Vai ter guerra de espadas em Bonfim? Tradição segue ameaçada por entraves burocráticos
Mesmo após acordo para regulamentar a prática, homologação do Exército pode impedir o retorno da manifestação já neste São João
Por Moyses Suzart

Guerra de espadas faz parte da tradição de Senhor do Bonfim Crédito: ACESB/Reprodução
A fumaça, o estampido e a adrenalina da guerra de espadas podem estar mais próximos de voltar às ruas de Senhor do Bonfim. Ou não. Embora o Ministério Público da Bahia tenha construído, ao lado dos espadeiros, um caminho para regulamentar a tradicional manifestação junina, o retorno da prática ainda depende de uma corrida contra o tempo. O principal obstáculo é a homologação do artefato pelo Exército Brasileiro, um processo que pode não ser concluído antes do São João deste ano. Vale lembrar que o município é o único no estado que conseguiu a liberação.
“Talvez a gente não consiga ter tempo porque o Exército não homologa de um dia para a noite”, resume Alex Barbosa, presidente da Associação Cultural dos Espadeiros de Senhor do Bonfim (ACESB). A frase traduz o momento vivido pela cidade. Depois de anos de proibições, apreensões e disputas judiciais, Bonfim parece mais perto do que nunca de encontrar uma solução legal para preservar uma de suas tradições mais emblemáticas. Ao mesmo tempo, a burocracia necessária para tornar a prática regularizada pode impedir que ela aconteça justamente neste São João.
Diferentemente de outras cidades onde a discussão se concentra na simples liberação da guerra de espadas, Senhor do Bonfim decidiu apostar em um modelo de regulamentação. A proposta envolve Ministério Público, Polícia Militar, Polícia Civil, Prefeitura e representantes dos espadeiros. “A gente escolheu esse caminho porque não é um meio termo. É a solução definitiva”, afirma Alex.
O MP também se sente aliviado com o acerto de conduta. Em nota, o Ministério Público explica todo o processo até a liberação: “Após a assinatura do Termo do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), o Ministério Público tem promovido reuniões mensais de acompanhamento do cumprimento do acordo. Em apertada síntese, o acordo busca conciliar dois aspectos que superarão definitivamente o entrave: Espadas com certificado homologado pelo Exército e um Local com protocolo de segurança. (…) De acordo com as informações repassadas ao Ministério Público, o SENAI-MG será a autoridade certificadora, já havendo forte tratativa nesse sentido, de modo que estão sendo realizados ajustes finais para iniciar o processo de certificação”, diz.
O processo, de fato, é complexo. Como a espada utiliza pólvora, ela precisa atender a uma série de exigências técnicas previstas na legislação brasileira. O primeiro desafio foi encontrar uma fábrica apta a produzir o artefato dentro dos padrões exigidos pelos órgãos de controle.
“O artefato precisa ser certificado. O Exército só homologa para uma fábrica autorizada e a Bahia hoje não tem uma fábrica autorizada”, explica. A solução encontrada foi, como citado pelo MP, firmar parceria com uma empresa de Minas Gerais, estado que já possui estrutura legal para trabalhar com produtos controlados pelo Exército.
Segundo Alex, a empresa mineira está desenvolvendo um protótipo da espada que será submetido a uma série de testes. Primeiro, o material será analisado pelo SENAI, responsável pela certificação técnica. Somente depois seguirá para homologação militar. “A gente está indo para Minas porque era o caminho mais curto”, afirma.
Apesar do avanço das negociações, a etapa mais delicada ainda está por vir. O grupo trabalha para que todo o processo seja concluído antes do dia 23 de junho, mas reconhece que a decisão final não está em suas mãos. “Se sair até determinado prazo, a gente tem condição de produzir. O problema hoje é a parte burocrática”, diz.
Outro ponto que os organizadores fazem questão de destacar é que a eventual homologação não significará uma liberação irrestrita das espadas. Pelo contrário. A fabricação clandestina continuará sendo considerada ilegal. “O clandestino continua sendo crime. O TAC não deixa de ser crime estar com espada”, ressalta Alex.
A expectativa é que, caso o modelo regulamentado seja aprovado, a comercialização passe a ocorrer de forma controlada e com rastreabilidade. Isso também deve aumentar a fiscalização sobre produtos fabricados fora dos padrões exigidos. Para os espadeiros, essa é justamente a diferença entre uma autorização temporária e uma solução definitiva.
No meio desse processo, um fato chama a atenção. Instituições que durante anos estiveram associadas à repressão da prática agora participam das discussões sobre sua regulamentação. “O mais bacana é que Ministério Público, Polícia Militar, Polícia Civil e Prefeitura estão ajudando a resolver o problema”, destaca Alex. O local também já foi pensado: na Adelba de Bonfim.
Se a homologação não chegar a tempo, uma alternativa já é discutida entre os envolvidos: realizar uma celebração especial em julho ou agosto para marcar oficialmente o retorno da tradição. A ideia ainda depende dos desdobramentos das próximas semanas. Até lá, a cidade segue acompanhando cada etapa do processo.
Depois de anos de impasse, Senhor do Bonfim parece ter encontrado um caminho para reconciliar tradição e legalidade. O problema é que a maior batalha da guerra de espadas de 2026 ainda não seja neste São João. Mas já é um caminho para comemorar.

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