“Não imaginava que iam deixar corpo tão perto”, diz filho de PM morto em Cassange

Bruno Wendel
"Não imaginava que iam deixar corpo tão perto", diz filho de PM morto em Cassange(Arisson Marinho/CORREIO)

Buscas foram realizadas no Cia, Estrada do Derba, Paripe e Gamboa

Centro Industrial de Aratu (Cia), Estrada do Derba, Paripe e Gamboa. Todos estes locais estão a mais 8km da Fazenda Cassange, onde morava o sargento da reserva Dorgivaldo Félix dos Santos, 54 anos, mas mesmo assim foram pontos de uma busca angustiante pelo paradeiro do policial. No entanto, o corpo do militar foi encontrado a cerca de 3km de onde foi sequestrado.

“Passava por ali várias vezes para iniciar as buscas. Não imaginava que iam deixar tão perto”, disse um dos filhos sobre a localização do corpo do pai, que estava desaparecido há três dias, após ter sido sequestrado no último sábado (02). Ele foi surpreendido por homens armados e  encapuzados a poucos metros de sua casa, na Rua Pica-Pau.

Na última terça-feira (05), o corpo do militar foi achado com vários tiros e o braço quebrado, numa área de mato, perto de uma pedreira, já próximo à Ceasa de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. O corpo estava em estado avançado de decomposição.

Após o rastreamento do celular do policial,  as buscas foram realizadas no Cia, Estrada do Derba, Paripe e Gamboa. “O GPS do aparelho indicava esses locais, mas não encontramos nada. Na Gamboa, cheguei a pensar que o meu pai estava em poder de traficantes e que a família teria que negociar a libertação. Mas acredito que os bandidos queriam despistar a gente. Inicialmente, o telefone dele só chamava, mas desde ontem está desligado”, contou o filho.

Os parentes disseram que o corpo tinha sinais de espancamento, com o braço esquerdo quebrado, além de marcas de tiros, especialmente na região do abdômen e tórax. Apesar do corpo em estado avançado decomposição, os familiares reconheceram o policial pelas roupas e acessórios, entre eles um cinto antigo da Polícia Militar que o PM gostava de usar. Diante do desfecho que se deu do desaparecimento do policial, a família dele está apavorada e decidiu deixar Salvador. 

Corpo de sargento da reserva sequestrado é encontrado em Cassange

Corpo de PM sequestrado é encontrado com, marcas de tiros e agressão em mata (Foto: Reprodução)

Sequestro
Depois de 31 anos na Polícia Militar, o sargento reformado Dorgivaldo erguia um sonho. Ele construía um restaurante, a poucos metros de casa, no bairro de Fazenda Cassange, quando foi surpreendido por quatro homens encapuzados que o sequestraram na tarde de sábado (2). Ele foi algemado e colocado na mala de um carro e, desde então, não foi visto mais.

Segundo a família do PM, Dorgivaldo estava na companhia de dois amigos, um pedreiro e um ajudante de pedreiro, mas só ele foi levado. “Chegaram quatro homens dizendo: ‘Perdeu, perdeu. Quem é o policial?’. Ele não se identificou, não sei o porquê. Aí, o outro homem armado disse: ‘Todo mundo no chão, deita no chão’. Foi quando identificaram ele e o pegaram”, contou nesta segunda (4), o filho caçula do policial, Rivaldo Félix, 18.

Em nota, a Polícia Civil informou que quatro homens armados levaram a vítima no porta-malas de um veículo da marca Nissan. Foram coletados depoimentos de testemunhas, e outras ações investigativas já estão sendo realizadas. Os detalhes do caso não podem ser informados, para não interferir no andamento das apurações.

De acordo com a família, o sequestro aconteceu por volta das 16h30, na Rua Pica-Pau. “Meu pai estava batendo uma laje, construindo o comércio dele, estava fazendo um restaurante na via principal, junto com quatro pessoas, quando eles chegaram”, contou Rivaldo.

Os bandidos estavam com metralhadoras e escopetas. Inicialmente, eles chegaram a algemar uma das pessoas que trabalhavam na obra – nesse momento, o PM aposentado e as outras pessoas já estavam deitadas no chão. “Mas aí um deles [bandidos], que parecia conhecer meu pai, disse: ‘Nele não, no outro’ e algemaram o meu pai e depois botaram ele no porta-malas do carro”, disse  o filho do PM.

Rivaldo disse que os bandidos não fizeram nenhuma exigência à família. “Ninguém entrou em contato desde o sábado. Antes, a gente ligava para o celular dele e fazia só tocar ou eles recusavam as chamadas. Agora, o aparelho do meu pai só anda desligado, como se tivessem tirado o chip”, disse o filho, abalado com o desaparecimento.

A família disse que, além do paradeiro do PM, quer saber o motivo para o sequestro. “Meu pai não tinha inimigos. Lá, todo mundo gostava dele. A gente não sabe o porquê de eles terem feito isso. Só levaram ele. Ninguém tem ideia do que pode ter acontecido”, declarou o rapaz.

Ainda de acordo com parentes, câmeras de segurança poderão ajudar na investigação. “Eu e meus irmãos fomos atrás das câmeras, mas o Draco (Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado) já esteve lá e coletou as imagens”, relatou Rivaldo.

Apesar de toda a circunstância, ele acreditava que o pai estava vivo. “Tenho a esperança de encontrá-lo. Não podemos perder a esperança. Não sabemos o que pode ter acontecido. Passa muita coisa em nossa cabeça. Ele pode estar sendo torturado”, declarou.

Dorgivaldo trabalhou por 31 anos na PM e há quatro anos estava na reserva. Quando sargento, ele atuou em várias unidades, sendo a última a 9ª Companhia Independente (CIPM/ Pirajá). Mas há um ano ele começou a construir o sonho do restaurante.

“Ele vinha juntando dinheiro para erguer esse sonho, mas infelizmente aconteceu isso. A intenção dele é vender comida de todo tipo. Ele estava construindo para pegar o público que trabalha numa pedreira”, contou o filho.

Protesto
Em busca de repostas, parentes do PM  protestaram na BR-324, na região próxima à Estrada de Campinas, por volta das 10h desta segunda.. Eles ocuparam uma das vias e queimaram pneus. Os manifestantes usaram também cartazes para chamar a atenção das autoridades para o sequestro do sargento.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) esteve no local para controlar o tráfego, e a pista foi liberada por volta das 10h30.

Fonte: Correio

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