{"id":91438,"date":"2015-10-25T11:30:14","date_gmt":"2015-10-25T14:30:14","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=91438"},"modified":"2015-10-25T11:30:14","modified_gmt":"2015-10-25T14:30:14","slug":"padre-torturado-por-extremistas-islamicos-relata-a-dificil-resistencia-crista-no-iraque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/padre-torturado-por-extremistas-islamicos-relata-a-dificil-resistencia-crista-no-iraque\/","title":{"rendered":"Padre torturado por extremistas isl\u00e2micos relata a dif\u00edcil resist\u00eancia crist\u00e3 no Iraque"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<\/header>\n<figure class=\"horizontal\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/extra.globo.com\/incoming\/17866182-295-e8d\/w640h360-PROP\/2015-860261221-pe_douglas1_ais_20151022.jpg\" alt=\"Padre Douglas mostra a camisa do dia em que foi sequestrado, ainda com marcas de sangue\" width=\"640\" height=\"360\" \/><figcaption><span class=\"credit\">Padre Douglas mostra a camisa do dia em que foi sequestrado, ainda com marcas de sangue\u00a0<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"story\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"header\">\n<div class=\"credits info\"><span class=\"author\">Pedro Zuazo<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p>Um cordeiro no meio de lobos. Assim pode ser definida a situa\u00e7\u00e3o de Douglas Joseph Shimshon Al-Bazi, um padre cat\u00f3lico iraquiano. O sacerdote nasceu h\u00e1 43 anos em Bagd\u00e1, capital do pa\u00eds que se tornou ber\u00e7o do grupo extremista Estado Isl\u00e2mico e onde crist\u00e3os v\u00eam sendo dizimados. Em meio \u00e0 jihad, a chamada guerra santa, Douglas j\u00e1 escapou de dois atentados a bomba, levou um tiro de fuzil e foi sequestrado e torturado por nove dias. No cativeiro, o religioso usou as dez argolas que uniam suas algemas para rezar o ros\u00e1rio. Douglas est\u00e1 no Brasil, a convite da Funda\u00e7\u00e3o Pontif\u00edcia Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre, para contar o drama de seu povo e participar de uma missa, hoje, \u00e0s 10h, no Cristo Redentor. Poucas horas ap\u00f3s desembarcar em S\u00e3o Paulo, na sexta-feira, o padre conversou com o EXTRA pelo telefone.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 ser um padre cat\u00f3lico no Iraque?<\/strong><\/p>\n<p><center class=\"ebz_native_center\"><\/p>\n<div><\/div>\n<div id=\"ebzNative\"><\/div>\n<p><\/center>Antes de 2003, \u00e9ramos mais de dois milh\u00f5es de crist\u00e3os no Iraque. Hoje, somos menos de 200 mil. D\u00e1 para imaginar o que vem acontecendo. No ano passado, o Estado Isl\u00e2mico fez mais de um milh\u00e3o de pessoas fugirem do pa\u00eds. Recebemos milhares de refugiados em nossos acampamentos. N\u00e3o \u00e9 um conflito, \u00e9 um genoc\u00eddio.<\/p>\n<p><strong>Que mem\u00f3rias o senhor tem do sequestro que sofreu?<\/strong><\/p>\n<p>Um ano antes de ser sequestrado, minha igreja foi destru\u00edda, em Bagd\u00e1, ap\u00f3s dois atentados a bomba. Fui atingido de rasp\u00e3o na perna por um tiro de AK-47 num dos ataques. Em 2006, quando sa\u00ed de casa para visitar parentes, homens pularam de dentro de um carro, me renderam e me jogaram no porta-malas. Quando chegamos ao destino, tive o nariz quebrado ao levar uma joelhada na cara. Fui torturado durante nove terr\u00edveis dias.<\/p>\n<p><strong>O que aconteceu nesses dias?<\/strong><\/p>\n<p>Meus olhos foram vendados e minhas m\u00e3os, acorrentadas. Passei os primeiros quatro dias praticamente sem \u00e1gua, e, por isso, ainda hoje, n\u00e3o durmo se n\u00e3o tiver uma garrafa ao lado da cama. Ficava trancado no banheiro, para ningu\u00e9m ouvir meus gritos de socorro. Durante o dia, os sequestradores faziam muitas perguntas. \u00c0 noite, me batiam. Chegaram a me golpear na boca com um martelo. Senti um dente solto, e um deles me disse: \u201cN\u00e3o se preocupe, voc\u00ea tem v\u00e1rios dentes e n\u00f3s ainda temos v\u00e1rios dias\u201d.<\/p>\n<p><strong>Que perguntas eles faziam?<\/strong><\/p>\n<p>Faziam muitas perguntas sobre a igreja, queriam entender o funcionamento da comunidade. Mas tamb\u00e9m falavam sobre outros assuntos, at\u00e9 mesmo quest\u00f5es pessoais. Um deles chegou a me questionar, como um l\u00edder religioso, sobre a conduta que deveria ter com sua mulher. Eu disse que deveria am\u00e1-la e trat\u00e1-la bem. Era o mesmo que me a\u00e7oitava \u00e0 noite.<\/p>\n<p><strong>Sua f\u00e9 foi abalada?<\/strong><\/p>\n<p>As algemas que prendiam minhas m\u00e3os eram ligadas por uma corrente com dez argolas, e um cadeado na ponta. As algemas eram meu ros\u00e1rio. Eu usava os an\u00e9is para rezar as Ave-Marias e o cadeado para os Pai-Nossos. Foram os ros\u00e1rios mais belos e profundos que j\u00e1 rezei.<\/p>\n<p><strong>Como terminou o sequestro?<\/strong><\/p>\n<p>No sexto dia, negociaram minha liberdade com a igreja, pedindo dinheiro. Colocaram o meu superior no telefone, em viva voz, mas eu me comuniquei com ele em aramaico e disse que achava que iam me matar de qualquer jeito. Ent\u00e3o, o meu superior disse que podiam ficar comigo. Eles ficaram irritados naquele dia. Me levaram para um quarto, ligaram a TV bem alto e me torturaram ainda mais. No fim, a igreja acabou negociando minha liberta\u00e7\u00e3o com o grupo extremista.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 viver, hoje, num campo de refugiados?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de chamar de campo de refugiados (na cidade de Erbil, ao Norte do Iraque). A igreja se tornou um escudo para aqueles que querem se proteger. As fam\u00edlias vivem em cont\u00eaineres, organizados por caravanas. Temos escolas e sa\u00fade, na medida do poss\u00edvel. A cada dia chegam mais pessoas, sem esperan\u00e7as de voltar para casa. Antes eu costumava dizer que 50% das pessoas que chegavam aqui acabavam emigrando para o exterior. Hoje, prefiro dizer que 50% permanecem. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas inevitavelmente tomam essa decis\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"vertical_inline\"><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"http:\/\/extra.globo.com\/incoming\/17866186-d30-d99\/w448\/2015-860261237-refugee_center4_ais_20151022.jpg\" alt=\"Fam\u00edlias refugiadas vivem em cont\u00eaineres\" \/><figcaption>Fam\u00edlias refugiadas vivem em cont\u00eaineres Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O senhor tamb\u00e9m j\u00e1 pensou em deixar o Iraque?<\/strong><\/p>\n<p>Nasci l\u00e1, amo meu pa\u00eds e tenho orgulho dele, embora meu pa\u00eds n\u00e3o se orgulhe de parte do seu povo. Alguns podem perguntar: qual \u00e9 o sentido de deixar ovelhas no meio de lobos? Mas quem sou eu para questionar Deus? Um padre no Oriente M\u00e9dio precisa abra\u00e7ar sua miss\u00e3o. Quando sa\u00edmos, n\u00e3o sabemos se vamos voltar vivos. Acho que podem me matar um dia, mas eu me importo com nossas crian\u00e7as, tenho um sentimento de responsabilidade com meu povo. Eu sou meu povo. O sofrimento que eu passei \u00e9 o sofrimento que o cristianismo passa, hoje, no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>Na semana que vem, a Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre vai apresentar um relat\u00f3rio sobre sequestro e execu\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os, entre 2013 e 2015, em pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio, \u00c1sia e \u00c1frica. Qual sua expectativa sobre o documento?<\/strong><\/p>\n<p>Dizem que em cinco anos n\u00e3o haver\u00e1 mais crist\u00e3os no Iraque, mas eu acho que talvez aconte\u00e7a antes disso. Quando uma minoria mu\u00e7ulmana vive junto a outras religi\u00f5es, que s\u00e3o maioria, \u00e9 uma coisa. Mas quando o islamismo \u00e9 maioria num territ\u00f3rio, as minorias s\u00e3o insustent\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Que mensagem o senhor traz ao Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Vim pedir ajuda. Pedir que o Brasil ou\u00e7a o grito do meu povo e dissemine essa mensagem. Falem alto, acordem o mundo, al\u00e9m de rezar por n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Acolher refugiados \u00e9 uma forma de ajudar?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 como diz meu bispo: se n\u00e3o podem nos ajudar a ficar no Iraque, ent\u00e3o ajudem-nos a sair de l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Qual foi sua primeira impress\u00e3o sobre o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 bastante verde. Tenho saudade do verde na minha terra, que hoje est\u00e1 cinzenta.<\/p>\n<figure class=\"vertical_inline\"><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"http:\/\/extra.globo.com\/incoming\/17866188-7d7-aab\/w448\/2015-860265957-refugee_center5_ais1-_20151022.jpg\" alt=\"Campo tem escolas e postos de sa\u00fade, na medida do poss\u00edvel, segundo o padre Douglas\" \/><figcaption>Campo tem escolas e postos de sa\u00fade, na medida do poss\u00edvel, segundo o padre Douglas Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre<\/figcaption><\/figure>\n<figure class=\"vertical_inline\"><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"http:\/\/extra.globo.com\/incoming\/17866187-0a8-df9\/w448\/2015-860261364-refugee_center2_ais_20151022.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as no campo de refugiados, na cidade de Erbil, ao Norte do Iraque\" \/><figcaption>Crian\u00e7as no campo de refugiados, na cidade de Erbil, ao Norte do Iraque <\/figcaption><\/figure>\n<figure class=\"vertical_inline\"><figcaption>\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um cordeiro no meio de lobos. Assim pode ser definida a situa\u00e7\u00e3o de Douglas Joseph Shimshon Al-Bazi, um padre cat\u00f3lico iraquiano. O sacerdote nasceu h\u00e1 43 anos em Bagd\u00e1, capital do pa\u00eds que se tornou ber\u00e7o do grupo extremista Estado Isl\u00e2mico e onde crist\u00e3os v\u00eam sendo dizimados. 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