{"id":91612,"date":"2015-10-26T03:06:49","date_gmt":"2015-10-26T06:06:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=91612"},"modified":"2015-10-26T03:06:49","modified_gmt":"2015-10-26T06:06:49","slug":"quem-sao-as-pessoas-que-se-alimentam-de-sangue-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/quem-sao-as-pessoas-que-se-alimentam-de-sangue-humano\/","title":{"rendered":"Quem s\u00e3o as pessoas que se alimentam de sangue humano?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">David Robson<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/ws\/660\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2015\/10\/23\/151023134558_vampire_624x351_oliviahowitt_nocredit.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Apesar da imagem negativa, &#8216;vampiros&#8217; reais s\u00e3o cidad\u00e3os comuns que vivem em grandes cidades<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">No French Quarter de Nova Orleans, nos Estados Unidos, John Edgar Browning est\u00e1 prestes a participar de uma &#8220;refei\u00e7\u00e3o&#8221;, mas poder\u00edamos achar que se trata de um procedimento m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Browning \u00e9 recebido por um homem que, primeiramente, passa uma gaze embebida em \u00e1lcool no alto das suas costas. Depois, munido de um bisturi, ele faz um corte na pele de Browning e encosta seus l\u00e1bios na ferida para lamber o sangue que escorre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisador da Universidade Estadual da Louisiana, Browning decidiu encarar a experi\u00eancia como parte de seu mais recente projeto: um estudo etnogr\u00e1fico da comunidade de &#8220;vampiros&#8221; desta cidade americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de conhec\u00ea-los pessoalmente, o americano acreditava que esses &#8220;vampiros&#8221; eram apenas pessoas que tinham perdido a no\u00e7\u00e3o entre a realidade e a fic\u00e7\u00e3o. Mas, ao se oferecer como doador, suas opini\u00f5es mudaram radicalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos desses &#8220;vampiros&#8221; n\u00e3o acreditam em fen\u00f4menos paranormais nem s\u00e3o f\u00e3s ardorosos de obras como <i>True Blood<\/i> ou <i>Dr\u00e1cula<\/i>. Tampouco parecem sofrer de dist\u00farbios psicol\u00f3giocos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez disso, eles alegam sofrer de uma estranha doen\u00e7a, com sintomas como fadiga e fortes dores de cabe\u00e7a e de est\u00f4mago que, segundo eles, s\u00f3 podem ser aliviados ao se ingerir sangue de outro ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;S\u00f3 nos Estados Unidos, h\u00e1 milhares de pessoas que fazem isso, e n\u00e3o acho que seja uma coincid\u00eancia ou uma moda&#8221;, afirma Browning.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Cura antiga<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/ws\/624\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2015\/10\/23\/151023135008_blood_shot_624x351_oliviahowitt_nocredit.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Usu\u00e1rios dizem que sangue alivia dores, fadiga e problemas digestivos<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitos, o vampirismo real \u00e9 um tabu. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a atividade passou a ser associada com assassinatos macabros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando se fala de vampiros assumidos, \u00e9 comum pensar em imagens horr\u00edveis. Por isso, a comunidade \u00e9 t\u00e3o fechada e cautelosa com quem \u00e9 de fora&#8221;, diz D. J. Williams, soci\u00f3logo da Universidade Estadual de Idaho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem sempre foi assim. Ao longo da hist\u00f3ria, encontramos casos em que o sangue humano era considerado uma cura m\u00e9dica genu\u00edna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, no fim do s\u00e9culo 15, o m\u00e9dico do papa Inoc\u00eancio 8\u00ba teria retirado o sangue de tr\u00eas jovens para d\u00e1-lo (ainda morno) ao pont\u00edfice, na esperan\u00e7a de que a vitalidade da bebida lhe faria bem. D\u00e9cadas depois, a subst\u00e2ncia passou a ser usada no tratamento da epilepsia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O sangue era um mediador entre o f\u00edsico e o espiritual&#8221;, explica Richard Sugg, da Universidade de Durham, no Reino Unido, que recentemente escreveu um livro sobre o uso de cad\u00e1veres na medicina e que est\u00e1 trabalhando em um ensaio sobre vampirismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses tratamentos acabaram caindo em desuso ap\u00f3s o Iluminismo, com o estabelecimento do puritanismo que dominou os s\u00e9culos 18 e 19. Ainda assim, a pr\u00e1tica parece ter perdurado para um pequeno grupo de pessoas. Antes da internet, elas viviam isoladas. Mas, agora, conseguiram formar pr\u00f3speras redes ocultas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;At\u00e9 onde se sabe, a maioria das grandes cidades do mundo tem uma comunidade de vampiros&#8221;, afirma Williams.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Cidad\u00e3os comuns<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio de seu estudo, Browning teve dificuldades em encontrar esses indiv\u00edduos. Percorria as ruas de Nova Orleans dia e noite e frequentava casas noturnas g\u00f3ticas na expectativa de encontrar &#8220;vampiros&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conversando sobre seu projeto com o dono de uma loja de roupas g\u00f3ticas, o cientista foi apresentado a uma mulher que fazia compras no local, junto com seus dois filhos. &#8220;Assim que ela sorriu, dizendo que poderia me ajudar, notei seus dois caninos salientes e afiados&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desse encontro, Browning conheceu e fez amizade com um grande grupo de &#8220;vampiros&#8221;. E, quanto mais ele se aproximava, mais foi percebendo as diferentes personalidades de cada um. Apesar de alguns usarem pr\u00f3teses nos caninos e dormirem em caix\u00f5es, a maioria n\u00e3o se interessa por vampiros da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra surpresa para Browning foi descobrir que eles s\u00e3o cidad\u00e3os comuns e trabalham como balconistas, secret\u00e1rias, gar\u00e7ons, enfermenrias. Alguns frequentam a igreja, e muitos s\u00e3o bastante altru\u00edstas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os vampiros de verdade n\u00e3o ficam perambulando por cemit\u00e9rios, frequentando discotecas g\u00f3ticas ou participando de orgias&#8221;, conta Merticus, um membro dessa comunidade que pede para n\u00e3o ser identificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Muitas organiza\u00e7\u00f5es de vampiros contribuem com entidades beneficentes que ajudam sem-teto, animais maltratados e outras causas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto alguns buscam a energia paranormal que lhes d\u00e1 for\u00e7a, outros (conhecidos como &#8220;med sangs&#8221; \u2013 ou sanguin\u00e1rios m\u00e9dicos) acreditam que sua necessidade de consumir sangue \u00e9 puramente fisiol\u00f3gica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Refei\u00e7\u00e3o&#8217; consensual e m\u00e9dica<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir das conversas que teve com esses &#8216;vampiros&#8221;, Browning descobriu que essa &#8220;fome de sangue&#8221; surge junto com a entrada na puberdade. Um deles relatou ter se envolvido em uma briga com o primo aos 13 anos, quando acabou sugando seu sangue e passando a se sentir muito mais saud\u00e1vel em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma hist\u00f3ria que outros &#8220;vampiros&#8221; conhecem bem. Al\u00e9m de um forte cansa\u00e7o, outros sintomas comuns incluem dores de cabe\u00e7a severas, c\u00f3licas, enjoos, dores musculares e constipa\u00e7\u00e3o extrema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, como \u00e9 de se esperar, encontrar doadores n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Como pedir para algu\u00e9m deixar que outra pessoa sugue seu sangue?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A &#8220;vampira&#8221; CJ me conta que seus amigos mais \u00edntimos sabem de sua necessidade e se oferecem para ajud\u00e1-la. J\u00e1 Kinesia, outra participante que n\u00e3o quer divulgar seu nome, se alimenta do sangue do marido a cada duas semanas. Outras &#8220;v\u00edtimas&#8221; o fazem em troca de pagamento. O importante \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o seja consensual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra caracter\u00edstica que derruba mitos: a extra\u00e7\u00e3o do sangue \u00e9 muito mais como um procedimento m\u00e9dico do que um banquete devorador. Normalmente, tanto o doador quanto o &#8220;vampiro&#8221; passam por uma s\u00e9rie de exames para comprovar que n\u00e3o sofrem de infec\u00e7\u00f5es transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corte na pele \u00e9 feito com bisturis ou seringas descart\u00e1veis abertos na frente do doador, e o local a ser perfurado \u00e9 sempre estereliziado antes e depois. Se algu\u00e9m bebe diretamente da ferida, \u00e9 preciso lavar a boca, escovar os dentes e fazer um bochecho antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nossa comunidade toma muito cuidado com quest\u00f5es de sa\u00fade&#8221;, conta Alexia, uma &#8220;vampira&#8221; brit\u00e2nica. Segundo ela, a refei\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;bastante impessoal, quase como tomar um comprimido&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s alimentar-se de sangue, pessoas como Alexia n\u00e3o relatam sofrerem de efeitos colaterais, apesar da ingest\u00e3o de uma grande quantidade de ferro poder ser perigosa. Muitos &#8220;vampiros&#8221; t\u00eam medo do estigma que os acompanha e, por isso, escondem o fato de seus m\u00e9dicos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Fisiol\u00f3gico ou psicol\u00f3gico?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fato curioso \u00e9 que todos com quem conversei me confessaram que gostariam de se verem livres do h\u00e1bito. Muitos acreditam sofrerem de um dist\u00farbio do sistema digestivo que os impediria de absorver os nutrientes dos alimentos comuns, apenas quando eles j\u00e1 est\u00e3o dissolvidos no sangue de outro indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros tamb\u00e9m admitem que existe uma possibilidade do problema ter uma origem psicossom\u00e1tica. Kinesia conta que teve de ser internada com uma intensa arritimia card\u00edaca e desmaios depois de passar quatro meses sem ingerir sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Tomas Ganz, patologista da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles, nos Estados Unidos, o &#8220;al\u00edvio&#8221; sentido pelos &#8220;vampiros&#8221; ao se alimentar pode ser essencialmente psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Existe um grande efeito placebo, parecido com a sensa\u00e7\u00e3o de ingerir subst\u00e2ncias que n\u00e3o aparentam nem t\u00eam o sabor de comidas convencionais. Esse efeito pode ser intensificado se existe uma esp\u00e9cie de ritual associado \u00e0 ingest\u00e3o e se a pessoa sente uma esp\u00e9cie de exclusividade&#8221;, afirma Ganz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o sangue \u00e9 altamente nutritivo e \u00e9 um laxante natural, o m\u00e9dico acredita que a subst\u00e2ncia ofere\u00e7a um al\u00edvio tempor\u00e1rio para dist\u00farbios digestivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros cientistas teorizam se essa &#8220;fome de sangue&#8221; n\u00e3o \u00e9, na realidade, um sinal de um problema mental mais grave. &#8220;Trata-se de uma pr\u00e1tica que vai muito al\u00e9m do comportamento dito &#8216;normal&#8217;, por isso creio que \u00e9 preciso investigar se h\u00e1 alguma psicose envolvida&#8221;, afirma Steven Schlozman, da Universidade Harvard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, com a conviv\u00eancia com esses indiv\u00edduos, Browning e Williams afirmam que n\u00e3o notaram evid\u00eancias de dificuldades psicol\u00f3gicas. Agora que a comunidade de &#8220;vampiros&#8221; est\u00e1 se abrindo mais, \u00e9 poss\u00edvel que cientistas consigam explorar melhor essas quest\u00f5es e oferecer respostas para essa misteriosa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente das explica\u00e7\u00f5es, Browning acredita que os &#8220;vampiros&#8221; merecem o mesmo respeito dado a outras minorias. &#8220;O que acontece com eles \u00e9 real. N\u00f3s n\u00e3o entendemos o que \u00e9 e eles tamb\u00e9m n\u00e3o. Mas eles est\u00e3o tentando lidar com a situa\u00e7\u00e3o da melhor maneira&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: BBC Brasil<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para muitos, o vampirismo real \u00e9 um tabu. 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