{"id":55680,"date":"2014-04-09T04:55:30","date_gmt":"2014-04-09T07:55:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=55680"},"modified":"2014-04-09T04:55:30","modified_gmt":"2014-04-09T07:55:30","slug":"valesca-popozuda-numa-prova-de-filosofia-e-o-fim-da-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/valesca-popozuda-numa-prova-de-filosofia-e-o-fim-da-escola\/","title":{"rendered":"Valesca Popozuda numa prova de filosofia \u00e9 o fim da escola"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/reinaldo\/files\/2014\/04\/valesca.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Valesca, cuja m\u00fasica virou tema de uma prova de filosofia: ela d\u00e1 o que pensar\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/reinaldo\/files\/2014\/04\/valesca-480x360.jpg\" width=\"480\" height=\"360\" \/><\/a><\/p>\n<p>Valesca, cuja m\u00fasica virou tema de uma prova de filosofia: ela d\u00e1 o que pensar<\/p>\n<p>A escola brasileira acabou, morreu, foi para o ralo. Virou lixo. Foi v\u00edtima de \u201cprogressiste\u201d aguda. A \u201cprogressiste\u201d \u00e9 uma infec\u00e7\u00e3o provocada por um v\u00edrus cuja letalidade se deve \u00e0 mente torta de Paulo Freire, que muita gente considera um santo. N\u00e3o \u00e9 que ele tenha criado o bichinho original. Mas foi quem o espalhou. A \u201cprogressiste\u201d \u2014 que \u00e9 o progressismo na sua fase terminal \u2014 inverte a l\u00f3gica da educa\u00e7\u00e3o: em vez de o professor ter algo a ensinar ao aluno, \u00e9 o aluno que deve levar a sua experi\u00eancia ao professor. Ou, ent\u00e3o, ter-se-ia uma \u201crela\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria\u201d e \u201cn\u00e3o dial\u00f3gica\u201d, compreendem? No domingo, eu assistia ao Fant\u00e1stico e fui at\u00e9 o ponto em que uma reportagem cantava as gl\u00f3rias de professores \u201ccriativos\u201d, sabem?, que resolvem entrar no universo do \u201ceducando\u201d. Era a apologia da morte do conte\u00fado e do curr\u00edculo. Cada um brinca do que quiser em sala de aula. Confesso que n\u00e3o aguentei a conversa torta at\u00e9 o fim. Tinha mais o que fazer. N\u00e3o sei se vi, mas \u00e9 poss\u00edvel, uma senhora, professora talvez, gingando em ritmo de funk ao algo assim. Ok. N\u00e3o \u00e9 aprendendo obo\u00e9 que os pobres v\u00e3o parar no \u201cEsquenta\u201d da Regina Cas\u00e9, t\u00e1 certo?<\/p>\n<p>Vejo agora que um professor de filosofia do Centro de Ensino M\u00e9dio 3 de Taguatinga, no Distrito Federal, aplicou uma prova de filosofia \u2014 teste!!! \u2014 a seus alunos e resolveu, como direi?, \u201cincorporar\u201d Valesca Popozuda, que virou uma quest\u00e3o. Pois \u00e9\u2026 At\u00e9 Dilma Rousseff estava dando \u201cbeijinho no ombro\u201d no Twitter outro dia. A Dilma Popozuda \u00e9 a Dilma Bolada em ritmo de funk. A quest\u00e3o \u00e9 esta:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/reinaldo\/files\/2014\/04\/filosofia-Valesca.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"filosofia Valesca\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/reinaldo\/files\/2014\/04\/filosofia-Valesca-480x354.png\" width=\"480\" height=\"354\" \/><\/a><\/p>\n<p>D\u00e1 pregui\u00e7a debater o m\u00e9rito da escolha, entrar nas \u201cpaulo-freirices\u201d sobre o universo do educando. O que acho mais espantoso, se querem saber, \u00e9 a formula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se a prova trazia a letra, a saber:<br \/>\nDesejo a todas inimigas vida longa<br \/>\nPra que elas vejam cada dia mais nossa vit\u00f3ria<br \/>\n<strong>Bateu de frente \u00e9 s\u00f3 tiro, porrada e bomba<\/strong><br \/>\nAqui dois papos n\u00e3o se cria e nem faz hist\u00f3ria<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a resposta n\u00e3o demanda nem mesmo interpreta\u00e7\u00e3o de texto. Se a letra, no entanto, n\u00e3o estava dispon\u00edvel, muito pior porque, para \u201cacertar\u201d, seria preciso t\u00ea-la na mem\u00f3ria. O que o professor, Ant\u00f4nio Kubitschek \u00e9 nome dele (n\u00e3o sei se parente do ex-presidente), queria testar? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p><strong>No dia 27 de setembro de 2011<\/strong>, escrevi aqui um<strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/reinaldo\/geral\/o-brasil-precisa-de-menos-sociologos-e-filosofos-e-demais-engenheiros-que-se-expressem-com-clareza\/\" target=\"_blank\">post<\/a><\/strong>\u00a0texto intitulado<strong>\u00a0\u201cO Brasil precisa de menos soci\u00f3logos e fil\u00f3sofos e de mais engenheiros que se expressem com clareza\u201d<\/strong>. Notem que escrevi\u00a0<strong>\u201cprecisa DE menos\u201d<\/strong>\u00a0e n\u00e3o<strong>\u201cprecisa MENOS\u201d<\/strong>. S\u00e3o coisas distintas. Como h\u00e1 por a\u00ed fil\u00f3sofos e soci\u00f3logos que precisam DE MAIS LEITURA, muita gente n\u00e3o entendeu o que leu. Fazer o qu\u00ea? Eu nunca neguei que escrevo para pessoas alfabetizadas. O texto me rende ataques buc\u00e9falos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Eu criticava, ent\u00e3o, uma proposta est\u00fapida que algu\u00e9m fez \u00e0 Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, sugerindo que o ensino m\u00e9dio desse menos aulas de matem\u00e1tica e l\u00edngua portuguesa em benef\u00edcio da filosofia e da sociologia. Felizmente, o governador Geraldo Alckmin repudiou a ideia e p\u00f4s um fim \u00e0 conversa mole.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o bus\u00edlis? Seja na escola p\u00fablica, seja na escola privada, os curr\u00edculos de filosofia e de sociologia ainda n\u00e3o est\u00e3o definidos. Cada um \u201censina\u201d o que quiser. N\u00e3o raro, as aulas se transformam em meros pretextos para o proselitismo ideol\u00f3gico \u2014 na esmagadora maioria das vezes, de esquerda. \u201cSE FOSSE DE DIREITA, VOC\u00ca IRIA GOSTAR, REINALDO AZEVEDO?\u201d N\u00e3o tamb\u00e9m! Professor n\u00e3o \u00e9 pregador; n\u00e3o \u00e9 l\u00edder partid\u00e1rio; n\u00e3o \u00e9 pastor; n\u00e3o \u00e9 sacerdote.<\/p>\n<p>Hoje, s\u00e3o poucos os alunos que n\u00e3o levam na ponta da l\u00edngua o discurso \u2014 e n\u00e3o mais do que o discurso \u2014 da igualdade e da justi\u00e7a, mas n\u00e3o sabem fazer conta; n\u00e3o dominam o instrumental b\u00e1sico da l\u00edngua para se expressar com clareza fora de suas \u201ctribos\u201d. N\u00e3o por acaso, o pa\u00eds fica sempre nos \u00faltimos lugares nas provas do PISA, com um desempenho incompat\u00edvel com o tamanho de sua economia.<\/p>\n<p><strong>A escola brasileira \u00e9 o reino do vale-tudo.<br \/>\n<\/strong>E estamos piorando. Vou reproduzir um trecho de uma entrevista que o poeta Bruno Tolentino, meu querido amigo, concedeu \u00e0 VEJA na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 1436, de 20 de mar\u00e7o de 1996 \u2014 H\u00c1 LONGOS 18 ANOS, PORTANTO. Bruno morreu no dia 27 de junho de 2007 sem ver o fundo do po\u00e7o. Leiam. Volto para encerrar<\/p>\n<p><strong>VEJA \u2014 Por que tantas brigas ao mesmo tempo?<\/strong><\/p>\n<p>TOLENTINO \u2014 Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds vital que est\u00e1 caindo aos peda\u00e7os. N\u00e3o quero sair outra vez da minha terra, mas n\u00e3o posso ficar aqui sem minha fam\u00edlia, que est\u00e1 na Fran\u00e7a. N\u00e3o posso educar filho em escola daqui.<\/p>\n<p><strong>VEJA \u2014 Por que n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>TOLENTINO \u2014 Foi minha mulher quem disse n\u00e3o. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, \u00faltima flor do L\u00e1cio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem \u00e9, este Velos\u00f4, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matr\u00edcula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Cam\u00f5es, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que \u00e9 tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na Fran\u00e7a e poder\u00e1 morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu c\u00e9rebro tem tr\u00eas partes. Mas n\u00e3o aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.<\/p>\n<p><strong>VEJA \u2014 Qual o problema?<\/strong><\/p>\n<p>TOLENTINO \u2014 Minha mulher j\u00e1 havia se conformado com os seq\u00fcestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seq\u00fcestrar o miolo de uma crian\u00e7a na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Val\u00e9ry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, n\u00e3o se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.<\/p>\n<p><strong>VEJA \u2014 N\u00e3o \u00e9 levar Caetano Veloso a s\u00e9rio demais? Ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um tema de curr\u00edculo, entre tantos outros?<\/strong><\/p>\n<p>TOLENTINO \u2014 N\u00e3o. Ele est\u00e1 tamb\u00e9m virando tese de professores universit\u00e1rios. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma esp\u00e9cie de guia para mongol\u00f3ides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o t\u00edtulo Caetano Se Engana. \u00c9 preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano \u00e9 o show biz. Por mais po\u00e9tico que seja, \u00e9 entretenimento. E entretenimento n\u00e3o \u00e9 cultura.<\/p>\n<p><strong>VEJA \u2014 O que voc\u00ea tem contra a m\u00fasica popular?<\/strong><\/p>\n<p>TOLENTINO \u2014 Se fizerem um show com todas as m\u00fasicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de l\u00e1 sem achar que passei a tarde numa biblioteca. N\u00e3o se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da m\u00fasica popular brasileira e tamb\u00e9m da de outros pa\u00edses, mas a m\u00fasica popular n\u00e3o se confunde com a erudita. Ent\u00e3o, como \u00e9 que letra de m\u00fasica vai se confundir com poesia?<br \/>\n(\u2026)<\/p>\n<p><strong>Retomo<\/strong><br \/>\nCaetano em sala de aula? Pois \u00e9\u2026 J\u00e1 l\u00e1 se v\u00e3o quase 20 anos. Poderia valer por um Kant, n\u00e3o \u00e9 mesmo? N\u00e3o duvidem: a vaca foi para o brejo. Todas as tentativas feitas, em qualquer esfera, de botar alguma ordem na educa\u00e7\u00e3o brasileira, dando-lhe, quando menos, um curr\u00edculo esbarram no gigantismo da estrutura, nas corpora\u00e7\u00f5es sindicais e da ideologia rombuda.<\/p>\n<p>A escola brasileira \u00e9 o reino em que tudo \u00e9 poss\u00edvel. Por l\u00e1, \u201ctodas as experi\u00eancias s\u00e3o v\u00e1lidas\u201d. H\u00e1 18 anos, como aponta Bruno, as coisas j\u00e1 estavam tortas. Depois pioraram. O que se manifestava como um \u201ctrabalho de resist\u00eancia\u201d virou ideologia oficial.<\/p>\n<p>Ao comentar a sua prova, o professor ainda empresta um certo sotaque feminista \u00e0 coisa, entendem? Leiam o que disse ao\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/blogs.estadao.com.br\/radar-pop\/a-questao-foi-uma-provocacao-diz-professor-de-filosofia-autor-da-prova\/\" target=\"_blank\">Estad\u00e3o<\/a><\/strong>:\u00a0<strong>\u201cA prova foi uma provoca\u00e7\u00e3o. Recebemos v\u00e1rias cr\u00edticas, e muitas pessoas nem sabem o conte\u00fado da prova. Colocaram (a Valesca) como um ser que n\u00e3o \u00e9 pensante, s\u00f3 porque \u00e9 mulher e funkeira. Se fosse o Mano Brown ou o Gabriel, o Pensador, n\u00e3o teria dado esta pol\u00eamica\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, talvez n\u00e3o tivesse dado essa pol\u00eamica\u2026 Notem que, no seu discurso, Mano Brown e \u201cGabriel, o Pensador\u201d j\u00e1 se tornaram, como posso dizer?, refer\u00eancias \u201cconservadoras\u201d.<\/p>\n<p>A escola brasileira morreu. Teremos de recome\u00e7ar do zero.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Por Reinaldo Azevedo<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escola brasileira morreu. 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