Por Magno Martins
As fortes declarações do deputado Waldemar Borges (MDB) contra a governadora Raquel Lyra (PSD), em vídeo ontem nas redes sociais, quando a acusou de mentir sobre supostas benfeitorias de seu governo no arquipélago de Fernando de Noronha, não são isoladas. Há tempos, parlamentares de oposição e até mesmo aliados do governo, sob reserva, têm estranhado afirmações da chefe do Executivo estadual que não se sustentam mediante uma rápida busca em matérias jornalísticas de anos atrás.
Uma das áreas mais sensíveis tem sido a segurança pública. Em junho, por exemplo, depois de se envolver em uma polêmica com o prefeito de São Lourenço da Mata, Vinicius Labanca (PSB), ela decidiu recuar da ideia de desativar o batalhão da Polícia Militar (PM) na cidade. Não só manteve a sede atual, como também anunciou a construção de outro prédio no município vizinho, Camaragibe, e de unidades em Goiana, Barreiros, Bezerros e Arcoverde.
Na ocasião, ainda confirmou a criação de Batalhões Integrados Especializados de Policiamento (Biesp) em Caruaru, Arcoverde e Petrolina. Até aí, teria sido uma saída de mestre após semanas de desgaste. O problema foi inventar que não se construía um batalhão da PM em Pernambuco há 30 anos. A governadora repetiu essa informação em diversas plenárias do ‘Ouvir para Mudar’, ao longo de setembro.
No mês seguinte, durante entrevista à Rádio Folha, novamente insistiu: “São R$ 2,3 bilhões [investidos] na segurança pública. Lançamos batalhões, quando há 30 anos não se construía batalhão em Pernambuco”, declarou. Os mais atentos ao cenário da segurança, contudo, vão lembrar que o Governo do Estado inaugurou o 25º Batalhão da PM, em Jaboatão dos Guararapes, em 2016, e o 26º, em Itapissuma, em 2019.
Foi também na gestão anterior que se implantou o 1º Biesp, em Caruaru, responsável pela redução significativa dos homicídios na cidade entre 2018 e 2020. Raquel, aliás, era prefeita do município e contou outra mentira sobre isso. Na campanha de 2022, ignorou a ação estadual e atribuiu a ela a melhora dos índices, apesar de saber que o máximo que pôde fazer foi mandar trocar lâmpadas de postes em ruas escuras.
Com esse histórico, não é estranho que a governadora tenha se vangloriado em Fernando de Noronha de ações que não têm relação com seu governo. Segundo o deputado Waldemar Borges, Raquel tentou se apropriar da entrega da Usina de Dessalinização do arquipélago, que ocorreu em 2021, ainda no Governo Paulo Câmara. “A gestão atual tem zero a ver com essa conquista”, cravou o parlamentar, desmentindo também a insinuação feita por Raquel de que seu governo estaria iniciando investimentos em casas populares e unidades habitacionais de interesse social na ilha.
O efeito matemático de conviver com quem profere mentiras de forma contumaz é ver a corrosão de sua credibilidade a passos largos. Talvez seja por isso que ninguém leva muito a sério os números divulgados pelo governo sobre uma suposta redução em indicadores de criminalidade, sobretudo depois de acusações feitas pelo Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol) acerca de problemas no registro das ocorrências, o que pode estar gerando uma subnotificação de casos.
E também pode ter sido por isso que, durante sua primeira visita a Fernando de Noronha em quase três anos como governadora, Raquel não conseguiu juntar nem 30 pessoas na frente de um palco onde assinaria ordens de serviço, na noite da última sexta-feira.
Impossível um recado mais claro vindo da população: para que perder tempo ouvindo discursos bonitos se o que acontece, na prática, é puro descaso e ineficiência?
Pernas curtas – Ao assistir e postar o vídeo do deputado Waldemar Borges, lembrei-me do escritor José Samarago, o grande pensador português, que disse que os políticos, via de regra, são a mentira, legitimados pela vontade do povo. Para ele, a política é um jogo de mentiras, onde o vencedor é aquele que melhor esconde as suas verdades. Em português claro, a mentira tem pernas curtas e fere de morte quem está no poder.
























