{"id":89063,"date":"2015-10-13T03:17:06","date_gmt":"2015-10-13T06:17:06","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=89063"},"modified":"2015-10-13T03:17:06","modified_gmt":"2015-10-13T06:17:06","slug":"um-curriculo-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/um-curriculo-para-todos\/","title":{"rendered":"Um curr\u00edculo para todos"},"content":{"rendered":"<header>\n<div class=\"row\">\n<h1 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><em>Com d\u00e9cadas de atraso, o Brasil ter\u00e1 enfim um curr\u00edculo nacional com metas para 100% das escolas do pa\u00eds. Se os professores o aplicarem, poder\u00e1 ser um grande avan\u00e7o<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<p class=\"author row\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"prefixo-autor\">Por: <\/span><strong>Cec\u00edlia Ritto e Amanda Prado<\/strong><\/p>\n<p class=\"author row\" style=\"text-align: justify;\">\n<\/header>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"content col-xs-13\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"\u201cAlunos brasileiros: at\u00e9 hoje, cada escola particular teve o seu curr\u00edculo; j\u00e1 na rede p\u00fablica, \u00e0s vezes n\u00e3o h\u00e1 nenhum\u201d\" src=\"http:\/\/msalx.veja.abril.com.br\/2015\/10\/09\/2017\/pe6Cx\/alx_escola-alfredo-bresser_original.jpeg?1444432642\" alt=\"\u201cAlunos brasileiros: at\u00e9 hoje, cada escola particular teve o seu curr\u00edculo; j\u00e1 na rede p\u00fablica, \u00e0s vezes n\u00e3o h\u00e1 nenhum\u201d\" \/><figcaption>\u201cAlunos brasileiros: at\u00e9 hoje, cada escola particular teve o seu curr\u00edculo; j\u00e1 na rede p\u00fablica, \u00e0s vezes n\u00e3o h\u00e1 nenhum\u201d<span class=\"credito\">(Alexandre Schneider\/VEJA)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O curr\u00edculo escolar funciona como um roteiro para a sala de aula, demarcando o conhecimento que o professor deve passar ao aluno em cada disciplina, ano a ano. \u00c9 pe\u00e7a b\u00e1sica para estabelecer metas e ambi\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, um norte sem o qual se navega no escuro, ao sabor de cren\u00e7as individuais sobre o que a crian\u00e7a precisa saber. Muitas rodas da educa\u00e7\u00e3o brasileira sempre torceram o nariz para a cria\u00e7\u00e3o de um documento que fincasse objetivos em comum para todas as escolas do pa\u00eds. O argumento era que seria como uma camisa de for\u00e7a, ferindo a liberdade de ensinar. No sistema em vigor, estados e munic\u00edpios ora t\u00eam o pr\u00f3prio curr\u00edculo, ora nenhum, e os col\u00e9gios particulares adotam os seus, mirando os vestibulares e o Enem. Recentemente, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o soltou um texto que \u00e9 ponto de partida para o primeiro curr\u00edculo nacional \u00fanico, iniciativa que alinha o Brasil com um sistema que j\u00e1 se provou essencial nos pa\u00edses de boa educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. N\u00e3o havia mais como emperrar esse avan\u00e7o por travas ideol\u00f3gicas. Que fique claro: estamos diante do passo n\u00famero 1. O esfor\u00e7o agora deve ser para elevar o padr\u00e3o da vers\u00e3o inicial do MEC, aberta a debate, e trabalhar para que n\u00e3o vire obra de fic\u00e7\u00e3o, mas seja aplicada para valer pelos professores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elaborado por uma comiss\u00e3o de 116 pessoas &#8211; entre organizadores de curr\u00edculos estaduais e municipais, docentes e gente ligada \u00e0s universidades -, o texto passar\u00e1 pela aprecia\u00e7\u00e3o de sociedades cient\u00edficas e \u00f3rg\u00e3os da educa\u00e7\u00e3o em geral at\u00e9 chegar \u00e0s m\u00e3os do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE), ao qual cabe a palavra final at\u00e9 abril do pr\u00f3ximo ano. Escolas p\u00fablicas e particulares se basear\u00e3o no documento. H\u00e1 ainda muito o que percorrer n\u00e3o s\u00f3 na trilha das inst\u00e2ncias a ser consultadas como no aprimoramento do que foi apresentado. A vers\u00e3o trazida a p\u00fablico tem o m\u00e9rito de ordenar pela primeira vez conte\u00fados e expectativas, s\u00f3 que se esquiva de enfrentar o desafio primordial deste s\u00e9culo: repensar o modelo de escola \u00e0 luz de um mundo em acelerada transforma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o requer mais o saber enciclop\u00e9dico. &#8220;Do jeito que est\u00e1, \u00e9 um documento tradicional, um espelho do que j\u00e1 se v\u00ea nas salas de aula de hoje. N\u00e3o ousa&#8221;, avalia a especialista Maria Helena Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficou de fora uma men\u00e7\u00e3o \u00e0 t\u00e3o almejada reforma do ensino m\u00e9dio. Todos os estudantes brasileiros, independentemente de suas habilidades e pendores, s\u00e3o obrigados a percorrer o mesmo caminho, pavimentado por muita mat\u00e9ria e pouca profundidade. \u00c9 um sistema inflex\u00edvel, \u00fanico no mundo. O curr\u00edculo em quest\u00e3o n\u00e3o inviabiliza uma futura mudan\u00e7a, mas, definitivamente, n\u00e3o a encara. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 ali nenhuma pista de como tornar o ensino mais atraente, sintonizado com o mundo de hoje e menos voltado para os processos de sele\u00e7\u00e3o&#8221;, observa Ricardo Falzetta, do movimento Todos pela Educa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um gargalo para o desenvolvimento do pa\u00eds, j\u00e1 que o sistema atual acaba expelindo a metade dos jovens da escola durante o ensino m\u00e9dio: s\u00e3o novas gera\u00e7\u00f5es incapazes de produzir e inovar. Presidente do Conselho Nacional de Secret\u00e1rios de Educa\u00e7\u00e3o (respons\u00e1veis pelo ensino m\u00e9dio), o catarinense Eduardo Deschamps deixa claro que \u00e9 preciso revisitar o assunto com mais coragem. &#8220;Estamos analisando se \u00e9 necess\u00e1rio manter todas as disciplinas exigidas e at\u00e9 ponderando se devemos fazer um esfor\u00e7o para mudar a lei que as torna obrigat\u00f3rias&#8221;, diz ele, que vai propor ajustes ao MEC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um consenso de que a primeira vers\u00e3o do minist\u00e9rio foi feita para n\u00e3o causar grandes celeumas entre os mais resistentes. A linguagem segue a cartilha politicamente correta &#8211; sobram termos como &#8220;pluralidade&#8221;, &#8220;inclus\u00e3o&#8221;, &#8220;diversidade&#8221;. E faltam outros. Gram\u00e1tica, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 um objetivo claro (veja o quadro na p\u00e1g. ao lado). &#8220;Foram escolhidos eixos em l\u00edngua portuguesa que n\u00e3o t\u00eam similaridade com os curr\u00edculos internacionais&#8221;, lembra a pesquisadora Ilona Becskeh\u00e1zy. Outro motivo de estranheza foi o fato de o MEC sugerir que o curr\u00edculo determine apenas 60% do que \u00e9 obrigat\u00f3rio; os outros 40% ser\u00e3o estabelecidos por cada rede, de acordo com as &#8220;realidades regionais&#8221;. Comenta-se nos bastidores que a iniciativa seria fruto da press\u00e3o de sindicatos, que advogam por uma f\u00f3rmula com metas mais male\u00e1veis. Em bons pa\u00edses na educa\u00e7\u00e3o, como a Finl\u00e2ndia e a Austr\u00e1lia, preservam-se o colorido e as especificidades locais, mas isso est\u00e1 muito longe de tomar quase a metade do tempo em sala de aula. &#8220;N\u00e3o existe uma matem\u00e1tica mineira ou pernambucana&#8221;, resume Pedro Malagutti, da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ponto crucial para que todo o esfor\u00e7o n\u00e3o se torne in\u00f3cuo \u00e9 que o curr\u00edculo seja de fato absorvido nas faculdades formadoras de professores: eles devem sair de l\u00e1 preparados para atingir os objetivos com todo o rigor acad\u00eamico. Hoje h\u00e1 pouco treinamento no lado pr\u00e1tico do of\u00edcio &#8211; ele ocupa n\u00e3o mais que 20% dos cursos de pedagogia -, e a maioria pega o diploma sem saber o que nem como ensinar. &#8220;Essas faculdades ainda est\u00e3o \u00e0 margem da discuss\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 como fazer algo desse porte sem chegar a um bom termo com quem forma o corpo docente&#8221;, afirma Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna. Ser\u00e1 preciso, a\u00ed tamb\u00e9m, romper resist\u00eancias. As faculdades devem acompanhar os novos tempos, assim como o material did\u00e1tico precisar\u00e1 se amoldar ao curr\u00edculo. Segundo os especialistas que revisaram o texto oficial, ele ainda est\u00e1 prolixo e gen\u00e9rico em lugar de ser simples e f\u00e1cil de aplicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, fala-se h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas da implanta\u00e7\u00e3o de um curr\u00edculo nacional. Sua cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 sugerida, inclusive, na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Alguns passos foram dados nessa dire\u00e7\u00e3o nos anos 90, mas as bandeiras ideol\u00f3gicas sempre refrearam o debate, at\u00e9 que o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE) &#8211; transformado em lei pelo Congresso Nacional em 2014 &#8211; p\u00f4s esse t\u00f3pico entre as estrat\u00e9gias para dar um salto no ensino b\u00e1sico. V\u00e1rias entidades de peso tamb\u00e9m se manifestaram nos \u00faltimos tempos, muitas delas em torno do Movimento pela Base Nacional Comum, do qual faz parte a Funda\u00e7\u00e3o Lemann. Foi-se amadurecendo assim a ideia, lentamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o MEC, o documento apresentado pelo ent\u00e3o ministro Renato Janine Ribeiro n\u00e3o sofrer\u00e1 mudan\u00e7as em raz\u00e3o da troca de cadeiras na pasta, agora nas m\u00e3os de Aloizio Mercadante. O pr\u00f3prio secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, Manuel Pal\u00e1cios, reconhece que essa primeira vers\u00e3o carece de ajustes. &#8220;N\u00e3o d\u00e1 para perder de vista o que consideramos ideal, mas fomos realistas e entregamos algo concreto&#8221;, diz ele, que faz uma autocr\u00edtica: &#8220;Acho que falta mais detalhamento aos objetivos das ci\u00eancias humanas&#8221;. O ex-\u00administro Janine chegou a barrar a divulga\u00e7\u00e3o das metas de hist\u00f3ria, que s\u00f3 sa\u00edram na semana passada. Leu e n\u00e3o gostou. Ainda h\u00e1 tempo, portanto, para algo que n\u00e3o foi abordado pelos formuladores do texto: a inclus\u00e3o, de forma expl\u00edcita e clara, de compet\u00eancias t\u00e3o requeridas na forma\u00e7\u00e3o de um jovem do s\u00e9culo XXI &#8211; como capacidade de produzir em equipe, abertura ao risco, resili\u00eancia e criatividade. Os melhores do mundo est\u00e3o bem atentos a isso. Por que o Brasil n\u00e3o come\u00e7a olhando para o futuro?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com d\u00e9cadas de atraso, o Brasil ter\u00e1 enfim um curr\u00edculo nacional com metas para 100% das escolas do pa\u00eds. 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