{"id":83438,"date":"2015-09-14T00:16:40","date_gmt":"2015-09-14T03:16:40","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=83438"},"modified":"2015-09-14T01:52:33","modified_gmt":"2015-09-14T04:52:33","slug":"o-pais-sem-raimundo-correia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-pais-sem-raimundo-correia\/","title":{"rendered":"O pa\u00eds sem Raimundo Correia"},"content":{"rendered":"<p>No dia 13 de setembro de 1911, em Paris, morria Raimundo Correia. Tinha 52 anos e acabara de publicar a 3.\u00aa edi\u00e7\u00e3o portuguesa do livro Poesias. O Brasil perdia um de seus grandes poetas, que, na opini\u00e3o de Manuel Bandeira, \u201c\u00e9 o maior artista do verso que j\u00e1 tivemos\u201d. Sua vida e sua obra, o homem e o poeta, s\u00e3o exemplares.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-83441\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/raimundo-correia-entrevista-300x231.jpg\" alt=\"raimundo correia entrevista\" width=\"300\" height=\"231\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/raimundo-correia-entrevista-300x231.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/raimundo-correia-entrevista-620x478.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/raimundo-correia-entrevista.jpg 649w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A estreia liter\u00e1ria foi com o livro Primeiros Sonhos, em 1879. Eram versos da adolesc\u00eancia, influenciados pelo romantismo, que, a rigor, desde a morte de Castro Alves, j\u00e1 entrara em franco decl\u00ednio. Quase todos os grandes poetas rom\u00e2nticos haviam morrido. Ele os admirava, espelhava-se neles, pois tamb\u00e9m come\u00e7aram a produzir ainda muito jovens. O livro cont\u00e9m 45 poemas, escritos quando tinha entre 16 e 19 anos. Antes, j\u00e1 escrevera outros que nunca chegaram a ser publicados.<\/p>\n<p>Muitos anos depois, em entrevista a Jo\u00e3o do Rio, lembrou dessas tentativas po\u00e9ticas, confessando que para ele \u201co fazer versos n\u00e3o passava ent\u00e3o de uma brincadeira, de um meio c\u00f4modo e inofensivo de gracejar com os camaradas da mesma idade.\u201d Assim nasceram os primeiros poemas. Raimundo nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do vapor S\u00e3o Lu\u00eds, em \u00e1guas do munic\u00edpio de Cururupu, no Maranh\u00e3o. Seu nome completo: Raimundo de S\u00e3o Lu\u00eds da Mota de Azevedo Correia Sobrinho. Mais tarde, o poeta suprimir\u00e1 o S\u00e3o Lu\u00eds, que lembrava o nascimento no navio, e tamb\u00e9m o Sobrinho, uma homenagem a um tio paterno. Seus pais foram o juiz Jos\u00e9 da Mota de Azevedo Correia, advogado formado na Universidade de Coimbra, e Maria Clara Vieira da Silva, ambos maranhenses. O casal teve dez filhos; Raimundo foi o terceiro. \u00c9 pouco conhecida a primeira inf\u00e2ncia do nosso poeta, o \u201cMundico\u201d. Sabe-se apenas que n\u00e3o era uma crian\u00e7a saud\u00e1vel: franzina, sempre quieta e um pouco alheia \u00e0s brincadeiras infantis. O pai, de forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, educava os filhos de maneira severa. Em 1871, a m\u00e3e faleceu.<\/p>\n<p>De todos os filhos, ele talvez tenha sido o que mais sofreu, e, por sua natureza d\u00e9bil, o que sempre merecera da m\u00e3e os maiores cuidados. O estudante &#8211; No in\u00edcio do ano seguinte, a fam\u00edlia estava em Cabo Frio: o pai fora nomeado juiz de direito da comarca. Raimundo, matriculado no segundo ano do externato do Col\u00e9gio Pedro II, ficou residindo na capital. Seis meses ap\u00f3s a morte da m\u00e3e, ainda traumatizado, sofreu um novo golpe: Jos\u00e9 da Mota casou-se com Matilde Xavier de Sousa, amiga de sua primeira esposa. Ele n\u00e3o aprovou o casamento, decepcionando-se com a atitude do pai. N\u00e3o gostava da madrasta, mas se deu muito bem com os tr\u00eas irm\u00e3os que nasceram dessa nova uni\u00e3o. Na companhia de outros estudantes, morou em diversas pens\u00f5es. Nelas ficou conhecido por sua seriedade e pela ordem que impunha; econ\u00f4mico, vivia da curta mesada que o pai lhe mandava. Logo teve in\u00edcio a longa amizade com Silva Jardim, seu colega de pens\u00e3o, no col\u00e9gio e mais tarde na faculdade. Em mar\u00e7o de 1878, os dois jovens j\u00e1 estavam em S\u00e3o Paulo com o objetivo de ingressar na Faculdade de Direito. Foram morar juntos em modesto c\u00f4modo de uma velha pens\u00e3o. A cidade onde residiriam pelos pr\u00f3ximos 5 anos contava com cerca de 30.000 habitantes e j\u00e1 iniciara um processo de industrializa\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o; havia dois teatros e um bom n\u00famero de caf\u00e9s, restaurantes, cervejarias, onde a mocidade se reunia para noitadas alegres.<\/p>\n<p>\u00c1vido leitor, sendo os livros e a poesia os divertimentos favoritos, levava consigo um caderno cheio de poemas escritos nos \u00faltimos anos. A maioria composta de um modo original: ia fazendo os versos sem escrev\u00ea-los, guardando-os na mem\u00f3ria; mais tarde, o poema acabado, passava-o para o papel. Tinha tanta facilidade para versejar que muitas vezes escrevia as cartas em versos. Os registros daquela \u00e9poca d\u00e3o conta de que Raimundo Correia era calado, retra\u00eddo, sorria\u00a0muito pouco; nervos\u00edssimo, irrequieto quando os companheiros conversavam, mas \u00e0s vezes tomava a palavra e falava muito; tinha medo de tempestades, de doen\u00e7as, detestava pegar em dinheiro. Supersticioso, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero 13, dia em que nasceu. Num dia 13 veio a falecer. Era um homem de estatura mediana, rosto moreno-claro, p\u00e1lido, de ma\u00e7\u00e3s salientes, cabelos e bigodes pretos; olhos pretos, pequenos e viv\u00edssimos. Vestia-se de maneira modesta. Era muito magro e seu \u00fanico v\u00edcio: o do cigarro.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Oswaldo Cruz, que ocupou a vaga de Raimundo na Academia Brasileira de Letras, informou no discurso de posse que o poeta, em certa ocasi\u00e3o, j\u00e1 doente, proibido pelos m\u00e9dicos de fumar, relutou: \u201cSe deixo de fumar, deixo de cantar e n\u00e3o cantando sei que mais r\u00e1pido morrerei\u201d. E fumou pela vida toda. Muito prestativo, gostava de preservar as amizades e tinha grande senso de humor. N\u00e3o possu\u00eda inimigos; era querido com respeito por todos os colegas e j\u00e1 conhecido como ex\u00edmio produtor de versos. Sempre fazendo economia, conseguiu juntar algum dinheiro para a impress\u00e3o do seu primeiro livro, o sonho de todo poeta. Em meados de 1879, sa\u00eda Primeiros Sonhos, com sugestiva dedicat\u00f3ria: \u201c\u00c0 mem\u00f3ria saudos\u00edssima de minha m\u00e3e \/ A meu pai.\u201d Obteve razo\u00e1vel aceita\u00e7\u00e3o no meio acad\u00eamico. Nele predomina o tema da paix\u00e3o, os sonhos das donzelas, as virtudes femininas, a pureza e a castidade. O tom geral do volume \u00e9 lacrimoso, a melancolia atravessa v\u00e1rios textos. \u00c9 vis\u00edvel o tributo que Raimundo Correia pagou \u00e0 dic\u00e7\u00e3o dos poetas rom\u00e2nticos, principalmente a Casimiro de Abreu. Mas os primeiros lampejos de uma express\u00e3o individualizada est\u00e3o em v\u00e1rios poemas e o germe do parnasianismo se faz presente, como no soneto \u201cA Ideia Nova\u201d, o mais representativo da nova escola. O t\u00edtulo j\u00e1 traduz o movimento que estava em curso, visando, entre outras coisas, a renovar a poesia, isto \u00e9, combater o romantismo. O apoio dos acad\u00eamicos era quase total. Em paralelo, pregavam o anticlericalismo e cuidavam da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, lutando pelos ideais republicanos, abolicionistas e positivistas. Raimundo rapidamente aderiu \u00e0s novas ideias, adaptando-se ao esp\u00edrito do tempo. Em 1880, j\u00e1 no 3.\u00ba ano da faculdade, frequentava os caf\u00e9s e cervejarias da moda, mas n\u00e3o t\u00e3o ami\u00fade; n\u00e3o se metia em farras, mas tamb\u00e9m n\u00e3o rejeitava uma boa companhia. Algumas vezes acompanhava os colegas pela madrugada, conversando e dizendo poemas que eventualmente eram publicados em jornais e revistas criados por eles mesmos. Nos tr\u00eas anos anteriores, mais de uma dezena de peri\u00f3dicos foram lan\u00e7ados e pouco duravam. Raimundo fundou com tr\u00eas colegas a Revista Ci\u00eancias e Letras, mais um \u00f3rg\u00e3o liter\u00e1rio da Faculdade de Direito feito com grande entusiasmo e com vida curta. A sua colabora\u00e7\u00e3o foi, como em outras oportunidades, basicamente com poemas. No ano seguinte, colaborou n\u2019A Com\u00e9dia, onde publicou grande n\u00famero de poemas humor\u00edsticos, e depois n\u2019O Entr\u2019Ato, com o pseud\u00f4nimo Peff. Logo surgiu O Bo\u00eamio, sob dire\u00e7\u00e3o do grande amigo Valentim Magalh\u00e3es. Neste, al\u00e9m de colaborar com poemas, tamb\u00e9m ficou encarregado da se\u00e7\u00e3o de charadas, divertimento muito apreciado \u00e0 \u00e9poca e que era uma de suas maiores distra\u00e7\u00f5es. Ex\u00edmio criador de charadas tanto em prosa como em versos, publicou-as em jornais, revistas e almanaques. Um exemplo (observem que \u00e9 uma quadra, em redondilha maior, rimada):<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o deixou de fazer \u2013 1 Aquele rio famoso,<\/p>\n<p>\u2013 2 Pra regozijo, prazer, Desfrute, alegria e gozo. (decifra\u00e7\u00e3o: Festejo)<\/p>\n<p>Durante todo o curso, o autor de Primeiros Sonhos pouco estudava, mas \u00e0s v\u00e9speras das\u00a0muito pouco; nervos\u00edssimo, irrequieto quando os companheiros conversavam, mas \u00e0s vezes tomava a palavra e falava muito; tinha medo de tempestades, de doen\u00e7as, detestava pegar em dinheiro. Supersticioso, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero 13, dia em que nasceu. Num dia 13 veio a falecer.<\/p>\n<p>Era um homem de estatura mediana, rosto moreno-claro, p\u00e1lido, de ma\u00e7\u00e3s salientes, cabelos e bigodes pretos; olhos pretos, pequenos e viv\u00edssimos. Vestia-se de maneira modesta. Era muito magro e seu \u00fanico v\u00edcio: o do cigarro. O m\u00e9dico Oswaldo Cruz, que ocupou a vaga de Raimundo na Academia Brasileira de Letras, informou no discurso de posse que o poeta, em certa ocasi\u00e3o, j\u00e1 doente, proibido pelos m\u00e9dicos de fumar, relutou: \u201cSe deixo de fumar, deixo de cantar e n\u00e3o cantando sei que mais r\u00e1pido morrerei\u201d. E fumou pela vida toda.<\/p>\n<p>Muito prestativo, gostava de preservar as amizades e tinha grande senso de humor. N\u00e3o possu\u00eda inimigos; era querido com respeito por todos os colegas e j\u00e1 conhecido como ex\u00edmio produtor de versos. Sempre fazendo economia, conseguiu juntar algum dinheiro para a impress\u00e3o do seu primeiro livro, o sonho de todo poeta. Em meados de 1879, sa\u00eda Primeiros Sonhos, com sugestiva dedicat\u00f3ria: \u201c\u00c0 mem\u00f3ria saudos\u00edssima de minha m\u00e3e \/ A meu pai.\u201d Obteve razo\u00e1vel aceita\u00e7\u00e3o no meio acad\u00eamico. Nele predomina o tema da paix\u00e3o, os sonhos das donzelas, as virtudes femininas, a pureza e a castidade. O tom geral do volume \u00e9 lacrimoso, a melancolia atravessa v\u00e1rios textos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 vis\u00edvel o tributo que Raimundo Correia pagou \u00e0 dic\u00e7\u00e3o dos poetas rom\u00e2nticos, principalmente a Casimiro de Abreu. Mas os primeiros lampejos de uma express\u00e3o individualizada est\u00e3o em v\u00e1rios poemas e o germe do parnasianismo se faz presente, como no soneto \u201cA Ideia Nova\u201d, o mais representativo da nova escola. O t\u00edtulo j\u00e1 traduz o movimento que estava em curso, visando, entre outras coisas, a renovar a poesia, isto \u00e9, combater o romantismo. O apoio dos acad\u00eamicos era quase total. Em paralelo, pregavam o anticlericalismo e cuidavam da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, lutando pelos ideais republicanos, abolicionistas e positivistas. Raimundo rapidamente aderiu \u00e0s novas ideias, adaptando-se ao esp\u00edrito do tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1880, j\u00e1 no 3.\u00ba ano da faculdade, frequentava os caf\u00e9s e cervejarias da moda, mas n\u00e3o t\u00e3o ami\u00fade; n\u00e3o se metia em farras, mas tamb\u00e9m n\u00e3o rejeitava uma boa companhia. Algumas vezes acompanhava os colegas pela madrugada, conversando e dizendo poemas que eventualmente eram publicados em jornais e revistas criados por eles mesmos. Nos tr\u00eas anos anteriores, mais de uma dezena de peri\u00f3dicos foram lan\u00e7ados e pouco duravam. Raimundo fundou com tr\u00eas colegas a Revista Ci\u00eancias e Letras, mais um \u00f3rg\u00e3o liter\u00e1rio da Faculdade de Direito feito com grande entusiasmo e com vida curta. A sua colabora\u00e7\u00e3o foi, como em outras oportunidades, basicamente com poemas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No ano seguinte, colaborou n\u2019A Com\u00e9dia, onde publicou grande n\u00famero de poemas humor\u00edsticos, e depois n\u2019O Entr\u2019Ato, com o pseud\u00f4nimo Peff. Logo surgiu O Bo\u00eamio, sob dire\u00e7\u00e3o do grande amigo Valentim Magalh\u00e3es. Neste, al\u00e9m de colaborar com poemas, tamb\u00e9m ficou encarregado da se\u00e7\u00e3o de charadas, divertimento muito apreciado \u00e0 \u00e9poca e que era uma de suas maiores distra\u00e7\u00f5es. Ex\u00edmio criador de charadas tanto em prosa como em versos, publicou-as em jornais, revistas e almanaques. Um exemplo (observem que \u00e9 uma quadra, em redondilha maior, rimada):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o deixou de fazer \u2013 1 Aquele rio famoso, \u2013 2 Pra regozijo, prazer, Desfrute, alegria e gozo. (decifra\u00e7\u00e3o: Festejo)<\/p>\n<p>Durante todo o curso, o autor de Primeiros Sonhos pouco estudava, mas \u00e0s v\u00e9speras das\u00a0provas valia-se da mem\u00f3ria prodigiosa. Passava as noites decorando textos de leis, cita\u00e7\u00f5es em outras l\u00ednguas, opini\u00f5es dos autores, de modo que na hora do exame deixava os professores impressionados com seus conhecimentos. Em 1882, o \u00faltimo ano, n\u00e3o foi diferente. Em fins de dezembro, o bacharel e poeta se despedia de S\u00e3o Paulo com destino ao Rio de Janeiro. Deixava a cidade como a ela chegara: pobre, mas com um diploma e um novo livro pronto para ser publicado.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1883, lan\u00e7ou Sinfonias, o de maior \u00eaxito de cr\u00edtica e de p\u00fablico, tanto no Brasil como em Portugal. Trazia um elogioso pref\u00e1cio de Machado de Assis, j\u00e1 ent\u00e3o um cr\u00edtico consagrado. O C\u00f4nego Francisco Maria Bueno de Sequeira, seu primeiro bi\u00f3grafo, relata que at\u00e9 o Imperador, que tamb\u00e9m era poeta, quis conhec\u00ea-lo. Na ocasi\u00e3o, disse para Raimundo: \u201cJ\u00e1 li o seu livro. Muito bem&#8230; Os seus versos s\u00e3o admir\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>A colet\u00e2nea foi dividida em duas partes. A primeira acolhia poesias l\u00edricas, feitas em S\u00e3o Paulo, nas quais a influ\u00eancia de poetas estrangeiros admirados por Raimundo se fazia presente. Ali se encontram os textos que lhe garantiram a popularidade: \u201cAs Pombas\u201d, \u201cMal Secreto\u201d, \u201cO Anoitecer\u201d, entre outros. A segunda parte re\u00fane os temas pertinentes \u00e0s \u201cnovas ideias\u201d, suas poesias de luta, inclusive contra a Igreja e a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 relevante o processo de repeti\u00e7\u00e3o de palavras, muitas vezes versos inteiros. Mas isso n\u00e3o era um defeito, antes um efeito est\u00e9tico; a frequ\u00eancia com que fez uso desse recurso caracterizou seu estilo. As rimas de vogais abertas com vogais fechadas, consideradas \u201cincorretas\u201d por analistas mais rigorosos, comparecem em numerosos versos \u2013 ali\u00e1s, um procedimento comum entre os parnasianos. Em Sinfonias, n\u00e3o faltaram o senso de humor e as notas alegres, que quase n\u00e3o aparecem no livro anterior, e tamb\u00e9m o aspecto sensual, em versos de um erotismo suave e contido. Chama aten\u00e7\u00e3o a variedade de assuntos abordados ao longo do volume: a amizade, o \u00f3dio, o amor, o ci\u00fame, a hipocrisia, o t\u00e9dio, a crueldade&#8230; Tudo o que aflige o ser humano ou, nos versos do pr\u00f3prio Raimundo, \u201ctudo o que punge, tudo o que devora \/ o cora\u00e7\u00e3o\u201d. O poetafil\u00f3sofo, como foi nomeado por alguns cr\u00edticos, est\u00e1 inteiro no soneto \u201cMal Secreto\u201d:<\/p>\n<p>Se a c\u00f3lera que espuma, a dor que mora<\/p>\n<p>N\u2019alma, e destr\u00f3i cada ilus\u00e3o que nasce,<\/p>\n<p>Tudo o que punge, tudo o que devora<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o, no rosto se estampasse;<\/p>\n<p>Se se pudesse, o esp\u00edrito que chora,<\/p>\n<p>Ver atrav\u00e9s da m\u00e1scara da face,<\/p>\n<p>Quanta gente, talvez, que inveja agora<\/p>\n<p>Nos causa, ent\u00e3o piedade nos causasse!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanta gente que ri, talvez, consigo<\/p>\n<p>Guarda um atroz, rec\u00f4ndito inimigo,<\/p>\n<p>Como invis\u00edvel chaga cancerosa!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanta gente que ri, talvez existe,<\/p>\n<p>Cuja ventura \u00fanica consiste<\/p>\n<p>Em parecer aos outros venturosa!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O magistrado &#8211; No final de junho de 1883, Raimundo encontrava-se em S\u00e3o Jo\u00e3o da Barra,\u00a0no Rio de Janeiro. Fora nomeado para seu primeiro emprego: promotor p\u00fablico daquela comarca. Seguiria carreira semelhante a do pai. A vida na cidade litor\u00e2nea era calma. Trabalhava, escrevia poemas e de vez em quando visitava a Capital. Ap\u00f3s um ano e meio foi nomeado juiz municipal e de \u00f3rf\u00e3os de Vassouras, na mesma prov\u00edncia. Nessa ocasi\u00e3o, j\u00e1 estava noivo de Mariana de Abreu Sodr\u00e9 e resolveu se casar. Ele a conhecera na Corte, onde ela costumava passar temporadas acompanhada de familiares. A jovem descendia de Salvador Correia de S\u00e1, era prima de \u00c1lvares de Azevedo e de Oswaldo Cruz. O casamento realizou-se em dezembro de 1884.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, Raimundo foi a Vassouras, prestou juramento, mas n\u00e3o assumiu o cargo, licenciando-se para tratamento de sa\u00fade. O organismo, j\u00e1 de constitui\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, estava debilitado por uma febre biliosa grave. Somente em abril, transferiu-se com a esposa e tomou posse. A cidade o recepcionou com muita rever\u00eancia. O ambiente era favor\u00e1vel \u00e0s atividades liter\u00e1rias. Conheceu diversos escritores e jornalistas, fez novos amigos, entre eles Lucindo Filho \u2013 poeta, prosador, humanista e m\u00fasico \u2013, propriet\u00e1rio e diretor d\u2019O Vassourense, o mais importante jornal da cidade, do qual se tornou colaborador. Ap\u00f3s sua morte, Raimundo publicou o \u00fanico volume em prosa: um elogioso estudo biogr\u00e1fico e cr\u00edtico intitulado Lucindo Filho, editado em Lisboa. No mesmo jornal, colaboraram, entre outros, Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, que com Raimundo formaram a famosa \u201cTrindade Parnasiana\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No per\u00edodo que viveu em Vassouras, o casal teve tr\u00eas filhos: primeiro, Lav\u00ednia; depois, a grande tristeza, a morte, logo ap\u00f3s o nascimento, do t\u00e3o aguardado filho var\u00e3o; e no \u00faltimo ano em que l\u00e1 estiveram, chegou Stela. Lav\u00ednia foi m\u00e3e do diplomata S\u00e9rgio Corr\u00eaa da Costa, que tamb\u00e9m pertenceu \u00e0 Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Raimundo Correia dividia seu tempo entre as atividades sociais e as aten\u00e7\u00f5es \u00e0 dedicada esposa, D. Zinha \u2013 como era chamada na intimidade \u2013, os trabalhos do foro, as colabora\u00e7\u00f5es para os diversos jornais da cidade e de outras localidades, e tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o de poemas. Em seu terceiro livro, Versos e Vers\u00f5es, incluiu numerosas \u201cvers\u00f5es\u201d de poetas como Th\u00e9ophile Gautier, Jean Richepin, Victor Hugo e Lope de Vega, entre outros. Lan\u00e7ou-o no Rio, em 1887. Com ele Raimundo passava a figurar entre os melhores parnasianos, se n\u00e3o o melhor. A tem\u00e1tica e as caracter\u00edsticas da poesia continuavam as mesmas de Sinfonias, mas o novo conjunto lhe era superior; a t\u00e9cnica mais apurada no uso das repeti\u00e7\u00f5es, da onomatopeia, da paronom\u00e1sia e de belas imagens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar das boas lembran\u00e7as, foi no per\u00edodo vivido em Vassouras que Raimundo Correia teve o maior desgosto de sua vida liter\u00e1ria: na cidade do Rio de Janeiro, sofre a acusa\u00e7\u00e3o de pl\u00e1gio feita pelo hoje esquecido poeta Lu\u00eds Murat.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Homem sens\u00edvel e de reconhecida retid\u00e3o de car\u00e1ter, incapaz de colocar, intencionalmente, a sua autoria em algo que n\u00e3o lhe pertencesse, viveu dias de grande amargura. Mas, \u00e0 sua revelia, que j\u00e1 havia dito que n\u00e3o gostaria de tocar no assunto, formaram-se duas correntes que se digladiavam pelos jornais: os poucos que concordavam com Murat, e os defensores de Raimundo, em maior n\u00famero. A pendenga continuou por algum tempo at\u00e9 cair no esquecimento.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito, temos convic\u00e7\u00e3o que as artes, entre elas a poesia, s\u00e3o feitas de contamina\u00e7\u00f5es; os temas e as influ\u00eancias de outros artistas funcionam como fontes inspiradoras. Assim, um criador, do porte e do conhecimento do autor de Versos e Vers\u00f5es, sabe que, muitas vezes, s\u00e3o t\u00eanues as fronteiras entre uma obra original e o pl\u00e1gio, e sabe tamb\u00e9m como respeit\u00e1-las. Raimundo Correia sabia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Novos caminhos &#8211; Em junho de 1889, foi nomeado secret\u00e1rio da presid\u00eancia da prov\u00edncia do Rio de Janeiro. O ambiente pol\u00edtico estava agitado. A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura tinha-se dado recentemente e as ideias republicanas se alastravam. Em 15 de novembro, com a queda da Monarquia, a pol\u00edtica mudou e Raimundo foi preso. Sendo, por\u00e9m, not\u00f3rias as suas convic\u00e7\u00f5es republicanas, foi solto e logo nomeado juiz de direito da comarca de S\u00e3o Gon\u00e7alo do Sapuca\u00ed, em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Nova resid\u00eancia, uma nova cidade, novas amizades. Raimundo rapidamente se integrou \u00e0 vida da comunidade. Al\u00e9m do trabalho como juiz, dedicou-se a outras causas. Foi um batalhador pela melhoria da higiene e do saneamento rural, indo pessoalmente fazer o trabalho de campo, isto \u00e9, visitava as habita\u00e7\u00f5es mais humildes, dando conselhos e encaminhando provid\u00eancias. Tamb\u00e9m colaborou na reorganiza\u00e7\u00e3o do Gabinete de Leitura da cidade, incentivando os leitores, conseguindo reaver volumes emprestados e j\u00e1 considerados perdidos; uma sala de sua pr\u00f3pria casa chegou a ser utilizada como sala de leitura da Biblioteca. Waldir Ribeiro do Val, em Vida e Obra de Raimundo Correia, desce a detalhes curiosos. Revela que o poeta gostava de se reunir com alguns amigos para um jogo de bisca, e \u201cem sua pr\u00f3pria casa fabricava, para si e para esses amigos, uma cerveja, a que dava o nome de Cata Funda, nome da fonte de onde tirava a \u00e1gua para a fabrica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Novamente com problema de sa\u00fade \u2012 dessa vez uma doen\u00e7a nos olhos \u2012 , o poeta veio, em agosto de 1891, para o Rio de Janeiro, onde ficou tr\u00eas meses em tratamento, e aproveitou para lan\u00e7ar o quarto livro: Aleluias. O volume n\u00e3o traz novidade em rela\u00e7\u00e3o ao anterior, ambos em alto n\u00edvel de qualidade. O processo de constru\u00e7\u00e3o dos poemas continuou o mesmo: onomatopeias, alitera\u00e7\u00f5es, rimas seguindo esquemas anteriores.<\/p>\n<p>No ano seguinte, foi nomeado Diretor da Secretaria de Finan\u00e7as do Estado de Minas Gerais, com sede em Ouro Preto, ent\u00e3o capital do Estado. Deixou S\u00e3o Gon\u00e7alo com boas lembran\u00e7as, a saudade dos amigos e levando nos bra\u00e7os a rec\u00e9m nascida Alexandrina. Em dezembro, foi convidado para fazer parte do corpo docente da rec\u00e9m instalada Faculdade Livre de Direito de Ouro Preto. Assumiu o cargo de lente substituto de diversas mat\u00e9rias e, mais tarde, foi eleito catedr\u00e1tico de Direito Criminal. Ainda na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, ocupou o cargo de Diretor da Secretaria do Interior.<\/p>\n<p>Mas Raimundo n\u00e3o se deu bem com o clima \u00famido e frio da capital mineira. A neurastenia e o nervosismo aumentaram, \u00e0s vezes, impedindo-o de produzir. No in\u00edcio de 1895, morreu seu pai; mais um golpe para a fr\u00e1gil sa\u00fade do poeta. Logo depois, uma grande alegria, tornou-se pai novamente: nasceu Le\u00e3o, um menino. Por\u00e9m, ap\u00f3s cinco meses, a crian\u00e7a veio a falecer; Raimundo ficou deprimido. E mais um golpe na sua sa\u00fade: contraiu o berib\u00e9ri. Doente do corpo e da alma resolveu deixar definitivamente Ouro Preto. Voltou para o Rio de Janeiro em busca de tratamento e permaneceu na capital do pa\u00eds at\u00e9 seguir para a Europa, iniciando uma curta carreira diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em 1897, ap\u00f3s elei\u00e7\u00e3o para a Academia Brasileira de Letras, como membro fundador, segue para Lisboa: fora nomeado segundo-secret\u00e1rio da Lega\u00e7\u00e3o Brasileira, em Portugal.<\/p>\n<p>Ao chegar, procurou ajuda m\u00e9dica, pois a neurastenia e o berib\u00e9ri fizeram grandes estragos no seu organismo. Como era do seu feitio, tamb\u00e9m de imediato come\u00e7ou a trabalhar.<\/p>\n<p>Em dezembro, o cargo que ocupava foi suprimido por lei e ele, em consequ\u00eancia, exonerado. Decidiu permanecer na Europa at\u00e9 meados do ano seguinte, pois n\u00e3o havia terminado o tratamento de sa\u00fade. O clima ali lhe foi prop\u00edcio; livre do berib\u00e9ri sentia-se muito melhor. Fez novas amizades e trouxe uma cole\u00e7\u00e3o de passagens curiosas ou engra\u00e7adas que relataria aos amigos no Brasil. Uma delas: como era do conhecimento de todos, as apresenta\u00e7\u00f5es afligiam-no sempre, as familiaridades repentinas o incomodavam sobremaneira; sendo apresentado a um\u00a0literato terr\u00edvel, aturou-lhe uma enxurrada de elogios que o deixavam desesperado em sua timidez e n\u00e3o permitiam que se afastasse do inconveniente interlocutor. Como se n\u00e3o bastasse, eis que o homem remata as suas homenagens com esta suprema afirma\u00e7\u00e3o: \u201cEu sei at\u00e9 de cor um dos seus sonetos&#8230;\u201d E recita-lhe inteiro e com toda pompa o poema \u201cOra (direis) ouvir estrelas!\u201d, de Olavo Bilac.<\/p>\n<p>Em Lisboa, foi publicada sua quinta colet\u00e2nea: Poesias, em 1898. Compreendia um total de cem trabalhos, revisados e retocados criteriosamente, quase todos pertencentes aos livros anteriores, com exce\u00e7\u00e3o de Primeiros Sonhos. O livro teve mais duas edi\u00e7\u00f5es em Portugal, novamente revistas e aumentadas pelo autor.<\/p>\n<p>Na volta ao Rio de Janeiro, viveu dos parcos vencimentos de juiz em disponibilidade at\u00e9 o in\u00edcio do ano seguinte, quando foi nomeado vice-diretor do Gin\u00e1sio Fluminense, em Petr\u00f3polis, capital do estado desde 1890. Ali, al\u00e9m de fazer parte da diretoria, acumulava a fun\u00e7\u00e3o de professor de Hist\u00f3ria. Em 4 de agosto de 1902, a capital voltou a ser Niter\u00f3i, o que motivou seu retorno.<\/p>\n<p>A volta \u00e0 magistratura &#8211; No ano seguinte, foi nomeado juiz da 2.a Pretoria do Distrito Federal, em car\u00e1ter vital\u00edcio. Voltava \u00e0 magistratura, ap\u00f3s afastamento de mais de 11 anos, e ao conv\u00edvio com os velhos amigos. Alguns j\u00e1 haviam morrido: Silva Jardim fora tragado pelo vulc\u00e3o Ves\u00favio; Raul Pomp\u00e9ia se matara com um tiro, depois de sofrer ataques \u00e0 sua honra, que lhe desferira Lu\u00eds Murat \u2012 o mesmo que impingira a acusa\u00e7\u00e3o de plagi\u00e1rio a Raimundo; Valentim Magalh\u00e3es falecera recentemente.<\/p>\n<p>Em sequ\u00eancia foi juiz de direito da 2.a e da 5.\u00aa Vara Criminal e desta, em 1908, para a 3.\u00aa Vara C\u00edvel. Neste cargo o poeta permanecer\u00e1 at\u00e9 o fim da vida. Juiz reconhecido por todos pela honestidade de prop\u00f3sitos realizava seu trabalho com verdadeira devo\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a; com toler\u00e2ncia e muito amor.<\/p>\n<p>Os seus \u00faltimos anos de vida foram de bastante sofrimento. Os ataques de uremia eram frequentes. Desiludido da vida, pessimista e melanc\u00f3lico, muito magro e p\u00e1lido, embarca em maio de 1911 para a Europa, em busca de tratamento. Vai em companhia de D. Zinha e das tr\u00eas filhas.<\/p>\n<p>Dr. Bensa\u00fade, o m\u00e9dico de nome curioso que o atendeu, n\u00e3o deu esperan\u00e7as \u00e0 fam\u00edlia. Diagn\u00f3stico duro, mas realista. Um homem bom que chegava ao fim da exist\u00eancia; um puro de cora\u00e7\u00e3o com uma infinita piedade pela esp\u00e9cie humana. M\u00facio Le\u00e3o chegou a dizer que n\u00e3o estava longe de aparent\u00e1-lo com S\u00e3o Francisco de Assis ou com Santo Ant\u00f4nio. Alu\u00edsio Azevedo e Afr\u00e2nio Peixoto o chamavam de S\u00e3o Raimundo.<\/p>\n<p>Em 13 de setembro, num ataque mais forte de uremia, falecia Raimundo Correia. Seu corpo foi enterrado no Cemit\u00e9rio Parisiense de Saint-Ouen. Em 1920, a Academia Brasileira de Letras fez o translado dos restos mortais para o Brasil, sepultados no Cemit\u00e9rio de S\u00e3o Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Muitas cidades, por todo o pa\u00eds, prestaram homenagens ao grande brasileiro, dando o nome do poeta a institui\u00e7\u00f5es oficiais e vias p\u00fablicas. A Prefeitura do Distrito Federal, em 1917, deu seu nome a uma rua do bairro de Copacabana, e, em 1944, inaugurou no Passeio P\u00fablico, no centro da cidade, o busto de Raimundo Correia. No bairro de Campo Grande, na Zona Oeste, funciona a Escola Municipal Raimundo Corr\u00eaa.<\/p>\n<p>Bueno de Sequeira, em 1925, mas como se fosse hoje, escreveu:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] Oxal\u00e1 possu\u00edsse nossa p\u00e1tria muitos homens desta craveira, homens que dignifiquem, homens que a exaltem, homens que, com o pensamento ilustrado e o car\u00e1ter incorrupto, a tornem invej\u00e1vel, e que, com a vida honesta, a tornem am\u00e1vel; homens, enfim, que a n\u00e3o amem s\u00f3 com a boca, mas de cora\u00e7\u00e3o, mas de fato [&#8230;]\u201d<\/p>\n<p>Para encerrarmos, eis o poema \u201cAs Pombas\u201d.<\/p>\n<p>Vai-se a primeira pomba despertada&#8230;<\/p>\n<p>Vai-se outra mais&#8230; mais outra&#8230; enfim dezenas<\/p>\n<p>De pombas v\u00e3o-se dos pombais, apenas<\/p>\n<p>Raia sangu\u00ednea e fresca a madrugada&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e0 tarde, quando a r\u00edgida nortada<\/p>\n<p>Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,<\/p>\n<p>Ruflando as asas, sacudindo as penas,<\/p>\n<p>Voltam todas em bando e em revoada&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m dos cora\u00e7\u00f5es onde abotoam,<\/p>\n<p>Os sonhos, um por um, c\u00e9leres voam,<\/p>\n<p>Como voam as pombas dos pombais;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No azul da adolesc\u00eancia as asas soltam,<\/p>\n<p>Fogem&#8230;\u00a0<span style=\"line-height: 1.5;\">Mas aos pombais as pombas voltam,<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83440\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/raimundo-correria1.jpg\" alt=\"raimundo correria1\" width=\"202\" height=\"250\" \/><\/p>\n<p><b>Anoitecer<\/b><\/p>\n<p>Esbraseia o Ocidente na agonia<br \/>\nO sol\u2026 Aves em bandos destacados,<br \/>\nPor c\u00e9us de ouro e p\u00farpura raiados,<br \/>\nFogem\u2026 Fecha-se a p\u00e1lpebra do dia\u2026<\/p>\n<p>Delineiam-se al\u00e9m da serrania<br \/>\nOs v\u00e9rtices de chamas aureolados,<br \/>\nE em tudo, em torno, esbatem derramados<br \/>\nUns tons suaves de melancolia.<\/p>\n<p>Um mundo de vapores no ar flutua\u2026<br \/>\nComo uma informe n\u00f3doa avulta e cresce<br \/>\nA sombra \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a luz recua.<\/p>\n<p>A natureza ap\u00e1tica esmaece\u2026<br \/>\nPouco a pouco, entre as \u00e1rvores, a lua<br \/>\nSurge tr\u00eamula, tr\u00eamula\u2026 Anoitece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A estreia liter\u00e1ria foi com o livro Primeiros Sonhos, em 1879. 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