Os povos da Itália primitiva

Apesar de desfrutar de uma localização geográfica privilegiada no centro da bacia mediterrânica,que permitiu, desde muito cedo, contactos com povos mais avançados do Oriente e da própria Grécia, até aos finais do III milénio, a Itália permaneceu como uma região periférica relativamente aos grandes centros civilizacionais, manifestando as suas populações estádios evolutivos muito distintos.
Os trabalhos de investigação arqueológica e linguística e o estudo mais exaustivo das fontes
literárias que, de modo sistemático, se vêm desenvolvendo, sobretudo a partir do nosso
século, permitem responder a alguns dos problemas relacionados com o povoamento da
Itália que têm oposto muitos historiadores.
Nos limiares da história, a Itália apresentava-se como uma região ocupada por uma diversidade de povos, na generalidade com muitas afinidades culturais e em grande parte de origem indo-europeia.
Contudo, a sua chegada e fixação em território itálico é um problema que, ainda hoje e em muitos casos,permanece obscuro. Segundo recentes investigações, os mais antigos testemunhos
indo-europeus na península, apesar de muito ténues, remontarão ao final do III milénio.
No início do milénio seguinte, o latim terá chegado à Itália Central, trazido por populações oriundas da região do Danúbio,os Protolatini, que se terão fixado entre os povos autóctones.
Ao longo do II milénio a.C., na região sul dos Alpes, constitui-se uma série de pequenos povoados assentes sobre estacas ou palafitas, aparentados com as aldeias lacustres mais antigas da Alemanha, França e Suíça.
O aparecimento deste tipo de aglomerados populacionais derivará de uma necessidade de segurança por parte dos seus habitantes, revelando ainda que uma das principais actividades aí desenvolvida seria a pesca.
Foram os construtores destes pequenos povoados que introduziram a incineração nos rituais funerários praticados na península Itálica.
Por meados do II milénio, em plena Idade do Bronze, desenvolveu-se nas terras pantanosas da planície do Pó uma civilização caracterizada por povoados assentes sobre estacas, apesar de localizados em terra firme, e circundados por paliçadas e um fosso, para melhor se protegerem das cheias, conhecidos por terramares.
Esta civilização foi considerada por Luigi Pigorini,o seu divulgador no século XIX, como uma fantástica antecipação da civilização romana, com os seus povoados, de plano geométrico e amuralhados, orientados segundo dois grandes eixos e com necrópoles localizadas no exterior; no entender deste autor, a pobreza destes núcleos habitacionais e a homogeneidade dos enterramentos seriam testemunho de uma sociedade pautada por uma grande disciplina e com características igualitárias.
Os trabalhos científicos desenvolvidos nas regiões de Modena, Emília e Parma, entre outras, pelo arqueólogo sueco G. Säflund, para além de confirmarem que esta cultura é um fenómeno regional confinado à parte meridional da planície do Pó, vão desmontar a interpretação avançada por Pigorini; na verdade, as terramares não obedeciam a qualquer plano regular, localizando-se as habitações, de planta circular e, em menor número,rectangular, sem qualquer regra, no interior das povoações.
Contemporânea das terramares e estendendo-se ao longo de todo o sistema apenino, desenvolveu-se, a partir dos séculos XIV-XIII a. C., uma civilização de pastores seminómadas, conhecida por civilização apenina, assente numa organização social patriarcal e guerreira, com pequenas aldeias de cabanas e necrópoles de inumação com túmulos em forma de dólmenes.
O espólio exumado, constituído fundamentalmente por objectos de bronze e cerâmicas manuais, revela já alguns contactos comerciais com o mundo egeu.
Por volta da 2.a metade do século XIII a.C., na Itália Setentrional e Central, inicia-se o «chamado período dos campos de urnas», resultado de uma civilização incinerante, oriunda da Europa Central, que se expandiu também para Grécia, França e Península Ibérica, caracterizada pela existência de grandes necrópoles com enterramentos de urnas cinerárias e por um aperfeiçoamento do trabalho do bronze, que permitiu sobretudo o fabrico de armamento de melhor qualidade.
Na sequência do grande desenvolvimento das civilizações da Idade do Bronze, das relações com o Mediterrâneo Oriental e, mais tarde, da instalação de colonos gregos no sul e na Sicília, a Itália vai conhecer no decurso da Idade do Ferro uma grande prosperidade.
Pelo início do I milénio surge na região Noroeste uma civilização do ferro tipicamente italiana e dominada pela prática da incineração, designada por «villanovense», cuja estação epónima é Villanova, povoaçãosituada perto de Bolonha;a sua área de expansão não se confinou à Emília e Toscânia, mas chegou até ao Lácio e mesmo à Campânia, onde, apesar de tudo e tal como no resto da Itália Oriental e Meridional, era preponderante uma civilização inumante, de formas mais arcaicas, conhecida por Fossakultur ou cultura dos túmulos em fossa.
Como resultado de influências da civilização «villanovense» e da Fossakultur surgiu, pelo
século X a. C., no Lácio, especialmente nos montes Albanos e na região de Roma, a civilização lacial, em que preponderou, numa primeira fase e até ao século VIII a.C., a incineração que, na centúria seguinte, deu lugar à prática da inumação;entre as manifestações típicas desta civilização encontram-se as curiosas cabanas parcialmente escavadas na rocha e as urnas-cabana em cerâmica utilizadas para recolher as cinzas dos mortos.
Fonte: Civilizações clássicas II
Roma.
-Rui Manuel Sobral Centeno

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