{"id":7733,"date":"2013-07-28T10:41:19","date_gmt":"2013-07-28T13:41:19","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=7733"},"modified":"2013-08-06T10:43:22","modified_gmt":"2013-08-06T13:43:22","slug":"aldeia-multietnica-leva-diversidade-cultural-ao-interior-goiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/aldeia-multietnica-leva-diversidade-cultural-ao-interior-goiano\/","title":{"rendered":"Aldeia multi\u00e9tnica leva diversidade cultural ao interior goiano"},"content":{"rendered":"<p>Alto Para\u00edso de Goi\u00e1s \u2013 Ponto alto do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, a Aldeia Multi\u00e9tnica reuniu, na \u00faltima semana, na Vila de S\u00e3o Jorge, mais de 200 \u00edndios de pelo menos dez etnias. A \u00e1rea ocupada pela aldeia desde a edi\u00e7\u00e3o de 2011, pr\u00f3xima ao Rio S\u00e3o Miguel, recebeu uma oca t\u00edpica dos krah\u00f4, do Tocantins. Neste ano, mais duas casas t\u00edpicas compuseram o espa\u00e7o, uma xinguana, usada pelos povos do Xingu, e uma kaiap\u00f3. H\u00e1 ainda uma casa alunga, t\u00edpica dos quilombolas de Goi\u00e1s, e a Tribo Arco-\u00cdris, um acampamento de n\u00e3o \u00edndios de origem urbana, que adotaram um estilo de vida mais pr\u00f3ximo da natureza.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7737\" alt=\"ABr260713MCA_6428 (2)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/ABr260713MCA_6428-2.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p>Os \u00edndios come\u00e7aram a chegar \u00e0 Aldeia Multi\u00e9tnica h\u00e1 uma semana, mas a programa\u00e7\u00e3o s\u00f3 teve in\u00edcio quarta-feira (24), com o ritual da M\u00e1scara do Tamandu\u00e1, dos kaiap\u00f3. Aberta ao p\u00fablico, a aldeia foi palco de numerosas apresenta\u00e7\u00f5es dos \u00edndios. Rituais religiosos, festas, dan\u00e7as e lutas foram algumas delas.<\/p>\n<p>O idealizador e coordenador-geral do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada, Juliano George Bessa, explicou que a ideia \u00e9 mostrar um pouco do Brasil ind\u00edgena para o restante da sociedade. &#8220;Este Brasil ocupa 13% do nosso territ\u00f3rio, que s\u00e3o os 13% mais bem preservados quanto \u00e0 diversidade ambiental e cultural. Dentro da aldeia, eles se encontram, e tamb\u00e9m a sociedade brasileira tem\u00a0 oportunidade de ver a beleza da cultura ind\u00edgena, do modo de viver, das crian\u00e7as, dos anci\u00e3os.&#8221; Bessa destacou que \u00e9 poss\u00edvel acompanhar rituais que s\u00e3o passados de pai para filho h\u00e1 centenas de anos e &#8220;est\u00e3o na mem\u00f3ria mais antiga do que \u00e9 o Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas Camila Nascimento, que mora em Goi\u00e2nia, foi com a filha, J\u00falia, de 14 anos, acompanhar as atividades da aldeia. O \u00fanico contato anterior de Camila com povos ind\u00edgenas tinha sido no litoral de S\u00e3o Paulo, mas com \u00edndios que j\u00e1 vivem na cidade e perderam boa parte dos costumes. Na aldeia, assistiu a um ritual que atravessou a madrugada. &#8220;Eles fizeram uma reza em cada uma das ocas, para prote\u00e7\u00e3o espiritual. Ent\u00e3o, tudo tem um porqu\u00ea. Cada desenho que eles fazem no corpo tem um significado&#8221;, lembrou. Segundo ela, s\u00e3o muitos significados, h\u00e1 muita rela\u00e7\u00e3o com os elementos da natureza. &#8220;Eles v\u00e3o explicando e voc\u00ea entra no ritual junto com eles.&#8221;<\/p>\n<p>Carregando uma pequena \u00edndia kaiap\u00f3 nos bra\u00e7os e com muitas pinturas corporais feitas pelas \u00edndias, J\u00falia se disse impressionada. &#8220;Antes de vir pra c\u00e1, achei que n\u00e3o ia gostar muito, n\u00e3o queria. Quando cheguei, nossa! \u00c9 uma energia muito boa. No come\u00e7o, eles n\u00e3o gostam muito, mas, depois, come\u00e7am a abra\u00e7ar e a brincar mais com os visitantes.&#8221;<\/p>\n<p>O grupo de Camila e J\u00falia inclu\u00eda amigos de Curitiba, de Bras\u00edlia e da cidade catarinense de Pombinhas. Todos interessados em vivenciar, bem de perto, as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. A estudante de gest\u00e3o ambiental Sarah Martins, que mora em Bras\u00edlia, que sempre admirou os povos ind\u00edgenas, tamb\u00e9m brincava com as crian\u00e7as. &#8220;S\u00e3o povos ancestrais, s\u00e3o conhecimentos maravilhosos. S\u00e3o muito carinhosos. Ainda carregam muita inoc\u00eancia, e \u00e9 preciso preservar isso.&#8221;<\/p>\n<p>O escambo (troca de uma mercadoria ou servi\u00e7o por outro) foi resgatado para o pagamento das pinturas e objetos feitos pelos ind\u00edgenas. As pinturas, principalmente as feitas pelas mulheres kaiap\u00f3s, eram as mais procuradas. Em troca, os \u00edndios recebiam bijuterias e cangas, entre outros objetos. Camila considerou essa troca uma forma de &#8220;desapego&#8221;. Eles t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o de valor completamente diferente da de quem vive nos centros urbanos. &#8220;Aprendemos isso com eles: o que realmente importa n\u00e3o \u00e9 o que \u00e9 caro, o que tem marca, onde eu comprei. Isso pra eles n\u00e3o tem valor nenhum. [O importante] \u00e9 como eles v\u00e3o usar aquele objeto.&#8221;<\/p>\n<p>Na sexta-feira (26), os fulni-\u00f4s, ind\u00edgenas de Pernambuco, apresentaram um ritual no grande largo central da aldeia. Com pinturas corporais e vestimentas tradicionais, cantaram e dan\u00e7aram, ao ritmo das pisadas fortes no ch\u00e3o. Ykekia Txal\u00e9 Fulni-\u00f4, um dos l\u00edderes do grupo, informou que cerca de 6 mil fulni-\u00f4s vivem no estado, em uma regi\u00e3o pr\u00f3xima de Garanhuns. Ele disse que a cultura ind\u00edgena da Regi\u00e3o Nordeste \u00e9 pouco conhecida no restante do pa\u00eds. &#8220;[O brasileiro] conhece mais [os \u00edndios] de Mato Grosso, da Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, quando somos convidados, podemos mostrar que l\u00e1 tem \u00edndio que preserva, que faz suas tradi\u00e7\u00f5es. E mostrar um pouco dos c\u00e2nticos.&#8221; No ano que vem, os fulni-\u00f4s ser\u00e3o os anfitri\u00f5es da Aldeia Multi\u00e9tnica, com a constru\u00e7\u00e3o de uma oca t\u00edpica no local.<\/p>\n<p>Os yawalapitis, origin\u00e1rios do Alto Xingu, em Mato Grosso, apresentaram s\u00e1bado (27) uma festa das mulheres guerreiras, al\u00e9m de demonstra\u00e7\u00f5es de uma luta tradicional, que lembra um pouco as artes marciais de contato, como o jud\u00f4 e o sum\u00f4 japon\u00eas. Primeiro as mulheres se enfrentaram. Depois, os homens, que convidaram que assistia a participar.<\/p>\n<p>O pesquisador Leandro de Melo Rocha aceitou\u00a0 o desafio, mas, em poucos segundos, foi jogado ao ch\u00e3o. &#8220;\u00c9 muita for\u00e7a, muito respeito, h\u00e1 um encaixe espiritual ali na hora, o respeito \u00e9 grande, mas sem viol\u00eancia, s\u00f3 medindo a for\u00e7a. Ele \u00e9 muito mais forte do que eu, com certeza. N\u00e3o tem que comparar&#8221;, disse ele. O guerreiro Par\u00fa Yawalapiti, que lutou com Leandro, n\u00e3o precisou\u00a0 usar a for\u00e7a, porque achou o advers\u00e1rio muito leve. &#8220;N\u00e3o precisei usar for\u00e7a, nem nada. S\u00f3 a t\u00e9cnica mesmo. S\u00f3 puxei ele, virei assim, \u00f3, e ele caiu.&#8221;<\/p>\n<p>O grupo participou da aldeia pela s\u00e9tima vez. O l\u00edder Anui\u00e1 Yawalapiti ressaltou que, al\u00e9m de permitir que todos conhe\u00e7am a cultura dos outros povos ind\u00edgenas, a iniciativa ajuda a unir for\u00e7as e buscar solu\u00e7\u00f5es para as dificuldades que esses povos enfrentam. Mostrar a cultura para os n\u00e3o \u00edndios tamb\u00e9m ajuda a ganhar a ades\u00e3o do restante da sociedade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/_agenciabrasil\/files\/imagecache\/300x225\/gallery_assist\/24\/gallery_assist726704\/prev\/ABr270713MCA_0548.jpg\" \/>Ainda no s\u00e1bado, as atividades ind\u00edgenas sa\u00edram da Aldeia Multi\u00e9tnica e invadiram o pequeno povoado de S\u00e3o Jorge. Os \u00edndios krah\u00f4, que vivem no Tocantins, disputaram a corrida de tora. Carregando troncos de buriti nos ombros, os homens percorreram a principal rua do povoado. A chegada foi diante do palco principal, montado para o Encontro de Culturas. L\u00e1, v\u00e1rias etnias se revezaram em dan\u00e7as e c\u00e2nticos, encantando o p\u00fablico e os turistas.<\/p>\n<p>Durante o 13\u00b0 Encontro de Culturas Tradicionais, o Minist\u00e9rio da Cultura, em parceria com a Secretaria-Geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, promoveu uma conven\u00e7\u00e3o livre quilombola, uma conven\u00e7\u00e3o livre ind\u00edgena e uma oficina sobre a Conven\u00e7\u00e3o 169, da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio. Essa conven\u00e7\u00e3o determina a consulta pr\u00e9via \u00e0s comunidades tradicionais sobre empreendimentos que possam afetar as terras onde vivem.<\/p>\n<p>Para a secret\u00e1ria da Cidadania e da Diversidade Cultural do Minist\u00e9rio da Cultura, M\u00e1rcia Rollemberg, a aplica\u00e7\u00e3o da conven\u00e7\u00e3o precisa ser garantida. &#8220;\u00c9 importante porque a vida dessas pessoas depende da quest\u00e3o ambiental, depende do territ\u00f3rio. As comunidades tradicionais, ind\u00edgenas, ribeirinhos, extrativistas, t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente, e temos muito a aprender com elas.&#8221; O processo de progresso tem que considerar outras maneiras de viver e de ser, outros valores, que n\u00e3o s\u00f3 os monet\u00e1rios, acrescentou.<\/p>\n<p>Das conven\u00e7\u00f5es livres, saem as propostas que far\u00e3o parte da 3\u00aa Confer\u00eancia Nacional de Cultura, que ser\u00e1 realizada entre 26 e 29 de novembro deste ano. M\u00e1rcia Rollemberg disse que a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 incorporar as propostas apresentadas nas etapas regionais da confer\u00eancia aos planos municipais e estaduais e ao plano nacional de cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alto Para\u00edso de Goi\u00e1s \u2013 Ponto alto do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, a Aldeia Multi\u00e9tnica reuniu, na \u00faltima semana, na Vila de S\u00e3o Jorge, mais de 200 \u00edndios de pelo menos dez etnias. 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