No centro de Venturosa, no Agreste, uma menina de 14 anos foi assassinada a tiros, na madrugada do último domingo (27). O suspeito do feminicídio é o namorado da vítima, que tem 20 anos. Foi preso. A motivação ainda está sendo investigada pela polícia.
Ainda durante a noite daquele dia, a estudante de psicopedagogia Ellen Suzany Gomes de Souza foi morta a facadas, também pelo companheiro, Edson de Andrade Lima Filho, de 31 anos.
O feminicídio aconteceu no bairro São Geraldo, em Arcoverde, no Sertão. A motivação, de acordo com informações de testemunhas, se deu por uma discussão relacionada a uma televisão. Após o crime, Edson, segundo a polícia, fugiu numa moto pela BR-232. Enquanto trafegava, ele colidiu com outro veículo e morreu na hora.

Chegando à Região Metropolitana do Recife, o caso mais recente aconteceu por volta das 22h da última segunda-feira (28), em São Lourenço da Mata. A manicure Rebeca Vicente dos Santos, de 32 anos, foi assassinada a golpes de faca, dentro de casa, no Parque Capibaribe.
O suspeito de ter cometido o crime é o ex-marido dela, Thiago Felipe de Santana, de aproximadamente 35 anos. Eles eram casados há 15 anos. Pessoas próximas à família dizem que ele não aceitava o fim do relacionamento, rompido há um mês.

A vítima, segundo a Polícia Civil de Pernambuco, chegou a ser socorrida e levada para uma unidade hospitalar, mas não resistiu aos ferimentos. Rebeca deixa um filho de nove anos, fruto do relacionamento.
O caso foi registrado por meio da Equipe de Força Tarefa de Homicídios Metropolitana Norte e segue sendo investigado. Santana se encontra foragido.
Estatísticas
Segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS), Pernambuco fechou 2024 com o maior índice de vítimas de violência doméstica e familiar do sexo feminino, por região. Foram 54.222 ocorrências, sendo 9.811 no Recife, 16.590 na Região Metropolitana e 27.821 no Interior.
Veja o comparativo aos últimos dez anos
- 2014: 32.875 casos
- 2015: 30.347 casos
- 2016: 31.525 casos
- 2017: 33.448 casos
- 2018: 40.248 casos
- 2019: 40.248 casos
- 2020: 41.071 casos
- 2021: 41.530 casos
- 2022: 43.838 casos
- 2023: 52.375 casos
- 2024: 54.222 casos
De janeiro a junho de 2025, a Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística da SDS registrou 48 casos de feminicídio. No mesmo período de 2024, foram registrados 42 casos em todo o estado.
“O combate à Violência Contra a Mulher é uma das prioridades para a atual gestão do Governo do Estado. Por isso, as ações da Patrulha Maria da Penha, da Polícia Militar de Pernambuco, foram intensificadas e o seu atendimento aprimorado. Desde o ano passado, 6.980 mulheres com Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) são acompanhadas pela Patrulha e foram realizadas 33.405 diligências entre 2024 e 2025. Desse total, em 2025, 518 mulheres ingressaram no programa e 4.829 diligências foram realizadas”, diz nota do órgão.
Motivos apontados pelos criminosos
Segundo a assessora do Departamento de Polícia da Mulher (DPMUL), Andreza Gregório, as causas mais presentes nos casos de feminicídios estão relacionadas a homens que nutrem sentimento de posse e controle sobre a mulher.
“Muitos agressores não aceitam o fim do relacionamento, a autonomia da mulher ou qualquer atitude que eles interpretem como desafio à sua posição de poder. O término de um relacionamento nesse contexto apresenta um cenário de risco alto para ocorrência de um feminicídio. Deve-se ter atenção aos sinais que os agressores apresentam desde o início do relacionamento, especialmente atenção ao ciúme excessivo, atos de controle sobre o corpo da mulher, vestimentas, bens e dinheiro, atos de vigilância, isolamento social e/ou familiar, atos que a impeçam de trabalhar, estudar ou de buscar assistência médica, atos de humilhação, diminuição da autoestima, explosões de raiva incontroláveis, ameaças contra a vítima, familiares, pessoas próximas ou até mesmo animais”, destaca.
Ainda segundo a delegada, é comum que mulheres, por medo, pressão ou dependência emocional e financeira, manifestem desejo de não prosseguir com a continuidade de uma investigação em casos de violência doméstica. No entanto, nos crimes mais frequentes em contexto de violência doméstica e familiar, como ameaça, lesão corporal e violência psicológica, o inquérito policial pode ser instaurado independentemente da vontade da vítima.
“Isso significa que, uma vez registrada a ocorrência, a investigação deve prosseguir mesmo que a mulher tente ‘retirar a denúncia’. A Lei Maria da Penha [Lei nº 11.340/2006] visa proteger a mulher e garantir que a justiça seja feita, reconhecendo a vulnerabilidade em que muitas se encontram. Apenas em casos excepcionais é possível desistir do processo. Para tanto, deve ser feita em audiência no judiciário, analisando se a decisão é livre e consciente, que não está sob coação. Além dos meios legais para apuração e proteção à mulher vítima de violência doméstica e familiar, existem programas de apoio social e jurídico que a vítima poderá utilizar para se fortalecer e assim romper com o ciclo de violência”, complementa.
Visão sociológica
O professor Jamerson Kemps, que é doutor em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que o feminicídio, do ponto de vista sociológico, não é um ato isolado ou fruto apenas de impulsos momentâneos.
“Trata-se de um crime profundamente enraizado em estruturas sociais que ainda reforçam a desigualdade entre homens e mulheres. Em muitos casos, a violência extrema contra a mulher aparece como a ponta do iceberg de relações marcadas pelo controle, pelo ciúme e por uma concepção machista de posse. Não há um único perfil [de feminicida], mas é comum que esses homens ajam no momento em que percebem que estão perdendo o domínio sobre a mulher — seja durante uma separação, diante de um pedido de liberdade, ou da recusa em aceitar o fim da relação”, comenta.
Ainda segundo Kemps, enfrentar o feminicídio exige mais do que endurecimento penal. “É preciso trabalhar as bases culturais que sustentam esse tipo de violência: desde a educação para a igualdade de gênero nas escolas até a criação de políticas públicas que protejam a mulher e questionem modelos tóxicos de masculinidade”.
Onde buscar ajuda?
A Lei Maria da Penha estabelece que todo caso de violência doméstica e intrafamiliar é crime, deve ser apurado por meio de inquérito policial e remetido ao Ministério Público.
A violência contra a mulher pode ser manifestada das seguintes formas: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Em todos os casos, lembre-se que você não está sozinha e pode fazer a denúncia de diversas formas.
Veja como e onde receber acolhimento em caso de violência doméstica em Pernambuco
Ligue de forma gratuita para o 190: Polícia Militar de Pernambuco (PMPE). O serviço é disponível 24h por dia, todos os dias.
Ligue de forma gratuita para o 180: Central de Atendimento à Mulher. O serviço do Governo Federal fica disponível 24h por dia, todos os dias, e recebe ligações de todos os lugares do Brasil. Ele registra e encaminha denúncias de violência contra a mulher aos órgãos competentes.
Ligue de forma gratuita para o 0800.281.81.87: Ouvidoria da Mulher de PE. O serviço funciona até às 20h, depois desse horário é recomendado ligar para o 190.

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