{"id":53048,"date":"2014-03-28T07:52:23","date_gmt":"2014-03-28T10:52:23","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=53048"},"modified":"2014-03-28T07:52:23","modified_gmt":"2014-03-28T10:52:23","slug":"na-ditadura-gays-eram-rejeitados-pela-direita-e-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/na-ditadura-gays-eram-rejeitados-pela-direita-e-esquerda\/","title":{"rendered":"Na ditadura, gays eram rejeitados pela direita e esquerda"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n<h1><\/h1>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan decidiu deixar o Brasil em 1973, ap\u00f3s a ditadura proibir a exibi\u00e7\u00e3o do filme\u00a0<em>Orgia ou o Homem que Deu Cria<\/em>, que ele havia escrito e dirigido. Ao voltar, tr\u00eas anos depois e ainda em plena ditadura, ajudou a criar o movimento gay no Brasil, esteve entre os fundadores e principais redatores do hist\u00f3rico jornal\u00a0<em>Lampi\u00e3o da Esquina<\/em>\u00a0e escreveu\u00a0<em>Devassos no Para\u00edso<\/em>, um amplo painel sobre a quest\u00e3o da homossexualidade no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na entrevista abaixo, Trevisan fala das persegui\u00e7\u00f5es sofridas pelos gays durante a ditadura e dos embates com os movimentos de esquerda. Segundo sua avalia\u00e7\u00e3o, o movimento gay era rejeitado pela esquerda, que n\u00e3o aceitava sua independ\u00eancia. \u201cEles eram autorit\u00e1rios e travados\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de cineasta, Trevisan, hoje com 69 anos, \u00e9 romancista, contista, \u00a0ensa\u00edsta e tradutor. A seguir, os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea decidiu sair do Brasil no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, no meio de um dos piores per\u00edodos da ditadura, na vig\u00eancia do AI-5. Foi uma decis\u00e3o \u00a0relacionada \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o aos homossexuais?<\/strong><\/p>\n<p>Foi, indiretamente. Teve a ver com a proibi\u00e7\u00e3o de meu filme,\u00a0<em>Orgia ou o Homem que Deu Cria,\u00a0<\/em>que envolvia a homossexualidade \u2013 n\u00e3o como quest\u00e3o de direitos, mas como viv\u00eancia. Apresentei uma travesti, cenas sadomasoquistas, homens pelados, dentro de um esquema de provoca\u00e7\u00e3o, que a ditadura entendeu. A censura proibiu o filme em sua quase totalidade, por consider\u00e1-lo obsceno. Diante disso, resolvi deixar o Pa\u00eds, o que acabou tendo muitos efeitos colaterais positivos para mim.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogs.estadao.com.br\/roldao-arruda\/files\/2014\/03\/27Trevisan.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/blogs.estadao.com.br\/roldao-arruda\/files\/2014\/03\/27Trevisan.jpg\" width=\"500\" height=\"400\" \/><\/a><br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Que efeitos?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sa\u00ed para o mundo. Eu e v\u00e1rias outras pessoas. Foi uma gera\u00e7\u00e3o inteira que teve condi\u00e7\u00f5es de fazer trocas importantes l\u00e1 fora e voltar para o Brasil em condi\u00e7\u00f5es de discutir a nossa realidade sob uma \u00f3tica menos fechada do que a existente aqui. No meu caso foram importantes os contatos com os movimentos feminista, homossexual e contra o racismo, al\u00e9m da quest\u00e3o ambiental, que j\u00e1 estava em voga em Berkeley, na Calif\u00f3rnia, para onde eu fui em 1973.<\/p>\n<p><strong>Berkeley foi um dos principais centros de contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos Estados Unidos.<\/strong><\/p>\n<p>Fui para l\u00e1 de prop\u00f3sito. Eu queria assistir \u00e0 queda do imp\u00e9rio americano. Havia acabado de descobrir coisas importantes na minha vida, entre elas, Rimbaud. Assim como ele tinha viajado para ver a queda de Paris, sob a Comuna\u00a0<em>(1871)<\/em>, fui para ver a queda do imp\u00e9rio americano. N\u00e3o vi, mas conheci um outro lado do imp\u00e9rio, fascinante e fundamental. Tive contatos liter\u00e1rios importantes e conheci a esquerda americana, a diversidade da New Left, que est\u00e1 na base da contracultura. Foi uma viv\u00eancia extraordin\u00e1ria, que durou tr\u00eas anos.<\/p>\n<p><strong>E como foi a volta, com essa nova bagagem?<\/strong><\/p>\n<p>Isso me ajudou na funda\u00e7\u00e3o do movimento homossexual no Brasil. Come\u00e7amos com o Grupo Somos, em S\u00e3o Paulo, e o jornal\u00a0<em>Lampi\u00e3o\u00a0(circulou entre 1978 e 1981)<\/em>. \u00a0Logo no in\u00edcio o jornal teve problema com a ditadura. Fomos indiciados num inqu\u00e9rito, sob a acusa\u00e7\u00e3o de ofensa \u00e0 moral e aos bons costumes, por conta de uma mat\u00e9ria minha defendendo o jornalista Celso Kury, que j\u00e1 enfrentava processo, sob a mesma acusa\u00e7\u00e3o. Fui fotografado na Pol\u00edcia Federal com uma plaqueta no pesco\u00e7o na qual estava gravado o n\u00famero 024-0. A escolha do n\u00famero n\u00e3o era por acaso.<\/p>\n<p><strong>Estava claro para voc\u00ea que era uma a\u00e7\u00e3o contra a homossexualidade?<\/strong><\/p>\n<p>Eles n\u00e3o sabiam muito bem o que era homossexualidade. Sabiam que era uma coisa ruim, mas n\u00e3o definiam bem. Quando chegamos l\u00e1 na pol\u00edcia, engravatados e acompanhados pelo advogado do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo, o cara perguntou: \u2018Como devo chamar o senhor?\u2019 Eu respondi: \u2018Pode me chamar de veado mesmo\u2019. Acho que ele estava esperando uma travesti ou alguma outra coisa pr\u00f3xima do conceito dele do que seria homossexualidade.\u00a0Num dos interrogat\u00f3rios, come\u00e7ou a fazer perguntas como se eu fosse um guerrilheiro que tivesse ido para Cuba. At\u00e9 o que o escriv\u00e3o parou, os dois cochicharam e resolveram cancelar aquele interrogat\u00f3rio e marcar outro.<\/p>\n<p><strong>Pode falar do cen\u00e1rio que encontrou na sua volta?<\/strong><\/p>\n<p>Quando cheguei, estavam em plena floresc\u00eancia no Pa\u00eds o Ney Matogrosso e os Secos &amp; Molhados, assim como os Dzi Croquettes \u2013 uma corruptela de The Cockettes, que existia em S\u00e3o Francisco. Era a esculhamba\u00e7\u00e3o da esculhamba\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m encontrei uma quantidade espantosa de travestis nas ruas. Em tr\u00eas anos de ditadura, portanto, aconteceu uma coisa que nunca consegui entender. Como \u00e9 que eclodiu esse fen\u00f4meno?<\/p>\n<p><strong>Que palpite voc\u00ea arriscaria?<\/strong><\/p>\n<p>Provavelmente essas rea\u00e7\u00f5es radicais eram uma resposta \u00e0 repress\u00e3o. Ou seja: est\u00e1vamos reagindo \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica de uma maneira pol\u00edtica, mas que eles n\u00e3o entendiam bem.<\/p>\n<p><strong>Como acabou o inqu\u00e9rito sobre a mat\u00e9ria no Lampi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o levou a nada. O juiz disse que n\u00e3o havia provas contundentes de que hav\u00edamos atentado contra a moral e os bons costumes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogs.estadao.com.br\/roldao-arruda\/files\/2014\/03\/27TREVISAN.Lampi%C3%A3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/blogs.estadao.com.br\/roldao-arruda\/files\/2014\/03\/27TREVISAN.Lampi%C3%A3o.jpg\" width=\"300\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Que outro tipo de a\u00e7\u00e3o repressiva o jornal enfrentou?<\/strong><\/p>\n<p>A coisa mais pr\u00f3xima disso foram os folhetos espalhados pela cidade, quando come\u00e7aram os atentados a bomba contra bancas que vendiam jornais alternativos, como\u00a0<em>Pasquim<\/em>,\u00a0<em>Movimento<\/em>,<em>Opini\u00e3o<\/em>. O\u00a0<em>Lampi\u00e3o<\/em>\u00a0foi colocado no meio, apesar de viver escondido nas bancas. Os donos das bancas n\u00e3o expunham o jornal, porque era considerado uma coisa pornogr\u00e1fica.<\/p>\n<p><strong>Como foi a rela\u00e7\u00e3o do movimento com a esquerda?<\/strong><\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, tamb\u00e9m tivemos embates com a esquerda. Se voc\u00ea considerar que a esquerda era a margem do que estava acontecendo, n\u00f3s fic\u00e1vamos \u00e0 margem da margem. \u00c9ramos indesejados pela direita e pela esquerda. \u00c9 interessante notar que toda a nossa postura, enquanto movimento social que reivindicava direitos, era de esquerda.<\/p>\n<p><strong>A ditadura n\u00e3o era o inimigo comum a todos?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na vis\u00e3o da esquerda tradicional, os movimentos sociais novos eram diversionistas, dividiam o movimento oper\u00e1rio.\u00a0Por essa vis\u00e3o, \u00e9ramos minorias e dever\u00edamos nos submeter \u00e0 prioridade pol\u00edtica, que era o movimento prolet\u00e1rio. A realidade \u00e9 que eles mal nos suportavam. Isso chegou \u00e0s vias de fato durante um congresso do MR-8, quando algumas feministas apanharam. A nossa grande experi\u00eancia da ditadura pode ser resumida assim: os generais eram horr\u00edveis e a esquerda, autof\u00e1gica. Isso, infelizmente, est\u00e1 sendo pouco analisado. Ningu\u00e9m est\u00e1 botando o dedo na ferida, para ver como era realmente a esquerda no per\u00edodo. \u00c9 muito importante rever toda essa quest\u00e3o das pris\u00f5es ilegais e injustas, das torturas, mortes, mas isso n\u00e3o \u00e9 motivo para esquecer o que foi a esquerda.<\/p>\n<p><strong>Por que? Isso ajudaria a entender a esquerda hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Os cacoetes das esquerdas do per\u00edodo formaram as esquerdas que vieram a tomar a poder, os governos de centro e de esquerda que se sucederam ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Isso teve um efeito muito danoso, porque n\u00e3o soubemos, na redemocratiza\u00e7\u00e3o, sequer reformar nosso Ex\u00e9rcito e a Pol\u00edcia Militar. \u00c9 um esc\u00e2ndalo ver que, depois de 50 anos, do golpe militar, ainda existam pessoas dispostas a ir para a ruas manifestar apoio ao Ex\u00e9rcito que deu o golpe.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a Lei da Anistia, de 1979?<\/strong><\/p>\n<p>Foi uma tentativa de se colocar uma pedra em cima de tudo o que ocorreu e deixar intocadas as velhas ideias. Aconteceu que essa pedra criou vermes, que come\u00e7aram a se multiplicar. \u00c9 a quest\u00e3o da sombra junguiana. O Jung diz que a sombra no interior da psique \u00e9 perigos\u00edssima, porque se desdobra, enquanto n\u00e3o chega \u00e0 luz do consciente.<\/p>\n<p><strong>O que lembra das den\u00fancias de persegui\u00e7\u00f5es promovidas pelo delegado Wilson Richetti, na d\u00e9cada de 1970?<\/strong><\/p>\n<p>De fato, ele promovia persegui\u00e7\u00f5es. Ia ao gueto, \u00e0s bocas, abria os cambur\u00f5es e mandava os veados entrarem. \u2018Quem for veado vai entrando\u2019, dizia. Era na porrada. Quem sofria mais eram as travestis. Em 1982, quando fizemos uma manifesta\u00e7\u00e3o contra as a\u00e7\u00f5es policiais fomos reprimidos. Aquilo era consequ\u00eancia de uma coisa fascista e reacion\u00e1ria que viv\u00edamos no Pa\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogs.estadao.com.br\/roldao-arruda\/files\/2014\/03\/27trevisan.parada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/blogs.estadao.com.br\/roldao-arruda\/files\/2014\/03\/27trevisan.parada.jpg\" width=\"500\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Os partidos pol\u00edticos, as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda apoiaram essa manifesta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Veja voc\u00ea: na \u00e9poca das grandes manifesta\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias no ABC, os homossexuais foram ao Est\u00e1dio da Vila Euclides, em S\u00e3o Bernardo, desfilar na comemora\u00e7\u00e3o do 1.\u00ba de Maio. Foi o momento do racha do Grupo Somos, porque uma parte dele, da qual eu fazia parte, se recusou a desfilar sob a bandeira da Converg\u00eancia Socialista. N\u00e3o quer\u00edamos ser confundidos com nenhum partido. Defend\u00edamos a exist\u00eancia de um movimento aut\u00f4nomo. Mas, como eu dizia, uma parte foi ao encontro da classe oper\u00e1ria, que estaria abrindo o caminho para o socialismo, nos aben\u00e7oando para um novo mundo, etc\u00e9tera e etc\u00e9tera. Quando fizemos a nossa passeata no entanto, para protestar contra o Richetti, n\u00e3o apareceu um \u00fanico membro de sindicato, de partido pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Nenhum?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, o Suplicy apareceu. Ele acompanhou de perto a quest\u00e3o das travestis. Foi muito solid\u00e1rio. Mas era a exce\u00e7\u00e3o. Nossos aliados estavam ao nosso lado enquanto interessava a eles, n\u00e3o quando interessava a n\u00f3s. Foi um aprendizado muito doloroso.\u00a0Quero deixar claro que n\u00e3o estou desculpando a ditadura. Sa\u00ed do Pa\u00eds porque o clima era insuport\u00e1vel, porque nossos amigos estavam sendo mortos. Mas isso n\u00e3o me impede de analisar a esquerda.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sofreu alguma censura da esquerda?<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez mandei para o jornal\u00a0<em>Movimento<\/em>\u00a0um artigo que era uma esp\u00e9cie de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o dos direitos dos homossexuais. O texto foi submetido aos censores do jornal, em Bras\u00edlia, e vetado. O pessoal respons\u00e1vel pela edi\u00e7\u00e3o do jornal me devolveu o artigo datilografado, explicando que tinha sido censurado. Ao verificar o original, por\u00e9m, constatei que, antes de ir a Bras\u00edlia, havia sido inteirinho riscado pelo editor do\u00a0<em>Movimento<\/em>. Ele deixou s\u00f3 o que lhe convinha. Sobrou pouca coisa para o censor, que, mesmo assim, vetou. Posso dizer que fui submetido a uma dupla censura. As esquerdas eram autorit\u00e1rias e travadas.<\/p>\n<p>Fonte: Estado de S. Paulo<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan decidiu deixar o Brasil em 1973, ap\u00f3s a ditadura proibir a exibi\u00e7\u00e3o do filme Orgia ou o Homem que Deu Cria, que ele havia escrito e dirigido. 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