Diversos fatores explicam essa desaceleração: inflação persistente, mudanças no comportamento do consumidor, pressão sobre os custos de produção e perda de renda disponível. No Brasil, o aperto orçamentário das famílias se soma ao crescimento das apostas esportivas, que têm absorvido parte dos gastos com lazer. Para Tony Sousa, presidente da Abrasel em Pernambuco, a crescente preferência por coquetéis prontos e até a injeção para emagrecer Mounjaro entram nessa conta. De dieta, não apenas come-se menos, mas bebe-se menos.
A consultoria NielsenIQ aponta que, embora a cerveja continue presente na cesta de compras, os consumidores estão levando menos litros por vez, ajustando-se ao orçamento.
A consultoria IWSR estima que o volume global da categoria tenha recuado 0,2% em 2025 no mundo, contrariando as projeções iniciais de crescimento. Destilados (-1,3%) e vinhos (-2,4%) também apresentaram queda, enquanto as bebidas prontas para consumo (RTD) avançaram 1,3%, em linha com novos hábitos de consumo, especialmente entre os mais jovens.
Se nos Estados Unidos, a elevação do custo de vida tem reduzido o consumo fora de casa, penalizando diretamente as vendas de cerveja em bares e restaurantes, na China é o envelhecimento da população e as restrições governamentais ao consumo de álcool em eventos públicos que contribuíram para queda de 3,7% no consumo em 2024 e de 2% em 2025, segundo a Kirin Holdings e a Mordor Intelligence.
Na Europa, não tem sido diferente. Dados do Departamento Federal de Estatística da Alemanha (Destatis) mostram que o país comercializou cerca de 6,8 bilhões de litros em 2024 — o menor volume desde 1993. A mudança no perfil do consumidor, especialmente entre os mais jovens, também pesa: pesquisas da MindMiners e da IWSR indicam que a Geração Z consome cerca de 20% menos álcool que os millennials, impulsionada por hábitos mais saudáveis, rotinas reguladas e maior investimento em bem-estar.
O impacto sobre fabricantes é visível. A Heineken registrou queda de 4,3% no volume global vendido no terceiro trimestre de 2025, totalizando 59 milhões de hectolitros. O recuo nas Américas foi de 7,4%, sendo que apenas o Brasil respondeu por perdas estimadas em 10%, segundo analistas do setor. A situação levou à saída do CEO global da companhia, Dolf van den Brink, anunciada no início de janeiro.
Para 2026, há expectativa de recuperação moderada, estimulada por eventos como a Copa do Mundo e um calendário mais favorável de feriados. No entanto, o setor deverá enfrentar o desafio de reconquistar um consumidor com hábitos em constante transformação e sensível a pressões econômicas.

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