concebida com rigor formal, escala precisa e rela\u00e7\u00e3o direta com a paisagem, n\u00e3o compromete seus valores arquitet\u00f4nicos e simb\u00f3licos?<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o revela uma compreens\u00e3o empobrecida do que significa patrim\u00f4nio: reduzido a fachada, a linguagem est\u00e9tica superficial, e n\u00e3o um sistema integrado de forma, fun\u00e7\u00e3o, propor\u00e7\u00e3o, uso, mem\u00f3ria e contexto urbano.<\/p>\n<p>O Bras\u00edlia Palace n\u00e3o \u00e9 um pr\u00e9dio qualquer. Ele integra o conjunto simb\u00f3lico da capital, ao lado do Pal\u00e1cio da Alvorada, do Congresso Nacional e da Esplanada dos Minist\u00e9rios. Foi ali que se hospedaram Juscelino Kubitschek, arquitetos, engenheiros, artistas e jornalistas que acompanharam o nascimento de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Sua arquitetura leve, horizontal e integrada \u00e0 paisagem do Lago Parano\u00e1 expressa a utopia modernista de uma cidade pensada como obra coletiva, p\u00fablica e civilizat\u00f3ria. Alterar esse edif\u00edcio \u00e9 interferir diretamente na narrativa hist\u00f3rica da capital \u2014 e duplic\u00e1-lo \u00e9 negar sua pr\u00f3pria l\u00f3gica arquitet\u00f4nica.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa interfer\u00eancia n\u00e3o come\u00e7ou agora. O hotel j\u00e1 sofreu um golpe profundo quando se permitiu a cria\u00e7\u00e3o de um lote em frente, bloqueando a rela\u00e7\u00e3o visual direta com o Pal\u00e1cio da Alvorada \u2014 um dos eixos simb\u00f3licos mais importantes do projeto urbano original.<\/p>\n<p>Em seguida, foi constru\u00eddo um segundo hotel com uma arquitetura completamente alheia ao modernismo, um corpo alien\u00edgena de escala desproporcional cravado num dos s\u00edtios mais sens\u00edveis da paisagem cultural de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Cinismo<\/strong><\/p>\n<p>Agora, a situa\u00e7\u00e3o se agrava: o mesmo empres\u00e1rio que, nos anos 1990, explorou intensamente a mem\u00f3ria afetiva do Bras\u00edlia Palace para promover sua restaura\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o comercial, passa a defender sua duplica\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o, sob a l\u00f3gica do \u201cpotencial construtivo\u201d e da rentabilidade imobili\u00e1ria. \u00c9 o uso c\u00ednico da hist\u00f3ria: a mem\u00f3ria como marketing quando conv\u00e9m, e como obst\u00e1culo quando limita o lucro.<\/p>\n<p>Mais grave ainda \u00e9 o arquivamento do pedido de tombamento do hotel no \u00e2mbito do governo local. Trata-se de uma decis\u00e3o pol\u00edtica que revela o desprezo pela dimens\u00e3o imaterial do patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>O tombamento n\u00e3o \u00e9 um capricho burocr\u00e1tico, mas um instrumento de prote\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva, de garantia de que certas obras \u2014 especialmente aquelas fundadoras \u2014 n\u00e3o sejam submetidas \u00e0 l\u00f3gica predat\u00f3ria do mercado. Arquivar esse pedido \u00e9 afirmar, implicitamente, que a hist\u00f3ria de Bras\u00edlia \u00e9 negoci\u00e1vel.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio do Iphan diante desse processo \u00e9 ensurdecedor. O instituto, criado justamente para proteger o patrim\u00f4nio nacional, n\u00e3o apenas se omite, como tamb\u00e9m legitima a descaracteriza\u00e7\u00e3o, ao afirmar que a duplica\u00e7\u00e3o n\u00e3o gera impacto.<\/p>\n<p>Trata-se de um precedente perigoso: se dobrar um edif\u00edcio hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 considerado dano, ent\u00e3o qualquer interven\u00e7\u00e3o pode ser justificada em nome de uma suposta \u201ccompatibilidade formal\u201d. Abandona-se a no\u00e7\u00e3o de integridade patrimonial e adota-se uma l\u00f3gica de maquiagem est\u00e9tica, em que se preserva o nome, mas se destr\u00f3i o sentido.<\/p>\n<p><strong>O exemplo de Niter\u00f3i<\/strong><\/p>\n<p>O contraste com Niter\u00f3i \u00e9 revelador e constrangedor. Enquanto o munic\u00edpio fluminense, ainda em vida de Oscar Niemeyer, construiu um projeto pol\u00edtico e cultural consistente de valoriza\u00e7\u00e3o de seu legado \u2014 investindo na cria\u00e7\u00e3o, preserva\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de equipamentos como o Caminho Niemeyer, transformando a arquitetura moderna em pol\u00edtica p\u00fablica de identidade urbana, turismo cultural e educa\u00e7\u00e3o patrimonial \u2014 Bras\u00edlia, justamente a cidade que concentra a obra mais densa e simb\u00f3lica do arquiteto, opta pelo sil\u00eancio, pela omiss\u00e3o e pela coniv\u00eancia no caso do Bras\u00edlia Palace.<\/p>\n<p>Em Niter\u00f3i, o patrim\u00f4nio \u00e9 entendido como ativo civilizat\u00f3rio e projeto de futuro; em Bras\u00edlia, ele \u00e9 tratado como entrave ao mercado, algo a ser flexibilizado, negociado ou descartado quando interfere nos interesses imobili\u00e1rios.<\/p>\n<p>A ironia hist\u00f3rica \u00e9 brutal: a cidade que existe por causa de Niemeyer falha em proteg\u00ea-lo, enquanto outra, que poderia prescindir dele, constr\u00f3i em torno de sua obra uma pol\u00edtica de Estado. Isso n\u00e3o \u00e9 apenas neglig\u00eancia institucional \u2014 \u00e9 uma fal\u00eancia simb\u00f3lica da pr\u00f3pria consci\u00eancia patrimonial de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>O preju\u00edzo \u00e9 irrevers\u00edvel. Uma vez alterado, duplicado, inflado e reprogramado, o Bras\u00edlia Palace deixa de ser documento hist\u00f3rico para se tornar apenas mais um produto imobili\u00e1rio. Perde-se n\u00e3o s\u00f3 um edif\u00edcio, mas um peda\u00e7o da narrativa de Bras\u00edlia como projeto de pa\u00eds.<\/p>\n<p>Perde-se a materialidade de um tempo em que arquitetura, pol\u00edtica e utopia estavam articuladas. E consolida-se uma l\u00f3gica perversa: a de que o patrim\u00f4nio s\u00f3 merece ser defendido enquanto \u00e9 rent\u00e1vel \u2014 e que, quando passa a impor limites, deve ser adaptado, flexibilizado ou simplesmente sacrificado.<\/p>\n<p><strong>*Acad\u00eamica do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do DF. Bacharel de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, \u00e9 especialista em turismo; autora do livro Vizinhos do Poder, Hist\u00f3ria e Mem\u00f3ria da Vila Planalto (2022); coautora do livro Caf\u00e9 com Europa, Bras\u00edlia 60, da editora UnB (2020); e coordenadora do Movimento Guardi\u00f5es de Bras\u00edlia.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Leiliane Rebou\u00e7as* Do Metr\u00f3poles O caso do Bras\u00edlia Palace Hotel \u00e9 hoje um dos exemplos mais graves de neglig\u00eancia institucional com o patrim\u00f4nio moderno brasileiro. 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