{"id":58297,"date":"2015-04-26T09:40:06","date_gmt":"2015-04-26T12:40:06","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=58297"},"modified":"2015-04-26T09:40:06","modified_gmt":"2015-04-26T12:40:06","slug":"cem-anos-de-genocidio-armenio-a-memoria-da-diaspora-e-a-resistencia-da-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cem-anos-de-genocidio-armenio-a-memoria-da-diaspora-e-a-resistencia-da-infancia\/","title":{"rendered":"Cem anos de genoc\u00eddio arm\u00eanio: a mem\u00f3ria da di\u00e1spora e a resist\u00eancia da inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" data-section=\"MEM\u00d3RIA\"><\/h1>\n<p><time class=\"time d-b\" datetime=\"2015-04-26BRT09:04\">Patr\u00edcia Dichtchekenian\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\"><em><strong>Em 24 de abril de 1915, turcos iniciaram um processo de elimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica que at\u00e9 hoje n\u00e3o reconhecem e que resultou na morte de 1.5 milh\u00e3o de arm\u00eanios<\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"subtitle\"><\/div>\n<div class=\"descript\">\n<p>H\u00e1 100 anos, o elemento \u201cG\u201d tornou-se uma das principais mol\u00e9culas do DNA arm\u00eanio. Muito al\u00e9m de ser parte constituinte do sangue, ele atingiu a mem\u00f3ria e refletiu na constru\u00e7\u00e3o da identidade do seu povo. Mas \u201cG\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas um componente organicamente vinculado aos arm\u00eanios do s\u00e9culo 20. \u00c9 tamb\u00e9m uma letra de cunho pol\u00edtico poderoso \u2013 e igualmente perigoso.<\/p>\n<p>Aos tr\u00eas anos de idade, vov\u00f4 conheceu essa letra em uma das formas mais duras e cru\u00e9is que uma crian\u00e7a pode aprender.<\/p>\n<p>Era abril de 1915 quando bateram na porta de sua casa, na cidade de Marach. O visitante turco cumprimentou a fam\u00edlia com um tiro na perna de seu pai. At\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe se o autor do disparo era um soldado ou simplesmente um vizinho. A \u00fanica certeza \u00e9 que seu pai era punido por ser um cidad\u00e3o arm\u00eanio em terras otomanas.<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/fuga2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCom deporta\u00e7\u00f5es e assasinatos, arm\u00eanios tentavam diversos modos de fugir do territ\u00f3rio turco-otomano<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o vou deix\u00e1-lo aqui sozinho. V\u00e3o embora e se salvem\u201d, disse a m\u00e3e aos quatro filhos, apressando-os para partir. Vov\u00f4 tinha acabado de sair do ber\u00e7o e come\u00e7ado a dar seus primeiros passos sozinho, enquanto os outros irm\u00e3os j\u00e1 estavam no \u00e1pice da adolesc\u00eancia. Eles nunca mais veriam seus pais.<\/p>\n<p>O desespero da m\u00e3e era justificado: poucos meses antes do que a fam\u00edlia futuramente chamaria de \u201cDia D\u201d com a chegada do misterioso visitante \u00e0 resid\u00eancia, ela perdera seu primeiro filho. Aram era um jovem professor que disseminava ideias contr\u00e1rias ao governo turco e incendiava a sala de aula com pensamentos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os pais estavam cientes de que Aram estava na mira das autoridades e n\u00e3o o impediram de se expressar, pois tamb\u00e9m faziam parte do partido socialista Tashnagtsutiun (Federa\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Arm\u00eania), que lutava pela liberdade dos arm\u00eanios na Turquia. A fam\u00edlia, inclusive, escondia armas em t\u00famulos no cemit\u00e9rio \u2013 uma manobra arriscada, pois os arm\u00eanios que fossem vistos armados eram condenados \u00e0 morte na cidade.<\/p>\n<p>Situada na por\u00e7\u00e3o central do territ\u00f3rio turco-otomano, Marach \u00e9 considerada uma regi\u00e3o da \u201cArm\u00eania Ocidental\u201d pela forte presen\u00e7a de uma comunidade arm\u00eania que floresceu no local, embora fosse distante de onde se formou propriamente o atual Estado arm\u00eanio.<\/p>\n<p>Com o sistem\u00e1tico massacre de arm\u00eanios e a consequente retomada do territ\u00f3rio pelos turcos, a cidade teve seu nome alterado para Kahramanmarach que, na l\u00edngua turca, significa \u201cMarach her\u00f3ica\u201d, pois a limpeza \u00e9tnica foi um verdadeiro ato de bravura aos olhos otomanos.<\/p>\n<p>Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/mapasevress(1).jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDivis\u00e3o ap\u00f3s o Tratado de S\u00e8vres (1920): Imp\u00e9rio Otomano em laranja, S\u00edria em azul e Arm\u00eania em amarelo<\/p>\n<p>Em meio a essa troca de nomenclatura e em plena persegui\u00e7\u00e3o, vov\u00f4 fugiu com seus tr\u00eas irm\u00e3os em dire\u00e7\u00e3o a Aleppo, cidade s\u00edria situada a mais de 200 quil\u00f4metros ao sul de sua cidade natal.<\/p>\n<p>No caminho, todavia, vov\u00f4 foi resgatado pela Cruz Vermelha. Na ocasi\u00e3o, a ONG humanit\u00e1ria estipulou um padr\u00e3o de resgate de crian\u00e7as entre 3 e 7 anos: razoavelmente desenvolvidas para conseguirem caminhar por conta pr\u00f3pria, mas vulner\u00e1veis o suficiente para morrerem com mais facilidade em virtude das dificuldades do trajeto.<\/p>\n<p>Como de praxe, a Cruz Vermelha encaminhava as crian\u00e7as arm\u00eanias para um orfanato na ilha grega de Corfu. L\u00e1, elas aprendiam as disciplinas da escola em franc\u00eas, mas assistiam a aulas di\u00e1rias de l\u00edngua arm\u00eania para n\u00e3o perderem v\u00ednculo com as suas ra\u00edzes culturais.<\/p>\n<p>Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/camprefugeesaleppo(1).jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCampo de refugiados arm\u00eanios na cidade s\u00edria de Aleppo: pobreza e dificuldades<\/p>\n<p>Do outro lado do mundo, em Aleppo, os tr\u00eas irm\u00e3os demorariam dez anos para conseguir sair do campo de refugiados e, enfim, se estabelecer na S\u00edria, tendo a pr\u00e1tica da alfaiataria como meio de sobreviv\u00eancia. Com o inferno do passado sendo gradualmente superado e uma perspectiva de futuro \u00e0 vista, Nazareth, o primog\u00eanito, decidiu que era hora de buscar o ca\u00e7ula em terras gregas.<\/p>\n<p>\u201cAqui n\u00e3o \u00e9 a sua casa e esses meninos n\u00e3o s\u00e3o sua fam\u00edlia. Mas do outro lado desta porta est\u00e1 seu irm\u00e3o e daqui para frente voc\u00ea vai ficar com ele\u201d, instruiu o diretor da Cruz Vermelha a vov\u00f4, que j\u00e1 completava 16 anos.<\/p>\n<p>A ma\u00e7aneta foi aberta, dando passagem para um homem de quase 30 anos. De imediato, Nazareth, homem feito, reerguido e casado, correu em dire\u00e7\u00e3o ao adolescente \u00e0 sua frente e caiu no choro, apertando-o com for\u00e7a.\u00a0D\u00e9cadas depois, vov\u00f4 recordaria que n\u00e3o tinha a menor ideia de como deveria reagir diante daquele desconhecido que o abra\u00e7ava.<\/p>\n<p>De Corfu, primog\u00eanito e ca\u00e7ula voltaram a Aleppo onde buscaram os outros irm\u00e3os e partiram para a cidade francesa de Marselha.\u00a0O ano era 1926 e apesar de o governo franc\u00eas permitir ref\u00fagio aos arm\u00eanios em vista do exterm\u00ednio e das persegui\u00e7\u00f5es, a Europa estava destru\u00edda no p\u00f3s-Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/Ararat(1).JPG\" alt=\"\" \/><br \/>\nMonte Ararat \u00e9 um dos principais s\u00edmbolos arm\u00eania, mas hoje est\u00e1 localizado em territ\u00f3rio anexado por turcos<\/p>\n<p>Vov\u00f4 garante que seus irm\u00e3os lhe disseram que a qualquer momento estouraria outra grande guerra no continente europeu e, por isso, deveriam tentar construir um futuro em outra parte do mundo.Como a vida \u00e9 constitu\u00edda da tens\u00e3o entre acaso e escolha, Brasil surgiu como uma oferta dada \u00e0 sorte pelo vendedor de bilhetes de navio de Marselha. E eles acataram.<\/p>\n<p>Mais de 80% dos arm\u00eanios que chegaram ao Brasil eram origin\u00e1rios de Marach e de cidades adjacentes, como Zeitun, Sis e Hadjin. Vov\u00f4 seria um desses 25 mil imigrantes que formariam a comunidade arm\u00eania em terras brasileiras na d\u00e9cada de 20, consolidando-se como provas vivas do massacre de 1.5 milh\u00e3o de arm\u00eanios. Massacre este que vov\u00f4 conheceria pela letra \u201cG\u201d, de Genoc\u00eddio, de forma dolorosa como o crescimento de um menino e triste como o in\u00edcio da primavera de abril de 1915.<\/p>\n<p>Dado seu poder sem\u00e2ntico, gen\u00e9tico e pol\u00edtico, certas palavras devem ser ditas, letra por letra, e n\u00e3o meticulosamente evitadas e confundidas. A hist\u00f3ria de vov\u00f4 e os testemunhos de outros 800 mil arm\u00eanios que se espalharam pelo mundo n\u00e3o foram mera coincid\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de possu\u00edrem o elemento \u201cG\u201d em seu DNA, todos esses filhos da di\u00e1spora s\u00e3o conectados pelo simb\u00f3lico sufixo \u201cian\u201d que comp\u00f5em seus tra\u00e7os identit\u00e1rios comuns. C\u00f3digo de reconhecimento internacional, essas tr\u00eas letrinhas significam \u201corigem\u201d. Com um p\u00e9 sempre no passado, vov\u00f4 n\u00e3o se prendia \u00e0 narrativa da \u00a0mem\u00f3ria tr\u00e1gica do genoc\u00eddio arm\u00eanio: sua hist\u00f3ria \u00e9 uma marca de resist\u00eancia.<\/p>\n<p><em>A Artin Dichtchekenian.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 24 de abril de 1915, turcos iniciaram um processo de elimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica que at\u00e9 hoje n\u00e3o reconhecem e que resultou na morte de 1.5 milh\u00e3o de arm\u00eanios<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":58298,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327],"tags":[],"class_list":["post-58297","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/povo-pobre.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58297"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58297\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}