{"id":83402,"date":"2015-09-13T12:55:35","date_gmt":"2015-09-13T15:55:35","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=83402"},"modified":"2015-09-13T12:55:35","modified_gmt":"2015-09-13T15:55:35","slug":"um-medico-sem-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/um-medico-sem-fronteiras\/","title":{"rendered":"Um m\u00e9dico sem fronteiras"},"content":{"rendered":"<header>\n<div class=\"row\">\n<h1 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><em>O paulistano Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo faz 750 cirurgias por ano, marca imbat\u00edvel no Brasil. Por zelar por seu corpo como zela pelo de seus pacientes, ele desenvolveu uma dieta e um programa de atividades f\u00edsicas que o mant\u00eam forte \u2014 e com m\u00e3os segur\u00edssimas \u2014 em longas jornadas nas salas de opera\u00e7\u00e3o<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<p class=\"author row\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"prefixo-autor\">Por: <\/span><strong>Natalia Cuminale<\/strong><\/p>\n<\/header>\n<div class=\"row\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"content col-xs-13\">\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"NESSUN DORMA - A \u00e1ria de Puccini \u00e9 a trilha sonora escolhida por Macedo (em primeiro plano) como m\u00e9todo de concentra\u00e7\u00e3o antes das cirurgias\" src=\"http:\/\/msalx.veja.abril.com.br\/2015\/09\/11\/1909\/pe6Cx\/medico-antonio-luiz-macedo-5064t-original.jpeg?1442009327\" alt=\"NESSUN DORMA - A \u00e1ria de Puccini \u00e9 a trilha sonora escolhida por Macedo (em primeiro plano) como m\u00e9todo de concentra\u00e7\u00e3o antes das cirurgias\" \/><figcaption>NESSUN DORMA &#8211; A \u00e1ria de Puccini \u00e9 a trilha sonora escolhida por Macedo (em primeiro plano) como m\u00e9todo de concentra\u00e7\u00e3o antes das cirurgias<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>&#8220;Opera como um Deus&#8221;, dizem dele os melhores m\u00e9dicos do Brasil. Acusam-no de operar demais, em casos desnecess\u00e1rios, mas \u00e9 puro despeito, dito quase em tom de brincadeira, para tentar explicar os recordes do cirurgi\u00e3o paulistano Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo, de 65 anos, do Hospital Albert Einstein. S\u00e3o 750 cirurgias por ano, portanto sessenta mensais, duas por dia. Ele calcula j\u00e1 ter realizado pelo menos 20\u2009000 opera\u00e7\u00f5es. S\u00e3o n\u00fameros quase inacredit\u00e1veis, que o pr\u00f3prio Macedo, avesso a qualquer celebra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, homem discreto e calado, compara a feitos dos esportes. Diz ele: &#8220;O cirurgi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um atleta, mas \u00e9 solicitado como se fosse&#8221;. Para, pensa e busca no ar uma met\u00e1fora ainda mais esclarecedora de sua rotina: &#8220;A cirurgia exige esfor\u00e7o semelhante ao de uma maratona&#8221;. Macedo se comporta como um campe\u00e3o ol\u00edmpico para fazer jus \u00e0 sua fama de craque dos bisturis, especializado em aparelho digestivo. Para Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgi\u00e3o de f\u00edgado e p\u00e2ncreas lotado na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, outro que n\u00e3o descansa, Macedo &#8220;tem uma for\u00e7a de trabalho t\u00e3o espetacular que \u00e9 dif\u00edcil para qualquer jovem acompanh\u00e1-lo&#8221;.<\/p>\n<p>Por considerar sua atividade como a de um esportista, Macedo faz do cotidiano uma travessia espartana. Um \u00fanico toque de alarme do despertador, \u00e0s 6h30, de segunda a segunda, o tira da cama. Uma x\u00edcara grande de caf\u00e9 puro e amargo \u00e9 a primeira refei\u00e7\u00e3o. A caminho do hospital, ouve no carro alguma pe\u00e7a para piano de Mozart (&#8220;calma&#8221;, descreve) ou preferencialmente <em>Nessun Dorma<\/em>, \u00e1ria de Puccini, na voz de Luciano Pavarotti, porque dali em diante nada de dormir. Mentalmente desenha o que far\u00e1 durante o dia. A depender da t\u00e9cnica utilizada na cirurgia, ele ter\u00e1 de ficar sentado, praticamente im\u00f3vel, ao longo de seis horas. \u00c9 assim no caso dos procedimentos rob\u00f3ticos, quando manipula um equipamento com 3 metros de altura e quatro bra\u00e7os compridos de metal que far\u00e3o as vezes das m\u00e3os humanas sobre o corpo do paciente, o que \u00e9 comum na extra\u00e7\u00e3o de tumores no p\u00e2ncreas, nos rins e nos intestinos. Em opera\u00e7\u00f5es convencionais, n\u00e3o \u00e9 raro ele permanecer por nove horas em p\u00e9, manipulando o doente.<\/p>\n<p>Meticuloso, preciso, cuidadoso, Macedo trata de seu corpo como se fosse o de seus pacientes. Ao se aproximar dos 60 anos, sentiu uma natural queda no vigor. Sofria com gripes constantes, que chegavam a incomodar durante vinte dias. O pequeno sinal de debilidade dificilmente afetaria a qualidade do trabalho. Mas foi o suficiente para que o m\u00e9dico mudasse o estilo de vida de maneira dr\u00e1stica. Passou a devorar artigos cient\u00edficos sobre alimenta\u00e7\u00e3o, atividade f\u00edsica e taxas sangu\u00edneas. Estudioso compulsivo, leu 25 pesquisas cient\u00edficas. O objetivo era criar um programa de sa\u00fade personalizado que lhe permitisse recuperar a disposi\u00e7\u00e3o para as longas e duras jornadas de trabalho. Como n\u00e3o havia um Macedo que tratasse dele, fez tudo solitariamente.<\/p>\n<p>Um dos maiores desafios era permanecer por horas a fio em jejum sem ficar com fome nem se sentir fraco. A quest\u00e3o foi resolvida da seguinte forma: passou a seguir a ferro e fogo o jejum, sem concess\u00e3o nem mesmo \u00e0 badalada barrinha de cereal. A medida teve como base o princ\u00edpio fisiol\u00f3gico de que em longos per\u00edodos de priva\u00e7\u00e3o alimentar perde-se a fome. H\u00e1 uma l\u00f3gica &#8211; o h\u00e1bito do jejum faz com que o organismo fabrique um produto qu\u00edmico chamado corpo cet\u00f4nico. Esse composto, feito de gordura corporal, tem duas fun\u00e7\u00f5es primordiais. Uma delas \u00e9 dar energia ao cora\u00e7\u00e3o e ao c\u00e9rebro ante a car\u00eancia alimentar. A outra \u00e9 inibir a a\u00e7\u00e3o do hipot\u00e1lamo, regi\u00e3o cerebral administradora da fome. Macedo ainda queria evitar mais uma condi\u00e7\u00e3o resultante do consumo de alimentos durante a cirurgia. Comer estimula a libera\u00e7\u00e3o de serotonina no c\u00e9rebro, subst\u00e2ncia do relaxamento, atalho para a perigosa desaten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A alimenta\u00e7\u00e3o do cirurgi\u00e3o \u00e9 regrad\u00edssima. Macedo adotou um programa inspirado na chamada &#8220;dieta paleol\u00edtica&#8221;. Criado em 1975 pelo gastroenterologista americano Walter L. Voegtlin, o regime prega um retorno \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o dos homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos. Dez anos depois, os m\u00e9dicos americanos Melvin Konner e Boyd Eaton consolidaram o modelo em artigo na revista <em>The New England Journal of Medicine<\/em>: s\u00f3 se devem ingerir os alimentos que nossos ancestrais consumiam. Incluem-se carnes magras, frutas, ra\u00edzes e vegetais. Excluem-se os produtos industrializados. Macedo faz raras exce\u00e7\u00f5es. Vez ou outra come quatro quadradinhos de chocolate amargo e degusta duas ta\u00e7as de vinho. Evita ao m\u00e1ximo o sabor dos alimentos feitos com farinha branca, os chamados carboidratos simples. Os compostos aumentam subitamente a taxa de insulina, o horm\u00f4nio que carrega a glicose para dentro das c\u00e9lulas. O pico da subst\u00e2ncia no organismo estimula a fome.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico ainda precisava ganhar m\u00fasculos na medida certa para um cirurgi\u00e3o. Sem exageros, portanto. Bra\u00e7os pesados demais podem atrapalhar o manejo dos instrumentos. Para isso, Macedo passou a seguir um programa espec\u00edfico de exerc\u00edcios. Praticada em uma academia montada no por\u00e3o de casa, a muscula\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai al\u00e9m de meia hora. Per\u00edodos mais longos estimulam no organismo a produ\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios que prejudicam a forma\u00e7\u00e3o do tecido muscular. A gin\u00e1stica \u00e9 feita sempre \u00e0 noite. O esfor\u00e7o pela manh\u00e3 causa pequenos tremores tempor\u00e1rios nas m\u00e3os, algo inimagin\u00e1vel para um cirurgi\u00e3o.<\/p>\n<p>Macedo est\u00e1 habituado aos desafios, e \u00e0s tentativas de super\u00e1-los, desde os tempos de menino. Aos 12 anos, ao cair de um cavalo, sofreu uma paralisia do lado direito do rosto. Logo depois do acidente, seus pais acharam que o &#8220;sorriso de lado&#8221; era uma imita\u00e7\u00e3o de John Wayne, o ator predileto do filho. Des\u00adco\u00adbriu-se mais tarde ser uma les\u00e3o incontorn\u00e1vel, diagnosticada por um m\u00e9dico amigo da fam\u00edlia. O acidente fez Macedo seguir a medicina, para entender como funciona o organismo humano e que h\u00e1 poesia entre sangue e m\u00fasculos. A corre\u00e7\u00e3o associada \u00e0 timidez faz de sua agenda um livro fechado &#8211; e, ao contr\u00e1rio de um mau h\u00e1bito disseminado, ele se recusa a citar o nome de famosos que passaram por suas m\u00e3os (Silvio Santos, Fausto Silva, Dercy Gon\u00e7alves e Ana Maria Braga, entre tantos outros). Ele apenas aceitou aparecer em fotografia ao lado de Hebe Camargo, em 2012, a quem operara para a extra\u00e7\u00e3o de um tumor cancer\u00edgeno na regi\u00e3o abdominal, porque a for\u00e7a de persuas\u00e3o da apresentadora era lend\u00e1ria &#8211; e s\u00f3 ela mesmo poderia quebrar o gelo de um homem incapaz de brilharecos, mas sin\u00f4nimo de certeza e seguran\u00e7a. Nas palavras do pr\u00eamio Nobel de Literatura Saul Bellow (1915-2005), mestre em entender os desv\u00e3os do ser humano: &#8220;Com um romancista, como com um cirurgi\u00e3o, voc\u00ea tem de ter a sensa\u00e7\u00e3o de ter ca\u00eddo em boas m\u00e3os &#8211; algu\u00e9m de quem voc\u00ea pode aceitar o anest\u00e9sico com confian\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<div class=\"video-externo\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/videos.abril.com.br\/veja\/id\/8a9310b4a64c5b3d53959cdd9c2ab87c\" width=\"300\" height=\"150\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paulistano Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo faz 750 cirurgias por ano, marca imbat\u00edvel no Brasil. 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