{"id":98205,"date":"2015-11-29T00:17:12","date_gmt":"2015-11-29T03:17:12","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=98205"},"modified":"2015-11-28T23:19:09","modified_gmt":"2015-11-29T02:19:09","slug":"amigo-secreto-livro-de-rubens-paiva-e-leitura-obrigatoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/amigo-secreto-livro-de-rubens-paiva-e-leitura-obrigatoria\/","title":{"rendered":"Amigo secreto: livro de Rubens Paiva \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<header>\n<div class=\"row\">\n<h1 class=\"col-xs-13\"><\/h1>\n<h2 class=\"col-xs-13\"><em>\u2018Ainda Estou Aqui\u2019 transita entre os por\u00f5es da ditadura e os labirintos da mem\u00f3ria<\/em><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"content col-xs-13\">\n<p><a class=\"clear-box\" href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/meus-livros\/files\/2015\/11\/marcelo-rubens-paiva-20151127-003-original.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-33125\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/meus-livros\/files\/2015\/11\/marcelo-rubens-paiva-20151127-003-original-620x465.jpeg\" alt=\"S\u00c3O PAULO, SP, BRASIL, 21-08-2014: Literatura: o escritor Marcelo Rubens Paiva, durante entrevista sobre o regime miliar, em S\u00e3o Paulo (SP). A participa\u00e7\u00e3o emocionada de Marcelo Rubens Paiva na Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty deste ano de 2014, na mesa sobre os 50 anos da ditadura, comoveu o p\u00fablico, reverberou nas redes sociais e se tornou alvo de pol\u00eamica, ap\u00f3s manifesta\u00e7\u00f5es agressivas de Roger, l\u00edder da banda Ultraje a Rigor, na internet. O escritor, filho do deputado Rubens Paiva, morto sob tortura em 1971, havia citado o m\u00fasico, no debate em Paraty, como exemplo de quem desconhece a ditadura. No Twitter, Roger reagiu: &quot;Minha fam\u00edlia n\u00e3o foi perseguida pela ditadura porque n\u00e3o estava fazendo merda&quot;. Escritor, jornalista, roteirista e dramaturgo, tuiteiro, blogueiro, com tra\u00e7\u00e3o das quatro rodas. Assim Rubens Paiva, nascido em 1959 em S\u00e3o Paulo, se define. Publicou 11 romances, entre os quais o best-seller &quot;Feliz Ano Velho&quot; (1982). Nesta entrevista, ele, que tamb\u00e9m \u00e9 dramaturgo e colunista do jornal &quot;O Estado de S. Paulo&quot;, fala da ditadura e de seus ecos. (Foto: Fabio Braga\/Folhapress)\" width=\"620\" height=\"465\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Maria Carolina Maia<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui de embarcar na campanha que ganhou for\u00e7a nesta semana nas redes sociais, em que, grosso modo, mediante o uso da hashtag #meuamigosecreto, mulheres denunciavam conhecidos que tiveram contra elas atitudes machistas. Mas t\u00e3o somente de aproveitar a tradicional confraterniza\u00e7\u00e3o de fim de ano para indicar um livro que deveria ser leitura obrigat\u00f3ria para quem passou por 2015: <em>Ainda Estou Aqui <\/em>(Alfaguara), o segundo volume de mem\u00f3rias de Marcelo Rubens Paiva, que nele se dedica a falar tanto do pai, o deputado federal Rubens Paiva, cassado e assassinado pela ditadura militar, como da m\u00e3e, a advogada Eunice Paiva, defensora de direitos humanos \u2013 com destaque para os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo \u00e9 v\u00e1lido para ambos. Para Rubens Paiva, pois a sua morte levou d\u00e9cadas para ser confirmada pelo Estado e ainda reverbera entre a fam\u00edlia, que por anos lidou com as dificuldades advindas das negativas oficiais \u2013 com o marido dado como foragido, Eunice enfrentava obst\u00e1culos para adquirir um im\u00f3vel em S\u00e3o Paulo, por exemplo. \u201cOs familiares dos desaparecidos viviam num limbo civil, al\u00e9m de emocional (temos ou n\u00e3o um pai, uma m\u00e3e, um filho, uma filha ou netos vivos?). A burocracia engessava atividades corriqueiras. N\u00e3o sab\u00edamos nem a data em que dever\u00edamos decretar como o dia da morte. (\u2026) Meu pai foi preso no dia 20 de janeiro. Estava morto na noite do 21 para o 22 de janeiro. Para n\u00f3s, da fam\u00edlia, a data da sua morte \u00e9 20 de janeiro. S\u00f3 recentemente soubemos que ele morreu entre 21 e 22\u201d, escreve Marcelo.<\/p>\n<p>E para Eunice, que, hoje com Alzheimer, est\u00e1 boa parte do tempo alheia, mas ainda se faz presente em lampejos de racioc\u00ednio e na pr\u00f3pria figura f\u00edsica, como a dizer, \u201cAinda estou aqui\u201d. \u201cFicar ao seu lado \u00e9 como ficar ao lado de um beb\u00ea, mas n\u00e3o \u00e9. Ela est\u00e1 l\u00e1. Sua hist\u00f3ria est\u00e1 com ela, foi vivida por ela. (\u2026) Ela pegou o porta-retratos com lugar de destaque na sala com a foto do meu filho de um ano e o abra\u00e7ou com delicadeza. Minha coisinha, disse. Todo dia que ela o v\u00ea, diz: \u2013 \u00c9 a coisinha mais linda que existe.\u201d<\/p>\n<p class=\"clear-box\"><a class=\"clear-box\" href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/meus-livros\/files\/2015\/11\/rubens-paiva-original.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-33120 \" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/meus-livros\/files\/2015\/11\/rubens-paiva-original-620x465.jpg\" alt=\"rubens-paiva-original\" width=\"402\" height=\"301\" \/><\/a>Rubens Paiva, o filho, que se aventurou pelo terreno da mem\u00f3ria com <em>Feliz Ano Velho<\/em>(Objetiva), t\u00edtulo de 1982 em que narra o acidente que o deixou tetrapl\u00e9gico, aqui se faz coadjuvante, al\u00e9m de um narrador capaz de desenrolar com flu\u00eancia o que deseja contar. O livro transita o tempo todo entre os por\u00f5es da ditadura e os labirintos da mem\u00f3ria, onde os pais permanecem presos. Para a surpresa do leitor, a trajet\u00f3ria de Eunice, para muitos apenas a vi\u00fava de Rubens Paiva, embora a fam\u00edlia tenha sempre evitado a autocomisera\u00e7\u00e3o como v\u00edtima da ditadura, se mostra t\u00e3o interessante quanto a do marido morto pelos militares. Determinada, a dona-de-casa se formou em direito, assumiu causas importantes e, fonte de confian\u00e7a de diversos amigos, que a procuravam para resolver quest\u00f5es pessoais, reuniu pec\u00falio suficiente para viver com a aposentadoria com dignidade \u2013 e foi ent\u00e3o que a doen\u00e7a a pegou de surpresa, e injustamente. Sua hist\u00f3ria pode ser lida como um bom romance.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Rubens Paiva, o pai, j\u00e1 \u00e9 mais conhecida, mas adquire tons sombrios com a descri\u00e7\u00e3o da tortura aplicada contra o ex-deputado do PTB que teve o mandato cassado em 1962 e, levado de casa em um dia de praia em 1971, nunca mais veria os filhos. \u00c9 em parte por essa descri\u00e7\u00e3o que o livro se torna necess\u00e1rio, ainda mais num ano em que a volta da ditadura se tornou pauta de descontentes nas ruas, como se a solu\u00e7\u00e3o para o desgoverno do Brasil passasse pelo atraso do autoritarismo.<\/p>\n<p>A partir do depoimento de ex-presos pol\u00edticas, como Cec\u00edlia Viveiros de Castro e Marilene Corona Franco, que foram detidas juntamente com Rubens Paiva, mas sobreviveram aos horrores da ditadura, o livro reconta as horas absurdas vividas pelo ex-deputado. As cenas s\u00e3o fortes.<\/p>\n<p class=\"clear-box\">\u201cQuando chegamos ao chamado \u2018aparelh\u00e3o\u2019 na Bar\u00e3o de Mesquita e o carro parou, colocaram uma toalha me cobrindo o rosto e <a class=\"clear-box\" href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/meus-livros\/files\/2015\/11\/ainda_estou_aqui_capa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-33122\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/meus-livros\/files\/2015\/11\/ainda_estou_aqui_capa-403x620.jpg\" alt=\"CAPA_ainda estou aqui.indd\" width=\"277\" height=\"426\" \/><\/a>o palet\u00f3 na cabe\u00e7a do dr. Rubens, e nos fizeram descer. Eu estava aterrorizada, j\u00e1 conhecia de fama o DOI das pris\u00f5es de meu filho, e com dificuldades para respirar devido ao capuz preto que me colocaram. N\u00e3o sei quanto tempo ali fiquei; sei que nesta mesma tarde fui fotografada e fichada e estivemos muito tempo em p\u00e9\u201d, descreve Cec\u00edlia. \u201cComo n\u00e3o aguentasse ficar sem me apoiar na parede, acabaram me colocando numa cadeira. Eu ouvia os gritos do Rubens Paiva sendo interrogado e de vez em quando passava algu\u00e9m e batia no meu ouvido ou puxava meu cabelo ou falava bem perto: \u2018V\u00e1 se preparando est\u00e1 ouvindo? Est\u00e1 chegando a sua vez\u2026\u2019 Parecia um pesadelo, os gritos: \u2018Eu n\u00e3o aguento mais\u2019; \u2018Eu n\u00e3o sei de nada\u2019, \u2018N\u00e3o fa\u00e7am isso\u2019 do torturado e m\u00fasica de vitrola com o m\u00e1ximo de som e de vez em quando os xingamentos e express\u00f5es vulgares que me diziam ao ouvido.\u201d<\/p>\n<p>(\u2026)<\/p>\n<p>\u201cO mesmo fato foi presenciado pelo ex-preso pol\u00edtico Edson de Medeiros, que aguardava no t\u00e9rreo do pr\u00e9dio sua transfer\u00eancia para um quartel no bairro do Leblon. (\u2026) Lembra-se perfeitamente de que os agentes colocaram uma m\u00fasica de Roberto Carlos \u2013 Jesus Cristo \u2013 em alto volume, possivelmente com o objetivo de abafar os gritos. Algum tempo depois viu de sua cela passarem dois recrutas puxando pelos p\u00e9s um homem forte e gordo, com mais de cem quilos. Esse homem foi colocado na cela ao lado e gemia muito. Chamou tamb\u00e9m a aten\u00e7\u00e3o do depoente o fato de que ele n\u00e3o aparentava ser um estudante, pois j\u00e1 era um homem de meia-idade. (\u2026) Algumas horas depois, o depoente viu alguns agentes retirarem da cela um corpo inerte e totalmente coberto.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 passagens ainda mais pesadas, como a que narra como o torturador de Rubens Paiva pulou sobre o abd\u00f4men do ex-deputado at\u00e9 lev\u00e1-lo a uma hemorragia fatal. S\u00e3o trechos duros de ler, mas necess\u00e1rios.<em>Ainda Estou Aqui<\/em> pode ser considerada uma leitura f\u00e1cil, no sentido de fluida. Mas \u00e9 ao mesmo tempo uma leitura dif\u00edcil de se empreender. E necess\u00e1ria. Bastante necess\u00e1ria. Anote para o seu amigo secreto:\u00a0<em>Ainda Estou Aqui<\/em>\u00a0\u00e9 dos melhores lan\u00e7amentos de 2015.<\/p>\n<p>Fonte: Veja<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Ainda Estou Aqui\u2019 transita entre os por\u00f5es da ditadura e os labirintos da mem\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":98206,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-98205","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/marcelo-rubens-paiva-20151127-003-original-620x465.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98205"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98205\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/98206"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}