{"id":87713,"date":"2015-10-05T12:08:08","date_gmt":"2015-10-05T15:08:08","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=87713"},"modified":"2015-10-05T12:08:08","modified_gmt":"2015-10-05T15:08:08","slug":"a-luta-pela-reforma-agraria-no-virar-do-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-luta-pela-reforma-agraria-no-virar-do-seculo\/","title":{"rendered":"A luta pela Reforma Agr\u00e1ria no virar do s\u00e9culo"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" style=\"text-align: justify;\" data-section=\"AM\u00c9RICA LATINA\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><time class=\"time d-b\" datetime=\"2015-10-05BRT12:10\">Ana Maria Saldanha\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Estado foi e continua a ser pe\u00e7a fundamental na manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade no campo enquanto protege e assegura interesses econ\u00f4micos de latifundi\u00e1rios<\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"___plusone_0\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"descript\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Data da d\u00e9cada de 1990 a desmobiliza\u00e7\u00e3o das guerrilhas M-19, PRT, Movimento Ind\u00edgena <em>Quint<\/em><em>\u00edn Lame<\/em>, e de grande parte do EPL<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/opiniao\/40391\/a+luta+pela+reforma+agraria+no+virar+do+seculo.shtml#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup><sup>[i]<\/sup><\/sup><\/a>. O M-19 vai, ent\u00e3o, apelar a uma Nova Constitui\u00e7\u00e3o, a qual ser\u00e1, de fato, aprovada em 1991. Bastante progressista na sua forma, \u00e9 esta Constitui\u00e7\u00e3o que ainda hoje se encontra em vigor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1994, surge uma nova lei agr\u00e1ria neoliberal (Lei 160), promovida pelo Banco Mundial, a qual estabelece um Sistema Nacional de Reforma Agr\u00e1ria (RA) e de Desenvolvimento Rural Campesino, o estabelecimento de um subs\u00eddio para a aquisi\u00e7\u00e3o de terra e uma Reforma do Instituto Colombiano de RA<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/opiniao\/40391\/a+luta+pela+reforma+agraria+no+virar+do+seculo.shtml#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup><sup>[ii]<\/sup><\/sup><\/a>. \u00c9, igualmente, nessa lei, que se consagram as ZRC (Zonas de Reserva Campesina), as quais os campesinos utilizar\u00e3o para tentar travar o predom\u00ednio da grande propriedade, a ocupa\u00e7\u00e3o da terra pelos monop\u00f3lios e transnacionais e o uso intensivo de monocultivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Flickr\/\u00a0<a title=\"V\u00e1 para a galeria de Luz Adriana Villa\" href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/luchilu\/\" data-rapid_p=\"25\" data-track=\"attributionNameClick\">Luz Adriana Villa<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/campesino(1).jpg\" alt=\"\" \/><\/a><br \/>\nCampon\u00eas colombiano<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1996, a Col\u00f4mbia vai atravessar uma crise econ\u00f4mica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aplica\u00e7\u00e3o s\u00fabita de pol\u00edticas comerciais de abertura sobre uma agricultura afetada por condi\u00e7\u00f5es monopol\u00edsticas de propriedade das terras aptas para a produ\u00e7\u00e3o, reduzida tributa\u00e7\u00e3o de impostos e elevada prote\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria, reduziu em mais de uma quinta parte a \u00e1rea semeada, especialmente de culturas sazonais, caracter\u00edsticas da agricultura camponesa, causando a perda de mais de 300 mil postos de trabalho (Fajardo Monta\u00f1a, 2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise teve um importante reflexo nas economias ilegais, especialmente na economia dos cultivos para o narcotr\u00e1fico, dando origem a uma sobre oferta de coca\u00edna. Nas \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o de folha de coca, \u201cafetadas pelas suas car\u00eancias hist\u00f3ricas de investimento social e agora pela depress\u00e3o dos pre\u00e7os da droga\u201d (Fajardo Monta\u00f1a, 2006), os campesinos e cultivadores da folha de coca, assim como todos aqueles que dependiam do seu cultivo e com\u00e9rcio, iniciaram uma s\u00e9rie de mobiliza\u00e7\u00f5es de forma a exigir do governo a\u00e7\u00f5es que compensassem as suas perdas. Estas mobiliza\u00e7\u00f5es ficaram conhecidas como <em>marchas cocaleras<\/em>, sendo que as mais importantes se registaram em Caquet\u00e1, Guaviare, Putumayo e sul de Bol\u00edvar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das demandas dos <em>cocaleros<\/em> foi, precisamente, a constitui\u00e7\u00e3o de Zonas de Reserva Campesina (ZRC), em aplica\u00e7\u00e3o da referida Lei 160 de 1994. S\u00e3o, assim, dados os primeiros passos para a constitui\u00e7\u00e3o destas zonas: \u201cA caracter\u00edstica destas iniciativas durante a primeira fase do projeto (dota\u00e7\u00e3o de terras e de gado, transfer\u00eancias t\u00e9cnicas para a produ\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o da recupera\u00e7\u00e3o florestal, pequenas infraestruturas para escolas, etc.) era o fato de aquelas serem originadas nas comunidades\u201d (Fajardo Monta\u00f1a, 2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anos 1990 v\u00eam, assim, emergir fortes lutas sociais. Estas lutas v\u00e3o, igualmente, desencadear-se na regi\u00e3o do Magdalena m\u00e9dio. Como pudemos verificar ao longo deste ensaio, foi nesta regi\u00e3o que os maiores conflitos sociais, agr\u00e1rios e oper\u00e1rios, tiveram maior express\u00e3o. Sendo que, no Magdalena m\u00e9dio, se encontra a refinaria mais importante da Col\u00f4mbia, e que historicamente v\u00e1rias foram as lutas desencadeadas na regi\u00e3o \u2014 de especial interesse para o capital nacional e transnacional, n\u00e3o apenas pelo petr\u00f3leo, mas tamb\u00e9m porque aqui se encontram min\u00e9rios, como o ouro e o carv\u00e3o \u2014, a viol\u00eancia paramilitar tornou-se recorrente nesta regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1998, mobiliza\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias v\u00e3o dar nascimento \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Campesina do Vale Cimitarra (ACVC) \u2014 referente na luta pela terra, n\u00e3o apenas nesta regi\u00e3o, mas igualmente a n\u00edvel nacional \u2014, cuja reivindica\u00e7\u00e3o principal (para al\u00e9m da Reforma Agr\u00e1ria), \u00e9 a exig\u00eancia da constitui\u00e7\u00e3o de uma ZRC no Vale Cimitarra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, sendo que as ZRC est\u00e3o incorporadas na legisla\u00e7\u00e3o colombiana, os campesinos tentam utilizar esta lei de forma a travar os interesses dos monop\u00f3lios e latifundi\u00e1rios. N\u00e3o \u00e9, ali\u00e1s, por acaso, que durante a presid\u00eancia de \u00c1lvaro Uribe, este tenha suspendido, por decreto, as ZRC<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/opiniao\/40391\/a+luta+pela+reforma+agraria+no+virar+do+seculo.shtml#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup><sup>[iii]<\/sup><\/sup><\/a>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista das reservas chama a aten\u00e7\u00e3o, por um lado, a sua presen\u00e7a nas exig\u00eancias camponesas; a sua cria\u00e7\u00e3o e reconhecimento por parte do Estado \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o, tendo em vista a sua estabilidade em um territ\u00f3rio como produtores organizados. Em algumas das regi\u00f5es onde a sua organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo promovida (&#8230;) s\u00e3o valorizadas como um avan\u00e7o na perspectiva de uma reforma agr\u00e1ria com orienta\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o popular (Fajardo Monta\u00f1a, 2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Flickr\/\u00a0<a title=\"V\u00e1 para a galeria de FARC Imagenes\" href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/57319826@N06\/\" data-rapid_p=\"102\" data-track=\"attributionNameClick\">FARC Imagenes<\/a><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/5304833737_2c37d5cbd1_b.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nImagens de integrantes das FARC tiradas em 2008<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1998, durante a presid\u00eancia de Andr\u00e9s Pastrana, realizou-se uma nova tentativa de chegar a um acordo de paz entre as FARC-EP e o Estado, a qual, uma vez mais, fracassou. A esta tentativa seguiu-se o Plano Col\u00f4mbia, cuja aplica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 definitivamente posta em pr\u00e1tica por \u00c1lvaro Uribe. Este plano, acordado por Washington, em junho de 2000, entrega \u00e0 Col\u00f4mbia US$ 934 milh\u00f5es, a maioria deles destinados para o combate das guerrilhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este plano n\u00e3o p\u00f4de, contudo, ser compreendido sem a sua devida inser\u00e7\u00e3o no contexto econ\u00f4mico colombiano de finais dos anos 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, ap\u00f3s de um per\u00edodo de crise entre 1998 e 1999 (Ampuero e Brittain, 2008), a economia colombiana consegue recuperar-se no in\u00edcio do mil\u00eanio gra\u00e7as \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es, nomeadamente do petr\u00f3leo \u201cque \u00e9 o destino principal dos investimentos estrangeiros diretos\u201d (ibid., p. 382). O Plano Col\u00f4mbia (esbo\u00e7ado pela administra\u00e7\u00e3o Clinton, nos finais da d\u00e9cada de 1990) vai, assim, permitir o apoio pol\u00edtico, econ\u00f4mico e militar dos EUA \u00e0 liberaliza\u00e7\u00e3o e crescimento do setor petroleiro. Segundo as palavras do pr\u00f3prio embaixador estadunidense em Bogot\u00e1, em 2000, o Plano Col\u00f4mbia deveria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Satisfazer as necessidades que as outras fontes n\u00e3o podem. Est\u00e1 baseado na esperan\u00e7a compartida de alcan\u00e7ar a paz e a prosperidade na Col\u00f4mbia, atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o geral da produ\u00e7\u00e3o de drogas il\u00edcitas e do seu tr\u00e1fico, e permitir que o governo da Col\u00f4mbia estabele\u00e7a um controle democr\u00e1tico e providencie servi\u00e7os e infraestruturas a todo o seu territ\u00f3rio (cit. in Ampuero e Brittain, 2008, p. 382).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O imperialismo, na sua estrat\u00e9gia de acumula\u00e7\u00e3o e de controle atrav\u00e9s de uma permanente militariza\u00e7\u00e3o, passa, assim, a utilizar uma nova linguagem para alcan\u00e7ar essa mesma estrat\u00e9gia, referindo-se a uma necess\u00e1ria <em>guerra contra as drogas e o terror<\/em>. Ludibria, assim, as suas inten\u00e7\u00f5es geoestrat\u00e9gicas de dom\u00ednio pol\u00edtico, econ\u00f3mico e militar, financiando diretamente a repress\u00e3o e a viol\u00eancia do Estado colombiano contra as guerrilhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 1998 (apesar da tentativa de chegar a um acordo com as FARC-EP, neste mesmo ano) e 2006, o Estado colombiano enceta violentos massacres contra guerrilheiros e civis, com o objetivo de atacar as estruturas que combatem o poder central repressivo \u2014 ou seja, a base das insurg\u00eancias. Entretanto, o terror e o medo emparam-se das popula\u00e7\u00f5es, enquanto, no plano pol\u00edtico, os paramilitares logram controlar mais de 70% dos parlamentares do Congresso da Rep\u00fablica \u2014 a tal ponto que conseguem eleger um dos seus para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em 2002: \u00c1lvaro Uribe (2002-2006; 2006-2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro Uribe, aprofundando as j\u00e1 historicamente fortes rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia com os EUA, vai, ent\u00e3o, p\u00f4r definitivamente em pr\u00e1tica o Plano Col\u00f4mbia. Refor\u00e7a, desta forma, as For\u00e7as Armadas, as quais, com aproximadamente 500 mil homens, constituem um dos maiores Ex\u00e9rcitos do mundo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Uribe sust\u00e9m-no o poder o interesse geopol\u00edtico do governo dos Estados Unidos; as fraudes eleitorais, como as organizadas pelos seus amigos Jorge Noguera, do DAS, de apelido &#8220;Jorge 40&#8221;, sanguin\u00e1rio paramilitar; os bilh\u00f5es do or\u00e7amento nacional; as tramoias legislativa e judicial ligadas ao executivo; a Fiscalidade de bolso; a politiquice e o clientelismo; o respaldo de empres\u00e1rios como Echeverry Correa e Sarmiento Angulo; as sondagens financiadas pelo governo que induzem a opini\u00e3o e o voto, e o apoio publicit\u00e1rio brindado pelos m\u00eddia, como <em>Caracol<\/em>, RCN e <em>El Tiempo<\/em> (Comunicado 42 aniversario de las FARC-EP in <em>Resistencia,<\/em> 2006, p. 32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No plano agr\u00e1rio, Uribe vai intensificar o processo de acumula\u00e7\u00e3o de terras. Sob a presid\u00eancia de Uribe, foi implementado o programa Agro Ingreso Seguro (AIS), o qual foi apresentado como um sistema de subs\u00eddios agr\u00edcolas que deveriam beneficiar os pequenos agricultores colombianos. Na pr\u00e1tica, o dinheiro que deveria ter sido entregue aos camponeses e pequenos agricultores foi desviado para o paramilitarismo, para a oligarquia latifundi\u00e1ria colombiana e para multinacionais e transnacionais que atuam na Col\u00f4mbia, as quais fracionavam as suas terras de forma a poder beneficiar dos subs\u00eddios estatais. Os benefici\u00e1rios deste programa estatal apoiaram diretamente as campanhas presidenciais de \u00c1lvaro Uribe, em 2002 e em 2006: \u201c51 deram um total de 550 milh\u00f5es para a campanha de 2002 e 128 para o referendo. E tiveram mais de 34 mil milh\u00f5es em subs\u00eddios e mais de 10 mil milh\u00f5es em cr\u00e9ditos <em>blandos<\/em>\u201d (Lewin, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O imperialismo, entretanto, apoia e sustenta os sucessivos governos, garantindo, assim, a salvaguarda dos seus interesses, na Col\u00f4mbia como em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica latina. A defesa desses interesses \u00e9 feita atrav\u00e9s da sua capacidade militar e do apoio a governos corruptos (e, como o foi de \u00c1lvaro Uribe, de tra\u00e7os fascistas). Estabelece, consequentemente, novas bases militares, recupera outras, assinando conv\u00eanios que permitam a perman\u00eancia das for\u00e7as estadunidenses na regi\u00e3o, salvaguardando os monop\u00f3lios que exploram o petr\u00f3leo e outras fontes energ\u00e9ticas, sempre na \u00f3tica de manter o seu dom\u00ednio imperial e de combater os constantes movimentos populares e guerrilheiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juan Manuel Santos, antigo Ministro da Defesa de Uribe, eleito Presidente da Rep\u00fablica em 2010, e reeleito em 2014, representante, sobretudo, dos interesses da burguesia financeira cl\u00e1ssica (ao contr\u00e1rio de Uribe, que representava, sobretudo, a burguesia latifundi\u00e1ria), continua uma pol\u00edtica de terrorismo de Estado e de completa subservi\u00eancia aos interesses do capital financeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de Santos, pressionado pela Mesa de Di\u00e1logo de Paz em Havana, ter aparentemente impulsionado uma pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o de terras, esta revelou ser um fracasso (dificultando, desta forma, uma sa\u00edda negociada do conflito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, Santos havia prometido redistribuir terras a 160 mil fam\u00edlias <em>deslocadas<\/em> pela viol\u00eancia; contudo, apenas foram redistribu\u00eddas terras a 431 fam\u00edlias, ou seja, 0,3% do total (num total de 12.142 hectares distribu\u00eddos, dos dois milh\u00f5es prometidos). Por outro lado, para al\u00e9m de o governo tamb\u00e9m ter reduzido o pressuposto atribu\u00eddo ao programa, v\u00e1rias das restitui\u00e7\u00f5es efetuadas correspondiam a simples titula\u00e7\u00f5es de baldios. Paralelamente, \u201cenquanto este desastre sucedia, o governo fechou os olhos aos desalojamentos ilegais de terras camponesas por parte de monop\u00f3lios nacionais e estrangeiros e \u00e0s andan\u00e7as de Carlos Urrutia, a quem pretende premiar aprovando uma lei para ele desenhada, com o objetivo de legalizar as ilegalidades de seus clientes\u201d (s\/a, <em>Prensa Senado<\/em>, 9-12-2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num pa\u00eds onde 14 milh\u00f5es de hectares de terra s\u00e3o considerados cultiv\u00e1veis (13% da \u00e1rea total do pa\u00eds), 45% desta terra produtiva pertence, apenas, a 0,3% da popula\u00e7\u00e3o (Ampuero e Brittain, 2008). A maioria da popula\u00e7\u00e3o colombiana encontra-se, assim, afastada do acesso \u00e0s terras agr\u00edcolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Flickr\/ <a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/marcha-patriotica\/\" target=\"_blank\">Marcha Patri\u00f3tica<\/a><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/12627514503_33321f9448_b.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nFestival pela paz na Col\u00f4mbia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar desta situa\u00e7\u00e3o, uma parte da popula\u00e7\u00e3o colombiana mant\u00e9m-se gra\u00e7as \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, muitas das vezes apenas para mera subsist\u00eancia familiar. Enquanto os <em>desalojamentos<\/em>e as reformas neoliberais debilitaram o cultivo de produtos tradicionais, como a mandioca<em>,<\/em> o caf\u00e9 e o milho (Ampuero e Brittain, 2008), muitos campesinos e pequenos propriet\u00e1rios, para sobreviverem, adotaram, desde h\u00e1 aproximadamente tr\u00eas d\u00e9cadas, o cultivo da folha de coca. Esta op\u00e7\u00e3o afirmou-se, sobretudo, desde finais da d\u00e9cada de 90, e tornou-se numa forma de pequenos campesinos e propriet\u00e1rios escaparem \u00e0 mis\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo em conta esta situa\u00e7\u00e3o, as guerrilhas, nomeadamente as FARC-EP, continuam a sua hist\u00f3rica luta de resist\u00eancia, controlando partes do territ\u00f3rio colombiano e implementando novos modelos socioecon\u00f4micos nas regi\u00f5es por si controladas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00e1reas sob seu controle, as FARC-EP t\u00eam promovido ativamente um modelo socioecon\u00f4mico e pol\u00edtico diferente. No \u00e2mbito do desenvolvimento econ\u00f4mico e social, a organiza\u00e7\u00e3o estabeleceu uma solu\u00e7\u00e3o economicamente ben\u00e9fica e democr\u00e1tica para reinvestir nas comunidades nas quais est\u00e3o envolvidas, estabelecendo sistemas de cr\u00e9ditos agr\u00e1rios para que os agricultores possam ter a capacidade de estabelecer um produto capaz de ser \u00fatil \u00e0 comunidade (\u2026). Com efeito, apesar de as FARC-EP n\u00e3o apoiarem a produ\u00e7\u00e3o de coca, permitiram que os camponeses tivessem benef\u00edcios financeiros, tanto nos mercados dom\u00e9sticos (atrav\u00e9s de pre\u00e7os justos para as mercadorias) como no mercado internacional. Na \u00e1rea da sa\u00fade, as FARC-EP (com o apoio de hospitais e farm\u00e1cias) levaram a cabo campanhas de vacina\u00e7\u00e3o massiva a 20 mil crian\u00e7as e adultos (FARC-EP, 2001). As FARC-EP constru\u00edram caminhos e infraestruturas para facilitar a entrega de servi\u00e7os ao p\u00fablico e tamb\u00e9m desenharam uma sa\u00edda para os bens e produtos da regi\u00e3o para venda e para interc\u00e2mbio (Ampuero e Brittain, 2008, p. 383).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Estado colombiano v\u00ea-se, desta forma, obrigado a abrir uma nova mesa de di\u00e1logos com as FARC-EP, as quais se iniciam em 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As negocia\u00e7\u00f5es prosseguem, hoje, em Cuba, na cidade de Havana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos cinco pontos em discuss\u00e3o refere-se, precisamente, \u00e0 quest\u00e3o agr\u00e1ria colombiana. Relembremos que a Col\u00f4mbia \u00e9 um dos pa\u00edses do mundo com maiores desigualdades, no que se refere \u00e0 propriedade da terra; segundo a ONU, 52% das grandes propriedades est\u00e3o em m\u00e3os de apenas 1,15% dos colombianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo que a Reforma Agr\u00e1ria de 1961 nunca se concretizou, o atual processo de contrarreforma agr\u00e1ria prossegue atrav\u00e9s do uso de armas, de dinheiro, de intimida\u00e7\u00e3o do movimento campon\u00eas e ind\u00edgena e de fomento de subs\u00eddios para a agroind\u00fastria e para os grandes propriet\u00e1rios. H\u00e1 que assinalar que a Col\u00f4mbia importa mais de oito milh\u00f5es de toneladas de alimentos por ano e entrega as terras mais f\u00e9rteis \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas para exporta\u00e7\u00e3o a baixo custo (Cf. Avenda\u00f1o, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sequ\u00eancia das lutas pela terra, contra os interesses dos grandes propriet\u00e1rios agr\u00edcolas colombianos e dos monop\u00f3lios nacionais e estrangeiros, e do seu modelo agroexportador, \u00e9 organizada uma greve geral agr\u00e1ria, em 2013, e outra, em 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fruto das greves gerais agr\u00e1rias, constituiu-se uma <em>Cumbre Nacional Agr<\/em><em>\u00e1ria<\/em>, na qual confluem diversos movimentos e sectores sociais (de negros a ind\u00edgenas), como o Congresso dos Povos, a Marcha Patri\u00f3tica, o Processo de Comunidades Negras e a Mesa de Interlocu\u00e7\u00e3o Agr\u00e1ria (onde confluem, entre outras for\u00e7as, a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica e o Partido Comunista Colombiano), os quais, neste momento, negoceiam com o governo de Santos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus<\/strong><strong>\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrutura rural colombiana tem como caracter\u00edstica uma alta concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX que o Estado olig\u00e1rquico colombiano utilizou, sempre com o apoio do imperialismo norte-americano, o uso sistem\u00e1tico da viol\u00eancia, criminalizando e exterminando l\u00edderes e militantes progressistas. Sucederam-se os massacres no campo como na cidade, engendrados por paramilitares, muitas vezes com o apoio do Ex\u00e9rcito, permanecendo, at\u00e9 hoje, os seus autores impunes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios foram, desta forma, ao longo da hist\u00f3ria colombiana, os exemplos de massacres cometidos e a impunidade dos seus executantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1920, o movimento campon\u00eas, ind\u00edgena e, sobretudo, sindical, foi duramente reprimido, sendo paradigma do n\u00edvel da repress\u00e3o o assass\u00ednio de milhares de grevistas da United Fruit Company, em 1928.<\/p>\n<section class=\"noticias-relevantes cf\">\n<h4 class=\"subtitle\"><\/h4>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1948, Jorge Eliecer Gait\u00e1n \u2013 candidato da fa\u00e7\u00e3o mais progressista do Partido Liberal \u2014 impulsionador de medidas progressistas, como a Reforma Agr\u00e1ria, \u00e9 assassinado mediante uma alian\u00e7a da CIA com as classes dominantes colombianas. Seguem-se mobiliza\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas das massas, as quais ter\u00e3o como resposta uma intensa onda de terrorismo de Estado que, entre 1948 e 1953, causou aproximadamente 30 mil v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1953, o ditador militar Rojas Pinilla consegue que muitos dos guerrilheiros liberais entreguem as suas armas, prometendo-lhes uma amnistia e a sua incorpora\u00e7\u00e3o na vida institucional do pa\u00eds. Poucos meses depois, centenas de ex-guerrilheiros liberais desmobilizados s\u00e3o assassinados (como, por exemplo, Guadalupe Salcedo, assassinado em 1957).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terrorismo de estado, associado aos interesses imperialistas estadunidenses, e a sua express\u00e3o atrav\u00e9s do paramilitarismo, tem utilizado continuamente a viol\u00eancia contra diversos l\u00edderes e dirigentes progressistas. O genoc\u00eddio perpetrado contra a Uni\u00e3o patri\u00f3tica (UP) e o Partido Comunista Colombiano (PCC) deixaram, entre 1987 e 1992, mais de 4.500 militantes e dirigentes assassinados (entre os quais, os candidatos presidenciais da UP, Jaime Pardo Leal e Bernardo Jaramillo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta situa\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o e de uma inusitada viol\u00eancia, perpetrada ao mais alto n\u00edvel do aparelho de Estado, \u00e9 ainda direcionada contra o movimento guerrilheiro, que resiste e luta h\u00e1 mais de 50 anos por uma Col\u00f4mbia em paz, com Justi\u00e7a Social, assim como contra conhecidos dirigentes e militantes progressistas e revolucion\u00e1rios (no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo, mais de 3.000 dirigentes sindicais foram assassinados), na cidade como no campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o Alto Comissariado da ONU para os refugiados (ACNUR), a Col\u00f4mbia \u00e9 o pa\u00eds do mundo com maior n\u00famero de deslocados internos, estimados entre 3 a 4 milh\u00f5es, causados tanto por assassinatos seletivos, como por assass\u00ednios indiscriminados no campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O imperialismo estadunidense, por seu lado, foi-se impondo na regi\u00e3o desde finais do s\u00e9culo XIX. Hoje em dia, controla e domina a extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais, sobretudo do petr\u00f3leo. Desde finais da d\u00e9cada de 90 que 48% do total das exporta\u00e7\u00f5es colombianas s\u00e3o dirigidas para os EUA, enquanto 42% das importa\u00e7\u00f5es v\u00eam deste mesmo centro imperialista. Esta rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de depend\u00eancia foi refor\u00e7ada com o aumento da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo colombiano em finais da d\u00e9cada de 1990, sendo que, hoje, 80% dessa produ\u00e7\u00e3o \u00e9 diretamente enviada para os EUA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Estado foi e continua a ser uma pe\u00e7a fundamental na manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade no campo, nomeadamente enquanto protege e assegura os interesses econ\u00f4micos dos grandes latifundi\u00e1rios e do capital estrangeiro, em detrimento dos trabalhadores assalariados rurais e do pequeno campesinato. Ora, sendo que a\u00a0<strong>quest<\/strong><strong>\u00e3o agr<\/strong><strong>\u00e1ria<\/strong>\u00a0nasce da\u00a0<strong>contradi<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o estrutural do<\/strong>\u00a0<strong>capitalismo<\/strong>, que produz concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e consequente expans\u00e3o da pobreza e da mis\u00e9ria, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a resolu\u00e7\u00e3o do conflito armado mais antigo do continente americano, sem antes resolver os conflitos da terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A luta pela Reforma Agr\u00e1ria no virar do s\u00e9culo<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":87714,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-87713","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/guerrilha.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87713","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87713"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87713\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87714"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87713"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87713"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87713"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}