{"id":95645,"date":"2015-11-16T07:14:06","date_gmt":"2015-11-16T10:14:06","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=95645"},"modified":"2015-11-16T07:14:06","modified_gmt":"2015-11-16T10:14:06","slug":"liberdade-da-empresa-e-gestao-de-riscos-da-corrupcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/liberdade-da-empresa-e-gestao-de-riscos-da-corrupcao\/","title":{"rendered":"Liberdade da empresa e gest\u00e3o de riscos da corrup\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"clearFix\">\n<nav class=\"sharing\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/nav>\n<\/div>\n<p class=\"authors\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.conjur.com.br\/2015-nov-16\/liberdade-empresa-gestao-riscos-corrupcao#author\">Por\u00a0Tercio Sampaio Ferraz Junior\u00a0e\u00a0Juliano Maranh\u00e3o<\/a><\/p>\n<div class=\"wysiwyg\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o de uma lei ou a sua regulamenta\u00e7\u00e3o dirige-se sempre a fatos futuros. Essa regra b\u00e1sica \u00e9 constantemente amea\u00e7ada por impulsos e press\u00f5es do momento, como ocorre no atual contexto das investiga\u00e7\u00f5es sobre corrup\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, cujas tonalidades levantaram debate p\u00fablico sobre a pr\u00f3pria moralidade nacional, trazendo um clamor popular por urg\u00eancia na puni\u00e7\u00e3o de condutas j\u00e1 ocorridas, que n\u00e3o \u00e9 cong\u00eanere \u00e0 atividade legislativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-95646\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/microfone-de-radio2-300x300.jpg\" alt=\"microfone de radio\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/microfone-de-radio2-300x300.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/microfone-de-radio2-150x150.jpg 150w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/microfone-de-radio2-500x500.jpg 500w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/microfone-de-radio2-50x50.jpg 50w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/microfone-de-radio2-266x266.jpg 266w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/microfone-de-radio2.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande novidade da Lei Anticorrup\u00e7\u00e3o (Lei 12.846\/13) est\u00e1 na puni\u00e7\u00e3o administrativa das pessoas jur\u00eddicas, por <em>responsabiliza\u00e7\u00e3o objetiva<\/em>. Para pensar essa inova\u00e7\u00e3o algumas premissas s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, abandonar o v\u00edcio de pensar a infra\u00e7\u00e3o como o n\u00e3o direito. O pressuposto da lei n\u00e3o \u00e9 que a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 fora do direito, mas que ela ocorre e, por isso, tem suas consequ\u00eancias delimitadas pelo direito. Quando a responsabiliza\u00e7\u00e3o da empresa se d\u00e1 por atos praticados em seu interesse ou benef\u00edcio (artigo 2\u00ba), mesmo que n\u00e3o tenha concorrido para tanto, o fundamento e a legitimidade da puni\u00e7\u00e3o est\u00e1 em uma aloca\u00e7\u00e3o de riscos, que reflete determinada pol\u00edtica p\u00fablica. A lei n\u00e3o exclui a corrup\u00e7\u00e3o. A real quest\u00e3o \u00e9: considerando que provavelmente ocorrer\u00e3o atos de corrup\u00e7\u00e3o, quem deve pagar pelos custos sociais por ela gerados. A solu\u00e7\u00e3o da Lei 12.846\/13 para atos ligados \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os ou contrata\u00e7\u00f5es com entes p\u00fablicos \u00e9 a de que o \u00f4nus financeiro ser\u00e1 em grande parte arcado pelas empresas contratantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo, justamente por ocorrer essa aloca\u00e7\u00e3o de riscos para as empresas, o Estado deve prover os meios para que possam incorporar e geri-los em suas atividades, explicitando crit\u00e9rios que pautem a aplicabilidade de san\u00e7\u00f5es, de modo que, por sua conduta preventiva, a empresa possa evitar ou, ao menos minimizar o grau de responsabiliza\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, haveria grave viola\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade individual, que na ordem econ\u00f4mica constitucional \u00e9 traduzida pela livre iniciativa (artigo\u00a0170, <em>caput<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terceiro, a imposi\u00e7\u00e3o de penas deve respeitar o princ\u00edpio constitucional de isonomia na individualiza\u00e7\u00e3o das penas (artigo\u00a05\u00ba, <em>caput<\/em> e XLVI, que vale tamb\u00e9m para a puni\u00e7\u00e3o administrativa (artigo\u00a037, <em>caput<\/em>), tema particularmente delicado para a aplica da Lei, que descentraliza o poder sancionador e d\u00e1 ampla margem discricionariedade com multas entre 0,1% a 20% do faturamento da empresa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essas tr\u00eas premissas \u00e9 f\u00e1cil perceber a posi\u00e7\u00e3o central ocupada pela regulamenta\u00e7\u00e3o dos \u201cmecanismos e procedimentos internos de integridade\u201d, o chamado <em>\u201ccompliance\u201d<\/em>. Mais do que apenas crit\u00e9rio de dosimetria de san\u00e7\u00e3o, exprime o mecanismo disponibilizado pela lei para gest\u00e3o pela empresa dos riscos com a corrup\u00e7\u00e3o que a ela foram alocados. O detalhamento dos crit\u00e9rios de <em>compliance<\/em>, realizado pelo recente Decreto 8.420\/2015, cumpre n\u00e3o s\u00f3 dever do Estado, previsto no artigo\u00a07\u00ba par\u00e1grafo\u00a0\u00fanico da Lei Anticorrup\u00e7\u00e3o, como cria efetivas condi\u00e7\u00f5es para que as empresas exer\u00e7am sua liberdade na gest\u00e3o de riscos que lhe foram alocados. Ao lado disso, a especifica\u00e7\u00e3o dos par\u00e2metros de dosimetria das san\u00e7\u00f5es, com patamares precisos que limitam e condicionam a discricionariedade administrativa, traz efetiva condi\u00e7\u00e3o para exerc\u00edcio do poder sancionador de forma ison\u00f4mica pela multiplicidade de autoridades dele investidas. Desse modo, sem afetar propriamente a validade da previs\u00e3o na Lei Anticorrup\u00e7\u00e3o de infra\u00e7\u00e3o administrativa para atos de corrup\u00e7\u00e3o do qual empresas sejam benefici\u00e1rias, a regulamenta\u00e7\u00e3o pelo Decreto 8.420\/2015 lhe supre condi\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia, criando as condi\u00e7\u00f5es que lhe faltavam para a aplicabilidade das san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O distanciamento da carga moral trazida pelos fatos recentes importa o reconhecimento de que a corrup\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 a existir, apesar dos esfor\u00e7os legislativos e administrativos; que a responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas n\u00e3o significa sua condena\u00e7\u00e3o \u00e9tica, apenas aloca\u00e7\u00e3o de riscos inerentes a sua atividade; que a imputa\u00e7\u00e3o objetiva de san\u00e7\u00f5es pecuni\u00e1rias \u00e0s empresas pressup\u00f5e que essas tenham acesso antes ao crit\u00e9rios de sua aplica\u00e7\u00e3o, em particular, precisamente do quanto est\u00e1 em jogo e daquilo que pode fazer para evitar ou graduar sua responsabilidade. E, fundamentalmente, relembrar que as leis s\u00e3o criadas abstratamente para aplica\u00e7\u00e3o futura e n\u00e3o para atender a clamores particulares.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cria\u00e7\u00e3o de uma lei ou a sua regulamenta\u00e7\u00e3o dirige-se sempre a fatos futuros. 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