Estudando o passado, é fácil entender quais acontecimentos ficam marcados na história da humanidade. Quando o mundo ainda está passando por eles, no entanto, alguns pesos passam despercebidos entre os dias comuns que juntam acontecimentos que, um dia, serão estudados pela história – e a Copa do Mundo de 2026 está cheia deles.
Mesmo antes da abertura e do primeiro jogo na quinta-feira, 11, a política internacional já colocou a Copa em um panorama de guerras, países e conflitos que dificilmente será esquecido no futuro.
Principal país-sede da edição, ao lado de México e Canadá, os Estados Unidos chegam ao Mundial sob o governo de Donald Trump e em meio a uma série de decisões migratórias, diplomáticas e de segurança que atingiram delegações, torcedores, profissionais de imprensa e até membros da arbitragem.
Desde o anúncio, o papel dos EUA como anfitriões já vem sendo questionado antes mesmo da abertura. Driblando a regra de que países em guerra não podem sediar Copas do Mundo, já que não há guerra acontecendo em território estadunidense, é justamente esse o principal país de 2026, detentor de diversos poderes que restringe o simples acesso de outros à Copa.
Restrições à delegação do Irã, revogação de ingressos destinados a torcedores iranianos, interrogatório de um dos principais jogadores do Iraque, deportação de um fotógrafo da seleção iraquiana e veto à entrada de um árbitro somali escalado pela Fifa para o torneio são apenas exemplos de acontecimentos que colocaram o país no centro de uma tensão entre duas lógicas – a da Copa como festa global e a da fronteira como instrumento de controle político.
A Fifa apresenta a edição de 2026 como a maior e mais internacional da história, com 48 seleções, três países-sede e um discurso de integração entre povos, culturas e torcedores. O cenário nos Estados Unidos, no entanto, expõe uma contradição clara.
O mesmo país que recebe a competição que supostamente une o mundo, adota medidas que restringem a circulação de representantes de determinadas nações, muitas delas marcadas por conflitos geopolíticos, políticas de veto migratório ou relações tensas com Washington.

Não é, claro, a primeira vez em que isso acontece na história. Na antiguidade, regimes inclusive totalitários já foram palco de grandes encontros esportivos, como a Alemanha nazista nas Olimpíadas de 1936 e a Itália fascista na Copa do Mundo de 1934. As decisões desses países, no entanto, podem surpreender.
Os Estados Unidos não são, obviamente, equivalentes à Alemanha nazista ou à Itália fascista, regimes que marcaram a história da humanidade pela violência, perseguição sistemática, política de extermínio, genocídio e totalitarismo que os caracterizavam.
No entanto, na Copa de 2026, muitas de suas decisões tem sido tão severas quanto as tomadas naquela época – ou até mais. Desde sempre, grandes eventos esportivos frequentemente funcionam como vitrine de poder. Governos usam Copas, Olimpíadas e torneios globais para projetar imagem, reforçar narrativas internas, controlar acessos, transformar rivalidades diplomáticas em gesto político e disputar prestígio internacional.

Foi assim na Copa do Mundo de 1934, sediada pela Itália de Benito Mussolini, e nos Jogos Olímpicos de 1936, realizados em Berlim sob o regime de Adolf Hitler. E, assim como naquela época, o esporte hoje é utilizado como palco de propaganda, exclusão e controle.
O historiador Murillo Mello ressalta que os contextos não devem ser confundidos. Para ele, os anos 1930 estavam marcados por uma conjuntura própria, com regimes totalitários em ascensão, crise econômica profunda e uma personalização extrema do poder político.
“O contexto dos anos 30 é bem diferente do de hoje. Nos anos 1930 há uma efervescência de regimes totalitários, a gente está saindo da crise de 1929 e vendo a imersão de regimes”, explica.

“A personificação é muito maior nesses regimes, não se compara ao regime atual, não há tanto um paralelo entre Trump e o populismo que os outros ditadores vão fazer. (…) Trump não chega a ser tão populista quanto esses regimes. Ele por si só, por ser uma figura que tem essa personalidade, desperta esses flashes”, analisa.
Ainda assim, os episódios recentes mostram como a organização de um Mundial pode deixar de ser apenas uma questão esportiva e passar a refletir disputas políticas do país-sede, como os Estados Unidos já vêm mostrando desde antes do início de tudo.
Estados Unidos sob e sobre tensão
Às vésperas da abertura da Copa do Mundo, uma sequência de decisões envolvendo autoridades americanas gerou desconforto internacional e levantou dúvidas sobre a capacidade de o país garantir condições equilibradas de participação a todos os agentes credenciados para o torneio.
Entre os episódios mais controversos estão a seleção do Irã autorizada a entrar nos Estados Unidos apenas temporariamente, sem permissão para pernoitar no país, a denúncia da Federação Iraniana de Futebol de que a cota de ingressos de torcedores iranianos foi retirada, a negativa de visto a Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol, o interrogatório de sete horas com Aymen Hussein, principal atacante do Iraque e herói da classificação do país, a detenção por 13 horas e deportação de Talal Salah, fotógrafo da seleção iraquiana, e o veto à entrada do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, retirado da Copa após ser barrado em Miami.
Separadamente, cada caso pode ser explicado por critérios migratórios, diplomáticos ou de segurança. Em conjunto, no entanto, eles criam a imagem política de uma Copa global atravessada pelas restrições de um país-sede que, sob Trump, transformou fronteiras e vetos de viagem em marca de governo.
Fronteiras ao Irã
O caso mais emblemático envolve o Irã. A seleção iraniana recebeu autorização para entrar nos Estados Unidos para treinos e partidas, mas, segundo o embaixador iraniano no México, os vistos concedidos aos 26 jogadores permitem apenas entradas temporárias, proibindo a delegação de dormir em território americano.
Com isso, o Irã ficará concentrado em Tijuana, no México, e terá que retornar à cidade após cada jogo ou atividade realizada nos Estados Unidos. A logística original previa hospedagem em Tucson, no Arizona, já que os três primeiros compromissos da equipe serão em solo americano.

O planejamento foi alterado em meio ao agravamento das tensões entre Irã e Estados Unidos, após bombardeios coordenados por forças americanas e israelenses contra o território iraniano.
Em uma Copa do Mundo, no entanto, a preparação não se resume aos 90 minutos de jogo. Entre uma partida e outra, seleções precisam controlar desgaste, alimentação, adaptação climática, deslocamentos e rotina de treinos.
O Irã está classificado para a Copa e seus jogadores foram autorizados a competir, mas não terão permissão para viver a rotina normal de uma delegação no território onde jogarão. A presença existe, mas é condicionada, vigiada e limitada – justamente como, desde antes, os Estados Unidos já sinalizavam.
Nem jogadores, nem torcida
Muito além das limitações impostas à equipe iraniana, a Federação de Futebol do Irã afirmou que sua cota de ingressos para a Copa do Mundo foi retirada pelos Estados Unidos poucos dias antes da abertura. Segundo a entidade, muitos torcedores já haviam feito planos de viagem confiando no processo oficialmente anunciado.
A cota de 8% dos ingressos destinada aos torcedores iranianos teria sido recolhida, deixando a federação impossibilitada de distribuir entradas para os jogos da própria seleção.

A decisão, se mantida, afeta diretamente o direito de torcedores acompanharem sua seleção no maior torneio do mundo, ampliando a percepção de que o conflito político entre governos transbordou para a experiência de cidadãos comuns, que não participam das decisões diplomáticas, mas acabam atingidos por elas.
Presidente da Federação Iraniana teve visto negado
Jogadores, torcedores e, claro, presidente – o dirigente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, não poderão acompanhar os compromissos da seleção nos Estados Unidos.
Taj integrou a Guarda Revolucionária do Irã, força militar criada após a Revolução Islâmica de 1979 e classificada como organização terrorista pelos governos dos Estados Unidos e do Canadá. O dirigente já havia enfrentado situação semelhante no mês anterior, quando ficou fora do Congresso da Fifa realizado em Vancouver.

Diferentemente das restrições impostas a jogadores e torcedores, a negativa a Taj é apresentada a partir de um histórico individual relacionado a uma instituição enquadrada como ameaça por governos norte-americano e canadense.
Ainda assim, dentro do conjunto de decisões que atingiram o Irã, o episódio reforça o quanto a seleção chega ao Mundial cercada por limitações impostas, que diferenciam sua experiência de qualquer outra na Copa.
Sete horas de interrogatório
Apesar de concentrar as atenções, no entanto, o Irã não é o único afetado. A seleção do Iraque também enfrentou problemas na chegada aos Estados Unidos, quando o atacante Aymen Hussein, um dos principais nomes do time, foi interrogado durante sete horas no aeroporto de Chicago, onde a delegação faria preparação para a Copa.
Segundo a agência iraquiana Shafaq News, Hussein foi detido por autoridades de imigração, submetido a procedimentos de investigação e verificação, e só depois liberado. Aos 30 anos, o atacante joga no Al-Karma, do Iraque, e virou herói nacional ao marcar o gol que classificou a seleção para uma Copa do Mundo após 40 anos na vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia, durante a repescagem intercontinental.

Muito além de craque, Hussein é um ídolo do país, tendo tido a vida marcada pela violência extremista. O pai dele, militar, foi morto pela Al Qaeda em 2008. Seis anos depois, o irmão do atleta foi sequestrado pelo Estado Islâmico e nunca mais foi encontrado.
Um jogador cuja família foi vítima direta da violência terrorista, indo jogar, acabou submetido a um longo interrogatório ao chegar ao país-sede da Copa.
Fotógrafo iraquiano detido e deportado
Nas situações, classe alguma se salva. Junto a presidente, jogadores, federação e torcida, está até mesmo um fotógrafo. Talal Salah, apontado como fotógrafo oficial da seleção do Iraque, foi impedido de entrar nos Estados Unidos e deportado para Bagdá.
De acordo com a Shafaq News, Salah ficou detido por 13 horas ao desembarcar nos Estados Unidos. Depois, teve a entrada negada e foi enviado de volta à capital iraquiana.

Por causa da deportação, não houve registro no perfil oficial do Iraque da chegada da equipe para a disputa da Copa, sendo a última publicação relacionada ao Mundial no Instagram da seleção composta por fotos do embarque da delegação rumo aos Estados Unidos – a federação iraquiana não pôde, assim, narrar sua própria participação no torneio.
Árbitro impedido de fazer história pelo seu país
O caso de maior repercussão internacional, no entanto, foi o de Omar Abdulkadir Artan, árbitro somali de 34 anos. Entre os 52 juízes selecionados para trabalhar na Copa do Mundo de 2026, seria ele o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma edição do torneio na história.
Artan é considerado um dos principais nomes da arbitragem africana. Integra o quadro da Fifa desde 2018, apitou a final da Champions League Africana de 2025 entre Pyramids FC e Mamelodi Sundowns, e foi eleito o melhor árbitro masculino da África pela Confederação Africana de Futebol no mesmo ano.
Mesmo com esse currículo, foi barrado no Aeroporto Internacional de Miami. Segundo o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, a negativa ocorreu por “questões de verificação”, sem detalhamento inicial.

























