Adolescentes virtuais: os perigos da navegação sem limites na internet

Uma nova série da Netflix chamada ”Adolescência” reacendeu debates acerca dos desafios que pais enfrentam em fiscalizar as condutas dos filhos no ambiente digital, que por sua vez, traz muitos riscos aos desenvolvimentos dos jovens no mundo real

sharethis sharing button

A série também expõe a influência significativa das redes sociais na vida dos adolescentes, como ter contato grupos virtuais, populares espaços de disseminação de ódio comuns em redes como Discord, X (antigo Twitter), e Instagram e Telegram. (Foto: Rafael Vieira/DP)
A interação entre adolescentes e redes sociais voltou a ser tema de debate nos últimos dias, com a série “Adolescência”, da Netflix, reacendendo a atenção para essa realidade. A combinação pode oferecer riscos e impactar direta e negativamente o desenvolvimento social e psicológico dos jovens.
A obra narra a história de Jamie, de 13 anos, acusado de matar uma colega de escola, explorando como o ambiente emocional e social dos adolescentes pode moldar suas escolhas e trajetórias. A série também aborda a influência das redes sociais na vida dos jovens, destacando a interação com grupos virtuais e a disseminação de ódio em plataformas populares como Discord, X (antigo Twitter), Instagram e Telegram.
Neste contexto, pais e responsáveis esbarram num desafio constante de estarem atentos à conduta dos filhos, comportamentos que afetam as dinâmicas envolvendo os jovens adolescentes, família, amigos e a escola.
Para melhor entender os pontos que cercam a situação, o Diario procurou Kátia Guerra, psicóloga infanto juvenil, especialista em parentalidade positiva, neurociência e trauma na infância e adolescência. Ela explicou como é, da perspectiva psicológica, essa fase da vida, sobretudo, nessa sociedade em que vivemos.
“O desenvolvimento dos adolescentes é profundamente influenciado por fatores emocionais, sociais e culturais que moldam suas experiências e decisões. A série Adolescência traz questões complexas e atuais sobre como esses elementos impactam a vida dos jovens, muitas vezes de maneiras trágicas”, explica Kátia.
 (Foto: Rafael Vieira/DP)
Foto: Rafael Vieira/DP
A profissional da saúde também destaca como os jovens podem acabar entrando em ambientes virtuais perigosos.
“Os adolescentes podem buscar pertencimento em espaços que validam discursos extremistas e promovem comportamentos prejudiciais. A internet intensifica a sensação de pertencimento imediato, muitas vezes desconectado da realidade e sem o filtro de valores éticos e morais que seriam mediadores importantes no contato presencial”.
O afastamento familiar
Um dos pontos centrais dessa discussão é o distanciamento entre pais e filhos, e a dificuldade de interação entre gerações completamente diferentes, potencializadas pelas redes sociais.
“As redes sociais criam uma falsa percepção de proximidade e conexão, enquanto, na realidade, podem ampliar a desconexão emocional dentro das famílias. O problema não é apenas o uso excessivo da tecnologia, mas a substituição das interações presenciais por vínculos fragilizados no ambiente digital”, alega a psicóloga.
“Muitos pais, por não compreenderem a dinâmica das redes sociais, acabam perdendo espaço na vida emocional dos filhos, deixando-os mais suscetíveis a influências externas. Para minimizar esse distanciamento, é essencial que os pais estejam presentes, estabeleçam diálogos abertos e demonstrem interesse genuíno pelo universo dos filhos, sem julgamentos imediatos”, complementa.
O papel da escola
Nessa fase da vida, é comum que o jovem passe muito tempo dentro da escola, que em muitos casos, é um espaço de intensificação e reprodução de práticas deturpadas normalizadas dentro de ambientes digitais tóxicos.
“A escola, na série, também aparece como um ambiente hostil, onde o bullying e a humilhação fazem parte da rotina dos estudantes. Essas experiências, quando não recebem a devida atenção, podem se tornar gatilhos para transtornos emocionais, baixa autoestima e isolamento social”, alerta.
Para Kátia, é importante que esse seja um ponto de atenção da sociedade na totalidade, a fim de promover a proteção de crianças e adolescentes.
“No contexto brasileiro, a comunidade escolar precisa estar atenta a esses sinais e atuar de maneira preventiva, promovendo espaços de acolhimento, projetos de mediação de conflitos e ações voltadas para o fortalecimento das habilidades socioemocionais dos alunos. Além disso, é fundamental que a escola trabalhe em parceria com as famílias, criando um ambiente seguro tanto dentro quanto fora da sala de aula”, aponta.
Como os pais podem lidar
Dentro dessa linha de incertezas, é preciso ter jogo de cintura e pulso firme para encontrar o melhor jeito de proteger seus filhos dos riscos desse acesso deliberado à fantasiosa “terra de ninguém” que o contato digital promove.
“Para lidar com esses desafios, é necessário um equilíbrio no uso das tecnologias. A regulação do tempo de tela deve ser feita de maneira consciente, sem abordagens punitivas que gerem resistência por parte dos adolescentes. A melhor estratégia para lidar com os desafios dessa fase não é a repressão isolada, mas sim a construção de redes de suporte que ajudem esses jovens a desenvolverem autonomia emocional, empatia e senso crítico”, sugere Kátia.
“O ideal é que os pais e educadores incentivem o uso saudável das redes sociais, promovam momentos de interação presencial e ofereçam atividades alternativas que estimulem o desenvolvimento social e emocional”, adiciona.
Para a psicóloga, é importante entender como a sociedade trata situações envolvendo casos como os da série, e como o contraste cultural influencia nisso.
“Um dos aspectos mais impactantes da série é como Jamie, apesar da pouca idade, é tratado pelo sistema como um criminoso adulto. Quando um adolescente comete um ato de violência, é essencial investigar os fatores que o levaram até ali, incluindo a ausência de vínculos afetivos seguros, a exposição a conteúdos prejudiciais na internet e a falta de suporte emocional adequado”, explica.
 
Do ponto de vista dos responsáveis
Diario também conversou com Maria Eduarda Tavares, de 31 anos, mãe de Eduardo, de 12 anos. Ela explica que, desde os 7 anos, o garoto tem contato com aparelhos eletrônicos e redes sociais, mas sempre com monitoramento parental.
Para Maria Eduarda, estar vigilante e próxima das práticas virtuais do filho serve para que ela possa ajudá-lo e protegê-lo, além de ser uma tentativa de evitar o vício em telas.
“Não é negociável utilizar sem o monitoramento, para mim é de extrema importância. Redes como YouTube têm conteúdos de toda qualidade, que em um simples clique, crianças têm acesso, por isso é muito importante a nossa vigilância”, argumenta.
Ela explica que, por sempre manter esse tipo de controle e conversado com o pré-adolescente, consegue ter a compreensão dele.
“Sempre ficou muito claro para ele que sem o monitoramento não existiria o acesso a esses conteúdos, então não temos problemas com resistência. Conversamos e explicamos o porquê de colocar limites e monitorar o acesso dele a tudo e ele compreende bastante. Já fomos perguntados do por que não poder ver alguns conteúdos, mas sempre conversamos e explicamos os motivos, e ele entendeu”, revela.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *