Hesitação é uma das marcas de Raquel

Por Magno Martins

A relutância da governadora Raquel Lyra (PSD) em se pronunciar sobre temas espinhosos tem se tornado um traço recorrente de sua gestão. Sempre que episódios que geram forte comoção social ocorrem em Pernambuco, impera a lei do silêncio lá pelas bandas do Palácio do Campo das Princesas.

E quando o governo se vê encurralado por conta de alguma omissão, tornando quase obrigatório um posicionamento, o que vem a público são respostas estritamente protocolares. Foi assim, mais uma vez, no caso dos dois turistas mato-grossenses espancados, no fim de semana, na praia de Porto de Galinhas.

Os vídeos da violência já circulavam em portais de notícias desde o início da tarde de domingo passado e desnudavam não só o descontrole na fiscalização do trabalho dos barraqueiros que atuam na orla, mas também a completa ausência de policiamento em um dos destinos turísticos mais conhecidos do país.

As vítimas só não apanharam mais dos ambulantes porque foram amparadas na caçamba de um veículo de guarda-vidas civis que estavam perto do local. Com a falha na segurança, o governo de Raquel ficou descoberto em rede nacional. O episódio, amplamente repercutido ao longo do dia por emissoras de TV do eixo Rio–São Paulo, atingiu não apenas as vítimas, mas a credibilidade do destino Pernambuco.

Ainda assim, a governadora só se pronunciou na manhã de ontem, quase 24 horas depois, e apenas porque foi provocada em uma entrevista de rádio. Em lugar de uma fala firme, veio um compêndio de obviedades. A avaliação de que o caso se tratou de um crime foi uma delas. As imagens já deixam isso nítido. Outra fala protocolar foi a de que seria criado um grupo de trabalho, com a participação do Governo do Estado e do município, para estudar medidas que evitem casos semelhantes na orla.

No meio político, todo mundo sabe que grupos de trabalho são a resposta típica a ser dada quando os governantes não têm nada contundente a dizer à sociedade para resolver um problema. Quando um governo reluta demais, perde a oportunidade de exercer autoridade política e de transmitir confiança à sociedade.

E, sem respaldo institucional, as próprias equipes — nesse caso, as da segurança — também passam a hesitar. Já o silêncio, ao contrário, abre espaço para especulações. Um desgaste que, no episódio dos turistas espancados, não é restrito ao governo, mas a uma das principais atividades econômicas do Estado. Sofre o trade turístico, sofre o comércio, sofrem todos.

Diferentemente das picuinhas que Raquel costuma nutrir na relação com a Assembleia Legislativa, que se esgotam em si mesmas, os efeitos da dureza da comunicação dela deveriam preocupá-la mais quando afetam em cheio a economia do Estado. Governar também é enfrentar temas incômodos, assumir riscos e falar quando o momento exige firmeza.

Foi tudo o que não aconteceu nesse caso recente, que fechou melancolicamente o terceiro ano de seu governo. Agora, é torcer para que, em seu último ano, essa postura até agora incorrigível dê lugar a uma forma mais empática de lidar com as crises. É bem provável que o turismo e os turistas sejam os primeiros a agradecer.

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