Carnaval: uma festa colorida e também politizada
Ato de expressão popular, o carnaval também é tempo de manifestação política
Por: Lourenço Gadêlha
O carnaval é tempo de folia e de brincadeiras, época de descontração e divertimento, mas a alegria também dá passagem para as manifestações politizadas. Nesse contexto, surgem às sátiras políticas, presentes nas fantasias dos foliões, nas marchinhas de Carnaval, nos blocos de rua e nos enredos das escolas de samba. Elas tratam sempre de maneira bem-humorada, dos acontecimentos políticos em evidência na época. É nesse momento que as pessoas encontram espaço para transmitir suas emoções, sejam de satisfação ou de insatisfação.
Nas últimas semanas, as prévias-carnavalescas em Olinda ficaram marcadas por gritos de protesto contra o presidente da República durante grande parte dos desfiles. As manifestações colocaram em cheque a participação do boneco gigante do presidente nas ladeiras, mas o idealizador da Embaixada dos Bonecos Gigantes, Leandro Castro, assegurou a presença do personagem no desfile, além de trazer, pela primeira vez, a boneca da primeira dama. “É uma tradição que nós temos de fazer o boneco do presidente. Nesse ano, a novidade será a Michelle, que vai desfilar junto com o boneco do presidente. Nosso desfile é celebração de Carnaval. Quem mexe com democracia, pode ter suas convicções, mas tem que respeitar”, declarou.
O tradicional desfile dos bonecos gigantes acontece nesta segunda-feira de carnaval, às 9h no Alto da Sé em Olinda, e contará com cem bonecos desfilando. No dia seguinte, cerca de 60 bonecos vão desfilar no Bairro do Recife, às 17h, saindo da Praça do Arsenal. Os personagens do presidente e primeira-dama participam dos dois eventos.
Para a cientista política Priscila Lapa, existe um amadurecimento do comportamento político do brasileiro. “O carnaval é um espaço propício para que se faça uma ação mais politizada. O que era até pouco tempo considerado uma “brincadeira”, como o beijo forçado hoje é enquadrado, legitimamente, como assédio. O ideal é que a sátira e a brincadeira estejam direcionadas à figura pública e não à pessoa”, acentuou Priscila.
Os organizadores do tradicional bloco “Eu acho é pouco” ressaltam que a alegria também é uma forma de resistência em meio à folia. “A política está em tudo que fazemos, no modo como afetamos as pessoas ao nosso redor e somos afetados por elas e na maneira de nos posicionar perante o que acontece no Brasil. Com isso, acreditamos que o Carnaval de rua é a janela para que a brincadeira se misture com o protesto e pensamos o Carnaval como uma grande manifestação política”, declararam. A agremiação desfilará neste sábado, saindo da Praça Laura Nigro às 9h, e também na terça-feira de carnaval, com local e horário a definir.
Ainda nas ladeiras de Olinda, a vereadora Marielle Franco – assassinada no Rio de Janeiro, há 11 meses – será reverenciada por seu partido, o PSol. Ela vai ganhar uma boneca gigante, que ficará pronta neste sábado e desfilará por Olinda na segunda-feira da folia. “A vida de Marielle Franco precisa ser celebrada. Ela era do riso, da alegria. Seu brutal assassinato, que permanece sem resposta, não interrompeu seu significado”, afirmou Ivan Moraes, vereador do Psol no Recife.
As críticas e protestos políticos estão enraizados no carnaval de Pernambuco. O frevo, ritmo mais tocado durante os festejos de momo, surgiu como uma forma de expressão social através da música, dança e poesia. A expectativa é que o carnaval deste ano seja tomado pelas manifestações políticas nos principais centros de folia. Então pelo menos em Pernambuco, a mistura de Política e Carnaval vai dar frevo.


























