{"id":535616,"date":"2026-07-12T08:26:08","date_gmt":"2026-07-12T11:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=535616"},"modified":"2026-07-12T08:26:08","modified_gmt":"2026-07-12T11:26:08","slug":"uaua-cem-anos-de-resistencia-no-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/uaua-cem-anos-de-resistencia-no-sertao\/","title":{"rendered":"Uau\u00e1: Cem anos de resist\u00eancia no Sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Opini\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nH\u00e1 cidades que nasceram \u00e0 sombra dos grandes rios. Outras floresceram \u00e0 beira-mar ou sob a prote\u00e7\u00e3o de fortalezas. Uau\u00e1 nasceu do sert\u00e3o. E, como tudo o que o sert\u00e3o produz, aprendeu desde cedo que existir \u00e9 resistir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-484943 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua-620x349.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua-620x349.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua-300x169.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua-768x433.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua-160x90.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua-480x270.jpg 480w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua-640x361.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/casa-antiga-uaua.jpg 958w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><br \/>\nConhecida como a Terra do Vagalume, Uau\u00e1 completa cem anos de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica celebrando muito mais do que uma data administrativa. Celebra um s\u00e9culo de uma hist\u00f3ria constru\u00edda pela coragem de homens e mulheres que aprenderam a transformar a escassez em esperan\u00e7a, a seca em perseveran\u00e7a e a adversidade em<br \/>\nidentidade. N\u00e3o por acaso, Euclides da Cunha eternizou uma verdade que parece escrita para estas terras: &#8220;O sertanejo \u00e9, antes de tudo, um forte.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-5954 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_gde.jpg\" alt=\"\" width=\"464\" height=\"307\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_gde.jpg 464w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_gde-300x198.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_gde-160x106.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 464px) 100vw, 464px\" \/><br \/>\nA hist\u00f3ria de Uau\u00e1, entretanto, come\u00e7ou muito antes de sua emancipa\u00e7\u00e3o. Suas origens remontam ao avan\u00e7o da ocupa\u00e7\u00e3o dos sert\u00f5es baianos, quando a imponente Casa da Torre, erguida sobre as fal\u00e9sias do litoral, irradiava sua influ\u00eancia para o interior da Capitania da Bahia. Dali, Garcia d&#8217;\u00c1vila organizava expedi\u00e7\u00f5es que abriram<br \/>\ncaminhos, implantaram currais e consolidaram uma economia baseada na cria\u00e7\u00e3o de gado, transformando o sert\u00e3o em espa\u00e7o de ocupa\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4703 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_igreja.jpg\" alt=\"\" width=\"464\" height=\"307\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_igreja.jpg 464w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_igreja-300x198.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/uaua_praca_igreja-160x106.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 464px) 100vw, 464px\" \/><br \/>\nGra\u00e7as \u00e0 sua habilidade pol\u00edtica e administrativa, Garcia d&#8217;\u00c1vila recebeu da Coroa Portuguesa extensas sesmarias que, ao longo do tempo, formariam um dos maiores dom\u00ednios territoriais da Am\u00e9rica Portuguesa. As terras onde hoje se encontra Uau\u00e1 integraram esse vasto patrim\u00f4nio, tornando-se parte do movimento de expans\u00e3o da<br \/>\npecu\u00e1ria que moldou a ocupa\u00e7\u00e3o do interior baiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n\u00c0 primeira vista, nada parecia favorecer a prosperidade. A caatinga exibia galhos retorcidos, pedras expostas e o leito intermitente do rio Vaza-Barris, compondo uma paisagem severa e desafiadora. Mas o sert\u00e3o nunca revela seus segredos ao primeiro olhar. Bastavam as primeiras chuvas para que o verde reaparecesse, os riachos<br \/>\ndespertassem e a terra voltasse a alimentar homens e rebanhos. O sertanejo n\u00e3o venceu a natureza; aprendeu a compreender seus ritmos. Dessa conviv\u00eancia nasceu uma cultura marcada pela paci\u00eancia, pela coragem e pela capacidade de recome\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nFoi nesse cen\u00e1rio que se estabeleceram as fam\u00edlias pioneiras respons\u00e1veis pelo povoamento da regi\u00e3o. Ribeiros, Lopes Guimar\u00e3es, Dias de Andrade, Peixinhos e tantos outros lan\u00e7aram as bases sociais, econ\u00f4micas e culturais da futura vila. Muitos descendiam de D. Quit\u00e9ria de Santa Rita, propriet\u00e1ria da Fazenda Pedra Vermelha, no<br \/>\natual munic\u00edpio de Monte Santo. A essas liga\u00e7\u00f5es familiares somaram-se alian\u00e7as pol\u00edticas, matrim\u00f4nios, rela\u00e7\u00f5es de compadrio e interesses econ\u00f4micos que consolidaram uma comunidade capaz de enfrentar as dificuldades impostas pelo sert\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA verdadeira grandeza dessas fam\u00edlias, por\u00e9m, n\u00e3o residiu apenas na posse da terra, mas na capacidade de construir coletivamente uma sociedade. Entre elas destacou-se Belarmino Peixinho, um dos primeiros moradores da regi\u00e3o. Sem esperar pela provid\u00eancia distante, reuniu homens, ferramentas e boa vontade para erguer, em<br \/>\nregime de mutir\u00e3o, uma ponte destinada a proteger a pequena Igreja do Senhor do Bonfim e a popula\u00e7\u00e3o das recorrentes cheias do Vaza-Barris. Mais do que uma obra material, aquele gesto simbolizou uma das virtudes mais profundas do povo sertanejo: quando os recursos escasseiam, a solidariedade torna-se a maior riqueza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, lideran\u00e7as pol\u00edticas locais, entre elas o Coronel Ribeiro, desempenharam papel relevante na organiza\u00e7\u00e3o administrativa do munic\u00edpio, utilizando sua influ\u00eancia para fortalecer as institui\u00e7\u00f5es e impulsionar o desenvolvimento de Uau\u00e1 em seus primeiros anos de vida pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA hist\u00f3ria da cidade, contudo, n\u00e3o foi escrita apenas com trabalho e esperan\u00e7a. Tamb\u00e9m conheceu os tempos da viol\u00eancia. As proximidades de Uau\u00e1 testemunharam epis\u00f3dios marcantes da Guerra de Canudos, conflito que abalou o Brasil republicano e deixou profundas cicatrizes na mem\u00f3ria sertaneja. D\u00e9cadas mais tarde, a regi\u00e3o<br \/>\nconviveu com a passagem de bandos do canga\u00e7o, entre eles os liderados por Lampi\u00e3o e Corisco, espalhando temor pelas comunidades do sert\u00e3o. Tamb\u00e9m a Coluna Prestes cruzou essas terras, trazendo consigo as incertezas de um pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o. Cada um desses acontecimentos acrescentou novos cap\u00edtulos \u00e0 mem\u00f3ria coletiva de um<br \/>\npovo acostumado a sobreviver sem perder sua dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMas reduzir a hist\u00f3ria de Uau\u00e1 \u00e0s guerras seria ignorar sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o. Sua identidade foi constru\u00edda, sobretudo, pelo trabalho cotidiano de homens e mulheres an\u00f4nimos, agricultores, criadores, comerciantes, professores, religiosos e artes\u00e3os que fizeram da conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido uma permanente li\u00e7\u00e3o de criatividade e perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nHoje, Uau\u00e1 \u00e9 reconhecida muito al\u00e9m de suas fronteiras pela excel\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o de caprinos e ovinos, pela tradicional carne de bode, pelos derivados do leite, pelo umbu \u2014 transformado em doces, geleias e compotas \u2014 e por uma culin\u00e1ria que traduz a alma do sert\u00e3o baiano. \u00c0 riqueza da gastronomia somam-se as festas populares, a<br \/>\nreligiosidade, a m\u00fasica, o artesanato e um patrim\u00f4nio imaterial preservado na mem\u00f3ria de seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nAo completar cem anos de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Uau\u00e1 n\u00e3o celebra apenas o tempo decorrido desde sua cria\u00e7\u00e3o administrativa. Celebra a perman\u00eancia de uma identidade constru\u00edda ao longo de s\u00e9culos. Os desafios continuam presentes: a conviv\u00eancia com a seca, a gera\u00e7\u00e3o de oportunidades para os jovens, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e a valoriza\u00e7\u00e3o de seu patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural. Mas a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria do munic\u00edpio demonstra que as dificuldades jamais impediram seu povo de seguir adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nTalvez seja essa a melhor defini\u00e7\u00e3o de Uau\u00e1. Cem anos depois de sua emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, permanece fiel \u00e0 voca\u00e7\u00e3o que a fez nascer: resistir. Resistiu \u00e0s estiagens, \u00e0s enchentes do Vaza-Barris, \u00e0s guerras, \u00e0s dist\u00e2ncias, \u00e0s limita\u00e7\u00f5es impostas pelo sert\u00e3o e \u00e0s mudan\u00e7as do tempo. E justamente por resistir, floresceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nCelebrar o centen\u00e1rio de Uau\u00e1 \u00e9 homenagear todos aqueles \u2014 conhecidos ou an\u00f4nimos \u2014 que ajudaram a escrever essa hist\u00f3ria. \u00c9 reconhecer que seu maior patrim\u00f4nio n\u00e3o est\u00e1 apenas em suas terras, em suas igrejas, em sua gastronomia ou em suas tradi\u00e7\u00f5es, mas em seu povo. Um povo que, como os vagalumes que iluminam as<br \/>\nnoites sertanejas, continua transformando a escurid\u00e3o em luz e fazendo da resist\u00eancia uma permanente forma de florescer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Frederico Cl\u00e1udio Peixinho<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da cidade, contudo, n\u00e3o foi escrita apenas com trabalho e esperan\u00e7a. Tamb\u00e9m conheceu os tempos da viol\u00eancia. 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