{"id":91459,"date":"2015-10-25T12:00:26","date_gmt":"2015-10-25T15:00:26","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=91459"},"modified":"2015-10-25T12:00:26","modified_gmt":"2015-10-25T15:00:26","slug":"qual-e-a-origem-da-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/qual-e-a-origem-da-fe\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 a origem da f\u00e9?"},"content":{"rendered":"<header>\n<div class=\"row\">\n<h1 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"col-xs-13\" style=\"text-align: justify;\"><em>Novos estudos de psicologia desvendam os mecanismos que levam algumas pessoas a crer mais que outras. Os intuitivos costumam ser mais religiosos que os reflexivos<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<p class=\"author row\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"prefixo-autor\">Por: <\/span><strong>Adriana Dias Lopes<\/strong><\/p>\n<\/header>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"content col-xs-13\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"UM PARA CADA LADO - At\u00e9 muito pouco tempo atr\u00e1s, seria inimagin\u00e1vel ci\u00eancia e religi\u00e3o, duas formas t\u00e3o diferentes de ver o mundo, caminharem juntas\" src=\"http:\/\/msalx.veja.abril.com.br\/2015\/10\/23\/2029\/pe6Cx\/alx_um-pra-cada-lado_original.jpeg?1445639289\" alt=\"UM PARA CADA LADO - At\u00e9 muito pouco tempo atr\u00e1s, seria inimagin\u00e1vel ci\u00eancia e religi\u00e3o, duas formas t\u00e3o diferentes de ver o mundo, caminharem juntas\" \/><figcaption>UM PARA CADA LADO &#8211; At\u00e9 muito pouco tempo atr\u00e1s, seria inimagin\u00e1vel ci\u00eancia e religi\u00e3o, duas formas t\u00e3o diferentes de ver o mundo, caminharem juntas<span class=\"credito\">(Montagem sobre fotos Corbis e AKG\/Latinstock, Bob Thomas\/Popperfoto\/Getty Images, NASA e Alcione Pereira\/Claudia\/VEJA)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 ouviu falar daquele louco que acendeu uma lanterna numa manh\u00e3 clara, correu para a pra\u00e7a do mercado e se p\u00f4s a gritar incessantemente: &#8216;Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!&#8217;? Como muitos dos que n\u00e3o acreditam em Deus estivessem justamente por ali naquele instante, ele provocou muitas risadas&#8230; &#8216;Onde est\u00e1 Deus?!&#8217;, ele gritava. &#8216;Eu devo dizer-lhes: n\u00f3s o matamos &#8211; voc\u00ea e eu. Todos somos assassinos&#8230; Deus est\u00e1 morto. Deus continua morto. E n\u00f3s o matamos&#8230;&#8217; &#8221; A definitiva descri\u00e7\u00e3o da morte de Deus, ideia cunhada por Friedrich Nietzsche em <em>A Gaia Ci\u00eancia<\/em>, de 1882, \u00e9 o mais bem-acabado registro do fim de um per\u00edodo em que tudo era explicado a partir da revela\u00e7\u00e3o divina. O racionalismo de Nietzsche p\u00f4s o homem no lugar de Deus, subtraindo do cotidiano a cren\u00e7a no sobrenatural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A busca pelas raz\u00f5es da f\u00e9, em movimentos de s\u00edstole e di\u00e1stole que ora nos p\u00f5em mais pr\u00f3ximos a Deus, ora nos afastam dele, \u00e9 humana, demasiado humana. Como traduzir algo t\u00e3o poderoso e impalp\u00e1vel que por mil\u00eanios nos move? Enfim, por que alguns creem e outros n\u00e3o? Convencionou-se imaginar que pessoas menos instru\u00eddas tendem a ter contato mais amistoso com a religi\u00e3o &#8211; os mais letrados seriam majoritariamente c\u00e9ticos, avessos \u00e0 f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 assim, necessariamente, e que bom que n\u00e3o seja. N\u00e3o se trata de forma\u00e7\u00e3o intelectual. Um recente estudo conduzido pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, chegou a uma conclus\u00e3o bem mais instigante. O mote: as pessoas intuitivas s\u00e3o naturalmente mais religiosas do que as reflexivas. Os pesquisadores primeiramente avaliaram a capacidade intuitiva e reflexiva dos volunt\u00e1rios. Cerca de 1 200 homens e mulheres com idade m\u00e9dia de 30 anos foram desafiados a resolver um question\u00e1rio que exige um racioc\u00ednio extremamente l\u00f3gico. Por meio desse teste, adotado h\u00e1 pelo menos cinco d\u00e9cadas em investiga\u00e7\u00f5es comportamentais, aqueles que erram as quest\u00f5es s\u00e3o classificados como intuitivos, por tentar resolv\u00ea-las com pressa, impetuosos. Os que acertam s\u00e3o os reflexivos, que pensam, pensam e pensam. Em outro momento do estudo, ambos os grupos tiveram de falar sobre f\u00e9. Do cruzamento das respostas, despontaram as conclus\u00f5es. Os intuitivos afirmaram ser mais religiosos que os reflexivos. A premissa faz sentido. Diz o psiquiatra Frederico Le\u00e3o, coordenador do Programa Sa\u00fade, Espiritualidade e Religiosidade, do Instituto de Psiquiatria da USP: &#8220;\u00c9 mais simples para os menos racionais acreditar em algo impreciso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A intui\u00e7\u00e3o e a reflex\u00e3o s\u00e3o fundamentais no mecanismo cognitivo do c\u00e9rebro humano. Os intuitivos tomam decis\u00f5es a partir de processos que ocorrem com pouco esfor\u00e7o e aten\u00e7\u00e3o. &#8220;Eles usam naturalmente a primeira ideia que vem \u00e0 mente&#8221;, diz o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, do departamento de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e supervisor do Grupo de Estudos de \u00c1lcool e Drogas. Os reflexivos concentram-se mais e usam um racioc\u00ednio mais elaborado para chegar a conclus\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 como afirmar, portanto, que os reflexivos sejam mais inteligentes que os intuitivos, apesar de essa ser a impress\u00e3o inicial. Um pouco antes da realiza\u00e7\u00e3o do estudo da Universidade Harvard, o mesmo teste de avalia\u00e7\u00e3o cognitiva foi aplicado entre os alunos dos prestigiosos Instituto de Tecnologia de Massachusetts e Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com o objetivo de avaliar a capacidade l\u00f3gica de pessoas t\u00e3o aptas. Metade dos estudantes errou as respostas. Metade, portanto, tinha um racioc\u00ednio essencialmente intuitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 muito pouco tempo atr\u00e1s, seria inimagin\u00e1vel ci\u00eancia e religi\u00e3o, duas maneiras de pensar o mundo t\u00e3o diferentes, caminharem na mesma dire\u00e7\u00e3o. Uma das primeiras teorias a p\u00f4-las lado a lado \u00e9 do in\u00edcio de 2000. A f\u00e9, assim como as religi\u00f5es surgidas em torno dela, seria um ingrediente seminal para a evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana. O homem, o \u00fanico ser vivo com a capacidade de ter consci\u00eancia da finitude, precisaria recorrer a algo maior e impalp\u00e1vel para conviver com tal ideia. Al\u00e9m disso, as religi\u00f5es estimulam a solidariedade e a compaix\u00e3o, sentimentos que levariam \u00e0 prote\u00e7\u00e3o em momentos de risco, como procura por comida, guerras e cat\u00e1strofes naturais. O bi\u00f3logo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, ateu, um dos grandes defensores do papel da cren\u00e7a em Deus na sobreviv\u00eancia humana, sustenta que a f\u00e9 evolui com o homem porque confere vantagens \u00e0queles que a desenvolvem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tese de que a religiosidade acompanha o ser humano em sua evolu\u00e7\u00e3o ganhou for\u00e7a ruidosa um pouco mais para a frente, quando o bi\u00f3logo americano Dean Hamer, coordenador do setor de gen\u00e9tica do National Cancer Institute, afirmou que a f\u00e9 em Deus estaria no gene, no &#8220;gene de Deus&#8221;. Ao avaliar o grau de espiritualidade de 1 000 adultos, Hamer descobriu uma coincid\u00eancia: aqueles que tinham sentimentos religiosos compartilhavam o gene VMAT2, respons\u00e1vel pela regula\u00e7\u00e3o das chamadas monoaminas, grupo de compostos que incluem a adrenalina (subst\u00e2ncia excitante) e a serotonina (sensa\u00e7\u00e3o de prazer). As monoaminas t\u00eam papel importante na constru\u00e7\u00e3o da realidade e na percep\u00e7\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia, situa\u00e7\u00f5es comuns em experi\u00eancias m\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rompimento entre ci\u00eancia e religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o antigo. Ocorreu no s\u00e9culo XVIII, com o iluminismo. Despontado na Fran\u00e7a, o movimento viu na raz\u00e3o e no progresso cient\u00edfico um instrumento de emancipa\u00e7\u00e3o do homem, pondo os dogmas crist\u00e3os em xeque. A Igreja logo reagiu, com a publica\u00e7\u00e3o da primeira enc\u00edclica da hist\u00f3ria. O documento (<em>Ubi Primum<\/em> &#8211; T\u00e3o Pronto Como), assinado pelo papa Bento XIV (1675-1758), refor\u00e7ou quest\u00f5es cruciais da Igreja: a r\u00edgida forma\u00e7\u00e3o intelectual dos bispos e a import\u00e2ncia da conduta moral no magist\u00e9rio eclesi\u00e1stico. O ponto m\u00e1ximo da cis\u00e3o ocorreu no s\u00e9culo XIX, quando Charles Darwin negou o criacionismo, definindo a cl\u00e1ssica teoria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Pio XII (1876-1958) sinalizou uma reaproxima\u00e7\u00e3o, em 1943, ao escrever a enc\u00edclica <em>Divino Afflante Spiritu<\/em> (Sob a Inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito). No documento, ele reconhecia hip\u00f3teses defendidas pela ci\u00eancia, como a da evolu\u00e7\u00e3o e a do Big Bang. Agora o papa Francisco foi al\u00e9m. No fim do ano passado, soltou uma das frases mais bomb\u00e1sticas de seu pontificado, diante de oitenta pesquisadores de v\u00e1rios pa\u00edses que comp\u00f5em a tradicional Pontif\u00edcia Academia de Ci\u00eancias do Vaticano, institui\u00e7\u00e3o fundada em 1603: &#8220;Quando lemos no G\u00eanesis sobre a cria\u00e7\u00e3o, corremos o risco de imaginar que Deus tenha agido como um mago, com uma varinha m\u00e1gica capaz de criar todas as coisas. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. O Big Bang, que hoje temos como a origem do mundo, n\u00e3o contradiz a interven\u00e7\u00e3o criadora, mas a exige. A evolu\u00e7\u00e3o na natureza n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a no\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o, pois a evolu\u00e7\u00e3o exige a cria\u00e7\u00e3o de seres que evoluem&#8221;. H\u00e1 quatro meses, o pont\u00edfice argentino utilizou novamente ferramentas da ci\u00eancia para lidar com quest\u00f5es religiosas. Na enc\u00edclica <em>Laudato Si<\/em> (Louvado Sejas), documento que tratou de quest\u00f5es ambientais, o jesu\u00edta escreveu: &#8220;Sobre muitas quest\u00f5es concretas, a Igreja n\u00e3o tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opini\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A postura de Francisco merece aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 corajosa, n\u00e3o aparta religi\u00e3o de ci\u00eancia, de modo a n\u00e3o separar fi\u00e9is crentes de outros nem tanto assim. Para uns e outros, prossegue a busca eterna pela compreens\u00e3o da f\u00e9, de como ela nasce e cresce, para al\u00e9m de constata\u00e7\u00f5es evidentes (como a f\u00e9 alimentada por uma trag\u00e9dia familiar). N\u00e3o h\u00e1 como explicar o inexplic\u00e1vel, o misterioso, possivelmente porque Deus talvez seja mesmo um conceito pelo qual medimos e aplacamos nossa dor. Lembre-se aqui o momento b\u00edblico em que Jesus, no auge do sofrimento f\u00edsico e psicol\u00f3gico, pergunta a Deus: &#8220;Por que me abandonaste?&#8221;. Cristo morreu sem resposta para a sua incerteza. Mas em sua \u00faltima frase, dita ainda na cruz, retomou a for\u00e7a brutal da f\u00e9: &#8220;Nas tuas m\u00e3os eu entrego meu esp\u00edrito&#8221;. Jesus Cristo entregou tudo o que tinha a Deus. At\u00e9 mesmo sua racionalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Veja<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Novos estudos de psicologia desvendam os mecanismos que levam algumas pessoas a crer mais que outras. 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