Feminicídio em Pernambuco: três mulheres foram mortas em 48h

Ocorrências aconteceram em mais de uma divisão regional do estado

Três mulheres foram vítimas de feminicídio na RMR – Foto: Redes sociais/Reprodução
Feminicídio é o nome dado ao homicídio qualificado cometido contra o gênero feminino, simplesmente pelo fato de a vítima ser mulher. Em Pernambuco, em 48h, foram registrados três casos de assassinato de mulheres. Em todos eles, os autores eram companheiros das vítimas.

No centro de Venturosa, no Agreste, uma menina de 14 anos foi assassinada a tiros, na madrugada do último domingo (27). O suspeito do feminicídio é o namorado da vítima, que tem 20 anos. Foi preso. A motivação ainda está sendo investigada pela polícia.

Ainda durante a noite daquele dia, a estudante de psicopedagogia Ellen Suzany Gomes de Souza foi morta a facadas, também pelo companheiro, Edson de Andrade Lima Filho, de 31 anos.

O feminicídio aconteceu no bairro São Geraldo, em Arcoverde, no Sertão. A motivação, de acordo com informações de testemunhas, se deu por uma discussão relacionada a uma televisão. Após o crime, Edson, segundo a polícia, fugiu numa moto pela BR-232. Enquanto trafegava, ele colidiu com outro veículo e morreu na hora.

Ellen foi morta a facadas | Foto: Instagram/Reprodução

Chegando à Região Metropolitana do Recife, o caso mais recente aconteceu por volta das 22h da última segunda-feira (28), em São Lourenço da Mata. A manicure Rebeca Vicente dos Santos, de 32 anos, foi assassinada a golpes de faca, dentro de casa, no Parque Capibaribe.

O suspeito de ter cometido o crime é o ex-marido dela, Thiago Felipe de Santana, de aproximadamente 35 anos. Eles eram casados há 15 anos. Pessoas próximas à família dizem que ele não aceitava o fim do relacionamento, rompido há um mês.

Manicure Rebeca Vicente dos Santos tinha 32 anos | Foto: Cortesia

A vítima, segundo a Polícia Civil de Pernambuco, chegou a ser socorrida e levada para uma unidade hospitalar, mas não resistiu aos ferimentos. Rebeca deixa um filho de nove anos, fruto do relacionamento.

O caso foi registrado por meio da Equipe de Força Tarefa de Homicídios Metropolitana Norte e segue sendo investigado. Santana se encontra foragido.

Estatísticas
Segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS), Pernambuco fechou 2024 com o maior índice de vítimas de violência doméstica e familiar do sexo feminino, por região. Foram 54.222 ocorrências, sendo 9.811 no Recife, 16.590 na Região Metropolitana e 27.821 no Interior.

Veja o comparativo aos últimos dez anos

  • 2014: 32.875 casos
  • 2015: 30.347 casos
  • 2016: 31.525 casos
  • 2017: 33.448 casos
  • 2018: 40.248 casos
  • 2019: 40.248 casos
  • 2020: 41.071 casos
  • 2021: 41.530 casos
  • 2022: 43.838 casos
  • 2023: 52.375 casos
  • 2024: 54.222 casos

De janeiro a junho de 2025, a Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística da SDS registrou 48 casos de feminicídio. No mesmo período de 2024, foram registrados 42 casos em todo o estado.

“O combate à Violência Contra a Mulher é uma das prioridades para a atual gestão do Governo do Estado. Por isso, as ações da Patrulha Maria da Penha, da Polícia Militar de Pernambuco, foram intensificadas e o seu atendimento aprimorado. Desde o ano passado, 6.980 mulheres com Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) são acompanhadas pela Patrulha e foram realizadas 33.405 diligências entre 2024 e 2025. Desse total, em 2025, 518 mulheres ingressaram no programa e 4.829 diligências foram realizadas”, diz nota do órgão.

Motivos apontados pelos criminosos
Segundo a assessora do Departamento de Polícia da Mulher (DPMUL), Andreza Gregório, as causas mais presentes nos casos de feminicídios estão relacionadas a homens que nutrem sentimento de posse e controle sobre a mulher.

“Muitos agressores não aceitam o fim do relacionamento, a autonomia da mulher ou qualquer atitude que eles interpretem como desafio à sua posição de poder. O término de um relacionamento nesse contexto apresenta um cenário de risco alto para ocorrência de um feminicídio. Deve-se ter atenção aos sinais que os agressores apresentam desde o início do relacionamento, especialmente atenção ao ciúme excessivo, atos de controle sobre o corpo da mulher, vestimentas, bens e dinheiro, atos de vigilância,  isolamento social e/ou familiar, atos que a impeçam de trabalhar, estudar ou de buscar assistência médica, atos de humilhação, diminuição da autoestima, explosões de raiva incontroláveis, ameaças contra a vítima, familiares, pessoas próximas ou até mesmo animais”, destaca.

Ainda segundo a delegada, é comum que mulheres, por medo, pressão ou dependência emocional e financeira, manifestem desejo de não prosseguir com a continuidade de uma investigação em casos de violência doméstica. No entanto, nos crimes mais frequentes em contexto de violência doméstica e familiar, como ameaça, lesão corporal e violência psicológica, o inquérito policial pode ser instaurado independentemente da vontade da vítima.

“Isso significa que, uma vez registrada a ocorrência, a investigação deve prosseguir mesmo que a mulher tente ‘retirar a denúncia’. A Lei Maria da Penha [Lei nº 11.340/2006] visa proteger a mulher e garantir que a justiça seja feita, reconhecendo a vulnerabilidade em que muitas se encontram. Apenas em casos excepcionais é possível desistir do processo. Para tanto, deve ser feita em audiência no judiciário, analisando se a decisão é livre e consciente, que não está sob coação. Além dos meios legais para apuração e proteção à mulher vítima de violência doméstica e familiar, existem programas de apoio social e jurídico que a vítima poderá utilizar para se fortalecer e assim romper com o ciclo de violência”, complementa.

Visão sociológica
O professor Jamerson Kemps, que é doutor em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que o feminicídio, do ponto de vista sociológico, não é um ato isolado ou fruto apenas de impulsos momentâneos.

“Trata-se de um crime profundamente enraizado em estruturas sociais que ainda reforçam a desigualdade entre homens e mulheres. Em muitos casos, a violência extrema contra a mulher aparece como a ponta do iceberg de relações marcadas pelo controle, pelo ciúme e por uma concepção machista de posse. Não há um único perfil [de feminicida], mas é comum que esses homens ajam no momento em que percebem que estão perdendo o domínio sobre a mulher — seja durante uma separação, diante de um pedido de liberdade, ou da recusa em aceitar o fim da relação”, comenta.

Ainda segundo Kemps, enfrentar o feminicídio exige mais do que endurecimento penal. “É preciso trabalhar as bases culturais que sustentam esse tipo de violência: desde a educação para a igualdade de gênero nas escolas até a criação de políticas públicas que protejam a mulher e questionem modelos tóxicos de masculinidade”.

Onde buscar ajuda?
A Lei Maria da Penha estabelece que todo caso de violência doméstica e intrafamiliar é crime, deve ser apurado por meio de inquérito policial e remetido ao Ministério Público.

A violência contra a mulher pode ser manifestada das seguintes formas: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

Em todos os casos, lembre-se que você não está sozinha e pode fazer a denúncia de diversas formas.

Veja como e onde receber acolhimento em caso de violência doméstica em Pernambuco
Ligue de forma gratuita para o 190: Polícia Militar de Pernambuco (PMPE). O serviço é disponível 24h por dia, todos os dias.

Ligue de forma gratuita para o 180: Central de Atendimento à Mulher. O serviço do Governo Federal fica disponível 24h por dia, todos os dias, e recebe ligações de todos os lugares do Brasil. Ele registra e encaminha denúncias de violência contra a mulher aos órgãos competentes.

Ligue de forma gratuita para o 0800.281.81.87: Ouvidoria da Mulher de PE. O serviço funciona até às 20h, depois desse horário é recomendado ligar para o 190.

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