Bacuri, teve olhos vazados e orelhas decepas pela Ditadura

Pode ser uma imagem de 1 pessoa
Por João Lopes
“Em 26 de outubro de 1970, Bacuri ficou sabendo que não mais seria mais deixado vivo, depois que lhe mostraram nos jornais a notícia plantada pela polícia de que tinha fugido e desaparecido. Bem antes disso, ele já não tinha mais o movimento das pernas por causa das torturas – para as quais era levado arrastado – a que vinha sendo submetido.
Seu corpo, encontrado no litoral de São Sebastião, São Paulo, foi entregue à família em um caixão lacrado, na tentativa de esconder o que ele havia sofrido nas mãos dos torturadores. Porém, seus familiares abriram o caixão e se depararam com um “Bacuri” desfigurado, com orelhas decepadas, inúmeras queimaduras, hematomas, dentes arrancados, olhos vazados, dois tiros no peito e dois na cabeça.
Ousar lutar! Ousar vencer! Esquecer jamais!
Eduardo Leite! Bacuri Presente!!
No DOPS, Bacuri recebeu a notícia do nascimento de sua filha por intermédio do informante da esquerda. E este prometeu ajuda-lo a manter contato com Célia. Acho que foi no dia 12 ou 13 que apareceu um dos carcereiros do DOPS. Depois da troca do turno, ele tirou do bolso um papelzinho fechado e me deu na mão dizendo: ‘Bacuri mandou pra você.’ Era uma cartinha dele.”
Na carta, escrita antes de Eduarda nascer, Bacuri revelava a emoção e a preocupação de pai:
“São Paulo 07/10/70
Denise
Não vejo a hora de encontra-la, mas isso só acontecerá depois de a criança nascer.
Quando no Rio, lhe mandei um bilhete, mas não recebi resposta. Após aquele bilhete ainda passei por muitos maus pedaços, mas aqui no O.B. estou sendo bem tratado, fiquei sabendo que você também o foi.
Já melhorei muito em relação à última vez que nos vimo, os inchaços desapareceram. Estive um pouco preocupado se o nenê nasceria no Brasil ou não, minha vontade é que nasça em minas.
Já pensou que mineira?
Não esqueça minha confiança ainda está na luta constante por afirmação e dignidade. Só podemos esperar melhores dias.
Continuo o mesmo pequeno-burguês e acreditando sempre mais no amor.
Não sei quando me tornarei um revolucionário. Moralmente estou preparado para o que vier.
Para ele(a) que vem
Quando seus dentes nascerem
O grito do povo ouvirá
Se o clamor for de paz
Na adolescência constituída
Se o clamor for de guerra
Seus gritos serão ouvidos
E com o povo continuará
Até a paz alcançar
Eduardo”
As únicas informações sobre os momentos finais de Bacuri foram relatadas pelo soldado Rinaldo Campos de Carvalho, em depoimento ao jornal Repórter, de dezembro de 1980.
O soldado afirma que, algum tempo depois da chegada de Bacuri ao forte, o major Milton Wanderley, os jornais noticiaram que havia um mandado de prisão contra o militante, visto que ele estava ”foragido”. Crescia em Bacuri a certeza de que seria assassinado.
“- Na noite em que Bacuri ficou sabendo do mandado de prisão” ´Rinaldo continua – “tentou fugir abrindo um buraco na parede com um cano de pia.”
Diante da tentativa de fuga, o comandante do forte ordenou que Bacuri fosse transferido para um túnel, que era depósito de munição pesada, num morro a três quilômetros do quartel.
“- Dentro do túnel” – lembra Rinaldo – “havia quartinhos e um banheiro. Bacuri foi colocado nesse banheiro. Não havia iluminação nem ventilação. E mui umidade. Ele reclamou bastante, não queria ficar preso ali. A ferida na sua perna, acho que esquerda, uma marca de pus de dez centímetros de diâmetro, estava cada vez pior. Em protesto por ser encarcerado ali, Bacuri começou uma greve de fome.”
Mais ou menos no 12º dia da greve de fome, a mesma viatura que tinha trazido Bacuri chegou ao quartel e foi até o local onde ele estava aprisionado.
“Bacuri já estava de um jeito que nem conseguia se levantar. Os homens entraram no banheiro dizendo a ele que ia ser levado a um hospital militar. Pediram que eu o levantasse e o levasse até a pia para se lavar. Em seguida mandaram que eu saísse.”
Ainda deu tempo de Rinaldo ouvir, de fora do banheiro, um barulho seco.
“- Escutei uma pancada. Não sei se era tiro. Ou de uma cabeça batendo na parede. Só sei que logo depois o corpo dele foi retirado do banheiro no mesmo saco de lona em que chegou. E do saco caíram gotas de sangue.”
Fonte: Eduardo Leite Bacuri de Vanessa Gonçalves (São Paulo, Plena Editorial, 2011).
Da Página do Advogado Vinicius Santa Maria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *