{"id":524401,"date":"2026-04-06T11:23:36","date_gmt":"2026-04-06T14:23:36","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=524401"},"modified":"2026-04-06T11:23:36","modified_gmt":"2026-04-06T14:23:36","slug":"pascoa-entre-a-memoria-da-libertacao-e-o-horizonte-da-ressurreicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/pascoa-entre-a-memoria-da-libertacao-e-o-horizonte-da-ressurreicao\/","title":{"rendered":"P\u00e1scoa: Entre a mem\u00f3ria da liberta\u00e7\u00e3o e o horizonte da ressurrei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><\/h1>\n<p class=\"lead\"><strong>Da liberta\u00e7\u00e3o narrada no \u00caxodo \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, a P\u00e1scoa percorreu mil\u00eanios, tradi\u00e7\u00f5es e sensibilidades<\/strong><\/p>\n<div class=\"row align-items-end\">\n<div class=\"col-12 col-md-8\">\n<div class=\"meta-info d-flex align-items-center\">\n<div class=\"author-avatar\"><\/div>\n<div class=\"author-details\"><span class=\"post-author d-block\"><span class=\"author-label\">Por<\/span>\u00a0Roselle Adriane Soglio<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<figure><\/figure>\n<figure class=\"post-image-wrapper\">\n<div id=\"standard_1\" class=\"st-placement standard_1 inImage\">\n<div class=\"st-adunit st-adunit-tagged st-reset st-show\">\n<div class=\"st-adunit-ad st-reset\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-524402 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1-620x349.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1-620x349.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1-160x90.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1-480x270.jpg 480w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1-640x360.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div><figcaption class=\"post-image-caption\">Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, por Rafael Sanzio &#8211; Dom\u00ednio P\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"artigo_texto\">\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Da liberta\u00e7\u00e3o narrada no \u00caxodo \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, a\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/tags\/pascoa\" data-mrf-link=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/tags\/pascoa\">P\u00e1scoa<\/a> percorreu mil\u00eanios, tradi\u00e7\u00f5es e sensibilidades. Mais do que uma celebra\u00e7\u00e3o religiosa, a P\u00e1scoa consolidou-se como uma das imagens mais duradouras da experi\u00eancia humana: a passagem da servid\u00e3o para a liberdade, da dor para a esperan\u00e7a, da noite para a vida.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\"><strong>Antes do cristianismo, uma mem\u00f3ria de liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Muito antes de se tornar o eixo do calend\u00e1rio crist\u00e3o, a P\u00e1scoa j\u00e1 ocupava lugar central na tradi\u00e7\u00e3o judaica. Sua origem remonta ao Pessach, a celebra\u00e7\u00e3o que recorda a liberta\u00e7\u00e3o do povo hebreu da escravid\u00e3o no Egito, conforme preservado no livro do \u00caxodo, um dos grandes textos fundadores da consci\u00eancia religiosa e hist\u00f3rica do Ocidente. Ali, a P\u00e1scoa surge n\u00e3o como ornamento ritual, mas como mem\u00f3ria de uma ruptura decisiva: a passagem da opress\u00e3o para a liberdade, da sujei\u00e7\u00e3o para a dignidade, do medo para a confian\u00e7a em Deus.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">A pr\u00f3pria palavra hebraica\u00a0<mark><em>Pessach<\/em>\u00a0significa \u201cpassagem\u201d<\/mark>, e talvez poucas ideias tenham atravessado os s\u00e9culos com tanta for\u00e7a. Na tradi\u00e7\u00e3o judaica, essa passagem n\u00e3o \u00e9 apenas lembrada; \u00e9 atualizada. O p\u00e3o sem fermento, as ervas amargas, a refei\u00e7\u00e3o ritual, a narrativa repetida \u00e0 mesa, tudo concorre para manter viva a mem\u00f3ria de um acontecimento fundador. N\u00e3o se trata de um passado encerrado, mas de um passado que continua a formar consci\u00eancias. A liberdade, nesse horizonte, n\u00e3o \u00e9 um conceito abstrato: \u00e9 uma heran\u00e7a moral que precisa ser recordada para n\u00e3o se perder.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Essa dimens\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 decisiva. Povos que esquecem os seus cativeiros se tornam mais vulner\u00e1veis \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o deles. A P\u00e1scoa judaica ensina, com impressionante profundidade, que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas conserva\u00e7\u00e3o do passado, mas defesa da dignidade. Recordar a escravid\u00e3o do Egito n\u00e3o significa cultivar a dor; mas sim recusar sua banaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m afirmar que nenhuma ordem social pode ser considerada leg\u00edtima quando converte pessoas em instrumento, naturaliza a humilha\u00e7\u00e3o ou se acomoda ao sofrimento dos fr\u00e1geis.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\"><strong>A matriz judaica da P\u00e1scoa crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Foi nesse universo simb\u00f3lico, espiritual e hist\u00f3rico que\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/tags\/jesus\" data-mrf-link=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/tags\/jesus\">Jesus<\/a> viveu. Judeu, formado na tradi\u00e7\u00e3o de Israel, ele celebrou as festas de seu povo, rezou suas Escrituras e compartilhou sua mem\u00f3ria religiosa. Por isso, a coincid\u00eancia entre a P\u00e1scoa judaica e a crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 um detalhe do calend\u00e1rio, mas um dado central para a compreens\u00e3o hist\u00f3rica do cristianismo. Os Evangelhos situam a paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo precisamente no contexto pascal, quando Jerusal\u00e9m revivia a lembran\u00e7a da liberta\u00e7\u00e3o do Egito.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Esse ponto \u00e9 essencial. A morte de Jesus n\u00e3o ocorre num vazio de significados, mas no interior de uma festa que j\u00e1 falava de travessia, liberta\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a. Para os primeiros crist\u00e3os, esse entrela\u00e7amento foi decisivo. Se o \u00caxodo narrava a liberta\u00e7\u00e3o de um povo submetido \u00e0 servid\u00e3o, a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo passaram a ser lidas como uma nova passagem: agora da morte para a vida, do pecado para a reden\u00e7\u00e3o, do desespero para a esperan\u00e7a. A P\u00e1scoa crist\u00e3 nasce, assim, como releitura de uma heran\u00e7a anterior e n\u00e3o como cria\u00e7\u00e3o desligada de suas ra\u00edzes.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Compreender isso \u00e9 mais do que um exerc\u00edcio de erudi\u00e7\u00e3o; \u00e9 uma exig\u00eancia de honestidade hist\u00f3rica. O cristianismo n\u00e3o inventa a P\u00e1scoa do nada. Ele a recebe do horizonte judaico e a ressignifica \u00e0 luz da pessoa de Cristo. Ignorar essa matriz \u00e9 empobrecer a intelig\u00eancia da pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\"><strong>Cristo e o centro do mist\u00e9rio pascal<\/strong><\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">A centralidade de Cristo na P\u00e1scoa crist\u00e3 n\u00e3o se explica apenas no plano da doutrina. Ela decorre tamb\u00e9m da singularidade hist\u00f3rica, moral e espiritual de sua figura. Jesus n\u00e3o marcou a humanidade unicamente pelo modo como morreu, mas pelo modo como viveu. Aproximou-se dos exclu\u00eddos, acolheu os rejeitados, tocou os feridos, rompeu a indiferen\u00e7a, confrontou a hipocrisia dos poderosos e fez da compaix\u00e3o n\u00e3o um discurso, mas um gesto concreto.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Sua morte, nesse contexto, n\u00e3o foi interpretada pelos crist\u00e3os apenas como um desfecho tr\u00e1gico, mas como o \u00e1pice de uma exist\u00eancia inteiramente doada. E a ressurrei\u00e7\u00e3o passou a ser compreendida como a resposta \u00faltima \u00e0 l\u00f3gica da viol\u00eancia: a afirma\u00e7\u00e3o de que a injusti\u00e7a n\u00e3o triunfa indefinidamente, de que a verdade n\u00e3o se deixa extinguir pelo arb\u00edtrio e de que o amor n\u00e3o pode ser definitivamente sepultado.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">\u00c9 por isso que a P\u00e1scoa crist\u00e3 conserva tamanho poder de como\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o elimina a cruz, n\u00e3o ignora o sofrimento nem suaviza a gravidade da morte. Sua for\u00e7a est\u00e1 precisamente em afirmar que a dor n\u00e3o possui soberania absoluta. A ressurrei\u00e7\u00e3o, para a f\u00e9 crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 fuga da hist\u00f3ria, mas sua transfigura\u00e7\u00e3o. Em Cristo, o sofrimento n\u00e3o \u00e9 glorificado, mas atravessado; a morte n\u00e3o \u00e9 negada, mas vencida em seu poder \u00faltimo de aniquila\u00e7\u00e3o do sentido.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\"><strong>Duas tradi\u00e7\u00f5es, uma heran\u00e7a de sentido<\/strong><\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">A rela\u00e7\u00e3o entre a P\u00e1scoa judaica e a crist\u00e3 exige, portanto, delicadeza intelectual e rever\u00eancia hist\u00f3rica. N\u00e3o se trata de dissolver diferen\u00e7as nem de confundir tradi\u00e7\u00f5es distintas. O juda\u00edsmo preserva, com extraordin\u00e1ria fidelidade, a mem\u00f3ria da liberta\u00e7\u00e3o fundadora de Israel. O cristianismo l\u00ea essa mesma l\u00f3gica de travessia \u00e0 luz da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. S\u00e3o caminhos pr\u00f3prios, com identidade pr\u00f3pria, mas ligados por uma raiz hist\u00f3rica ineg\u00e1vel.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Essa coincid\u00eancia \u00e9, em si mesma, eloquente. Ela mostra que a hist\u00f3ria das religi\u00f5es n\u00e3o se faz apenas de rupturas, mas tamb\u00e9m de continuidades profundas, releituras e heran\u00e7as. Em tempos marcados por simplifica\u00e7\u00f5es apressadas, reconhecer a raiz judaica da P\u00e1scoa crist\u00e3 \u00e9 tamb\u00e9m um gesto de lucidez. A f\u00e9, quando perde a mem\u00f3ria de suas origens, corre o risco de se tornar superficial; a hist\u00f3ria, quando \u00e9 reduzida a slogans, deixa de iluminar e passa apenas a repetir lugares-comuns.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\"><strong>A atualidade de uma antiga travessia<\/strong><\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Seria poss\u00edvel imaginar que a P\u00e1scoa pertence apenas ao dom\u00ednio do passado, circunscrita aos textos sagrados e \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es anuais. No entanto, sua perman\u00eancia hist\u00f3rica se deve justamente ao contr\u00e1rio: ela continua a falar, com surpreendente nitidez, ao presente. Cada \u00e9poca conhece seus desertos. Cada sociedade produz seus pr\u00f3prios cativeiros. E os nossos, muitas vezes, n\u00e3o se apresentam sob a forma vis\u00edvel das correntes, mas em modalidades mais sutis e igualmente corrosivas.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Hoje, a servid\u00e3o pode assumir a forma da ansiedade constante, da exaust\u00e3o emocional, da tirania do desempenho, do culto da apar\u00eancia, da incapacidade de sil\u00eancio, da hiperconex\u00e3o que n\u00e3o evita a solid\u00e3o, da pressa que impede o luto, da viol\u00eancia verbal convertida em h\u00e1bito, da indiferen\u00e7a diante da dor alheia. Nunca houve tantos meios de comunica\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, tamanha dificuldade de encontro. Nunca se falou tanto em liberdade e, paradoxalmente, tantos vivem aprisionados por medos \u00edntimos, ressentimentos persistentes, culpas n\u00e3o elaboradas e uma crescente sensa\u00e7\u00e3o de esvaziamento interior.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">\u00c9 nesse ponto que a P\u00e1scoa deixa de ser apenas mem\u00f3ria antiga para se tornar interroga\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. De que servid\u00f5es ainda n\u00e3o sa\u00edmos? O que, em nossa vida pessoal e coletiva, continua a nos prender? Que formas de morte simb\u00f3lica j\u00e1 se instalaram em rotinas aparentemente normais? Em um mundo que mede o valor humano pela utilidade, pela produtividade e pela visibilidade, a P\u00e1scoa restitui \u00e0 dignidade seu lugar central. Recorda que a vida humana vale antes de qualquer desempenho e que n\u00e3o h\u00e1 liberdade aut\u00eantica quando a alma permanece submetida ao medo, \u00e0 indiferen\u00e7a ou \u00e0 aus\u00eancia de sentido.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\"><strong>Para al\u00e9m das fronteiras da f\u00e9<\/strong><\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Talvez resida a\u00ed uma das raz\u00f5es mais profundas da perman\u00eancia da P\u00e1scoa. Embora enraizada em tradi\u00e7\u00f5es religiosas precisas, sua mensagem ultrapassa a perten\u00e7a confessional. Para os judeus, ela permanece como mem\u00f3ria viva da liberta\u00e7\u00e3o. Para os crist\u00e3os, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 no Cristo ressuscitado. Mas, mesmo fora desses horizontes, a estrutura simb\u00f3lica da P\u00e1scoa continua intelig\u00edvel a qualquer ser humano: todos conhecem, em alguma medida, a experi\u00eancia da noite, a necessidade da travessia e o desejo de recome\u00e7o.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Tamb\u00e9m por isso a figura de Cristo permanece central n\u00e3o apenas para os crist\u00e3os, mas para a pr\u00f3pria hist\u00f3ria moral do mundo. Mesmo quem n\u00e3o o confessa na f\u00e9 pode reconhecer nele uma das express\u00f5es mais altas de compaix\u00e3o, coragem e densidade humana. Em um tempo ruidoso, impaciente e tantas vezes brutalizado, Cristo continua a impressionar pela serenidade, pela firmeza e pela recusa em fazer da for\u00e7a um crit\u00e9rio de grandeza.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">A P\u00e1scoa, nesse sentido, toca algo que antecede as divis\u00f5es religiosas: a convic\u00e7\u00e3o de que a exist\u00eancia humana n\u00e3o pode ser reduzida ao imediato, ao \u00fatil ou ao mensur\u00e1vel. Ela fala da possibilidade de atravessar a dor sem ser totalmente vencido por ela; fala da mem\u00f3ria como fonte de consci\u00eancia; fala da esperan\u00e7a n\u00e3o como ingenuidade, mas como forma elevada de resist\u00eancia interior.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\"><strong>Mais do que uma festa<\/strong><\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">No fundo, a P\u00e1scoa permanece viva porque exprime uma necessidade permanente da condi\u00e7\u00e3o humana: a de encontrar sentido quando a noite parece mais espessa. Primeiro, foi a mem\u00f3ria da liberta\u00e7\u00e3o de um povo. Depois, se tornou, para o cristianismo, o an\u00fancio de que a morte n\u00e3o venceu Cristo. Hoje, continua sendo uma das mais poderosas met\u00e1foras de renova\u00e7\u00e3o que a humanidade conserva.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Num mundo cansado, ferido e tantas vezes incapaz de elaborar as pr\u00f3prias perdas, a P\u00e1scoa continua a recordar que h\u00e1 travessias que acontecem em sil\u00eancio, longe dos olhos do mundo, mas transformam por inteiro uma exist\u00eancia. H\u00e1 dores que n\u00e3o desaparecem, mas amadurecem. H\u00e1 aus\u00eancias que nunca deixam de doer, mas ensinam a amar de outro modo. H\u00e1 noites que parecem intermin\u00e1veis, at\u00e9 que, quase sem perceber, a alma reencontra dentro de si uma fresta de luz.<\/p>\n<p data-mrf-recirculation=\".Corpo do artigo\">Talvez seja esse o sentido mais profundo da P\u00e1scoa: n\u00e3o a promessa de uma vida sem cruzes, mas a certeza de que nenhuma cruz esgota o destino humano; n\u00e3o a nega\u00e7\u00e3o das l\u00e1grimas, mas a revela\u00e7\u00e3o de que elas tamb\u00e9m podem fecundar a esperan\u00e7a. E, quando tudo parece perdido, quando o tempo se torna pesado e o cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o sabe como prosseguir, a P\u00e1scoa ainda sussurra, com a delicadeza das coisas eternas, que a vida pode recome\u00e7ar, que o amor permanece, e que mesmo depois da noite mais escura ainda \u00e9 poss\u00edvel acreditar na manh\u00e3.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da liberta\u00e7\u00e3o narrada no \u00caxodo \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, a P\u00e1scoa percorreu mil\u00eanios, tradi\u00e7\u00f5es e sensibilidades<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":524402,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-524401","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Raffaello_Sanzio_Auferstehung_Christi_Sao_Paulo-800x450-1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/524401","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=524401"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/524401\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/524402"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=524401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=524401"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=524401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}