{"id":528,"date":"2013-06-30T16:43:01","date_gmt":"2013-06-30T19:43:01","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=528"},"modified":"2013-07-19T23:44:26","modified_gmt":"2013-07-20T02:44:26","slug":"o-retrato-de-dorian-gray-mais-jovem-do-que-nunca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-retrato-de-dorian-gray-mais-jovem-do-que-nunca\/","title":{"rendered":"\u2018O retrato de Dorian Gray\u2019, mais jovem do que nunca"},"content":{"rendered":"<p>O primeiro aspecto descorcertante de \u201cO retrato de Dorian Gray \u2013 edi\u00e7\u00e3o anotada e sem censura\u201d \u00e9 o que se poderia chamar de paradoxo do tamanho. Costumamos pensar no verbo censurar como sin\u00f4nimo de suprimir, cortar \u2013 n\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 uma tesoura seu s\u00edmbolo universal. No entanto, a edi\u00e7\u00e3o da obra-prima de Oscar Wilde organizada pelo pesquisador acad\u00eamico Nicholas Frankel (Biblioteca Azul, tradu\u00e7\u00e3o de Jorio Dauster, 352 p\u00e1ginas, R$ 64,90), alegadamente fiel at\u00e9 a \u00faltima v\u00edrgula \u00e0 primeira vers\u00e3o datilografada e emendada \u00e0 m\u00e3o pelo escritor irland\u00eas em 1890, \u00e9 consideravelmente menor do que aquela que seria publicada no ano seguinte em livro e admirada por gera\u00e7\u00f5es de leitores: tem apenas treze cap\u00edtulos, sete a menos do que o texto can\u00f4nico. Que censura foi aquela?<\/p>\n<p>Na resposta a essa pergunta, que n\u00e3o \u00e9 simples, vamos encontrar o pecado (menor) e a virtude (imensa) do trabalho de Frankel. Primeiro, o pecado: sim, h\u00e1 um leve toque de sensacionalismo na simplifica\u00e7\u00e3o que o subt\u00edtulo abra\u00e7a ao falar em \u201csem censura\u201d (no original, uncensored). A realidade \u00e9 mais complicada. O que houve foi um processo tortuoso em que, em primeiro lugar, o texto passou pelo crivo dos editores da revista americana \u201cLippincott\u2019s\u201d, que o publicaria ainda em 1890, perdendo cerca de 500 palavras \u2013 algo que s\u00f3 chamar\u00e1 de censura pura e simples quem n\u00e3o entende nada de edi\u00e7\u00e3o. Posteriormente, ao retocar o romance para lan\u00e7\u00e1-lo em forma de livro, coube a Wilde acatar a maioria dos cortes feitos pela revista, promover novos expurgos por sua pr\u00f3pria conta e, de forma curiosa, acrescentar-lhe cap\u00edtulos inteiros.<\/p>\n<p>Eis, em resumo, as duas barreiras que levaram essa vers\u00e3o de \u201cO retrato de Dorian Gray\u201d \u2013 publicada em ingl\u00eas apenas em 2011 \u2013 a permanecer in\u00e9dita por 120 anos: primeiro um editor cauteloso, personagem quase invis\u00edvel mas presente na g\u00eanese da maioria dos cl\u00e1ssicos; depois um autor \u00e0s voltas com o trabalho de polir e dar forma definitiva \u00e0 sua obra, processo em que o perfeccionismo, a autocr\u00edtica e a autocensura se confundem de forma irremedi\u00e1vel a cada frase.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que a \u201cedi\u00e7\u00e3o anotada e sem censura\u201d de Dorian Gray seja apenas uma apela\u00e7\u00e3o editorial do g\u00eanero ba\u00fa, equivalente vitoriano daquele \u201cO original de Laura\u201d que Vladimir Nabokov mal terminara de rascunhar quando morreu \u2013 e que seu filho decidiu publicar assim mesmo em 2009. Longe disso. Aqui chegamos \u00e0 virtude imensa do trabalho de Frankel: revelar, por tr\u00e1s da vers\u00e3o eternamente can\u00f4nica do \u00fanico romance de Wilde (\u00e9 tarde para mudar isso), um romance novo. Este livro alternativo n\u00e3o tem interesse apenas para f\u00e3s de carteirinha ou estudiosos do autor, embora as criteriosas notas que pululam a cada p\u00e1gina lhes garantam del\u00edcias em s\u00e9rie. Com tradu\u00e7\u00e3o suntuosa de Jorio Dauster, o que se revela \u00e9 uma narrativa mais moderna, mais curta, mais concentrada \u2013 numa palavra, melhor \u2013 que pode e deve ser lida por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos.<\/p>\n<p>Com f\u00f4lego mais de novela que de romance, entram em foco os elementos principais da hist\u00f3ria do elegante e devasso Dorian Gray, cujo retrato envelhece \u2013 e se envilece \u2013 trancado no s\u00f3t\u00e3o enquanto ele pr\u00f3prio se conserva jovem e belo. Sim, fica mais n\u00edtida a trama de homoerotismo que une Dorian a seus dois maiores admiradores, o c\u00ednico lorde Henry e o apaixonado pintor do retrato, Basil Hallward, mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo. Os amores heterossexuais do protagonista tamb\u00e9m ganham o benef\u00edcio de palavras mais diretas: o editor Joseph Marshall Stoddart, da \u201cLippincott\u2019s\u201d, achou que os leitores se ofenderiam com o termo \u201camantes\u201d, por exemplo, embora sua revista cultivasse a reputa\u00e7\u00e3o de certa ousadia moral.<\/p>\n<p>Ainda que por uma simples quest\u00e3o de sa\u00fade vocabular, todas essas restaura\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem-vindas. A principal diferen\u00e7a, contudo, \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o da m\u00e1xima de que menos \u00e9 mais. Aparentemente assustado com a recep\u00e7\u00e3o hostil que mesmo a vers\u00e3o expurgada tinha merecido de parte da intelectualidade londrina \u2013 que n\u00e3o se furtou a lan\u00e7ar piscadelas para a pol\u00edcia ao falar de doen\u00e7as e v\u00edcios impuros \u2013 Wilde tratou de esconder ainda mais, na vers\u00e3o em livro, a natureza profundamente queer de sua hist\u00f3ria. Os novos cap\u00edtulos s\u00e3o basicamente dem\u00e3os de tinta convencionais. Foi assim que o romance ganhou subtramas rom\u00e2nticas, lorde Henry se viu com mais algumas p\u00e1ginas para derramar seus espirituosos ditos decadentes de sal\u00e3o e Dorian Gray acabou \u00e0s voltas com problemas financeiros e um v\u00edcio em \u00f3pio.<\/p>\n<p>Wilde, que \u00e0quela altura j\u00e1 vivia no submundo gay londrino uma vida dupla muito parecida com a de seus personagens, tinha bons motivos para se preocupar. Em 1895, seria condenado a dois anos de pris\u00e3o com trabalhos for\u00e7ados pelo crime de \u201cflagrante indec\u00eancia\u201d, leia-se pr\u00e1tica homossexual, e o advogado de acusa\u00e7\u00e3o usaria a vers\u00e3o do romance publicada na \u201cLippincott\u2019s\u201d \u2013 e n\u00e3o a do livro \u2013 para refor\u00e7ar seus argumentos no tribunal. Embora o autor fosse o primeiro a sustentar, em seu credo esteticista, que s\u00f3 a arte interessa, o contexto biogr\u00e1fico torna mais valiosa a vers\u00e3o original do romance na medida em que deixa claro o clima de coer\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, ainda que autoimposta, que cercou as modifica\u00e7\u00f5es posteriores. (Veja)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro aspecto descorcertante de \u201cO retrato de Dorian Gray \u2013 edi\u00e7\u00e3o anotada e sem censura\u201d \u00e9 o que se poderia chamar de paradoxo do tamanho. 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