{"id":59474,"date":"2015-05-11T04:02:01","date_gmt":"2015-05-11T07:02:01","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=59474"},"modified":"2015-05-11T04:02:01","modified_gmt":"2015-05-11T07:02:01","slug":"operacao-valquiria-vistas-por-uma-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/operacao-valquiria-vistas-por-uma-mulher\/","title":{"rendered":"Opera\u00e7\u00e3o Valqu\u00edria vistas por uma mulher"},"content":{"rendered":"<div class=\"tamanho_2\">\n<div class=\"titulo_detalhe\">\n<h1 class=\"titulo_detalhe\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"titulo_detalhe\" style=\"text-align: justify;\"><em>O relato de Marie Vassiltchikov \u00e9 considerado o melhor relato sobre a tentativa de por fim \u00e0 ditadura nazista, que ficou conhecida &#8216;Opera\u00e7\u00e3o Valqu\u00edria.&#8217;<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span id=\"detalhe_autor\" class=\"detalhe_autor\">Fl\u00e1vio Aguiar<\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div id=\"pag\" class=\"img_editorial_detalhe\"><img decoding=\"async\" title=\"reprodu\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/arquivosCartaMaior\/FOTO\/156\/94EE3E9C8DB3262F3ABEBB632C4F21548F7777AD2BD14385CCE2276E1414F580.png\" alt=\"reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<div id=\"pag_1\">\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\"><b>Berlim &#8211;\u00a0<\/b>8 e 9 de maio s\u00e3o as datas que comemoram o fim oficial da Segunda Guerra Mundial. A rendi\u00e7\u00e3o incondicional de todas as Forcas Armadas alem\u00e3s foi assinada perto da meia-noite em Berlim. Em Moscou, cujo Ex\u00e9rcito Vermelho tomara a capital alem\u00e3, j\u00e1 era o dia 9. Por isso as duas datas se referem a este final de uma das guerras mais cruentas da historia da humanidade. Tradicionalmente as comemora\u00e7\u00f5es lembram o esfor\u00e7o conjunto dos aliados. Mas n\u00e3o este ano. Diversos pa\u00edses do Ocidente est\u00e3o boicotando as comemora\u00e7\u00f5es russas, alegando as viola\u00e7\u00f5es de Moscou em rela\u00e7\u00e3o a soberania da Ucr\u00e2nia. A R\u00fassia, por seu lado, vem enfatizando o pr\u00f3prio esfor\u00e7o, al\u00e9m de lembrar o elevad\u00edssimo numero de v\u00edtimas (20 milh\u00f5es).<\/p>\n<p>Uma maneira original de lembrar estes eventos da historia \u00e9 a leitura do livro Di\u00e1rios de Berlim, 1940 &#8211; 1945, da princesa russa Marie Vassiltchikov, que passou a guerra em Berlim, onde estava exilada. Al\u00e9m de evocar a atmosfera progressivamente deteriorada da cidade, sob os bombardeios a\u00e9reos, ela, que era visceralmente anti-nazista, testemunhou de perto a prepara\u00e7\u00e3o da fracassada tentativa de matar Hitler em 20 de julho de 1944, e a repress\u00e3o que se seguiu, vitimando v\u00e1rios de seus amigos. Ela pr\u00f3pria acabou tendo que fugir de Berlim, indo para Viena, onde testemunhou o fim da guerra. Seu relato \u00e9 considerado at\u00e9 hoje o mais completo dentre os contempor\u00e2neos daquela tentativa de por fim a guerra e a ditadura nazista, que ficou conhecida como Opera\u00e7\u00e3o Valquiria.<\/p>\n<p>A Boitempo Editorial acaba de publicar o livro com tradu\u00e7\u00e3o e notas minhas, al\u00e9m de uma apresenta\u00e7\u00e3o que reproduzimos a seguir.<\/p>\n<p>A quarta capa \u00e9 de autoria do professor Antonio Candido, que considera o livro uma obra \u201cde qualidade extraordin\u00e1ria, como documento e como revela\u00e7\u00e3o de personalidade\u201d.\u00a0 \u201cA escrita, de excelentes predicados pela objetiva naturalidade, real\u00e7a o fasc\u00ednio despertado por esse relato que enriquece nosso conhecimento sobre uma das fases mais tr\u00e1gicas da historia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>APRESENTA\u00c7\u00c3O:<\/p>\n<p>Voltei para Johannisberg por Bad Schwalbach, atrav\u00e9s dos belos bosques do Taunus. L\u00e1 o sil\u00eancio \u00e9 total, e uma sensa\u00e7\u00e3o de quietude e paz nos invade&#8230;<\/p>\n<p>Com estas palavras a autora deste di\u00e1rio, Marie Vassiltchikov (-Harnden) o encerra. A Segunda Guerra Mundial, come\u00e7ada seis anos antes, terminara na Europa h\u00e1 exatos quatro meses e nove dias; no Pac\u00edfico, h\u00e1 39 dias.<\/p>\n<p>O Taunus \u00e9 um conjunto de colinas e montanhas entre o rio Reno e a cidade de Frankfurt. Brancas no inverno, s\u00e3o verdejantes no ver\u00e3o \u2013 momento em que o di\u00e1rio termina. Espa\u00e7o de esta\u00e7\u00f5es de \u00e1guas muito procuradas pela aristocracia do continente pelo menos desde o s\u00e9culo XVIII, \u00e9 um cen\u00e1rio extremamente simb\u00f3lico como refer\u00eancia final da autora. Durante a guerra ela vira o mundo aristocrata em que nascera e crescera ruir \u2013 tendo sido uma testemunha \u2018privilegiada\u2019 de um dos cap\u00edtulos mais dram\u00e1ticos deste final digno de uma \u00f3pera de Wagner: a tr\u00e1gica conspira\u00e7\u00e3o para matar Hitler que levou \u00e0 fracassada tentativa de \u00a020 de julho de 1944 e a repress\u00e3o que se seguiu, dizimando parte significativa da alta oficialidade das For\u00e7as Armadas alem\u00e3s e dos diplomatas do pa\u00eds. Seu di\u00e1rio \u00e9 considerado at\u00e9 hoje como o \u00fanico depoimento extenso contempor\u00e2neo destes acontecimentos, com notas tomadas no calor da hora.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era somente a aristocracia que vira seu mundo destru\u00eddo. A Europa inteira \u2013 junto com \u00a0ela Berlim e Viena, cidades onde a autora passara a maior parte do conflito \u2013 era um amontoado de escombros, tanto do ponto de vista material quanto do espiritual. Uma esp\u00e9cie de \u2018sentimento de ru\u00edna\u2019 marcava tanto os vitoriosos quanto os derrotados, mas este era \u00a0mais acentuado entre os que atravessaram a guerra na Alemanha ou que a ela se aliaram, tomados primeiro pela f\u00faria nazista avassaladora e depois por sua hecatombe n\u00e3o menos catastr\u00f3fica. Entre as ru\u00ednas armava-se novo conflito \u2013 a Guerra Fria, de cujos pr\u00f3dromos a autora tamb\u00e9m d\u00e1 \u00a0testemunho, atrav\u00e9s do vaiv\u00e9m dos norte-americanos e dos russos \u2013 al\u00e9m dos guerrilheiros de pa\u00edses como a Hungria e a \u2018nova\u2019 Tchecoslov\u00e1quia (hoje desaparecida) \u2013 nos territ\u00f3rios ocupados, onde antes desfilava a sobranceria arrogante dos SS e outros nazistas.<\/p>\n<p>A autora registra, inclusive, o verdadeiro p\u00e2nico que se apossa dos aristocratas e outros que, de uma maneira ou de outra, tinham se acomodado dentro da ocupa\u00e7\u00e3o nazista, diante do amea\u00e7ador avan\u00e7o do Ex\u00e9rcito Vermelho sovi\u00e9tico e dos guerrilheiros dos movimentos de resist\u00eancia, sobretudo na Hungria, Tchecoslov\u00e1quia e \u00c1ustria. Para ela mesma, refugiada russa tornada ap\u00e1trida depois que sua fam\u00edlia fugira da Revolu\u00e7\u00e3o de 1917, e j\u00e1 na Segunda Guerra, da Litu\u00e2nia ocupada pelos sovi\u00e9ticos devido ao Pacto Molotov-Ribbentrop, o avan\u00e7o sovi\u00e9tico representava um perigo substancial. Entretanto, ela demonstra o tempo inteiro um sangue frio not\u00e1vel, o mesmo que demonstrou durante a persegui\u00e7\u00e3o aos implicados no atentado de 20 de julho, em que se envolveram muitos de seus amigos e conhecidos.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais novo da autora, George (\u2018Georgie\u2019) Vassiltchikov, tomou a si o encargo de fazer a prepara\u00e7\u00e3o final do di\u00e1rio para publica\u00e7\u00e3o, depois que ela morrera, em 1978, de leucemia. Em seu pref\u00e1cio ele esclarece o modo com que foi redigido e revisto o di\u00e1rio, bem como as circunst\u00e2ncias dif\u00edceis de sua, digamos, \u2018sobreviv\u00eancia\u2019. \u00a0Dividido, com suas partes guardadas em diferentes locais, escrito em parte num c\u00f3digo taquigr\u00e1fico pessoal, s\u00f3 pode ser reunido pela autora depois do final da guerra. E ela levou 31 anos para decidir-se pela publica\u00e7\u00e3o, completando a vers\u00e3o definitiva (iniciada em 1976) algumas semanas antes de sua morte. Na formata\u00e7\u00e3o final do livro, George Vassiltchikov complementou o di\u00e1rio com coment\u00e1rios pr\u00f3prios (registrados sempre em it\u00e1lico), e contribui\u00e7\u00f5es da correspond\u00eancia da autora ou de outras pessoas ligadas aos acontecimentos, al\u00e9m de elaborar um ep\u00edlogo dando conta do destino de muitas das personalidades citadas por ela. Mais tarde redigiu tamb\u00e9m um posf\u00e1cio, comentando o destino do di\u00e1rio depois de publicado. Partes do di\u00e1rio se perderam e at\u00e9 hoje n\u00e3o foram encontradas. Por raz\u00f5es desconhecidas a pr\u00f3pria autora (quem afirma isto \u00e9 o \u00a0irm\u00e3o) destruiu algumas de suas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>O di\u00e1rio em si \u00e9 uma obra-prima de min\u00facia e estilo. Nas condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis em que se via a autora, comprimida entre a sua repulsa ao nazismo e ao pr\u00f3prio Hitler, sua condi\u00e7\u00e3o de exilada ap\u00e1trida e a censura reinante, ela acabou criando um compromisso entre a anota\u00e7\u00e3o detalhada dos acontecimentos, das rea\u00e7\u00f5es dos personagens (e de si mesma), e uma necess\u00e1ria concis\u00e3o de escrita, que redundaram num estilo not\u00e1vel pelo uso preciso e contido das palavras, sem jamais cair no rebuscamento ou na obscuridade. Na tradu\u00e7\u00e3o, feita a partir do original em ingl\u00eas, procurou-se manter a fidelidade a este estilo, respeitando-se tamb\u00e9m o momento hist\u00f3rico da escrita, isto \u00e9, sem recorrer a express\u00f5es que entraram em nosso l\u00e9xico corrente num per\u00edodo posterior.<\/p>\n<p>A leitura levar\u00e1 leitoras e leitores ao encontro de algo que pode-se chamar de uma \u2018composi\u00e7\u00e3o sinf\u00f4nica\u2019, com algumas linhas tem\u00e1ticas organizando-se como os movimentos de uma grande pe\u00e7a musical. Entretanto, a organiza\u00e7\u00e3o do di\u00e1rio faz com que estes movimentos se desdobrem simultaneamente perante o olhar de quem l\u00ea, entrela\u00e7ando-se e interpenetrando-se sem cessar na cria\u00e7\u00e3o de uma atmosfera narrativa extremamente complexa, viva e mutante, apesar da const\u00e2ncia de certos tra\u00e7os do estilo e da autora, como o j\u00e1 mencionado sangue-frio diante da dramaticidade dos acontecimentos, aliado a uma percep\u00e7\u00e3o extremamente perspicaz do seu contexto e dos personagens que a rodeiam, que n\u00e3o raro envereda por uma ironia fina e por vez ou outra at\u00e9 algo mordaz.<\/p>\n<p>Aqueles \u2018movimentos sinf\u00f4nicos\u2019, em n\u00famero de 5, seguidos de uma coda, \u00a0poderiam ser descritos da seguinte forma:<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">1. H\u00e1 um allegro vivace que jamais desaparece, embora seja mais vibrante no come\u00e7o e depois, diante das vicissitudes da guerra, da repress\u00e3o nazista e da hecatombe final ele v\u00e1 se esmaecendo at\u00e9 desbotar quase por completo. Seu tema \u00e9 o da jovem (quando o di\u00e1rio come\u00e7a a autora est\u00e1 para completar 23 anos) que, apesar das circunst\u00e2ncias adversas, quer aproveitar a vida, desabrochar, divertir-se, ir a festas, piqueniques, encontrar companhias agrad\u00e1veis, enfim, desfrutar de tudo o que a \u2018maturidade juvenil\u2019 poderia lhe oferecer. Neste movimento vemos uma sucess\u00e3o de festas, jantares, recep\u00e7\u00f5es que se oferecem na Berlim do come\u00e7o e mesmo do meio da guerra, sobretudo nos c\u00edrculos aristocr\u00e1ticos e diplom\u00e1ticos que ela frequenta. Tal ritmo contrasta \u2013 sem jamais ser abafado \u2013 pela necessidade de encontrar trabalho, remunera\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m alimenta\u00e7\u00e3o adequada. Esta era particularrmente dif\u00edcil num clima de racionamento de g\u00eaneros de primeira necessidade, em que, paradoxalmente, escasseiam, por exemplo, cerveja, carne e batatas, mas abundam caviar, ostras e champanhe \u00a0\u2013 iguarias vindas dos territ\u00f3rios ocupados a leste e a oeste.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">2. Ao lado deste movimento desenvolvem-se o minueto e o rond\u00f3 do mundo aristocr\u00e1tico, cujo \u00e1pice se d\u00e1 com o casamento do Pr\u00edncipe Konstantin da Baviera com a Princesa Maria-Adelgunde de Hohenzollern, em 31 de agosto de 1942, no castelo de Sigmaringen. A festa durou v\u00e1rios dias e foi descrita como o maior evento social da aristocracia europeia durante a guerra \u2013 e o \u00faltimo. A autora n\u00e3o abandona seu olhar sempre perspicaz sobre este mundo cujos alicerces est\u00e3o terminando de ruir. Toda a pompa (e circunst\u00e2ncia) de tal acontecimento \u00e9 descrita de modo finamente ir\u00f4nico, ao mesmo tempo participativo e distanciado, registrando o decoro de um mundo que se desvanece em meio aos bombardeios, invas\u00f5es e atrocidades da guerra que ruge ao redor.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">3. O terceiro movimento pode ser compreendido como uma verdadeira s\u00e1tira musicale. Comp\u00f5e-no \u00a0o mundo do trabalho da autora, que a atrai e repugna ao mesmo tempo. Ele a atrai porque, sobretudo no Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, ela se v\u00ea num dos pouco \u2018aqu\u00e1rios\u2019 dentro do universo nazista onde a informa\u00e7\u00e3o circula sem censura pr\u00e9via (embora dali para fora tudo seja censurado) devido \u00e0s necessidades pr\u00f3prias da guerra. Tamb\u00e9m a atrai porque \u00e9 nele que ela descobre o verdadeiro \u2018ninho\u2019 da resist\u00eancia aristocr\u00e1tica anti-nazista e alguns dos personagens que ocupar\u00e3o o primeiro plano na sua narrativa, de um ponto de vista factual ou \u00e9tico. Mas ao mesmo tempo \u00e9 um mundo que lhe provoca repugn\u00e2ncia, pela mistura de obtusidade, subservi\u00eancia, oportunismo e arrog\u00e2ncia que a pr\u00e1tica e a pr\u00e9dica nazistas lhe imp\u00f5em, sobretudo atrav\u00e9s dos chefes envolvidos com a S.S., que progressivamente v\u00e3o tomando conta da atmosfera. Tamb\u00e9m torna-se sat\u00edrica a observa\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios trabalhos que ela se v\u00ea na circunst\u00e2ncia de fazer, como a montagem de um arquivo fotogr\u00e1fico que \u00e9 destru\u00eddo pelo fogo por duas vezes, cuja elabora\u00e7\u00e3o sempre recome\u00e7a, como um verdadeiro trabalho de S\u00edsifo. Por outro lado, chega a ser c\u00f4mica a obstina\u00e7\u00e3o de alguns de seus chefes, como a de um deles que j\u00e1 em meio ao desmoronamento final do regime \u00a0nazista ainda desencava um pat\u00e9tico projeto de uma nova revista de propaganda a ser lan\u00e7ada no futuro, quando n\u00e3o h\u00e1 mais futuro. Ou ent\u00e3o, j\u00e1 em Viena, a obsess\u00e3o de outros nazistas com frases bomb\u00e1sticas de dedica\u00e7\u00e3o e at\u00e9 vit\u00f3ria num momento em que o dil\u00favio das bombas dos Aliados e a verdadeira torrente do Ex\u00e9rcito Vermelho desmancham \u00a0suas ilus\u00f3rias arcas de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">4. O quarto movimento, um t\u00edpico andante com tonalidades a um tempo \u00e9picas e tr\u00e1gicas, \u00e9 o andamento da guerra. Inscrevem-se neste movimento algumas das p\u00e1ginas mais belas, contundentes e terr\u00edveis deste di\u00e1rio. A descri\u00e7\u00e3o dos bombardeios, sobretudo sobre Berlim, mas tamb\u00e9m em Viena e outras cidades, toma vulto perante o \u00a0olhar que ler o di\u00e1rio, trazendo-lhe o impacto de destrui\u00e7\u00e3o e desola\u00e7\u00e3o que toda guerra carrega \u00a0invariavelmente consigo. Alternam-se os bombardeios com os inc\u00eandios subsequentes, enquanto a urbs e a pr\u00f3pria ideia de urbanidade v\u00e3o sendo pulverizadas no plano concreto e tamb\u00e9m no plano espiritual dos que passam a viver entre escombros \u2013 \u00e0s vezes das pr\u00f3prias casas em que antes habitavam com maior ou menor conforto, mas pelo menos algum conforto. \u00c9 um cen\u00e1rio ao mesmo tempo macabro e majestoso, medonho e pungente, em que o estilo da autora, sem d\u00favida, extrai e d\u00e1 o melhor de si.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">5. O quinto movimento pode ser descrito como o de um adagio tr\u00e1gico, embora por vezes apresente momentos de alt\u00edssima e fren\u00e9tica tens\u00e3o. Ele \u00e9 introduzido pelo meio do di\u00e1rio, e aos poucos vai ocupando o primeiro plano, a ponto de se tornar o motivo central da composi\u00e7\u00e3o. \u00c9 tudo o que gira em torno da conspira\u00e7\u00e3o que levou ao atentado de 20 de julho de 1944, seu fracasso, e a brutal e vingativa repress\u00e3o que se seguiu. Para a leitura atenta das entrelinhas, ficar\u00e1 evidente que, apesar das negativas, a autora do di\u00e1rio nela se envolveu mais do que quer admitir. O motivo deste \u2018recuo\u2019 fica obscuro; as conjeturas cabem, de novo, \u00e0s poss\u00edveis leituras que o di\u00e1rio permite. Atrav\u00e9s da conspira\u00e7\u00e3o toma-se contato com aqueles que sejam talvez o n\u00facleo central de personagens do di\u00e1rio, al\u00e9m da sua autora: o operoso Gottfried von Bismarck, militante obstinado no convencimento de outros; a irrequieta e temer\u00e1ria Loremarie Sch\u00f6nburg, ou Princesa Eleanore-Marie Sch\u00f6nburg-Hartenstein; e aquele que \u00e9, decididamente, o grande personagem tr\u00e1gico do livro, Adam von Trott zu Solz, um intelectual \u00a0e diplomata brilhante, patriota, que tenta por todos os meios fazer uma conex\u00e3o com os Aliados do Ocidente e no \u00faltimo momento at\u00e9 com os russos. \u00a0Gottfried, neto do Chanceler de Ferro, ser\u00e1 o homem que armazenar\u00e1 as quatro bombas destinadas ao atentado de 20 de julho; duas delas ser\u00e3o levadas pelo Coronel Claus von Stauffenberg que, devido a perda de uma m\u00e3o em ferimento anterior, poder\u00e1 preparar e usar apenas uma delas, um dos motivos que ajudar\u00e3o Hitler a escapar ileso da explos\u00e3o que vitimou quatro outras pessoas em seu bunker na Pol\u00f4nia. Loremarie, como grande parte da aristocracia germ\u00e2nica, tem manifesta avers\u00e3o por Hitler. Mas ao contr\u00e1rio da maioria, n\u00e3o esconde sua avers\u00e3o, tornando-se um perigo para os demais conspiradores. Ali\u00e1s, fica evidente tal avers\u00e3o de classe por parte dos aristocratas a Hitler, menos por seus aspectos autorit\u00e1rios e mais por aquilo que eles \u00a0\u2013 massa dominante no alto oficialato do Ex\u00e9rcito germ\u00e2nico \u2013 consideravam o \u2018populismo\u2019, a \u2018vulgaridade\u2019 e o car\u00e1ter de parvenus (\u2018rec\u00e9m-chegados\u2019) de Hitler e seus asseclas \u00a0(membros do governo, os S. S. e tamb\u00e9m os S. A.) no cen\u00e1rio do governo alem\u00e3o. J\u00e1 Adam von Trott \u00a0guarda seu ideal de uma Alemanha altiva mas livre do pesadelo nazista \u2013 coisa que se prova incompat\u00edvel com o momento ent\u00e3o presente e o arrasta implacavelmente \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, cujo cap\u00edtulo final ser\u00e1 executado com crueldade pelos carrascos da pris\u00e3o de Pl\u00f6tzensee. Todo o tempo fica evidente o la\u00e7o de fervorosa admira\u00e7\u00e3o e acentuada afetividade \u2013 sem d\u00favida m\u00fatuas \u2013 que une este personagem e a autora do di\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">6. Por fim, para al\u00e9m dos cinco grandes movimentos da sinfonia, \u00a0a coda registra uma esp\u00e9cie de andantino, a aventurosa busca do caminho at\u00e9 a casa de seus parentes, depois do fim da guerra. A viagem, algo pitoresca e cheia de perip\u00e9cias, embora entre ru\u00ednas, tem algo de apaziguador e at\u00e9 de comicidade, envolvendo intempestivas propostas de casamento, al\u00e9m do oferecimento de uma prosaica \u00e1gua num capacete americano para que a autora lave seu rosto enegrecido pela fuligem de um trem. Este apaziguamento se revela em sua plenitude naquela frase final, evocando as montanhas e florestas do Taunus.<\/p>\n<div class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p class=\"texto_detalhe\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Para concluir, seguem descritas algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a metodologia da tradu\u00e7\u00e3o. Almejou-se a fidelidade ao estilo, mais do que \u00e0 literalidade das express\u00f5es usadas pela autora. Ela vem acompanhada por in\u00fameras notas de rodap\u00e9, esclarecendo, para al\u00e9m dos valiosos coment\u00e1rios e inser\u00e7\u00f5es do irm\u00e3o da autora, quem s\u00e3o os personagens citados e as circunst\u00e2ncias de lugar e momento hist\u00f3rico referidas ao longo do di\u00e1rio. O motivo de tal profus\u00e3o de notas \u00e9 a dist\u00e2ncia temporal que separa os eventos narrados do p\u00fablico brasileiro atual; tamb\u00e9m situar a identidade e o papel de v\u00e1rios daqueles personagens. A sua presen\u00e7a ajuda a delinear o universo das rela\u00e7\u00f5es pessoais e o contexto da vida da autora na Alemanha e depois na \u00c1ustria, durante a guerra e o seu desenlace.<\/p>\n<p>Nem sempre foi poss\u00edvel esclarecer a identidade dos citados. Um dos motivos, por exemplo, \u00e9 a excessiva coincid\u00eancia de nomes e t\u00edtulos dentro das fam\u00edlias aristocratas da Europa, que dificulta a identifica\u00e7\u00e3o precisa da pessoa citada. Por vezes a autora se refere apenas \u00e0s iniciais do nome ou d\u00e1 apenas o primeiro nome de algu\u00e9m. Evitou-se fazer notas sobre personagens obviamente not\u00f3rios, como Hitler, Roosevelt, Stalin, Churchill ou outros de igual renome, a menos que fosse para esclarecer algum detalhe significativo sobre sua presen\u00e7a no di\u00e1rio. As notas da tradu\u00e7\u00e3o est\u00e3o sempre em tipo normal. J\u00e1 as do irm\u00e3o da autora v\u00eam sempre em it\u00e1lico.<\/p>\n<p>A maior parte das informa\u00e7\u00f5es das notas de rodap\u00e9 foi obtida na internet. Sua verifica\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, bastando pesquisar nomes e refer\u00eancias no universo virtual. Assim mesmo, sempre que poss\u00edvel procurou-se a confirma\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do cruzamento de diferentes fontes. Quando a fonte for outra, como um livro ou artigo de revista ou jornal, a refer\u00eancia acompanha a nota.<\/p>\n<p>De prop\u00f3sito, escreveu-se sempre com mai\u00fascula o t\u00edtulo de nobreza dos personagens ou o escal\u00e3o militar a que pertencem. O motivo desta op\u00e7\u00e3o \u00e9 a norma alem\u00e3 de que tais t\u00edtulos, como \u2018Pr\u00edncipe\u2019 ou \u2018Duque\u2019, postos militares, como \u2018Capit\u00e3o\u2019 ou \u2018Coronel\u2019, passam obrigatoriamente a integrar o nome pr\u00f3prio da pessoa, constando at\u00e9 em seus documentos de identidade. O mesmo acontece com os t\u00edtulos universit\u00e1rios, como \u2018Doutor\u2019 ou \u2018Professor Doutor\u2019, etc. Optou-se por n\u00e3o nacionalizar para o portugu\u00eas os nomes pr\u00f3prios. Assim escreveram-se os nomes sempre com a grafia original: Gottfried, Konstantin, etc.<\/p>\n<p>O di\u00e1rio de Marie Vassiltchikov foi publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos, na l\u00edngua inglesa em que foi originalmente escrito. H\u00e1 tradu\u00e7\u00f5es para o alem\u00e3o, para o russo, o franc\u00eas,o espanhol e o italiano, pelo menos, e agora para o portugu\u00eas do Brasil. Na capa da edi\u00e7\u00e3o norte-americana em que baseou-se a presente tradu\u00e7\u00e3o, consta uma observa\u00e7\u00e3o do conhecido romancista John Le Carr\u00e9, especializado em narrativas sobre a Guerra Fria:<\/p>\n<p>\u2018Simplesmente um dos mais extraordin\u00e1rios di\u00e1rios de guerra jamais escritos. Inocente e ao mesmo tempo sofisticado, ele retrata a morte da Velha Europa atrav\u00e9s do olhar de uma linda jovem aristocrata, cujo mundo est\u00e1 morrendo com os eventos que ela descreve\u201d.<\/p>\n<p>Nada mais justo como observa\u00e7\u00e3o sobre o livro.<br \/>\n<span class=\"texto_detalhe\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O relato de Marie Vassiltchikov \u00e9 considerado o melhor relato sobre a tentativa de por fim \u00e0 ditadura nazista, que ficou conhecida &#8216;Opera\u00e7\u00e3o Valqu\u00edria.&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":59475,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327],"tags":[],"class_list":["post-59474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/berlim.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59474"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59474\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}