{"id":96998,"date":"2015-11-22T15:59:03","date_gmt":"2015-11-22T18:59:03","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=96998"},"modified":"2015-11-22T15:59:03","modified_gmt":"2015-11-22T18:59:03","slug":"o-vilarejo-que-conseguiu-derrotar-a-peste-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-vilarejo-que-conseguiu-derrotar-a-peste-negra\/","title":{"rendered":"O vilarejo que conseguiu derrotar a peste negra"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/ws\/660\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2015\/11\/12\/151112175308_eyam1_624x351_eleanorross_nocredit.jpg\" alt=\"Eleanor Ross\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">L\u00e1pides de Eyam s\u00e3o testemunhas do sacrif\u00edcio de um pequeno povoado na Inglaterra<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Em apenas oito dias de agosto de 1667, Elizabeth Hancock perdeu seus seis filhos e seu marido. Cobrindo a boca com um len\u00e7o para evitar o cheiro da decomposi\u00e7\u00e3o, ela arrastou os corpos para um campo pr\u00f3ximo e enterrou-os.<\/p>\n<p>Os parentes de Hancock foram v\u00edtimas da peste negra, a praga mortal que atingiu a Europa de forma intermitente entre os s\u00e9culos 13 e 17, matando cerca de 150 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>A epidemia ocorrida de 1664 a 1666 foi particularmente grave e o \u00faltimo grande surto da doen\u00e7a na Inglaterra. Apenas em Londres morreram cerca de 100 mil pessoas, ou um quarto da popula\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o, o vilarejo de Eyam, lar da fam\u00edlia Hancock, virou palco de um dos epis\u00f3dios de autossacrif\u00edcio mais heroicos da hist\u00f3ria da Gr\u00e3-Bretanha \u2013 e foi um dos principais motivos pelos quais a dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a foi interrompida.<\/p>\n<p>Eyam fica a cerca de 56 quil\u00f4metros de Manchester e tem, atualmente, cerca de 900 habitantes. \u00c9 um t\u00edpico vilarejo do interior da Inglaterra: tem pubs, caf\u00e9s aconchegantes e um igrejinha id\u00edlica.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/ws\/624\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2015\/11\/12\/151112175643_eyam2_624x351_eleanorross_nocredit.jpg\" alt=\"Eleanor Ross\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Local onde Elizabeth Hancock enterrou sete membros de sua fam\u00edlia<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 450 anos, por\u00e9m, s\u00f3 se via a destrui\u00e7\u00e3o causada pela peste negra: ruas vazias, portas marcadas com cruzes brancas e sons de agonia de pacientes moribundos atr\u00e1s dessas portas fechadas.<\/p>\n<p>A peste chegou a Eyam no ver\u00e3o (inverno no hemisf\u00e9rio sul) de 1665, quando um comerciante de Londres enviou amostras de tecidos infestadas por pulgas para o alfaiate local, Alexander Hadfield. Em uma semana, o assistente de Hadfield, George Vickers, j\u00e1 havia agonizado at\u00e9 a morte. Em breve, toda a sua fam\u00edlia contrairia a doen\u00e7a e morreria.<\/p>\n<p>At\u00e9 aquele momento, a doen\u00e7a estava praticamente restrita ao sul da Inglaterra. Apavorados com a perspectiva de a praga se espalhar pelo norte, destruindo cidades e comunidades, os moradores perceberam que s\u00f3 tinham uma op\u00e7\u00e3o: a quarentena.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Isolamento<\/h2>\n<p>Sob orienta\u00e7\u00e3o do padre anglicano William Mompesson, eles decidiram se isolar, criando um per\u00edmetro delimitado por uma barreira de pedras que ele prometeram n\u00e3o ultrapassar \u2013 at\u00e9 aqueles que n\u00e3o apresentavam sintomas.<\/p>\n<p>\u201cIsso significava que eles n\u00e3o podiam evitar o contato com a doen\u00e7a\u201d, explica Catherine Rawson, secret\u00e1ria do Eyam Museum, que conta o caso em detalhes.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m significava que era preciso fazer planos cuidadosos para assegurar que os moradores ficassem dentro dos limites e que outras pessoas fossem mantidas do lado de fora, mas que aqueles que estavam em quarentena ainda pudessem receber alimentos e outros mantimentos de que precisavam.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/ws\/624\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2015\/11\/12\/151112175937_eyam3_624x351_eleanorross_nocredit.jpg\" alt=\"Eleanor Ross\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Resid\u00eancias das fam\u00edlias que sofreram com a doen\u00e7a ficaram conhecidas como &#8220;casa da peste&#8221;<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os moradores estabeleceram um sistema de barreiras feitas com pedras com pequenos buracos, onde deixavam moedas empapadas de vinagre, que acreditavam ter a\u00e7\u00e3o desinfetante. Comerciantes de vilarejos vizinhos pegavam o dinheiro e deixavam carne, gr\u00e3os e enfeites em troca.<\/p>\n<p>Atualmente \u00e9 poss\u00edvel visitar a barreira de pedras. Localizadas a menos de um quil\u00f4metro do vilarejo, essas pedras chapadas e \u00e1speras viraram uma atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica. Para honrar as v\u00edtimas da doen\u00e7a, at\u00e9 hoje as pessoas deixam moedas nos buracos, que ficaram menos marcados com o tempo \u2013 e com as crian\u00e7as colocando os dedos dentro deles.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o h\u00e1 consenso sobre a forma como a not\u00edcia da quarentena foi recebida pelos moradores. Alguns tentaram deixar o local, mas aparentemente a maioria aceitou seu destino de forma estoica e pediu a Deus para continuar viva.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;A peste, a peste!&#8217;<\/h2>\n<p>Mesmo se tivessem deixado o local, eles certamente n\u00e3o seriam bem recebidos em outros lugares. Uma mulher saiu de Eyam para ir ao mercado do vilarejo de Tideswell, a 8 km de dist\u00e2ncia. Quando as pessoas perceberam de onde ela vinha, atiraram comida e lama, aos gritos de \u201ca peste, a peste!\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que as pessoas foram morrendo, o vilarejo come\u00e7ou a entrar em colapso. Estradas come\u00e7aram a desmoronar e o mato dominou os jardins. Ningu\u00e9m fez a colheita das planta\u00e7\u00f5es e os moradores passaram a depender de alimentos trazidos de outros locais.<\/p>\n<p>Eles estavam vivendo com a morte, literalmente, na esquina, sem saber quem seria a pr\u00f3xima v\u00edtima de uma doen\u00e7a que ningu\u00e9m entendia. A peste em 1665 provavelmente lembrou o ebola em 2015, mas com ainda menos conhecimento m\u00e9dico.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/ws\/624\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2015\/11\/12\/151112180335_eyam4_624x351_eleanorross_nocredit.jpg\" alt=\"Eleanor Ross\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Pedras como esta delimitavam limites que n\u00e3o podiam ser ultrapassados por moradores<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Foram tomadas algumas provid\u00eancias para tentar impedir a dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. Na primeira metade de 1666, 200 pessoas morreram.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte do homem respons\u00e1vel pelas l\u00e1pides, os moradores passaram a gravar suas pr\u00f3prias. Alguns, como Elizabeth Hancock, enterraram eles mesmos os seus mortos, carregando os corpos das v\u00edtimas por meio de cordas amarradas aos p\u00e9s delas para evitar contato com o morto.<\/p>\n<p>Missas eram feitas ao ar livre para evitar a propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, mas em agosto de 1666 os efeitos eram devastadores: 267 pessoas, de uma popula\u00e7\u00e3o de 344, haviam morrido.<\/p>\n<p>Acreditava-se que aqueles que n\u00e3o pegaram a doen\u00e7a tinham uma caracter\u00edstica especial \u2013 hoje, especula-se que fosse um cromossomo \u2013 que impedia a contamina\u00e7\u00e3o. Outros acreditavam que rituais supersticiosos (como fumar tabaco) ou preces fervorosas paralisavam a doen\u00e7a.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Cheiros adocicados, \u00f3rg\u00e3os podres<\/h2>\n<p>Jenny Aldridge, uma das gerentes da casa Eyam Hall do National Trust (institui\u00e7\u00e3o que cuida de pal\u00e1cios, castelos e outros patrim\u00f4nios hist\u00f3ricos brit\u00e2nicos), afirma que as v\u00edtimas da peste percebiam que haviam sido contaminadas quando come\u00e7avam a sentir cheiros doces.<\/p>\n<p>A mulher de William Mompesson, Katherine, percebeu que o ar estava adocicado uma noite antes de apresentar sintomas \u2013 s\u00f3 por isso ele soube que ela havia sido infectada. Ironicamente, o odor agrad\u00e1vel surgia quando as gl\u00e2ndulas olfativas detectavam que os \u00f3rg\u00e3os internos do paciente estavam apodrecendo.<\/p>\n<p>\u201cIsso e a cren\u00e7a dos moradores de que doen\u00e7as eram transmitidas pelo ar os levaram a usar m\u00e1scaras com ervas dentro\u201d, diz Aldridge. \u201cAlguns chegavam a sentar em tubula\u00e7\u00f5es de esgotos: pensavam que a praga n\u00e3o poderia atingi-los em um local que cheirava t\u00e3o mal.\u201d<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/ws\/624\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2015\/11\/12\/151112180501_eyam5_624x351_eleanorross_nocredit.jpg\" alt=\"Eleanor Ross\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Em agosto de 1966, 267 dos 344 moradores de Eyam haviam morrido<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ap\u00f3s 14 meses, a doen\u00e7a se autoconsumiu, desaparecendo quase t\u00e3o subitamente quanto apareceu. A vida voltou ao normal e o com\u00e9rcio se restabeleceu de forma relativamente r\u00e1pida porque a minera\u00e7\u00e3o de chumbo, a maior fonte de riqueza de Eyam, era muito valiosa para ser ignorada.<\/p>\n<p>Hoje, o vilarejo se transformou em uma cidade-dormit\u00f3rio para quem trabalha em Sheffield e Manchester, mas ainda h\u00e1 fazendas centen\u00e1rias no caminho.<\/p>\n<p>Para quem visita a cidade, uma das coisas mais impressionantes s\u00e3o as placas verdes que foram postas nas casas de campo atingidas pela peste. Muitas listam in\u00fameros membros que cada fam\u00edlia perdeu.<\/p>\n<p>As placas s\u00e3o uma lembran\u00e7a constante para os habitantes do norte da Inglaterra de que eles e seus ancestrais podem dever suas vidas a esse corajoso povoado.<\/p>\n<p><i>Esta reportagem faz parte do BBC Britain \u2013 uma s\u00e9rie que explora hist\u00f3rias da ilha.<\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem visita a cidade, uma das coisas mais impressionantes s\u00e3o as placas verdes que foram postas nas casas de campo atingidas pela peste. 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