{"id":9912,"date":"2013-08-14T09:07:39","date_gmt":"2013-08-14T12:07:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=9912"},"modified":"2013-08-14T09:07:39","modified_gmt":"2013-08-14T12:07:39","slug":"troca-de-correspondencias-entre-poetas-vira-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/troca-de-correspondencias-entre-poetas-vira-livro\/","title":{"rendered":"Troca de correspond\u00eancias entre poetas vira livro"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-9914\" alt=\"ImageProxy\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/ImageProxy1-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p>Era o culpado pelo pr\u00f3prio anonimato. Alagoano radicado em Pernambuco por v\u00e1rias d\u00e9cadas, o poeta Geraldino Brasil (1926-1996) nunca foi chegado \u00e0 conviv\u00eancia com outros escritores, \u201cuns falsos\u201d, na opini\u00e3o dele. Escrevia para as pr\u00f3prias gavetas ou lan\u00e7ava livros sem alarde, em edi\u00e7\u00f5es mal cuidadas. Com o isolamento, o caminho natural seria o ostracismo, n\u00e3o fosse carta recebida em 1979 de remetente desconhecido. Nela, o poeta colombiano Jaime Jaramillo Escobar dizia ter em m\u00e3os um de seus livros e, embora a capa fosse feia, os textos eram t\u00e3o bons que ele n\u00e3o s\u00f3 desejava traduzir para o castelhano, como j\u00e1 havia come\u00e7ado a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Esse foi o come\u00e7o de uma extensa troca de correspond\u00eancias entre os autores (145 cartas, de 1979 a 1995), e de um repentino e avassalador reconhecimento do brasileiro em pa\u00edses vizinhos. Dois fatos nos d\u00e3o a dimens\u00e3o desse fen\u00f4meno &#8211; um de seus maiores f\u00e3s era o ent\u00e3o presidente da Col\u00f4mbia, Belisario Betancur, cujos discursos eram inspirados nas poesias do alagoano. N\u00e3o demorou muito e o escriba morador do Recife foi elevado pelos leitores ao patamar de \u201csanto\u201d. Enquanto continuava desconhecido por aqui, era chamado de \u201cSan Geraldino\u201d em terras porto-riquenhas.<\/p>\n<p>A amizade entre Jaime e Geraldo Lopes (seu nome de batismo) se manteve por 16 anos, sempre com um toque retr\u00f4. Falavam-se apenas por interm\u00e9dio dos correios; nunca se conheceram pessoalmente. As conversas datilografadas ou manuscritas eram sobre pol\u00edtica, religi\u00e3o, morte, as realidades dos dois pa\u00edses, o fazer po\u00e9tico, as obras de Fernando Pessoa, M\u00e1rio Quintana, Carlos Drummond de Andrade. O bate-papo tornou-se rotina na casa de Geraldino. Em carta de 25 de maio de 1980, ele comenta: \u201cQuando voltei ao meio-dia, minha filha, Beatriz, me recebeu com um volume, e (\u2026) disse: &#8211; papai, Jaime\u201d.<\/p>\n<p>Alguns anos depois da morte do poeta alagoano (1996), a filha entrou em contato (dessa vez por e-mail) com o confidente do pai para dizer que escreveria um livro, esp\u00e9cie de biografia de Geraldino baseada naquelas cartas. Para sua surpresa, Jaime Escobar j\u00e1 havia feito o mesmo, e lan\u00e7ado na Col\u00f4mbia a obraCartas con Geraldino Brasil. O fato motivou a escritora formada em arquitetura a dar continuidade ao projeto, em andamento h\u00e1 tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Com lan\u00e7amento previsto apenas para 2014, a obra (Um lugar no tempo) vai compilar trechos das cartas montados como se fossem uma conversa entre os escritores. \u201cPrecisei de 17 anos de prepara\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica para escrever esse livro\u201d, confessa Beatriz, cujo local de trabalho \u00e9 a mesa da sala. Naquele ambiente repleto de pap\u00e9is catalogados, ela faz ajustes finais na obra, e justifica decis\u00f5es tomadas para manter a ess\u00eancia das cartas: nenhuma palavra escrita por Jaime ser\u00e1 traduzida para o portugu\u00eas. \u201cQualquer tradu\u00e7\u00e3o poderia alterar ideias\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, Beatriz viajou para a Col\u00f4mbia at\u00e9 o encontro de Jaime, hoje com 81 anos. \u201cEra como se tivesse reecontrando meu pai. Um homem s\u00e1bio, inspirado a todo momento\u201d. Em 2012, a Companhia Editora de Pernambuco publicou\u00a0A intoc\u00e1vel beleza do fogo\u00a0(118 p\u00e1ginas, R$ 35), com poesias in\u00e9ditas de Geraldino Brasil.<\/p>\n<p>Trechos<br \/>\n&#8220;De modo que n\u00e3o s\u00f3 por temperamento vivo distante dos sal\u00f5es e das rodas liter\u00e1rias, sendo poucos aqui os que me conhecem. H\u00e1 poetas aqui que conhecem apenas minha poesia. Quanto \u00e0s rodas liter\u00e1rias, sempre fui a elas arredio. Notei deslealdades, ouvi cita\u00e7\u00f5es de livros que n\u00e3o foram lidos, ouvi frases de efeito. E n\u00e3o sou disso. Sou de conversar doando-me. Para mim a vida \u00e9 doa\u00e7\u00e3o, sou sem reservas mentais. O campo foi minha escola, j\u00e1 te disse no poema. A mesma escola tua. Em torno de mim s\u00f3 via doa\u00e7\u00e3o sem espera de recompensa, doa\u00e7\u00e3o pura. As \u00e1rvores oferecendo oxig\u00eanio, sombra, frutos, p\u00e1ssaros e madeira para o ber\u00e7o e para o repouso. O gado, os peixes, o sol e a chuva. O homem do campo. Era bom quando se encontrava um nos caminhos desertos. Era uma confian\u00e7a.&#8221;<br \/>\n&#8211; Geraldino Brasil, Recife, 17 de julho de 1979<\/p>\n<p>&#8220;En las fotografias que me enviaste no est\u00e1s solo porque siempre has vivido en relaci\u00f3n con otros; pero sobresales. Tu rosto de Mahatma refleja bondad, concentraci\u00f3n, intelig\u00eancia, nobleza. Y um dulce humor bengali. T\u00fa eres Uno de Los Llamados; no me vengas a decir que no.&#8221;<br \/>\n-Jaime Escobar, Bogot\u00e1, 19 de mar\u00e7o de 1980<\/p>\n<p>&#8220;Sim, meu querido, Jos\u00e9 Sarney \u00e9 poeta da Academia Brasileira de Letras que fechou as portas a M\u00e1rio Quintana&#8230; Ser\u00e1 que por coisas assim Drummond nunca se apresentou \u00e0 Academia?&#8230; Drummond nem de longe o diz\u201d.<br \/>\n&#8211; Geraldino Brasil, Recife (data n\u00e3o identificada)<\/p>\n<p>Fonte: Di\u00e1rio de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era o culpado pelo pr\u00f3prio anonimato. Alagoano radicado em Pernambuco por v\u00e1rias d\u00e9cadas, o poeta Geraldino Brasil (1926-1996) nunca foi chegado \u00e0 conviv\u00eancia com outros escritores, \u201cuns falsos\u201d, na opini\u00e3o dele. Escrevia para as pr\u00f3prias gavetas ou lan\u00e7ava livros sem alarde, em edi\u00e7\u00f5es mal cuidadas. 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