{"id":53472,"date":"2014-03-31T01:47:26","date_gmt":"2014-03-31T04:47:26","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=53472"},"modified":"2014-03-31T01:47:26","modified_gmt":"2014-03-31T04:47:26","slug":"salvador-465-x-golpe-militar-50","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/salvador-465-x-golpe-militar-50\/","title":{"rendered":"Salvador 465 X Golpe Militar 50"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Janio Ferreira Soares<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o fossem comemora\u00e7\u00f5es t\u00e3o absurdamente distintas, bem que a festa poderia ser uma s\u00f3, como acontece quando pessoas nascidas em datas pr\u00f3ximas resolvem dividir as despesas dos risoles, brigadeiros e at\u00e9 o cach\u00ea do cover do cover de Patati Patat\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, neste caso espec\u00edfico, embora a diferen\u00e7a entre os epis\u00f3dios seja de apenas dois dias, definitivamente n\u00e3o existe chance de uni\u00e3o. Acontece, meio como na m\u00fasica de Caymmi (al\u00f4! Ben\u00e9 Fonteles, maravilha de artigo), que a primeira aniversariante, que hoje, 29\/03, completa 465 anos, \u00e9 uma baiana cheia de encantos, mist\u00e9rios e muitas dessemelhan\u00e7as, docemente batizada em 1549 com o sagrado nome de Cidade do S\u00e3o Salvador da Bahia de Todos os Santos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-53416\" alt=\"Golpe 1964\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golpe3-300x179.jpg\" width=\"300\" height=\"179\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golpe3-300x179.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golpe3.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que a segunda aniversariante, que depois de amanh\u00e3, 31\/03, completa 50 anos, \u00e9 uma triste e forasteira aberra\u00e7\u00e3o puxada por um f\u00f3rceps do fundo de um p\u00e2ntano verde-oliva, que, reza a lenda, j\u00e1 chegou ao mundo com um visual parecido com o do jovem Sarney ao assumir o seu primeiro mandato de governador do Maranh\u00e3o (o mesmo bu\u00e7o e um Ray-Ban vintage, acrescidos de coturno, fuzil e quepe), sendo logo batizada de ditadura \u2013 ou golpe militar \u2013 tanto faz, assim mesmo, com as primeiras letras diminutivamente demonstrando meu desprezo ao nome. Falemos um pouco das duas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ter sido um per\u00edodo muito tenebroso, pelo menos num aspecto a ditadura valeu a pena. Enquanto durou (21 anos), ela foi a respons\u00e1vel por uma produ\u00e7\u00e3o cultural inspirad\u00edssima, sobretudo na m\u00fasica. Quanto mais o sarrafo comia no centro, com pris\u00f5es, torturas e o diabo a quatro, mais o Sol se repartia em crimes, espa\u00e7onaves, guerrilhas e cardinales bonitas, al\u00e9m de outras met\u00e1foras inseridas em geniais can\u00e7\u00f5es que, \u00e0 \u00e9poca, nos enchiam de esperan\u00e7a de que um lindo amanhecer logo chegaria e ent\u00e3o as crian\u00e7as cantariam livres sobre os muros e ensinariam sonhos a quem n\u00e3o podia amar sem dor, como dizia Taiguara numa velha balada magistralmente escoltada pelos acordes do seu piano ac\u00fastico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a\u00ed, depois da volta do irm\u00e3o do Henfil e de tanta gente que partiu num rabo de foguete, os conceitos sonoros e est\u00e9ticos foram mudando, mudando e hoje a nossa cena musical praticamente se transformou numa outra ditadura conduzida pelo general Faust\u00e3o e sua tropa de torturadores, atualmente formada pelo coronel Luan Santana, major Naldo, capit\u00e3o Thiaguinho, tenente Anitta, sargento Bell, cabo M\u00e1rcio Victor e aspirante Waleska Popozuda, sem falar nas dezenas de duplas sertanejas \u2013 conhecidas nas casernas pelo codinome \u201cpau de arara e choque el\u00e9trico\u201d \u2013, sempre dispostas a usar suas vozes esgani\u00e7adas para implodir quaisquer movimentos paralelos que ousem sons e letras diferentes do padr\u00e3o Paula Fernandes de qualidade (as \u00faltimas baixas, soube, foram Rodrigo Campos, P\u00e9ricles Cavalcante e Wado, j\u00e1 ouviu falar? Pois \u00e9, acho bom procur\u00e1-los num s\u00f3t\u00e3o de alguma fazenda nas adjac\u00eancias de Goi\u00e1s, Goi\u00e2nia, por ali.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando a travada aniversariante \u2013 que periga chegar atrasada \u00e0 sua pr\u00f3pria festa -, lembro que ao v\u00ea-la pela primeira vez na velha rodovi\u00e1ria das Sete Portas o dia estava prestes a nascer, com a barra que o antecede enquadrando as luzes dos postes, o que deixava o cen\u00e1rio parecido com uma imagem que eu s\u00f3 veria anos depois, no filme Paris, Texas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao descer do t\u00e1xi na Rua Rui Barbosa, o Sol j\u00e1 iluminava o corpo do poeta, a mureta, o mar e o come\u00e7o da Ilha. Em frente ao Cine Guarani uma banca de revistas me acenava. \u201cQuem l\u00ea tanta not\u00edcia?\u201d. Meu tio Lindemar soltou minha m\u00e3o, alisou minha cabe\u00e7a e disse: \u201cvai\u201d. E aqui estou eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Janio Ferreira Soares, cronista, \u00e9 secret\u00e1rio de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, nascido na cidade de Santo Antonio da Gl\u00f3ria, na margem baiana do Rio S\u00e3o Francisco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Janio Ferreira Soares N\u00e3o fossem comemora\u00e7\u00f5es t\u00e3o absurdamente distintas, bem que a festa poderia ser uma s\u00f3, como acontece quando pessoas nascidas em datas pr\u00f3ximas resolvem dividir as despesas dos risoles, brigadeiros e at\u00e9 o cach\u00ea do cover do cover de Patati Patat\u00e1. 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