Durante a ditadura, Dom Helder Câmara teve a casa metralhada
O religioso, que faleceu há 26 anos, foi uma das vozes mais firmes contra as violações dos direitos humanos durante a ditadura — e acabou sendo alvo de ataques

No dia 12 de março de 1964, cerca de três semanas antes do golpe que instauraria a ditadura no Brasil, Dom Hélder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. O religioso, que foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), seria desde o início uma das vozes mais firmes contra a violência e as violações de direitos humanos cometidas pelos militares. Essa postura de resistência resultaria em perseguições, difamações e até atentados à sua vida.
O episódio mais evidente dessa tentativa de silenciamento ocorreu em 24 de outubro de 1968, quando sua casa, em Recife, foi metralhada. Mais tarde, em 1969, um dos principais auxiliares de Dom Hélder, o padre Henrique, foi assassinado por paramilitares.
Viagem à Inglaterra
Naquele mesmo ano, Dom Hélder viajou à Inglaterra e, diante de 1.300 jovens de 32 países reunidos em Manchester, fez um discurso inflamado contra a ditadura e contra os males do mundo moderno. O congresso ocorreu quatro meses após a promulgação do Ato Institucional nº 5, assinado pelo então presidente Artur da Costa e Silva, que ampliou a repressão e a censura no Brasil.
Diante daquele cenário sombrio em seu país, o religioso utilizou a música dos Beatles como ponto de diálogo com os jovens presentes. “Vocês devem completar a mensagem dos Beatles”, declarou. De acordo com o brasileiro, o protesto dos músicos refletia a insatisfação contra os falsos valores, a mecanização da vida moderna — inclusive do dinheiro — e contra uma realidade desumanizadora. Em seu discurso, o arcebispo também denunciou o racismo e fez elogios ao movimento hippie.
Na mesma época, como lembrou O Globo, o guitarrista George Harrison e sua esposa, Pattie, haviam sido condenados por posse de maconha, enquanto John Lennon e Yoko Ono tinham sido presos pelo mesmo motivo. Longe de ignorar a questão, Dom Hélder a inseriu em uma reflexão mais ampla sobre a condição da juventude no mundo.
Podemos por acaso deixar de entender os ‘hippies’, seus lemas e seus excessos psicodélicos e sua terrível amargura?”, indagou.
Para ele, a resposta estava em transformar radicalmente as bases do comércio internacional, superar o neocolonialismo e promover um verdadeiro desenvolvimento para toda a humanidade.

Repercussão
A visita de Dom Hélder ao Reino Unido teve ampla repercussão na imprensa britânica. Em entrevista ao The London Times, o arcebispo não poupou críticas à ditadura brasileira. Para ele, a única maneira de evitar a “revolução violenta’, desejada pelo governo, seria a implementação imediata de reformas em benefício da população. No entanto, segundo Dom Hélder, os militares bloqueavam qualquer avanço sob o pretexto do combate ao comunismo. Assim, defendia que apenas a mobilização popular poderia transformar o país.
O povo é tão infeliz no Brasil que já se tornou fatalista. Aceita a situação e nela vê a vontade de Deus. Devemos ensiná-lo que deve lutar por sua liberdade”, afirmou, na época, ao jornal britânico.
Já o The Guardian, de orientação progressista, descreveu-o como “o mais turbulento dos padres”, em referência à sua trajetória de enfrentamento ao autoritarismo. Para o periódico, seu encontro com os jovens no congresso ia além de um apelo contra a pobreza: representava uma convocação para uma “revolução global”.
O alcance internacional de sua mobilização chegaria a sustentar três indicações ao Prêmio Nobel da Paz — todas, porém, sabotadas pelo regime militar.
Últimos anos
Nos anos 1970, a hostilidade em solo brasileiro se mantinha e o muro da casa de Dom Hélder, a mesma que já havia sido metralhada, frequentemente amanhecia pichado com o slogan da ditadura: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Mas nem mesmo diante das balas e do ódio oficializado o bispo se calou. Até o fim de sua vida, defendeu os pobres, denunciou as injustiças e sonhou com um Brasil livre da opressão. O religioso faleceu em 27 de agosto de 1999, aos 90 anos de idade.
Em 2015, foi iniciado o processo de beatificação e canonização do católico. Com a autorização da Santa Sé, Dom Hélder recebeu o título de Servo de Deus, primeira etapa do caminho que pode levar ao reconhecimento como santo. O frei Jociel Gomes foi nomeado postulador da causa, responsável por conduzir a investigação sobre a vida do religioso e reunir elementos que comprovem sua santidade.
Em dezembro de 2018, a fase diocesana foi concluída e um dossiê de 197 páginas foi encaminhado ao Vaticano. O material reúne laudos, pareceres, testemunhos de pessoas que conviveram com Dom Hélder e a descrição de um possível milagre, mantido em sigilo pela Igreja.
Se os documentos forem validados em Roma, o arcebispo poderá ser beatificado, passando a ser venerado oficialmente nas regiões onde exerceu seu ministério. Para alcançar a canonização, última etapa do processo, será necessário comprovar um segundo milagre atribuído à sua intercessão após a morte. O Vaticano também exige a exumação do corpo, como forma de atestar a autenticidade do candidato à santidade. Caso tudo seja confirmado, Dom Hélder poderá ser reconhecido como santo.


























