Lampião nas bandas de Uauá

Aqui no sertão há um ditado que diz: quem acerta um doido é um doido e meio; e quem enfrenta um valente é um mais valente ainda. É como se todo nó tivesse sempre um nó cego esperando no caminho.
Pois bem. Quando Lampião e seu bando de cangaceiros cruzavam as terras de Uauá, lá pros lados do oeste do município, reverberando os velhos caminhos que um dia trilhara como tropeiro, deparou-se com um homem chamado Zé da Martinha, morador da Fazenda Esfomeado.
Zé era homem sério, de palavra e postura. Gostava de dizer: “Eu me defendo com a verdade.”
E com esse escudo, não se dobrava diante de ninguém abaixo de Deus. Cuidava da roça, dos bichos e da família com zelo e entusiasmo. Ao acordar e ao se deitar, fazia o sinal da cruz. Dizia que, pra pisar no mundo, era preciso fechar o corpo. Era, portanto, um homem preparado.
Naquele dia, o destino pôs os dois frente a frente. Lampião o saudou primeiro:
— Bom dia!
— Bom dia, respondeu Zé da Martinha, firme.
Lampião o fitou nos olhos e perguntou:
— Você sabe com quem está falando?
Zé respondeu sem titubear:
— Sei.
— E com quem é? — insistiu o capitão.
— Com um homem igual a mim.
Os cangaceiros, num só movimento, apontaram os rifles. O silêncio pesou no ar. Bastava um gesto do chefe para que a vida de Zé se encerrasse ali mesmo. Mas Lampião fez sinal para que baixassem as armas.
— Com um homem desses, não se mexe! — decretou.
Zé passou entre os cangaceiros, que o fitaram com olhos de ódio e surpresa, e seguiu seu caminho, firme na coragem que o mundo lhe deu.
Mais adiante, o bando retomou a marcha. Poucos quilômetros depois, assassinou Raimundo, marido de Dona Ana do Logradouro, talvez para não deixar esfriar a fama de crueldade, pois motivo algum havia para tal crime.
Naquele episódio raro da história do cangaço, um valente encontrou outro, e, por um instante, o medo se curvou diante da coragem. Zé da Martinha foi poupado do papo amarelo do sertão, talvez por respeito, ou talvez porque o próprio Lampião tenha visto nele um presságio, o aviso de que nem todo homem se dobra diante do rei do cangaço.
Texto: Robson Rodrigues
Colaboração: Vaqueiro Nogueira, Basílio Gonçalves
Foto: IA a partir de fotos antigas

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