{"id":66935,"date":"2015-06-17T05:03:18","date_gmt":"2015-06-17T08:03:18","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=66935"},"modified":"2015-06-17T05:03:18","modified_gmt":"2015-06-17T08:03:18","slug":"branca-ou-negra-homem-ou-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/branca-ou-negra-homem-ou-mulher\/","title":{"rendered":"Branca ou negra? Homem ou mulher?"},"content":{"rendered":"<header>\n<div class=\"row\">\n<h1 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><em>A hist\u00f3ria da americana que falsificou a pr\u00f3pria identidade e a troca de sexo de Bruce Jenner \u2014 agora Caitlyn \u2014 jogam luz sobre o significado dos r\u00f3tulos<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<p class=\"author row\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"prefixo-autor\">Por: <\/span><strong>Andr\u00e9 Petry<\/strong><\/p>\n<\/header>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"content col-xs-13\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"Rachel Dolezal\" src=\"http:\/\/msalx.veja.abril.com.br\/2015\/06\/15\/2128\/pe6Cx\/alx_montagem-rachel-dolezal_original.jpeg?1434414480\" alt=\"Rachel Dolezal\" \/><figcaption>Rachel Dolezal na adolesc\u00eancia e, aos 37 anos, como negra: desmascarada pelos pr\u00f3prios pais<span class=\"credito\">(Youn Kwak\/AFP)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rachel Dolezal \u00e9 uma an\u00f4nima que ficou famosa como Michael Jackson ao contr\u00e1rio: \u00e9 branca e virou negra. Ou melhor: fingiu ser negra. Rachel estudou na Universidade Howard, tradicional reduto de universit\u00e1rios negros em Washington DC. Casou-se com um negro, com quem teve um filho, hoje com 13 anos. Tornou-se professora de estudos africanos na Universidade Eastern Washington, no estado de Washington. Desde o ano passado, presidia, na cidade de Spokane, a se\u00e7\u00e3o local da NAACP, sigla em ingl\u00eas para a principal entidade de defesa dos direitos civis dos negros. Sua gest\u00e3o organizou as finan\u00e7as, ampliou a milit\u00e2ncia e trouxe visibilidade \u00e0 NAACP. Em janeiro passado, Rachel at\u00e9 postou uma foto em sua p\u00e1gina no Facebook em que aparecia ao lado de um homem alto, negro, que identificou como seu pai. Com seu cabelo encarapinhado e pele bronzeada, Rachel, 37 anos, era um exemplo de militante negra. S\u00f3 que era tudo mentira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na semana passada, os pais de Rachel, que moram no estado de Montana, deram entrevista a uma emissora de televis\u00e3o e disseram que a filha \u00e9 branca, tal como eles pr\u00f3prios: &#8220;Ela \u00e9 obviamente nossa filha e n\u00f3s somos obviamente caucasianos.&#8221; Ruthanne e Lawrence contaram que, quando Rachel era adolescente, adotaram quatro crian\u00e7as negras. Rachel afei\u00e7oou-se aos irm\u00e3os e, mais tarde, imergiu na cultura negra. De uma d\u00e9cada para c\u00e1, mais ou menos, os pais come\u00e7aram a receber avisos de amigos informando que a filha andava se apresentando como negra. Como prova do que afirmavam, os pais de Rachel forneceram uma foto de adolesc\u00eancia. Na imagem, Rachel est\u00e1 sorrindo, cabelos loiros e lisos, olhos claros, entre o azul e o verde, e o rosto salpicado de sardas. Segundo os pais, a fam\u00edlia t\u00eam ascendentes alem\u00e3es, su\u00ed\u00e7os e checos, com uma pitada de ind\u00edgena. Em fun\u00e7\u00e3o de um desentendimento familiar, Rachel n\u00e3o fala com os pais h\u00e1 cerca de dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falsifica\u00e7\u00e3o da branca que virou negra conquistou a aten\u00e7\u00e3o de Spokane, cidade esmagadoramente branca, e logo ganhou as p\u00e1ginas dos principais jornais americanos e sites americanos e do mundo. Na segunda-feira, Rachel renunciou \u00e0 presid\u00eancia da NAACP. No dia seguinte, Rachel deu v\u00e1rias entrevistas, mas n\u00e3o esclareceu os motivos que a levaram a mentir sobre si mesma. Para comandar a NAACP, ser negro n\u00e3o \u00e9 um requisito. Em outros tempos, nos Estados Unidos, era comum que negros se identificassem como brancos, quando a cor da pele n\u00e3o os contradizia abertamente. No entanto, o inverso sempre foi raro em fun\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o e do preconceito contra os negros. Hoje em dia, por\u00e9m, o caso de Rachel parece mostrar que, pelo menos em certas circunst\u00e2ncias, \u00e9 melhor parecer negro do que branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Involuntariamente, Rachel provocou um debate relevante: afinal de contas, qual o significado do que se convencionou chamar de &#8220;identidade racial&#8221;? Do ponto de vista cient\u00edfico, n\u00e3o existe &#8220;ra\u00e7a branca&#8221; ou &#8220;ra\u00e7a negra&#8221;. Existe &#8220;ra\u00e7a humana&#8221;, nada al\u00e9m disso. Biologicamente, pertencem \u00e0 mesma ra\u00e7a os indiv\u00edduos que podem cruzar entre si e produzir uma prole f\u00e9rtil. Com o avan\u00e7o cient\u00edfico, descobriu-se ainda mais: um alem\u00e3o de Berlim pode ser geneticamente mais parecido com um negro de Luanda do que com outro alem\u00e3o de Berlim.<\/p>\n<section class=\"info-img-articles\">\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"Bruce Jenner\" src=\"http:\/\/msalx.veja.abril.com.br\/2015\/06\/15\/2126\/alx_montagem-bruce-jenner_original.jpeg?1434414363\" alt=\"Bruce Jenner\" \/><figcaption>Bruce como homem e transformado em Caitlyn na capa da &#8216;Vanity Fair&#8217;: g\u00eanero \u00e9 igual a ra\u00e7a?<span class=\"credito\">(Peter Kramer\/NBC e Annie Leibovitz\/Vanity Fair\/AP)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o existe ra\u00e7a branca ou negra, qual o crit\u00e9rio que se deve aplicar para considerar que algu\u00e9m \u00e9 negro ou branco? A cor da pele? A cor de seus antepassados? A presen\u00e7a de sangue negro ou branco nas veias? O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, que \u00e9 branco, \u00e9 casado com Chirlane McCray, que \u00e9 negra. Os dois filhos do casal, Chiara e Dante, s\u00e3o considerados negros. Por qu\u00ea? Neguinho da Beija Flor tem 67% de sangue europeu, e um sujeito loiro pode ter mais sangue negro nas veias do que Neguinho da Beija-Flor. A cor da pele pode parecer um crit\u00e9rio \u00f3bvio para a &#8220;identifica\u00e7\u00e3o racial&#8221;, mas h\u00e1 uma enorme varia\u00e7\u00e3o crom\u00e1tica entre o branco extremamente alvo e o preto profundamente escuro. Sendo assim, qual o tom que define a passagem de uma cor para outra? Depois da divertida pol\u00eamica na internet sobre a cor do vestido &#8211; era azul e preto, ou branco e dourado? -, sabe-se que n\u00e3o vemos as cores exatamente iguais. Algu\u00e9m pode ser negro para uns e branco para outros? Em 2007, os g\u00eameos univitelinos Alan e Alex Teixeira da Cunha inscreveram-se para as vagas das cotas raciais na Universidade de Bras\u00edlia e, embora id\u00eanticos, Alan foi classificado como negro e Alex como branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num artigo publicado no jornal ingl\u00eas <em>The Guardian<\/em>, o colunista Steven Thrasher, considerado negro, escreveu: &#8220;A hist\u00f3ria de Rachel \u00e9 fascinante para mim e para o resto do mundo porque exp\u00f5e de modo inquietante que nossa ra\u00e7a \u00e9 performance &#8211; que, apesar das enormes diferen\u00e7as sobre como nossas ra\u00e7as s\u00e3o percebidas e privilegiadas (ou n\u00e3o), todas se baseiam num mito segundo o qual as distin\u00e7\u00f5es s\u00e3o intr\u00ednsecas e intrinsicamente percept\u00edveis&#8221;. E completou: &#8220;A ideia de que a ra\u00e7a \u00e9 imut\u00e1vel \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social.&#8221; Na sua conta do Twitter, o te\u00f3logo americano Broderick Greer, tamb\u00e9m considerado negro, escreveu que o caso de Rachel mostra &#8220;a estupidez da constru\u00e7\u00e3o de &#8216;ra\u00e7a'&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como constru\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, os r\u00f3tulos raciais s\u00e3o arbitr\u00e1rios, imperfeitos. Variam conforme o contexto, a cultura, o zeitgeist. Sendo um conceito impreciso, como \u00e9 poss\u00edvel catalogar uma popula\u00e7\u00e3o segundo crit\u00e9rios raciais? E, pior ainda, como \u00e9 poss\u00edvel criar pol\u00edticas p\u00fablicas com base em crit\u00e9rios raciais, como as cotas raciais nas universidades brasileiras e no servi\u00e7o p\u00fablico? A identifica\u00e7\u00e3o racial \u00e9 uma categoria que remete \u00e0s ditaduras raciais, como a Alemanha nazista e a \u00c1frica do Sul do apartheid. Repudiar a classifica\u00e7\u00e3o racial, al\u00e9m de combinar com uma longa tradi\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 um ato de liberta\u00e7\u00e3o &#8211; para negros e brancos. Obviamente, isso n\u00e3o significa, nem requer, desconhecer as condi\u00e7\u00f5es desiguais em que vivem brancos e negros, nos Estados Unidos ou no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo considerado, por que Rachel Dolezal n\u00e3o podia apresentar-se como negra? No seu caso, claro, havia a mentira sobre a identidade de seu pai, havia uma falsifica\u00e7\u00e3o. Como dizia a peti\u00e7\u00e3o que pediu sua ren\u00fancia ao cargo de presidente da NAACP: &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ra\u00e7a, \u00e9 uma quest\u00e3o de integridade&#8221;. Mesmo assim, surgiu um debate paralelo que voltou a dividir conservadores e progressistas nos Estados Unidos. Se Rachel Dolezal n\u00e3o pode apresentar-se como negra, por que Caitlyn Jenner pode apresentar-se como mulher? Timothy Stanley, considerado branco, colunista do jornal ingl\u00eas <em>The Telegraph<\/em>, perguntou: &#8220;Qual \u00e9 a diferen\u00e7a material entre Rachel Dolezal e Caitlyn Jenner?&#8221; Stanley referia-se a Bruce Jenner que foi campe\u00e3o ol\u00edmpico nos anos 70 e, mais recentemente, participava do reality show das Kardashians. Bruce virou Caitlyn depois de fazer tratamento hormonal e assumir a identidade feminina. Saiu na capa de uma edi\u00e7\u00e3o recente da revista <em>Vanity Fair<\/em>. Rod Dreher, que \u00e9 considerado branco, editor da revista bimensal <em>The American Conservative<\/em>, ponderou: &#8220;Se Rachel Dolezal dissesse que \u00e9 homem, todos n\u00f3s ter\u00edamos que concordar, sob pena de sermos denunciados publicamente, mas se Rachel Dolezal diz que \u00e9 negra, \u00e9 justo question\u00e1-la.&#8221; Na apar\u00eancia, as duas quest\u00f5es, a racial e a de g\u00eanero, pertencem \u00e0 mesma esfera da liberdade individual. Mas h\u00e1, pelo menos, uma diferen\u00e7a gritante. Como realidade biol\u00f3gica, g\u00eanero existe. Ra\u00e7a, n\u00e3o. Em artigo no <em>The Guardian,<\/em> Meredith Talusan, que se identifica como transg\u00eanero, definiu a diferen\u00e7a entre ra\u00e7a e sexo ao seu modo: &#8220;M\u00e9dicos n\u00e3o anunciam a ra\u00e7a ou a cor quando nascemos, mas anunciam o g\u00eanero. Desde os prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria, existem pessoas que nascem com um g\u00eanero e se identificam com outro. Ra\u00e7a, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o da Europa medieval.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Assista a um trecho da entrevista dos pais de Rachel Dolezal:<\/strong><\/p>\n<div class=\"video-externo\" style=\"text-align: justify;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zT_mTRH43go\" width=\"300\" height=\"150\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">No v\u00eddeo, do segundo n\u00famero 17 em diante, Ruthanne, m\u00e3e de Rachel Dolezal, que aparece ao lado do marido, Lawrence, afirma que as hist\u00f3rias que a filha vem contando sobre sua negritude s\u00e3o mentirosas. Ela afirma:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00e3o todas falsas. Acho que Rachel est\u00e1 tentando prejudicar sua fam\u00edlia biol\u00f3gica e essas hist\u00f3rias, falsas como s\u00e3o, parecem servir ao seu prop\u00f3sito na cabe\u00e7a dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rep\u00f3rter pergunta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voc\u00eas alguma vez a questionaram sobre isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e responde:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, porque Rachel n\u00e3o quer falar conosco. Ela se distanciou de n\u00f3s e deixou bem claro que n\u00e3o nos queria por perto ou em comunica\u00e7\u00e3o com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Veja<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da americana que falsificou a pr\u00f3pria identidade e a troca de sexo de Bruce Jenner \u2014 agora Caitlyn \u2014 jogam luz sobre o significado dos r\u00f3tulos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":66936,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327],"tags":[],"class_list":["post-66935","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/kengos.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66935"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66935\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66936"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}