{"id":530516,"date":"2026-05-27T07:04:51","date_gmt":"2026-05-27T10:04:51","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=530516"},"modified":"2026-05-27T07:05:41","modified_gmt":"2026-05-27T10:05:41","slug":"sem-assistencia-mulher-que-foi-resgatada-de-trabalho-escravo-pede-para-voltar-a-casa-dos-patroes-no-recife","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/sem-assistencia-mulher-que-foi-resgatada-de-trabalho-escravo-pede-para-voltar-a-casa-dos-patroes-no-recife\/","title":{"rendered":"Sem assist\u00eancia, mulher que foi resgatada de trabalho escravo pede para voltar \u00e0 casa dos patr\u00f5es no Recife"},"content":{"rendered":"<div class=\"cabecalhoNot mt-3\">\n<h1 class=\"tituloNot font-bold text-[28px] leading-8 md:text-[40px] md:leading-11 tracking-[-4%] text-black mt-1 mb-5\"><\/h1>\n<p class=\"descricaoNot font-normal text-[14px] md:text-[14px] tracking-[-3%] my-5\"><strong>Empregadora diz que n\u00e3o acolheu a trabalhadora. Relat\u00f3rio ao qual o Diario teve acesso aponta uma rotina de supress\u00e3o de direitos trabalhistas fundamentais ao longo de d\u00e9cadas<\/strong><\/p>\n<p class=\"assinaturaNot font-bold text-[14px] md:text-[14px] tracking-[-5%] text-[var(--var-primary--color)]\">Jorge Cosme, do Diario de Pernambuco<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"corpoNot w-full py-5 text-[16px] font-normal leading-normal tracking-normal text-black\">\n<div><\/div>\n<div class=\"fotoNot\">\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-530519 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683-620x413.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683-620x413.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683-300x200.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683-768x512.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683-160x106.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683-450x300.jpg 450w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683-640x427.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p class=\"credFotoNot text-[12px] mb-2.5 font-medium tracking-[-3%] text-center text-black\">Mulher tinha p\u00e9s com muitos calos. Ela fazia o mesmo trajeto de 1,2 km v\u00e1rias vezes ao dia. (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/div>\n<p class=\"texto\">Na manh\u00e3 do \u00faltimo 10 de maio, In\u00eas*, de 54 anos, estava de novo diante daquela casa de muro e fachada todos revestidos de pequenos azulejos de cer\u00e2mica. N\u00e3o foi falta de aviso. Em 28 de abril, ela esteve no Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT), no Recife, para dizer que queria voltar ao conv\u00edvio dos antigos empregadores. Durante aquela visita ao MPT, relatou n\u00e3o estar sendo acompanhada pelo poder p\u00fablico estadual ou municipal, apesar das promessas ouvidas quando foi resgatada em situa\u00e7\u00e3o de trabalho escravo dom\u00e9stico naquela mesma casa que agora ela voltava a bater \u00e0 porta.<\/p>\n<p class=\"texto\">O resgate de In\u00eas\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.diariodepernambuco.com.br\/vida-urbana\/2025\/11\/11700511-domestica-e-resgatada-em-situacao-analoga-a-de-escravidao-no-recife.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ocorreu em 7 de novembro de 2025<\/a><\/strong>\u00a0no bairro de Porto da Madeira, Zona Norte do Recife. Na inspe\u00e7\u00e3o, o Grupo Especial de Fiscaliza\u00e7\u00e3o M\u00f3vel (GEFM) constatou &#8220;grav\u00edssimas viola\u00e7\u00f5es de direitos fundamentais&#8221;, entre elas aus\u00eancia de pagamento de sal\u00e1rios, jornada exaustiva, restri\u00e7\u00e3o de liberdade, tratamento discriminat\u00f3rio, viol\u00eancia f\u00edsica e moral e explora\u00e7\u00e3o de trabalhadora analfabeta em situa\u00e7\u00e3o de hipervulnerabilidade social.<\/p>\n<p class=\"texto\">O GEFM identificou que In\u00eas trabalhava para quatro pessoas, sendo uma mulher e seus tr\u00eas filhos. A Pol\u00edcia Federal (PF) instaurou inqu\u00e9rito e poder\u00e1 indici\u00e1-los pelo crime de reduzir algu\u00e9m \u00e0 condi\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 de escravo.<\/p>\n<p class=\"texto\">O\u00a0<strong>Diario de Pernambuco<\/strong>\u00a0teve acesso ao relat\u00f3rio do resgate, que revela uma rotina de supress\u00e3o de direitos trabalhistas fundamentais ao longo de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Omiss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">A visita de In\u00eas ao MPT resultou em um relat\u00f3rio intitulado &#8220;Da omiss\u00e3o das redes estadual e municipal de assist\u00eancia social no p\u00f3s-resgate de trabalhadora submetida a trabalho an\u00e1logo ao de escravo dom\u00e9stico no Recife\/PE&#8221;, assinado pela auditora-fiscal do Trabalho Maria Neuzeli Arantes de Oliveira, que tamb\u00e9m participou do resgate.<\/p>\n<p class=\"texto\">A auditora-fiscal resume no texto que o desejo de retornar aos empregadores se devia a um &#8220;profundo abandono social, institucional e afetivo a que a trabalhadora foi submetida ap\u00f3s o resgate, revelando falha sist\u00eamica e continuada das pol\u00edticas p\u00fablicas que deveriam assegurar sua prote\u00e7\u00e3o integral&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">In\u00eas declarou na ocasi\u00e3o que, ap\u00f3s a primeira e \u00fanica visita da assist\u00eancia social, em 12 de novembro de 2025, ainda durante o per\u00edodo da opera\u00e7\u00e3o de fiscaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o recebeu qualquer acompanhamento, atendimento continuado ou apoio por parte da rede p\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"texto\">Ela afirma que foram prometidos \u00e0 \u00e9poca do resgate acompanhamento pela assist\u00eancia social, atendimento m\u00e9dico e odontol\u00f3gico e fornecimento regular de cesta b\u00e1sica. \u201cContudo, nenhuma dessas promessas foi cumprida, caracterizando evidente quebra de confian\u00e7a institucional e abandono posterior ao resgate\u201d, conclui Neuzeli no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"texto\">A trabalhadora tamb\u00e9m disse n\u00e3o receber apoio efetivo ou material de sua fam\u00edlia biol\u00f3gica, sentindo-se &#8220;sozinha, abandonada e desamparada&#8221;. No documento, a auditora-fiscal conclui que havia risco concreto de retorno ao ciclo de explora\u00e7\u00e3o. Ela pediu ainda assist\u00eancia ao Minist\u00e9rio do Desenvolvimento e Assist\u00eancia Social, Fam\u00edlia e Combate \u00e0 Fome, n\u00e3o recebendo retorno.<\/p>\n<p class=\"texto\">Em nota, o MPT tamb\u00e9m afirma entender que a situa\u00e7\u00e3o demonstra &#8220;que, aparentemente, houve falha no atendimento socioassistencial, o qual precisa ser integral e continuado, diante do alto grau de vulnerabilidade social e econ\u00f4mica da trabalhadora&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">O advogado da empregadora nega que In\u00eas esteja na casa de sua cliente, apesar de confirmar que ela esteve no local pedindo para voltar. \u201cSe ela recebesse essa pessoa, poderia incorrer em um risco de futuramente ser sancionada, porque o caso ainda permanece em discuss\u00e3o na Justi\u00e7a\u201d, argumenta. Um irm\u00e3o da trabalhadora, entretanto, garante que a viu na resid\u00eancia na \u00faltima sexta-feira (22).<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>In\u00edcio<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">In\u00eas come\u00e7ou a trabalhar naquela casa em 1989, quando tinha 16 anos, passando a realizar servi\u00e7os dom\u00e9sticos em jornadas exaustivas e sem receber sal\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"texto\">Ela tinha dez irm\u00e3os e vivia em \u201csitua\u00e7\u00e3o de fome\u201d, indica o relat\u00f3rio. Cresceu vendo o pai, que era pescador, bater na sua m\u00e3e, dona de casa.<\/p>\n<p class=\"texto\">Era naquele cen\u00e1rio de grande vulnerabilidade que se encontrava quando a empregadora prometeu pag\u00e1-la pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os dom\u00e9sticos, o que parecia uma oportunidade \u00fanica de quebrar o ciclo que vivia.<\/p>\n<p class=\"texto\">Os pagamentos at\u00e9 teriam ocorrido de in\u00edcio. In\u00eas n\u00e3o lembra a data exata, mas diz que o repasse parou quando a moeda padr\u00e3o do pa\u00eds ainda era o Cruzeiro, tendo, assim, que trabalhar somente pela comida.<\/p>\n<p class=\"texto\">Questionada durante o resgate sobre n\u00e3o pagar sal\u00e1rio, a empregadora respondeu que \u201cquando deixou de receber o sal\u00e1rio, a senhora In\u00eas n\u00e3o se preocupou e nem pediu para voltar a receber\u201d. J\u00e1 um dos filhos da patroa, que tamb\u00e9m responde pelo caso, comentou que \u201csua m\u00e3e compra tudo que a senhora In\u00eas precisa; que a senhora In\u00eas n\u00e3o precisa de dinheiro porque ela j\u00e1 recebe tudo da sua m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Rotina<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">A empregada dom\u00e9stica come\u00e7ava a trabalhar \u00e0s 6h30 e terminava ap\u00f3s servir o lanche noturno da patroa, que costumava ocorrer entre 23h30 e meia-noite. Como nunca teve direito a um celular, dormia com o r\u00e1dio ligado, para acompanhar o an\u00fancio das horas e n\u00e3o se atrasar.<\/p>\n<p class=\"texto\">Ao longo do dia, In\u00eas ia at\u00e9 o com\u00e9rcio de Beberibe, na Zona Norte, pelo menos cinco vezes, em um trajeto de aproximadamente 1,2 km. Duas dessas viagens, de manh\u00e3 e \u00e0 tarde, eram para atender \u00e0 exig\u00eancia da empregadora de consumir p\u00e3es quentes.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;A empregadora impunha, ainda, uma rotina exaustiva: a v\u00edtima devia, primeiro, ir ao com\u00e9rcio para fazer o or\u00e7amento das compras, retornar \u00e0 resid\u00eancia e, s\u00f3 ent\u00e3o, voltar ao local com o dinheiro para pagar os produtos&#8221;, diz o relat\u00f3rio de fiscaliza\u00e7\u00e3o. A funcion\u00e1ria tinha muitos calos nos p\u00e9s, o que os auditores acreditam ter rela\u00e7\u00e3o com essas peregrina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"texto\">In\u00eas chegou a ser cadastrada no aux\u00edlio emergencial durante a pandemia de Covid-19. O valor, entretanto, era repartido entre a fam\u00edlia da patroa. &#8220;[A empregadora] era muito malvada com In\u00eas. N\u00e3o pagava sal\u00e1rio e ainda ficava com o aux\u00edlio emergencial&#8221;, declarou uma comerciante ouvida pela fiscaliza\u00e7\u00e3o, que conheceu a empregada a partir das caminhadas di\u00e1rias que ela fazia na regi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto\">A reportagem conversou com a comerciante, que n\u00e3o quis se identificar. \u201cEu estou chocada, n\u00e3o consigo acreditar\u201d, disse ela sobre In\u00eas ter ido \u00e0 casa da antiga empregadora pedindo para voltar.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Como deixaram In\u00eas voltar para uma casa dessa? \u00c9 um crime deix\u00e1-la voltar&#8221;, comenta. &#8220;Se ela voltou n\u00e3o foi porque quis. Foi por conta de um prato de comida. Ela \u00e9 uma menina muito sofrida&#8221;.<\/p>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-530518 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_resgate-895755.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_resgate-895755.jpg 600w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_resgate-895755-300x200.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_resgate-895755-160x106.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_resgate-895755-450x300.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/div>\n<div class=\"container-gallery\">\n<div class=\"caption-container\">\n<p id=\"caption\">Dia do resgate, em novembro de 2025. (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"gallery-hash-1\" class=\"row gallery-container\">\n<div class=\"gallery-item\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\"><strong>Viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Al\u00e9m da comerciante, o relat\u00f3rio indica que a situa\u00e7\u00e3o de abusos vivenciada por In\u00eas tamb\u00e9m gerava como\u00e7\u00e3o na vizinhan\u00e7a, que &#8220;assistia aos fatos com revolta&#8221;. Eles disseram, entretanto, n\u00e3o intervir por temer repres\u00e1lias.<\/p>\n<p class=\"texto\">Ainda assim, uma vizinha tentou libertar a trabalhadora h\u00e1 cerca de quatro anos. Segundo o documento, o cunhado e ela retiraram In\u00eas de casa e a levaram para uma resid\u00eancia em Piedade, em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, no Grande Recife. A empregadora teria ido at\u00e9 a casa dos pais de In\u00eas e os obrigado a revelar o paradeiro da filha e, em seguida, retirado ela da casa em que estava.<\/p>\n<p class=\"texto\">In\u00eas contou ao GEFM que a patroa prometeu pagar sal\u00e1rio e dar um celular para convenc\u00ea-la a voltar, mas n\u00e3o cumpriu o prometido. &#8220;Depois que voltou ficou pior porque as proibi\u00e7\u00f5es de conversar com os vizinhos aumentaram&#8221;, declarou aos auditores-fiscais.<\/p>\n<p class=\"texto\">Outra vizinha afirmou que a mulher era obrigada a passar Natal e Ano Novo na casa da patroa, sem poder sair nem para visitar a fam\u00edlia. Quando a empregadora sa\u00eda de casa, In\u00eas cochilava escondida na varanda, pr\u00f3xima ao port\u00e3o, para escutar o barulho do carro chegando e se levantar antes.<\/p>\n<p class=\"texto\">No dia do resgate, a trabalhadora citou j\u00e1 ter sido xingada pela patroa, mas negou epis\u00f3dios de agress\u00e3o f\u00edsica, o que n\u00e3o soou convincente. Dias depois, quando j\u00e1 estaria mais \u00e0 vontade e menos intimidada, admitiu ter sido agredida algumas vezes.<\/p>\n<p class=\"texto\">A mulher relatou ter recebido um tapa que cortou a boca, um murro que deixou a marca do anel no rosto e tamb\u00e9m ter apanhado na m\u00e3o com ralador de coco de madeira.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;A trabalhadora n\u00e3o gritava, apenas deixava as l\u00e1grimas escorrerem. N\u00e3o tinha ningu\u00e9m para conversar&#8221;, diz o documento do GEFM.<\/p>\n<p class=\"texto\">O grupo tamb\u00e9m conclui no relat\u00f3rio de fiscaliza\u00e7\u00e3o que In\u00eas vivia em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza e precariedade, o que refletia em sua apar\u00eancia f\u00edsica. &#8220;Em sua arcada dent\u00e1ria, restavam apenas tr\u00eas dentes deteriorados. Ela frequentou o dentista somente para extra\u00e7\u00f5es dos dentes comprometidos e nunca teve acesso a atendimento m\u00e9dico&#8221;, diz o relato. Ela nunca aprendeu a ler.<\/p>\n<p class=\"texto\">O documento segue: &#8220;Ela jamais frequentou um sal\u00e3o de beleza para cuidados com as unhas ou cabelos; estes \u00faltimos eram cortados pelos empregadores com m\u00e1quina el\u00e9trica. N\u00e3o usava batom nem brincos por falta de recursos financeiros, e suas vestimentas eram geralmente usadas ou doadas. A totalidade de seus pertences, recolhidos durante o resgate, coube em apenas duas sacolas de compras&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Descaso<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">A auditora-fiscal Maria Neuzeli tem cr\u00edticas \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos governos estadual e municipal desde o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o de resgate do GEFM, em 31 de outubro de 2025. Na ocasi\u00e3o, a equipe tentou contato com o Governo de Pernambuco e a Prefeitura do Recife, mas n\u00e3o obteve apoio efetivo.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Nenhuma provid\u00eancia concreta foi adotada antes do in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o para garantir vagas de acolhimento, equipes mobilizadas ou fluxos de atendimento emergencial&#8221;, escreve.<\/p>\n<p class=\"texto\">In\u00eas chegou a ser encaminhada a um abrigo no Recife ap\u00f3s ser retirada da casa. O espa\u00e7o foi considerado por Neuzeli como &#8220;extremamente prec\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">A trabalhadora se recusou a permanecer no abrigo, sendo conduzida \u00e0 resid\u00eancia de sua m\u00e3e, tamb\u00e9m considerada em situa\u00e7\u00e3o de &#8220;extrema vulnerabilidade&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">Por meio de uma campanha privada informal, In\u00eas conseguiu uma casa alugada na mesma rua da fam\u00edlia, com mobili\u00e1rio e itens b\u00e1sicos &#8211; &#8220;\u00f4nus que jamais deveria ter reca\u00eddo sobre a sociedade civil, mas sim sobre o Estado e o Munic\u00edpio&#8221;, diz o relat\u00f3rio de Neuzeli.<\/p>\n<p class=\"texto\">Tamb\u00e9m ap\u00f3s o resgate de In\u00eas, os empregadores reconheceram a exist\u00eancia do v\u00ednculo empregat\u00edcio dela e firmaram com o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) um Compromisso de Ajustamento de Conduta.<\/p>\n<p class=\"texto\">Entre as obriga\u00e7\u00f5es assumidas estavam: formalizar contrato de trabalho com data de admiss\u00e3o em 01\/11\/1989 e rescis\u00e3o 07\/11\/2025; efetuar recolhimento das contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias devidas referentes a pelo menos os \u00faltimos cinco anos; realizar pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o por dano moral de R$ 120 mil, em 120 parcelas de R$ 1 mil; contribuir por conta pr\u00f3pria em nome da trabalhadora para a Previd\u00eancia Social como Contribuinte Facultativo por 120 meses, prorrog\u00e1veis por mais 12 meses.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;A hist\u00f3rias dela demonstra que o esfor\u00e7o da auditoria-fiscal do trabalho em identificar, fiscalizar e resgatar trabalhadores nessas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 insuficiente e at\u00e9 mesmo in\u00f3cuo se n\u00e3o for acompanhado de uma pol\u00edtica efetiva de acolhimento, prote\u00e7\u00e3o, acompanhamento e reinser\u00e7\u00e3o social&#8221;, acrescenta Neuzeli.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Essa trabalhadora n\u00e3o foi v\u00edtima apenas da explora\u00e7\u00e3o aviltante dos empregadores. Ela foi v\u00edtima tamb\u00e9m do descaso das pol\u00edticas da rede social de acolhimento&#8221;, emenda.<\/p>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-530517 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_ines-895774.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_ines-895774.jpg 600w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_ines-895774-300x200.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_ines-895774-160x106.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1_ines-895774-450x300.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/div>\n<div class=\"container-gallery\">\n<div class=\"caption-container\">\n<p id=\"caption\">In\u00eas, v\u00edtima de trabalho escravo. (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\"><strong>Respostas<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Procurada, a\u00a0defesa da empregadora diz\u00a0que n\u00e3o se manifestar\u00e1 neste momento.<\/p>\n<p class=\"texto\">A\u00a0Prefeitura do Recife afirma que\u00a0foi ofertado acompanhamento desde novembro de 2025. A nota ressalta que a Secretaria de Assist\u00eancia Social e Combate \u00e0 Fome (SAS) tamb\u00e9m colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o acolhimento institucional, por\u00e9m In\u00eas optou por voltar para a casa de seus pais. &#8220;Todas as informa\u00e7\u00f5es acerca do caso ser\u00e3o repassadas pela SAS ao Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT)&#8221;, diz trecho da nota.<\/p>\n<p class=\"texto\">O Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria Executiva de Direitos Humanos da Secretaria de Justi\u00e7a, Direitos Humanos e Preven\u00e7\u00e3o \u00e0 Viol\u00eancia, informa que realizou articula\u00e7\u00e3o imediata com o munic\u00edpio do Recife, acionando a rede socioassistencial local para o acompanhamento do caso, conforme previsto no protocolo nacional de atendimento.<\/p>\n<p class=\"texto\">A Pol\u00edcia Federal (PF) declara que foi instaurado inqu\u00e9rito para apurar a situa\u00e7\u00e3o e que as dilig\u00eancias est\u00e3o em andamento. J\u00e1 o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) afirma ter recebido o inqu\u00e9rito pela primeira vez em fevereiro deste ano, ocasi\u00e3o na qual autorizou a continuidade da investiga\u00e7\u00e3o e solicitou a realiza\u00e7\u00e3o de dilig\u00eancias, devolvendo os autos \u00e0 Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p class=\"texto\">A Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o (DPU), tamb\u00e9m por nota, informa ter sido avisada pelo advogado da fam\u00edlia que a trabalhadora estava na porta da casa da empregadora pedindo para voltar na manh\u00e3 do dia 10. O \u00f3rg\u00e3o avalia que, diante da informa\u00e7\u00e3o de que a assist\u00eancia social n\u00e3o mais acompanhou a resgatada, &#8220;pode-se afirmar que houve falha no atendimento das equipes do CREAS [Centro de Refer\u00eancia Especializado de Assist\u00eancia Social] ligado \u00e0 municipalidade&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">J\u00e1 o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento e Assist\u00eancia Social, Fam\u00edlia e Combate \u00e0 Fome responde n\u00e3o comentar situa\u00e7\u00f5es individualizadas em observ\u00e2ncia \u00e0 Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados Pessoais (LGPD) e \u00e0s normas de sigilo que regem o atendimento socioassistencial.<\/p>\n<p class=\"texto\">O\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/mpt.mp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">MPT<\/a><\/strong>\u00a0confirma ter recebido a empregada dom\u00e9stica em 28 de abril, ocasi\u00e3o em que ela relatou estar se sentindo sozinha. &#8220;Na ocasi\u00e3o, foi esclarecido que ela poderia ser recontratada pelos empregadores, desde que respeitados os seus direitos trabalhistas, incluindo o registro formal do contrato de emprego, o limite da jornada de trabalho e a salubridade das condi\u00e7\u00f5es de alojamento&#8221;, diz a nota.<\/p>\n<p class=\"texto\">Na mesma data, afirma o MPT, a situa\u00e7\u00e3o foi passada por telefone para o secret\u00e1rio-executivo de Assist\u00eancia Social e Combate \u00e0 Fome do Recife, que se prontificou a realizar novo atendimento \u00e0 trabalhadora.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;O pedido de atendimento \u00e0 v\u00edtima foi reiterado pelo \u00f3rg\u00e3o ministerial nos dias 12 e 21 de maio&#8221;, acrescenta o MPT. Em resposta ao pedido realizado no dia 12, a secretaria municipal encaminhou relat\u00f3rio informando que a v\u00edtima n\u00e3o foi localizada.<\/p>\n<p class=\"texto\">No terceiro pedido de atendimento \u00e0 v\u00edtima, no dia 21 de maio, o MPT informou o endere\u00e7o da empregadora para realiza\u00e7\u00e3o de dilig\u00eancia. &#8220;At\u00e9 o momento, o \u00f3rg\u00e3o ministerial aguarda resposta da a Secretaria de Assist\u00eancia Social e Combate \u00e0 Fome do Recife&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empregadora diz que n\u00e3o acolheu a trabalhadora. Relat\u00f3rio ao qual o Diario teve acesso aponta uma rotina de supress\u00e3o de direitos trabalhistas fundamentais ao longo de d\u00e9cadas<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":530519,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4,6],"tags":[],"class_list":["post-530516","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/trabalho_escravo-895683.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/530516","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=530516"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/530516\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/530519"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=530516"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=530516"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=530516"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}