{"id":99582,"date":"2015-12-06T17:14:57","date_gmt":"2015-12-06T20:14:57","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=99582"},"modified":"2015-12-06T17:14:57","modified_gmt":"2015-12-06T20:14:57","slug":"cartacapital-mostra-outra-face-de-gilmar-mendes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cartacapital-mostra-outra-face-de-gilmar-mendes\/","title":{"rendered":"CartaCapital mostra outra face de Gilmar Mendes"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><\/h1>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-903\" title=\"gilmar\" src=\"http:\/\/olicruz.files.wordpress.com\/2008\/11\/gilmar.jpg?w=720\" alt=\"gilmar\" \/><\/p>\n<p>A revista <em>CartaCapital<\/em>, deste final de semana, traz em sua capa uma ampla reportagem de Leandro Fortes sobre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e as rela\u00e7\u00f5es de sua fam\u00edlia com as v\u00e1rias esferas de poder. A revista de Mino Carta revela como o ministro atua politicamente para refor\u00e7ar o naco de poder do irm\u00e3o, prefeito de Diamantino (MT), cidade da fam\u00edlia Mendes. A reportagem mostra um homem muito diferente da face p\u00fablica.<\/p>\n<p>Escreve Leandro Fortes: \u201cEm Diamantino, a 208 quil\u00f4metros de Cuiab\u00e1, em Mato Grosso, o ministro \u00e9 a parte mais vis\u00edvel de uma oligarquia nascida \u00e0 sombra da ditadura militar (1964-1985), mas derrotada, nas elei\u00e7\u00f5es passadas, depois de mais de duas d\u00e9cadas de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>A reportagem aponta que o irm\u00e3o de Gilmar, o atual prefeito Francisco Mendes J\u00fanior, vinha conseguindo se manter no cargo gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia pol\u00edtica do presidente do STF. \u201cNas campanhas de 2000 e 2004, Gilmar Mendes, primeiro como <a href=\"http:\/\/olicruz.wordpress.com\/2008\/07\/12\/as-relacoes-entre-gilmar-e-o-mpf\/\" target=\"_blank\">advogado-geral da Uni\u00e3o do governo Fernando Henrique Cardoso<\/a> e, depois, como ministro do STF, atuou ostensivamente para eleger o irm\u00e3o. Para tal, levou a Diamantino ministros para inaugurar obras e lan\u00e7ar programas, al\u00e9m de circular pelos bairros da cidade, cercado de seguran\u00e7as, a pedir votos para o irm\u00e3o-candidato e, eventualmente, bater boca com a oposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Leia abaixo a \u00edntegra da reportagem.<\/p>\n<blockquote>\n<h4>PODER<\/h4>\n<h2>Nos rinc\u00f5es dos Mendes<\/h2>\n<h3>Em sua terra natal, o presidente do STF e a fam\u00edlia agem como coron\u00e9is<\/h3>\n<p><strong>Leandro Fortes<\/strong><\/p>\n<p>DE DIAMANTINO (MT)<\/p>\n<p>Existe um lugar, nas entranhas do Centro-Oeste, onde a vetusta imagem do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, nada tem a ver com aquela que lhe \u00e9 t\u00e3o cara, de paladino dos valores republicanos, guardi\u00e3o do Estado de Direito, diligente defensor da democracia contra a permanente amea\u00e7a de um suposto \u2013 e providencial \u2013 \u201cEstado policial\u201d. Em Diamantino, a 208 quil\u00f4metros de Cuiab\u00e1, em Mato Grosso, o ministro \u00e9 a parte mais vis\u00edvel de uma oligarquia nascida \u00e0 sombra da ditadura militar (1964-1985), mas derrotada, nas elei\u00e7\u00f5es passadas, depois de mais de duas d\u00e9cadas de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O atual prefeito de Diamantino, o veterin\u00e1rio Francisco Ferreira Mendes J\u00fanior, de 50 anos, \u00e9 o irm\u00e3o ca\u00e7ula de Gilmar Mendes. Por oito anos, ao longo de dois mandatos, Chico Mendes, como \u00e9 conhecido desde menino, conseguiu manter-se na prefeitura, gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia pol\u00edtica do irm\u00e3o famoso. Nas campanhas de 2000 e 2004, Gilmar Mendes, primeiro como advogado-geral da Uni\u00e3o do governo Fernando Henrique Cardoso e, depois, como ministro do STF, atuou ostensivamente para eleger o irm\u00e3o. Para tal, levou a Diamantino ministros para inaugurar obras e lan\u00e7ar programas, al\u00e9m de circular pelos bairros da cidade, cercado de seguran\u00e7as, a pedir votos para o irm\u00e3o-candidato e, eventualmente, bater boca com a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em setembro do ano passado, o ministro Mendes foi novamente escalado pelo irm\u00e3o Chico Mendes para garantir a continuidade da fam\u00edlia na prefeitura de Diamantino. Depois de se ancorar no grupo pol\u00edtico do governador Blairo Maggi, os Mendes tamb\u00e9m migraram do PPS para o PR, partido do vice-presidente Jos\u00e9 Alencar, e ingressaram na base de apoio do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u2013 a quem, como se sabe, Mendes costuma, inclusive, chamar \u00e0s falas, quando necess\u00e1rio. Maggi e os Mendes, ent\u00e3o, fizeram um pacto pol\u00edtico regional, cujo movimento mais ousado foi a assinatura, em 10 de setembro de 2007, do protocolo de inten\u00e7\u00f5es para a instala\u00e7\u00e3o do Grupo Bertin em Diamantino, \u00e0s v\u00e9speras do ano eleitoral de 2008.<\/p>\n<p>Considerado um dos gigantes das \u00e1reas agroindustrial, de infra-estrutura e de energia, o Bertin acabou levado para Diamantino depois de instalado um poderoso lobby pol\u00edtico capitaneado por Mendes, ent\u00e3o vice-presidente do STF, com o apoio do governador Blairo Maggi, a quem coube a palavra final sobre a escolha do local para a constru\u00e7\u00e3o do complexo formado por um abatedouro, uma usina de biodiesel e um curtume. O investimento previsto \u00e9 de 230 milh\u00f5es de reais e a perspectiva de cria\u00e7\u00e3o de empregos chega a 3,6 mil vagas. Um golpe de mestre, calcularam os Mendes, para ajudar a eleger o vereador Juviano Lincoln, do PPS, candidato apoiado por Chico Mendes \u00e0 sucess\u00e3o municipal.<\/p>\n<p>No evento de assinatura do protocolo de inten\u00e7\u00f5es, Gilmar Mendes era s\u00f3 sorrisos ao lado do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, a quem levou a Diamantino para prestigiar a gest\u00e3o de Chico Mendes, uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder recorrente desde a primeira campanha do irm\u00e3o, em 2000. Durante a cerim\u00f4nia, empolgado com a presen\u00e7a do ministro e de dois diretores do Bertin, Blairo Maggi conseguiu, em uma s\u00f3 declara\u00e7\u00e3o, carimbar o ministro Mendes como lobista e desrespeitar toda a classe pol\u00edtica mato-grossense. Assim falou Maggi: \u201cGilmar Mendes vale por todos os deputados e senadores de Mato Grosso\u201d. Presente no evento estava o prefeito eleito de Diamantino, Erival Capistrano (PDT), ent\u00e3o deputado estadual. \u201cO constrangimento foi geral\u201d, lembra Capistrano.<\/p>\n<p>Ainda na festa, animado com a atitude de Maggi, o deputado Wellington Fagundes (PR-MT) aproveitou para sacramentar a a\u00e7\u00e3o do presidente do STF. \u201cO ministro Gilmar Mendes tem usado o seu prest\u00edgio para beneficiar Mato Grosso, apesar de n\u00e3o ser nem do Executivo nem do Legislativo\u201d, esclareceu, definitivo. Ningu\u00e9m, no entanto, explicou ao p\u00fablico e aos eleitores as circunst\u00e2ncias da empresa que t\u00e3o alegremente os Mendes haviam conseguido levar a Diamantino.<\/p>\n<p>O Grupo Bertin, merecedor de tanta dedica\u00e7\u00e3o do presidente do STF, foi condenado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econ\u00f4mica (Cade), em novembro de 2007, logo, dois meses depois da assinatura do protocolo, por forma\u00e7\u00e3o de cartel com outros quatro frigor\u00edficos. Em 2005, as empresas Bertin, Mataboi, Franco Fabril e Minerva foram acusadas pela Secretaria de Direito Econ\u00f4mico do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a de combinar os pre\u00e7os da comercializa\u00e7\u00e3o de gado bovino no Pa\u00eds. Foi obrigado a pagar uma multa equivalente a 5% do faturamento bruto, algo em torno de 10 milh\u00f5es de reais. No momento em que Gilmar Mendes e Blairo Maggi decidiram turbinar a campanha eleitoral de Diamantino com o an\u00fancio da constru\u00e7\u00e3o do complexo agroindustrial, o processo do Bertin estava na fase final.<\/p>\n<p>Ainda assim, quando a campanha eleitoral de Diamantino come\u00e7ou, em agosto passado, o empenho do ministro Mendes ara levar o Bertin passou a figurar como ladainha na campanha do candidato da fam\u00edlia, Juviano Lincoln. Em uma das pe\u00e7as de r\u00e1dio, o empres\u00e1rio Era\u00ed Maggi, primo do governador, ao compartilhar com Chico Mendes a satisfa\u00e7\u00e3o pela vinda do abatedouro, manda ver: \u201cTenho falado pro Gilmar, seu irm\u00e3o, sobre isso\u201d. Em uma das fazendas de soja de Era\u00ed Maggi, o Minist\u00e9rio do Trabalho libertou, neste ano, 41 pessoas mantidas em regime de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto esfor\u00e7o mostrou-se em v\u00e3o eleitoralmente. Em outubro passado, fustigado por den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o e desvio de dinheiro, o prefeito Chico Mendes foi derrotado pelo not\u00e1rio Erival Capistrano, cuja \u00fanica experi\u00eancia pol\u00edtica, at\u00e9 hoje, foi a de deputado estadual pelo PDT, por 120 dias, quando assumiu o cargo ap\u00f3s ter sido eleito como suplente. \u201cFoi a vit\u00f3ria do tost\u00e3o contra o milh\u00e3o\u201d, repete, como um mantra, Capistrano, a fim de ilustrar a maneira her\u00f3ica como derrotou, por escassos 418 votos de diferen\u00e7a, o poder dos Mendes em Diamantino. De fato, n\u00e3o foi pouca coisa.<\/p>\n<p>Em Diamantino, a fam\u00edlia Mendes se estabeleceu como dinastia pol\u00edtica a partir do golpe de 1964, sobretudo nos anos 1970, \u00e9poca em que os militares definiram a regi\u00e3o, estrategicamente, como porta de entrada para a Amaz\u00f4nia. O patriarca, Francisco Ferreira Mendes, passou a alternar mandatos na prefeitura com Jo\u00e3o Batista Almeida, sempre pela Arena, partido de sustenta\u00e7\u00e3o da ditadura. Esse ciclo foi interrompido apenas em 1982, quando o advogado Darcy Capistrano, irm\u00e3o de Erival, foi eleito, aos 24 anos, e manteve-se no cargo por dois mandatos, at\u00e9 1988. A dobradinha Mendes-Batista Almeida s\u00f3 voltaria a funcionar em 1995, bem ao estilo din\u00e1stico da elite rural nacional, com a elei\u00e7\u00e3o, primeiro, de Jo\u00e3o Batista Almeida Filho. Depois, em 2000, de Francisco Ferreira Mendes J\u00fanior, o Chico Mendes.<\/p>\n<p>Gilmar nasceu em Diamantino em 30 de dezembro de 1955. O lugar j\u00e1 vivia tempos de franca decad\u00eancia. Outrora favorecida pelo com\u00e9rcio de diamantes, ouro e borracha por mais de dois s\u00e9culos, a cidade natal do atual presidente do STF se transformou, a partir de meados do s\u00e9culo XX, num munic\u00edpio de economia err\u00e1tica, pobre e sem atrativos tur\u00edsticos, dependente de favores dos governos federal e estadual. Esse ambiente de desola\u00e7\u00e3o social, cultural e, sobretudo, pol\u00edtica favoreceu o crescimento de uma casta coronelista menor, se comparada aos grandes chefes pol\u00edticos do Nordeste ou \u00e0 aristocracia paulista do caf\u00e9, mas ciosa dos mesmos m\u00e9todos de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes do presidente do STF, a figura p\u00fablica mais famosa do lugar, com direito a busto de bronze na pra\u00e7a central da cidade, para onde os diamantinenses costumam ir para fugir do calor sufocante do lugar, era o almirante Jo\u00e3o Batista das Neves. Ele foi assassinado durante a Revolta da Chibata, em 1910, por marinheiros revoltosos, motivados pelos maus-tratos que recebiam de oficiais da elite branca da Marinha, entre eles, o memor\u00e1vel cidad\u00e3o diamantinense.<\/p>\n<p>Na primeira campanha eleitoral de Chico Mendes, em 2000, o ent\u00e3o advogado-geral da Uni\u00e3o, Gilmar Mendes, conseguiu levar ministros do governo Fernando Henrique Cardoso para Diamantino, a fim de dar f\u00f4lego \u00e0 campanha do irm\u00e3o. Um deles, Eliseu Padilha, ministro dos Transportes, voltou \u00e0 cidade, em agosto de 2001, ao lado de Mendes, para iniciar as obras de um trecho da BR-364. Presente ao ato, prestigiado como sempre, estava o irm\u00e3o Chico Mendes. No mesmo m\u00eas, um dos principais assessores de Padilha, Marco Ant\u00f4nio Tozzati, acusado de fazer parte de uma quadrilha de fraudadores que atuava dentro do Minist\u00e9rio dos Transportes, juntou-se a Gilmar Mendes para fundar a Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Aplicadas de Diamantino, a Uned.<\/p>\n<p>O ministro Mendes, revelou <em>CartaCapital<\/em> na edi\u00e7\u00e3o 516 (de 8 de outubro de 2008), \u00e9 acionista de outra escola, o Instituto Brasiliense de Direito P\u00fablico (IDP), que obteve contratos sem licita\u00e7\u00e3o com \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e empr\u00e9stimos camaradas de ag\u00eancias de fomento. N\u00e3o \u00e9 de hoje, portanto, que o ensino, os neg\u00f3cios e a influ\u00eancia pol\u00edtica misturam-se oportunamente na vida do presidente do Supremo.<\/p>\n<p>No caso da Uned, o irm\u00e3o-prefeito bem que deu uma m\u00e3ozinha ao neg\u00f3cio do irm\u00e3o. Em 1\u00ba de abril de 2002, Chico Mendes sancionou uma lei que autorizava a prefeitura de Diamantino a reverter o dinheiro recolhido pela Uned em diversos tributos, entre os quais o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), Imposto Sobre Servi\u00e7os (ISS) e sobre alvar\u00e1s, em descontos nas mensalidades de funcion\u00e1rios e \u201cestudantes carentes\u201d. Dessa forma, o prefeito, respons\u00e1vel constitucionalmente por incrementar o ensino infantil e fundamental, mostrou-se estranhamente interessado em colocar gente no ensino superior da faculdade do irm\u00e3o-ministro do STF.<\/p>\n<p>Em novembro de 2003, o jornalista M\u00e1rcio Mendes, do jornal <em>O Divisor<\/em>, de Diamantino, entrou com uma representa\u00e7\u00e3o no Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual de Mato Grosso, para obrigar o prefeito a demonstrar, publicamente, que funcion\u00e1rios e \u201cestudantes carentes\u201d foram beneficiados com a bolsa de estudos da Uned, baseada na ren\u00fancia fiscal \u2013 ali\u00e1s, proibida pela Lei de Responsabilidade Fiscal \u2013 autorizada pela C\u00e2mara de Vereadores. Jamais obteve resposta. O processo nunca foi adiante, como, de praxe, a maioria das a\u00e7\u00f5es contra Chico Mendes. Atualmente, Gilmar Mendes est\u00e1 afastado da dire\u00e7\u00e3o da Uned. \u00c9 representado pela irm\u00e3, Maria Concei\u00e7\u00e3o Mendes Fran\u00e7a, integrante do conselho diretor e diretora-administrativa e financeira da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O futuro prefeito, Erival Capistrano, estranha que nenhum processo contra Chico Mendes tenha sa\u00eddo da estaca zero e atribui o fato \u00e0 influ\u00eancia do presidente do STF. Segundo Capistrano, foram impetradas ao menos 30 a\u00e7\u00f5es contra o irm\u00e3o do ministro, mas quase nada consegue chegar \u00e0s inst\u00e2ncias iniciais sem ser, irremediavelmente, arquivado. Em 2002, a Procuradoria do TCE mato-grossense detectou 38 irregularidades nas contas da prefeitura de Diamantino, entre elas a cria\u00e7\u00e3o de 613 cargos de confian\u00e7a. A cidade tem 19 mil habitantes. O Minist\u00e9rio P\u00fablico descobriu, ainda, que Chico Mendes havia contratado quatro parentes, inclusive a mulher, Jaqueline Aparecida, para o cargo de secret\u00e1ria de Promo\u00e7\u00e3o Social, Esporte e Lazer.<\/p>\n<p>No mesmo ano de 2002, o vereador Juviano Lincoln (ele mesmo, o candidato da fam\u00edlia) fez aprovar uma lei municipal, sancionada por Chico Mendes, para dar o nome de \u201cMinistro Gilmar Ferreira Mendes\u201d \u00e0 avenida do aer\u00f3dromo de Diamantino. Dois cidad\u00e3os diamantinenses, o advogado Lauro Pinto de S\u00e1 Barreto e o jornalista L\u00facio Barboza dos Santos, levaram o caso ao Senado Federal. \u00c0 \u00e9poca, o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), n\u00e3o aceitou a den\u00fancia. No Tribunal de Justi\u00e7a de Mato Grosso, a acusa\u00e7\u00e3o contra a avenida Ministro Gilmar Mendes tamb\u00e9m n\u00e3o deu resultados e foi arquivada, no ano passado.<\/p>\n<p>A lentid\u00e3o da pol\u00edcia e da Justi\u00e7a na regi\u00e3o, inclusive em casos criminais, acaba tendo o efeito de abrir caminho a v\u00e1rias suspeitas e deixar qualquer um na posi\u00e7\u00e3o de ser acusado \u2013 ou de ver o assunto explorado politicamente.<\/p>\n<p>Em 14 de setembro de 2000, na reta final da campanha eleitoral, a estudante Andr\u00e9a Paula Pedroso Wonsoski foi \u00e0 delegacia da cidade para fazer um boletim de ocorr\u00eancia. Ao delegado Aldo Silva da Costa, Andr\u00e9a contou, assustada, ter sido repreendida pelo ent\u00e3o candidato do PPS, Chico Mendes, sob a acusa\u00e7\u00e3o de t\u00ea-lo tra\u00eddo ao supostamente denunciar uma troca de cestas b\u00e1sicas por votos, ao vivo, em uma emissora de r\u00e1dio da cidade. A jovem, de apenas 19 anos, trabalhava como cabo eleitoral do candidato, ao lado de uma irm\u00e3, Ana Paula Wonsoski, de 24 \u2013 esta, sim, respons\u00e1vel pela den\u00fancia.<\/p>\n<p>Ao tentar explicar o mal-entendido a Chico Mendes, em um com\u00edcio realizado um dia antes, 13 de setembro, conforme o registro policial, alegou ter sido abordada por gente do grupo do candidato e avisada: \u201cTome cuidado\u201d. Em 17 de outubro do mesmo ano, 32 dias depois de ter feito o BO, Andr\u00e9a Wonsoski resolveu participar de um protesto pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ela e mais um grupo de estudantes foram para a frente do F\u00f3rum de Diamantino manifestar contra o abuso de poder econ\u00f4mico nas elei\u00e7\u00f5es municipais. A passeata prevista acabou por n\u00e3o ocorrer e Andr\u00e9a, ent\u00e3o, avisou a uma amiga, Silvana de Pino, de 23 anos, que iria tentar pegar uma carona para voltar para casa, por volta das 19 horas. Naquela noite, a estudante desapareceu e nunca mais foi vista. Tr\u00eas anos depois, em outubro de 2003, uma ossada foi encontrada por tr\u00eas trabalhadores rurais, enterrada \u00e0s margens de uma avenida, a 5 quil\u00f4metros do centro da cidade. Era Andr\u00e9a Wonsoski.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia mato-grossense jamais solucionou o caso, ainda arquivado na Vara Especial Criminal de Diamantino. Mesmo a an\u00e1lise de DNA da ossada, requerida diversas vezes pela m\u00e3e de Andr\u00e9a, Nilza Wonsoski, demorou outros dois anos para ficar pronta, em 1\u00ba de agosto de 2005. De acordo com os tr\u00eas peritos que assinam o laudo, a estudante foi executada com um tiro na nuca. Na hora em que foi morta, estava nua (as roupas foram encontradas queimadas, separadas da ossada), provavelmente por ter sido estuprada antes.<\/p>\n<p>Chamado a depor pelo delegado Aldo da Costa, o prefeito Chico Mendes declarou ter sido puxado pelo bra\u00e7o \u201cpor uma mo\u00e7a desconhecida\u201d. Segundo ele, ela queria, de fato, se explicar sobre as acusa\u00e7\u00f5es feitas no r\u00e1dio, durante o hor\u00e1rio eleitoral de outro candidato. Mendes alegou n\u00e3o ter levado o assunto a s\u00e9rio e ter dito a Andr\u00e9a Wonsoski que deixaria o caso por conta da assessoria jur\u00eddica da campanha.<\/p>\n<p><em>CartaCapital<\/em> tentou entrar em contato com o ministro Gilmar Mendes, mas o assessor de imprensa, Renato Parente, informou que o presidente do STF estava em viagem oficial \u00e0 Alemanha. Segundo Parente, apesar de todas as evid\u00eancias, inclusive fotogr\u00e1ficas, a participa\u00e7\u00e3o de Mendes no processo de implanta\u00e7\u00e3o do Bertin em Diamantino foi \u201czero\u201d. Parente informou, ainda, que a participa\u00e7\u00e3o do ministro nas campanhas do irm\u00e3o, quando titular da AGU, foram absolutamente legais, haja vista ser Mendes, na ocasi\u00e3o, um \u201cministro pol\u00edtico\u201d do governo FHC. O assessor n\u00e3o comentou sobre os benef\u00edcios fiscais concedidos pelo irm\u00e3o \u00e0 universidade do ministro.<\/p>\n<p>A reportagem da <em>Carta<\/em> tamb\u00e9m procurou o prefeito Chico Mendes. O chefe de gabinete, N\u00e9lson Barros, prometeu contatar o prefeito e, em seguida, viabilizar uma entrevista, o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<h2>Passar a limpo<\/h2>\n<h3>Eleito em outubro,Erival Capistrano, de oposi\u00e7\u00e3o, promete fazer uma auditoria nas contas da prefeitura. E se diz amea\u00e7ado de morte<\/h3>\n<p>Depois de vencer, por 418 votos, uma elei\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel contra o candidato da fam\u00edlia do ministro Gilmar Mendes, o futuro prefeito de Diamantino (MT), Erival Capistrano (PDT), ainda n\u00e3o pode afirmar, com todas as letras, que vai mesmo assumir o cargo em 1\u00ba de janeiro de 2009. Isso porque Moacir Ferreira Mendes, irm\u00e3o do presidente do STF, mandou avisar a Capistrano que vai mat\u00e1-lo, at\u00e9 o dia da posse, segundo o prefeito eleito. Aos 52 anos, 40 dos quais dedicado a trabalhar no cart\u00f3rio de notas da fam\u00edlia, Capistrano n\u00e3o perde a calma e entende a rea\u00e7\u00e3o do cl\u00e3 dos Mendes, derrotado depois de duas d\u00e9cadas \u00e0 frente do poder local. O desespero da fam\u00edlia do ministro vem de uma promessa de campanha do prefeito eleito: fazer uma auditoria nas contas da prefeitura. \u201cQuero descobrir para onde foi o dinheiro de Diamantino nos \u00faltimos 20 anos\u201d, anuncia Capistrano.<\/p>\n<p><strong>CartaCapital: O senhor venceu o candidato Juviano Lincoln, do PPS, por uma margem muito pequena de votos. Por que foi t\u00e3o dif\u00edcil vencer o candidato da fam\u00edlia do ministro Gilmar Mendes?<\/strong><\/p>\n<p>Erival Capistrano: As elei\u00e7\u00f5es sempre foram dif\u00edceis em Diamantino, mas o povo estava querendo mudan\u00e7a. E mesmo com toda a dificuldade, o eleitor teve a coragem de enfrentar o grupo de Gilmar Mendes.<\/p>\n<p><strong>CC: O presidente do STF teve influ\u00eancia direta na campanha?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Gilmar Mendes \u00e9 mais pol\u00edtico do que ministro. Ele deveria estar al\u00e9m da pol\u00edtica de Diamantino, que \u00e9 uma coisa muito pequena. Ele usa de influ\u00eancia aqui desde a \u00e9poca em que era advogado-geral da Uni\u00e3o. Sempre usou a m\u00e1quina administrativa do governo federal e vinha usando. Isso nos preocupou, mas n\u00e3o foi barreira.<\/p>\n<p><strong>CC: De que maneira Gilmar Mendes usava de influ\u00eancia nas campanhas?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Ele foi ativo nas duas campanhas do irm\u00e3o, Chico Mendes (Francisco Ferreira Mendes J\u00fanior, atual prefeito de Diamantino), e tamb\u00e9m nesta \u00faltima, do Juviano Lincoln, o candidato da fam\u00edlia. Na primeira campanha, ele usou jatinhos da FAB. Quando era da AGU, usava de influ\u00eancia nos minist\u00e9rios, pressionava pol\u00edticos do estado, pressionava o governador (Blairo Maggi, do PR). Isso intimidava muitos agricultores endividados, que precisavam negociar com o Banco do Brasil, e eram levados a apoiar o grupo de Chico Mendes.<\/p>\n<p><strong>CC: Voc\u00eas nunca denunciaram essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Sim, mas os processos eleitorais contra Chico Mendes nunca d\u00e3o em nada. Os ju\u00edzes eleitorais designados para Diamantino s\u00e3o sempre substitutos, colocados em cima da elei\u00e7\u00e3o. A Justi\u00e7a j\u00e1 \u00e9 morosa por natureza, mas parece que os processos contra o irm\u00e3o do ministro s\u00e3o ainda mais. \u00c9 muita influ\u00eancia de Gilmar Mendes. Nas campanhas passadas, a gente entrava com os processos e o ministro aparecia aqui, quando era da AGU (2000 a 2002), nos bairros, fazendo visitas, pedindo votos. Entrava nas casas.<\/p>\n<p><strong>CC: Por que o senhor decidiu fazer uma auditoria nas contas da prefeitura?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Diamantino tem uma arrecada\u00e7\u00e3o de 3,1 milh\u00f5es de reais mensais,com uma folha de pagamento de 1 milh\u00e3o de reais. Logo, sobraria mais de 2 milh\u00f5es de reais para investimentos, todo m\u00eas. E, nos \u00faltimos anos, a gente viu que n\u00e3o teve investimento em Diamantino. O que foi feito com a verba do governo federal? Nosso objetivo \u00e9 saber onde colocaram esse dinheiro de investimento nos \u00faltimos oito anos.<\/p>\n<p><strong>CC: Como o senhor pretende averiguar isso?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Vamos fazer uma auditoria independente. A gente gostaria que o Tribunal de Justi\u00e7a de Mato Grosso e o Tribunal de Contas do Estado fizessem parte dessa investiga\u00e7\u00e3o, mas, no caso, eles n\u00e3o fazem. Mas vamos usar a Lei de Responsabilidade Fiscal, porque as contas foram aprovadas, tanto pela C\u00e2mara Municipal como pelo TCE. Ent\u00e3o, a gente vai procurar saber, depois que assumir, a realidade das coisas.<\/p>\n<p><strong>CC: Teme que a amea\u00e7a de morte contra o senhor se concretize?<\/strong><\/p>\n<p>EC: N\u00e3o tenho medo. Eu estava fazendo uma visita em um bairro da cidade, quando recebi um telefonema do comit\u00ea. Um candidato a vereador do PDT e mais duas pessoas tinham ido \u00e0 fazenda do irm\u00e3o do ministro, o Moacir, e ele disse que eu poderia ganhar as elei\u00e7\u00f5es de Diamantino, mas que n\u00e3o assumiria, porque ele iria me matar. Fiz um boletim de ocorr\u00eancia na delegacia de pol\u00edcia. N\u00e3o sei por que ele teve essa rea\u00e7\u00e3o. Eu o conhecia como funcion\u00e1rio do Banco do Brasil, soube que anda sempre armado, mas nunca tive problema com ele.<\/p>\n<p><strong>CC: Avinda do frigor\u00edfico Bertin para Diamantino, comemorada com a presen\u00e7a do ministro Gilmar Mendes, no ano passado, foi muito usada na campanha de Juviano Lincoln. O senhor acha que houve interfer\u00eancia pol\u00edtica nesse caso?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Um pedido de Gilmar Mendes ao governo do Estado tem muita influ\u00eancia. Ele exerce o cargo dele para fazer pol\u00edtica, tamb\u00e9m. No evento de an\u00fancio da vinda do Bertin, o governador Blairo Maggi chegou a dizer que Gilmar Mendes valia mais do que a bancada de deputados e senadores de Mato Grosso. Quem \u00e9 eleito pelo povo tem mais valor. O governador foi infeliz na declara\u00e7\u00e3o dele. Mas para o ego dele (Mendes) foi muito bom. Na campanha, eles come\u00e7aram a dizer que, se eu viesse a ganhar as elei\u00e7\u00f5es, o Bertin iria embora de Diamantino. Eles falavam isso para ressaltar a influ\u00eancia do ministro Gilmar Mendes, que trouxe o Bertin para c\u00e1.<\/p>\n<p><strong>CC: O senhor acha que o ministro Gilmar Mendes tem pretens\u00f5es eleitorais em Mato Grosso?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Eu acredito que ele queira ser deputado federal ou senador. Quando a gente se encontra com o governador Blairo Maggi, a primeira coisa que ele lembra \u00e9 que Diamantino \u00e9 a terra do ministro Gilmar Mendes. \u00c9 complicado por causa do poder que ele exerce, como presidente do Supremo, com influ\u00eancia no Tribunal Superior Eleitoral. A presen\u00e7a dele no dia da elei\u00e7\u00e3o foi ostensiva.<\/p>\n<p><strong>CC: Repercutiu, na pol\u00edtica diamantinense, o caso do suposto grampo telef\u00f4nico numa linha do ministro Gilmar Mendes?<\/strong><\/p>\n<p>EC: Esse grampo do STF foi \u00f3timo para a gente, porque ele sumiu da campanha, ficou mais tempo em Bras\u00ed<span class=\"skimlinks-unlinked\">lia.Tenho<\/span> que descobrir quem foi que fez esse grampo para ir l\u00e1 depois fazer um agradecimento (risos).<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escreve Leandro Fortes: \u201cEm Diamantino, a 208 quil\u00f4metros de Cuiab\u00e1, em Mato Grosso, o ministro \u00e9 a parte mais vis\u00edvel de uma oligarquia nascida \u00e0 somb<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-99582","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99582"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99582\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}