{"id":532688,"date":"2026-06-14T08:08:26","date_gmt":"2026-06-14T11:08:26","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=532688"},"modified":"2026-06-14T08:08:26","modified_gmt":"2026-06-14T11:08:26","slug":"nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudaram-e-chegaram-as-principais-avenidas-de-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudaram-e-chegaram-as-principais-avenidas-de-salvador\/","title":{"rendered":"Nova geografia do crack: como as cracol\u00e2ndias mudaram e chegaram \u00e0s principais avenidas de Salvador"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1><\/h1>\n<h2>Fen\u00f4meno antes concentrado no Centro Hist\u00f3rico avan\u00e7a para os principais corredores da cidade<\/h2>\n<div>\n<div data-authorid=\"24\">\n<div class=\"atr-article-autor\">Por\u00a0 <a href=\"https:\/\/atarde.com.br\/autor\/24\/beatriz-santos\" rel=\"author\">Beatriz Santos<\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<figure class=\"inlineImage artigo-destaque\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/Artigo-Destaque\/1390000\/500x300\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456-ScaleDownProportional.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2FArtigo-Destaque%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456.webp%3Fxid%3D7108008%26resize%3D1000%252C500%26t%3D1781296643&amp;xid=7108008\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/Artigo-Destaque\/1390000\/1200x720\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456-ScaleDownProportional.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2FArtigo-Destaque%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456.webp%3Fxid%3D7108008%26resize%3D1000%252C500%26t%3D1781296643&amp;xid=7108008\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/Artigo-Destaque\/1390000\/1200x720\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456-ScaleDownProportional.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2FArtigo-Destaque%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456.webp%3Fxid%3D7108008%26resize%3D1000%252C500%26t%3D1781296643&amp;xid=7108008\" alt=\"Casal usando crack no canteiro central da Avenida ACM, pr\u00f3ximo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o BTR Cidadela em 2025\" \/><\/picture><figcaption>Casal usando crack no canteiro central da Avenida ACM, pr\u00f3ximo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o BTR Cidadela em 2025 &#8211; Foto: Wendel Galter | Ag. A Tarde<\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"article\">\n<p>Quem passa diariamente pelas avenidas ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves encontra uma paisagem que, at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, era associada quase exclusivamente ao\u00a0<a href=\"https:\/\/atarde.com.br\/?q=Centro+Hist%C3%B3rico+de+Salvador\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-rel-defined=\"\">Centro Hist\u00f3rico de Salvador<\/a>.<\/p>\n<p>Barracos improvisados sob viadutos, ac\u00famulo de pertences, pessoas vivendo em situa\u00e7\u00e3o de rua e cenas abertas de uso de drogas passaram a ocupar alguns dos principais corredores econ\u00f4micos e de mobilidade da capital baiana.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o revela uma mudan\u00e7a silenciosa na geografia da exclus\u00e3o urbana. Durante d\u00e9cadas, a imagem da chamada cracol\u00e2ndia em Salvador esteve concentrada em regi\u00f5es como Pelourinho, Com\u00e9rcio, Nazar\u00e9, Baixa dos Sapateiros e Santo Ant\u00f4nio Al\u00e9m do Carmo, \u00e1reas historicamente marcadas pela degrada\u00e7\u00e3o urbana e pela presen\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es socialmente vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Hoje, embora esses locais continuem concentrando parte significativa desse fen\u00f4meno, novos territ\u00f3rios passaram a integrar o mapa das cenas abertas de uso de drogas na cidade.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as concentra\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios deixaram de ocupar exclusivamente \u00e1reas hist\u00f3ricas e passaram a surgir tamb\u00e9m em regi\u00f5es de intenso fluxo de pessoas, pr\u00f3ximas a esta\u00e7\u00f5es de transporte coletivo, centros comerciais, polos empresariais e importantes eixos econ\u00f4micos da capital.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a dessas ocupa\u00e7\u00f5es em avenidas movimentadas tornou o problema mais vis\u00edvel para milhares de soteropolitanos, que passaram a conviver diariamente com uma realidade antes menos presente em suas rotinas.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a, por\u00e9m, vai al\u00e9m de uma simples altera\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. O fen\u00f4meno est\u00e1 ligado ao crescimento da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, \u00e0 expans\u00e3o do consumo de drogas, \u00e0s dificuldades de acesso \u00e0 moradia e aos desafios das pol\u00edticas de assist\u00eancia social e sa\u00fade mental, refletindo transforma\u00e7\u00f5es sociais e urbanas acumuladas ao longo de d\u00e9cadas.<\/p>\n<h2>Como o crack chegou ao Brasil e a Salvador<\/h2>\n<p>Embora tenha se tornado um dos maiores desafios sociais e de sa\u00fade p\u00fablica das \u00faltimas d\u00e9cadas, a chegada do crack ao Brasil ocorreu de forma relativamente silenciosa. A droga surgiu nos Estados Unidos durante os anos 1980, inicialmente concentrada em comunidades vulner\u00e1veis de grandes centros urbanos.<\/p>\n<p>Produzido a partir da pasta-base da coca\u00edna e consumido por meio da fuma\u00e7a, o crack rapidamente ganhou notoriedade pelo alto potencial de depend\u00eancia e pelos impactos sociais associados ao seu uso.<\/p>\n<p>Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Uso de Crack da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), os primeiros registros cient\u00edficos sobre o consumo da droga no Brasil foram publicados em 1996. Estudos, no entanto, indicam que a subst\u00e2ncia j\u00e1 circulava em S\u00e3o Paulo desde pelo menos 1991. Em poucos anos, o fen\u00f4meno deixou de ser localizado e passou a se espalhar por diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456.webp%3Fxid%3D7108011&amp;xid=7108011\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456.webp%3Fxid%3D7108011&amp;xid=7108011\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164400202606091456.webp%3Fxid%3D7108011&amp;xid=7108011\" alt=\"Usu\u00e1rios de crack reunidos no centro de S\u00e3o Paulo\" \/><\/picture><figcaption>Usu\u00e1rios de crack reunidos no centro de S\u00e3o Paulo &#8211; Foto: Yasuyoshi Chiba\/AFP<\/figcaption><\/figure>\n<p>Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) ajudam a dimensionar a velocidade dessa expans\u00e3o. Entre pacientes atendidos em servi\u00e7os especializados em depend\u00eancia qu\u00edmica, a propor\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios que consumiam coca\u00edna fumada saltou de 17% para 64%, entre 1990 e 1993. Os n\u00fameros revelam uma transforma\u00e7\u00e3o profunda nos padr\u00f5es de consumo de drogas observados naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Enquanto o avan\u00e7o do crack ainda era analisado principalmente sob a perspectiva do Sudeste brasileiro, Salvador passava por uma mudan\u00e7a que alteraria, de forma duradoura, o cen\u00e1rio do consumo de drogas na capital baiana. Um dos registros mais importantes sobre esse processo foi produzido por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad\/UFBA).<\/p>\n<p>No artigo cient\u00edfico The Opening of South America\u2019s First Needle Exchange Program and an Epidemic of Crack Use in Salvador, Bahia-Brazil, publicado na revista AIDS and Behavior, os pesquisadores Tarc\u00edsio Andrade, In\u00eas Dourado, Maria Guadalupe Medina, Peter Lurie e Kim Anderson documentaram o surgimento de uma verdadeira epidemia de crack em Salvador, a partir de 1996.<\/p>\n<p>O estudo aponta que a droga foi introduzida de forma r\u00e1pida na cidade e atingiu especialmente usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. At\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1990, a coca\u00edna injet\u00e1vel predominava entre determinados grupos de usu\u00e1rios. Com a dissemina\u00e7\u00e3o do crack, entretanto, milhares de pessoas migraram para a forma fumada da subst\u00e2ncia, em um curto intervalo de tempo.<\/p>\n<p>O impacto foi t\u00e3o intenso que atingiu diretamente o funcionamento do primeiro Programa de Troca de Seringas da Am\u00e9rica do Sul, implantado em Salvador em 1995 pelo Cetad (UFBA), como estrat\u00e9gia de preven\u00e7\u00e3o ao HIV entre usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis. \u00c0 medida que o crack avan\u00e7ava, diminu\u00eda a utiliza\u00e7\u00e3o das seringas que motivaram a cria\u00e7\u00e3o do programa.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros registrados pelo Cetad ajudam a compreender a velocidade da mudan\u00e7a. Em 1993, nenhum dos novos pacientes atendidos pelo centro relatava consumo de crack. Em 1996, eles j\u00e1 representavam 4% dos atendimentos iniciais. Um ano depois, o percentual saltou para 14% e continuou crescendo at\u00e9 alcan\u00e7ar 40% dos novos atendimentos, em alguns meses de 1998.<\/p>\n<p>Os primeiros focos identificados pelos pesquisadores estavam concentrados no Pelourinho e em outras \u00e1reas do Centro Hist\u00f3rico. Pouco tempo depois, o consumo j\u00e1 alcan\u00e7ava bairros como Engenho Velho da Federa\u00e7\u00e3o, Calabar, Pituba e Patamares. Entre os fatores apontados para essa r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o estavam o menor custo da droga, a intensidade dos efeitos e a facilidade de consumo por meio do fumo, que dispensava o uso de seringas.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164401202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164401202606091456.jpg%3Fxid%3D7108012&amp;xid=7108012\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164401202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164401202606091456.jpg%3Fxid%3D7108012&amp;xid=7108012\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164401202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164401202606091456.jpg%3Fxid%3D7108012&amp;xid=7108012\" alt=\"Pedra de crack\" \/><\/picture><figcaption>Pedra de crack &#8211; Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o | MP-RS<\/figcaption><\/figure>\n<p>A expans\u00e3o tamb\u00e9m foi acompanhada pela imprensa. Em levantamento realizado pelos pesquisadores da UFBA, a primeira grande refer\u00eancia ao crack em Salvador apareceu em julho de 1996. No ano seguinte, o\u00a0jornal A TARDE\u00a0publicou ao menos 24 reportagens sobre tr\u00e1fico e consumo da droga, muitas delas relacionadas ao Centro Hist\u00f3rico. Uma dessas mat\u00e9rias apontava que o consumo de crack havia triplicado na cidade em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior e que o principal foco de uso estava localizado no Pelourinho.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Fiocruz reconhece Salvador como uma das primeiras cidades brasileiras fora do eixo paulista a registrar, de forma significativa, o avan\u00e7o do crack. No cap\u00edtulo hist\u00f3rico da Pesquisa Nacional sobre o Uso de Crack, pesquisadores citam estudos realizados na capital baiana no in\u00edcio dos anos 2000, que j\u00e1 identificavam os impactos da subst\u00e2ncia sobre a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Um desses levantamentos analisou 125 mulheres usu\u00e1rias de crack recrutadas entre 2001 e 2002 em Salvador, demonstrando que o consumo da droga j\u00e1 estava consolidado em diferentes grupos sociais da cidade.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos seguintes, o fen\u00f4meno deixou de estar restrito aos servi\u00e7os de sa\u00fade e passou a ocupar espa\u00e7os p\u00fablicos cada vez mais vis\u00edveis. Pesquisas desenvolvidas pela UFBA mostram que o consumo de crack passou a ser progressivamente associado \u00e0s popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social, especialmente \u00e0s pessoas que viviam nas ruas.<\/p>\n<p>Na disserta\u00e7\u00e3o &#8220;Condi\u00e7\u00f5es de Exist\u00eancia, Corpo e Sa\u00fade entre a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua em Salvador, Bahia: uma abordagem antropol\u00f3gica&#8221;, defendida no Instituto de Sa\u00fade Coletiva da UFBA pela pesquisadora Maria Magalh\u00e3es Aguiar, o consumo de drogas aparece como elemento cada vez mais presente na realidade das ruas da capital.<\/p>\n<p>Com base em dados divulgados \u00e0 \u00e9poca, o estudo apontava que o consumo de drogas havia aumentado 140% em Salvador e identificava usu\u00e1rios adolescentes, adultos e idosos em situa\u00e7\u00e3o de rua em regi\u00f5es como Cal\u00e7ada, Barra e Centro Hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m relaciona o avan\u00e7o do crack ao agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade social. Entre as pessoas entrevistadas, eram recorrentes relatos envolvendo desemprego, rompimento de v\u00ednculos familiares, viol\u00eancia, transtornos mentais e uso abusivo de subst\u00e2ncias psicoativas.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164402202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164402202606091456.webp%3Fxid%3D7108013&amp;xid=7108013\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164402202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164402202606091456.webp%3Fxid%3D7108013&amp;xid=7108013\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164402202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164402202606091456.webp%3Fxid%3D7108013&amp;xid=7108013\" alt=\"Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracol\u00e2ndias mudaram e chegaram \u00e0s principais avenidas de Salvador\" \/><\/picture><figcaption>Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um retrato semelhante foi apresentado no estudo As Condi\u00e7\u00f5es de Vida e de Trabalho da Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua do Centro Hist\u00f3rico de Salvador, Bahia, conduzido pelas pesquisadoras Renata Meira Veras e Gezilda Borges de Souza.<\/p>\n<p>O levantamento identificou que conflitos familiares, desemprego e consumo de drogas figuravam entre os principais fatores associados \u00e0 ida e \u00e0 perman\u00eancia nas ruas. Mais da metade dos entrevistados apontou problemas familiares como motivo central para viver em situa\u00e7\u00e3o de rua, enquanto o desemprego e o uso de drogas apareciam logo em seguida.<\/p>\n<p>Pesquisadores apontam que o crack em Salvador vai al\u00e9m da seguran\u00e7a p\u00fablica e da depend\u00eancia qu\u00edmica. Desde sua chegada, nos anos 1990, o fen\u00f4meno tem sido associado \u00e0s desigualdades sociais, ao desemprego, \u00e0 fragiliza\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos familiares e \u00e0 exclus\u00e3o urbana, tornando mais vis\u00edveis problemas estruturais da capital baiana.<\/p>\n<h2>Quando a depend\u00eancia passou a ocupar as ruas<\/h2>\n<p>Muito antes da chegada do crack, a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua de Salvador j\u00e1 era marcada pelo desemprego, pobreza, conflitos familiares e transtornos mentais. Estudos da UFBA mostram que o consumo de \u00e1lcool e outras drogas fazia parte dessa realidade, mas dentro de um contexto mais amplo de vulnerabilidade social.<\/p>\n<p>A partir da segunda metade da d\u00e9cada de 1990, entretanto, a expans\u00e3o do crack alterou significativamente esse cen\u00e1rio. O consumo da droga passou a ocupar espa\u00e7os p\u00fablicos de forma mais vis\u00edvel e, gradualmente, tornou-se associado \u00e0 realidade das ruas da cidade. Nas d\u00e9cadas seguintes, a presen\u00e7a de usu\u00e1rios em pra\u00e7as, cal\u00e7adas, viadutos, marquises e \u00e1reas de grande circula\u00e7\u00e3o passou a representar uma das faces mais evidentes da crise social urbana.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164403202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164403202606091456.jpg%3Fxid%3D7108014&amp;xid=7108014\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164403202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164403202606091456.jpg%3Fxid%3D7108014&amp;xid=7108014\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164403202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164403202606091456.jpg%3Fxid%3D7108014&amp;xid=7108014\" alt=\"Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracol\u00e2ndias mudaram e chegaram \u00e0s principais avenidas de Salvador\" \/><\/picture><figcaption>Foto: Marcello Casal Jr | ABR<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ainda assim, pesquisadores alertam que a depend\u00eancia qu\u00edmica, isoladamente, n\u00e3o explica o crescimento da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua. Em muitos casos, o uso problem\u00e1tico de drogas surge ap\u00f3s a perda da moradia, do emprego ou dos v\u00ednculos familiares. Em outros, o consumo contribui para aprofundar processos de exclus\u00e3o que j\u00e1 estavam em curso. O resultado \u00e9 um ciclo em que vulnerabilidade social e depend\u00eancia frequentemente se alimentam mutuamente.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros ajudam a dimensionar a magnitude dessa transforma\u00e7\u00e3o. Dados do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento e Assist\u00eancia Social, Fam\u00edlia e Combate \u00e0 Fome (MDS), referentes a 2025, apontam que 14.705 fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de rua estavam cadastradas na Bahia por meio do Cadastro \u00danico para Programas Sociais do Governo Federal.<\/p>\n<p>O total representa mais que o triplo do registrado em 2020, quando 4.289 fam\u00edlias viviam nessas condi\u00e7\u00f5es. Distribu\u00eddas por pra\u00e7as, marquises, viadutos e espa\u00e7os p\u00fablicos de grandes e pequenas cidades do estado, essas fam\u00edlias revelam um fen\u00f4meno que cresceu de forma acelerada nos \u00faltimos anos e passou a ocupar \u00e1reas cada vez mais vis\u00edveis do espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<h2>Nova geografia das cracol\u00e2ndias em Salvador<\/h2>\n<p>Durante muito tempo, as cenas abertas de uso de drogas em Salvador estiveram associadas ao Centro Hist\u00f3rico. Foi nessa regi\u00e3o que pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) registraram alguns dos primeiros focos da epidemia de crack que atingiu a capital baiana a partir de 1996. Pelourinho, Baixa dos Sapateiros, Nazar\u00e9, Com\u00e9rcio e Santo Ant\u00f4nio Al\u00e9m do Carmo passaram a concentrar n\u00e3o apenas usu\u00e1rios da droga, mas tamb\u00e9m uma crescente popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n<p>Nos anos 2000, o fen\u00f4meno j\u00e1 fazia parte da paisagem cotidiana dessas \u00e1reas. Moradores, comerciantes e turistas conviviam com a presen\u00e7a constante de usu\u00e1rios de crack, pedintes e pessoas vivendo nas ruas.<\/p>\n<p>Mais de uma d\u00e9cada depois, o Centro continua concentrando parcela significativa dessa popula\u00e7\u00e3o. Dados do Censo da Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua de Salvador mostram que os bairros do Centro e da Liberdade permanecem entre os que registram o maior n\u00famero de pessoas vivendo nas ruas da capital. O dado revela que o problema n\u00e3o desapareceu dessas regi\u00f5es. O que mudou foi a amplia\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno para novos territ\u00f3rios.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164404202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164404202606091456.webp%3Fxid%3D7108015&amp;xid=7108015\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164404202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164404202606091456.webp%3Fxid%3D7108015&amp;xid=7108015\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164404202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164404202606091456.webp%3Fxid%3D7108015&amp;xid=7108015\" alt=\"Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracol\u00e2ndias mudaram e chegaram \u00e0s principais avenidas de Salvador\" \/><\/picture><figcaption>Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos \u00faltimos anos, avenidas como ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves passaram a registrar um aumento cada vez mais vis\u00edvel da presen\u00e7a de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, de barracos improvisados, do ac\u00famulo de pertences e de cenas abertas de uso de drogas.<\/p>\n<p>Diferentemente dos antigos focos, localizados em \u00e1reas hist\u00f3ricas e marcadas por um processo mais antigo de degrada\u00e7\u00e3o urbana, esses novos pontos est\u00e3o inseridos em alguns dos principais corredores econ\u00f4micos, comerciais e de mobilidade de Salvador.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente percept\u00edvel na Avenida ACM. Considerada uma das vias mais movimentadas da capital, ela conecta bairros como Brotas, Itaigara, Pituba e Caminho das \u00c1rvores, al\u00e9m de concentrar esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4, corredores de BRT, centros empresariais, cl\u00ednicas, universidades e centros comerciais. Nos \u00faltimos anos, a presen\u00e7a de pessoas vivendo em canteiros centrais, sob viadutos e nas proximidades das esta\u00e7\u00f5es de transporte tornou-se cada vez mais frequente.<\/p>\n<p>Em uma ronda realizada pelo\u00a0portal A TARDE\u00a0durante a noite, foram observados trechos com ilumina\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, esta\u00e7\u00f5es praticamente vazias e \u00e1reas ocupadas por pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua sob viadutos e estruturas do sistema vi\u00e1rio. O cen\u00e1rio ajuda a explicar a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a relatada por trabalhadores que circulam diariamente pela regi\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164405202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164405202606091456.jpg%3Fxid%3D7108016&amp;xid=7108016\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164405202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164405202606091456.jpg%3Fxid%3D7108016&amp;xid=7108016\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164405202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164405202606091456.jpg%3Fxid%3D7108016&amp;xid=7108016\" alt=\"Placa da Avenida Vasco da Gama\" \/><\/picture><figcaption>Placa da Avenida Vasco da Gama &#8211; Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o | Redes Sociais<\/figcaption><\/figure>\n<p>A mesma din\u00e2mica pode ser observada na Avenida Vasco da Gama. Al\u00e9m da crescente concentra\u00e7\u00e3o de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, a regi\u00e3o est\u00e1 localizada pr\u00f3xima \u00e0 localidade conhecida como Manguinhos, frequentemente citada em a\u00e7\u00f5es de combate ao tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>Em 22 de fevereiro de 2026, uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar resultou na pris\u00e3o de dois suspeitos e na apreens\u00e3o de uma pistola Glock calibre 9 mil\u00edmetros, 367 pedras de crack, 257 pinos de coca\u00edna, 15 por\u00e7\u00f5es adicionais da droga, 85 por\u00e7\u00f5es de maconha, celulares e dinheiro em esp\u00e9cie. Um dos detidos possu\u00eda mandado de pris\u00e3o em aberto. A ocorr\u00eancia refor\u00e7ou a presen\u00e7a do com\u00e9rcio ilegal de entorpecentes no entorno da avenida.<\/p>\n<p>Poucos meses depois, em 18 de maio de 2026, o prefeito Bruno Reis chamou a aten\u00e7\u00e3o para o crescimento da concentra\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos na regi\u00e3o durante o lan\u00e7amento do Programa Vida Nova. Na ocasi\u00e3o, o gestor relacionou o fen\u00f4meno \u00e0 circula\u00e7\u00e3o do K9, droga sint\u00e9tica popularmente conhecida como \u201ccrack sint\u00e9tico\u201d, e defendeu a\u00e7\u00f5es conjuntas entre assist\u00eancia social e for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164406202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164406202606091456.webp%3Fxid%3D7108017&amp;xid=7108017\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164406202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164406202606091456.webp%3Fxid%3D7108017&amp;xid=7108017\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164406202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164406202606091456.webp%3Fxid%3D7108017&amp;xid=7108017\" alt=\"Bruno Reis, prefeito de Salvador\" \/><\/picture><figcaption>Bruno Reis, prefeito de Salvador &#8211; Foto: C\u00e1ssio Moreira | AG. A TARDE<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cAli na Vasco da Gama, a gente aproveita para chamar a aten\u00e7\u00e3o das autoridades. Tamb\u00e9m \u00e9 um problema de pol\u00edcia. Ent\u00e3o, n\u00f3s estamos aprovando na C\u00e2mara uma medida para impedir, no entorno de vias, o descarte de materiais reciclados. Porque em muitos casos n\u00f3s sabemos que est\u00e3o sendo trocados por drogas\u201d, afirmou em coletiva de imprensa.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente, existe uma droga nova, o K9, que \u00e9 o crack [sic] sint\u00e9tico, que \u00e9 muito mais barato e que tem atra\u00eddo naquela regi\u00e3o milhares de pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, mas s\u00e3o dependentes de subst\u00e2ncias psicoativas e que n\u00e3o conseguem mais discernir para aceitar o nosso acolhimento\u201d, completou.<\/p>\n<p>Os novos pontos de concentra\u00e7\u00e3o observados em Salvador compartilham caracter\u00edsticas semelhantes. Avenida ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves s\u00e3o corredores de intenso fluxo de pessoas, forte atividade comercial, ampla oferta de transporte p\u00fablico e proximidade com localidades frequentemente associadas a opera\u00e7\u00f5es policiais de combate ao tr\u00e1fico.<\/p>\n<h2>O impacto para quem trabalha e circula<\/h2>\n<p>A mudan\u00e7a no mapa das cenas abertas de uso de drogas n\u00e3o alterou apenas a paisagem urbana de Salvador. Nos \u00faltimos anos, comerciantes, trabalhadores e motoristas que circulam diariamente por avenidas como Vasco da Gama, ACM e Tancredo Neves passaram a conviver de forma mais direta com os reflexos desse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Em entrevistas concedidas ao\u00a0portal A TARDE, eles relatam aumento da sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, preju\u00edzos \u00e0s atividades econ\u00f4micas e dificuldades para lidar com a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos por pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e usu\u00e1rios de drogas.<\/p>\n<p>Na Avenida Vasco da Gama, um comerciante que preferiu n\u00e3o se identificar afirma que o cen\u00e1rio tem afetado diretamente o funcionamento de seu neg\u00f3cio. Propriet\u00e1rio de uma vidra\u00e7aria na regi\u00e3o, ele relata que parte da clientela evita frequentar o local por receio da situa\u00e7\u00e3o observada diariamente no entorno.<\/p>\n<blockquote class=\"inlineQuote\"><p>&#8220;A gente corre at\u00e9 risco de falar sobre isso. Eles s\u00e3o agressivos, coagem as pessoas e fazem disso aqui um pandem\u00f4nio&#8221;, afirmou.<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo o comerciante, situa\u00e7\u00f5es que antes eram espor\u00e1dicas passaram a fazer parte da rotina de quem trabalha na avenida. &#8220;\u00c9 sexo no meio da rua, cachimbo aceso a qualquer hora, at\u00e9 necessidades eles fazem sem pudor nenhum. E o prejudicado somos n\u00f3s, comerciantes. Quem quer vir para c\u00e1 assim?&#8221;, questionou.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o \u00e9 compartilhada por Jebson Soares, propriet\u00e1rio de uma oficina mec\u00e2nica localizada na mesma regi\u00e3o. Para ele, os transtornos se tornam ainda mais evidentes durante os per\u00edodos de chuva, quando pessoas que permanecem em \u00e1reas abertas buscam abrigo em marquises e fachadas de estabelecimentos comerciais.<\/p>\n<p>&#8220;Dem\u00f4nio \u00e9 quando chove. Eles saem da pista do BRT para se abrigar aqui no toldo das lojas, mijam, cagam, usam drogas&#8221;, relatou.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164407202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164407202606091456.webp%3Fxid%3D7108018&amp;xid=7108018\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164407202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164407202606091456.webp%3Fxid%3D7108018&amp;xid=7108018\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164407202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164407202606091456.webp%3Fxid%3D7108018&amp;xid=7108018\" alt=\"Avenida Vasco da Gama\" \/><\/picture><figcaption>Avenida Vasco da Gama &#8211; Foto: Bruno Conha \/ Prefeitura de Salvador<\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo o empres\u00e1rio, epis\u00f3dios de depreda\u00e7\u00e3o, sujeira e danos ao patrim\u00f4nio passaram a integrar a rotina dos comerciantes da \u00e1rea. &#8220;Semana passada foi o absurdo: defecaram no cadeado da minha loja. Cheguei por volta das 6h30 da manh\u00e3 para abrir a oficina e estava l\u00e1 o cadeado todo sujo de fezes. Isso aqui \u00e9 Sodoma e Gomorra&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Os relatos revelam uma preocupa\u00e7\u00e3o recorrente entre trabalhadores da regi\u00e3o, que associam o aumento da presen\u00e7a de usu\u00e1rios e pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do fluxo de clientes e ao agravamento da sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164408202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164408202606091456.jpg%3Fxid%3D7108019&amp;xid=7108019\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164408202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164408202606091456.jpg%3Fxid%3D7108019&amp;xid=7108019\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164408202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164408202606091456.jpg%3Fxid%3D7108019&amp;xid=7108019\" alt=\"Avenida Tancredo Neves\" \/><\/picture><figcaption>Avenida Tancredo Neves &#8211; Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o | Google Street View<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na Avenida Tancredo Neves, uma das \u00e1reas mais movimentadas da capital, o motorista por aplicativo Fl\u00e1vio Cardoso afirma que precisou adotar medidas de precau\u00e7\u00e3o durante as corridas e deslocamentos pela regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo ele, furtos e tentativas de roubo passaram a fazer parte das preocupa\u00e7\u00f5es de quem trabalha diariamente nas vias de grande circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui na Avenida Tancredo Neves n\u00e3o est\u00e1 diferente. Quando eu chego em frente ao Iguatemi, eu j\u00e1 fecho os vidros porque sei que, a qualquer momento, pode aparecer um sacizeiro e puxar o celular do painel. J\u00e1 vi isso acontecendo bem na minha frente, tanto com motorista quanto com motoboy. Ent\u00e3o j\u00e1 passo aqui ligado&#8221;, contou.<\/p>\n<p>O motorista afirma que alguns pontos localizados sob viadutos se transformaram em \u00e1reas de perman\u00eancia frequente de usu\u00e1rios de drogas. &#8220;Fica um monte de sacizeiro debaixo do viaduto ali do c\u00f3rrego da Tancredo Neves, que, quando est\u00e3o na onda, tentam roubar sem pudor nenhum&#8221;, relatou.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m cita situa\u00e7\u00f5es observadas na Avenida ACM, onde a presen\u00e7a de pessoas vivendo sob estruturas vi\u00e1rias exige aten\u00e7\u00e3o constante por parte dos condutores.<\/p>\n<p>&#8220;Outro inferno est\u00e1 na ACM. Onde tem o elevador do BRT, precisamos passar por ali com aten\u00e7\u00e3o redobrada, porque, a qualquer momento, pode ter um indiv\u00edduo desses atravessando na frente do carro. Voc\u00ea atropelar um cidad\u00e3o desses ainda vai te encher de problema&#8221;, afirmou.<\/p>\n<h2>O alerta que vem de S\u00e3o Paulo<\/h2>\n<p>Se hoje Salvador presencia a expans\u00e3o das cenas abertas de uso de drogas para corredores como ACM, Vasco da Gama e Avenida Tancredo Neves, S\u00e3o Paulo oferece um retrato de como esse fen\u00f4meno pode se tornar um desafio urbano ainda mais complexo quando n\u00e3o h\u00e1 respostas suficientes ao longo do tempo.<\/p>\n<p>A chamada Cracol\u00e2ndia paulistana se consolidou ao longo das d\u00e9cadas de 1990 e 2000 como o maior s\u00edmbolo nacional da concentra\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios de crack em espa\u00e7o p\u00fablico. Em determinados per\u00edodos, o &#8220;fluxo&#8221; chegou a reunir milhares de pessoas no centro da capital paulista, tornando-se um problema que atravessou diferentes gest\u00f5es municipais e estaduais, sem solu\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<figure class=\"inlineImage\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/320x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164409202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164409202606091456.webp%3Fxid%3D7108020&amp;xid=7108020\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164409202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164409202606091456.webp%3Fxid%3D7108020&amp;xid=7108020\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1390000\/724x0\/nova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164409202606091456-1.webp?fallback=https%3A%2F%2Fcdn.atarde.com.br%2Fimg%2Finline%2F1390000%2Fnova-geografia-do-crack-como-as-cracolandias-mudar0139164409202606091456.webp%3Fxid%3D7108020&amp;xid=7108020\" alt=\"Imagem ilustrativa da imagem Nova geografia do crack: como as cracol\u00e2ndias mudaram e chegaram \u00e0s principais avenidas de Salvador\" \/><\/picture><figcaption>Foto: Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mesmo ap\u00f3s sucessivas opera\u00e7\u00f5es policiais, remo\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es urbanas, o fen\u00f4meno n\u00e3o desapareceu. Em vez disso, os grupos passaram a se dispersar por diferentes \u00e1reas da cidade, formando novas concentra\u00e7\u00f5es em bairros e corredores urbanos.<\/p>\n<p>Embora as duas cidades possuam dimens\u00f5es e din\u00e2micas urbanas bastante distintas, alguns sinais observados em S\u00e3o Paulo come\u00e7am a aparecer tamb\u00e9m em Salvador. A presen\u00e7a crescente de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e usu\u00e1rios de drogas em avenidas de grande circula\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximas a esta\u00e7\u00f5es de transporte e polos comerciais, sugere que o fen\u00f4meno j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 restrito \u00e0s \u00e1reas historicamente associadas \u00e0 exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de S\u00e3o Paulo demonstra que a expans\u00e3o gradual das cenas abertas de uso de drogas costuma ser resultado de processos acumulados ao longo de anos e que, quando ignorados, tendem a se tornar cada vez mais dif\u00edceis e custosos de enfrentar.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fen\u00f4meno antes concentrado no Centro Hist\u00f3rico avan\u00e7a para os principais corredores da cidade<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":532689,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4,6],"tags":[],"class_list":["post-532688","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/moradores-de-rua-crak.webp","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/532688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=532688"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/532688\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/532689"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=532688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=532688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=532688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}