Cerca de 70% dos motoristas de transporte escolar podem desistir da categoria por conta da pandemia

Motoristas enfrentam dificuldades neste período para obter renda e alguns buscam outros ramos para sobreviver

Foto: Cid Barbosa

Com o adiamento do retorno das aulas presenciais, a categoria de transportes escolares trafega por um cenário de dificuldades e parte dos motoristas passa por dificuldades de sustento. De acordo com José Wilson, presidente do  Sindicato das Empresas, Micro-Empresas e dos Transportadores Autônomos de Escolares do Estado do Ceará (SETRECE), se a situação persistir até o final deste ano e, sem um maior auxílio dos órgãos públicos, cerca de 70% dos motoristas podem chegar a desistir da categoria.

Segundo o presidente do SETRECE, até o momento, 960 motoristas estão sindicalizados no Estado. Ele pontua que muitos não estão recebendo nenhum tipo de auxílio do governo, o que dificulta a sobrevivência dos profissionais do segmento neste período.

“Nós estamos esquecidos, porque o transportador escolar vive unicamente disso, porque o carro de transporte escolar só tem autorização para este serviço. Nós estamos dependendo do auxílio da prefeitura, do governo e de alguns pais que ainda pagam uma parte do valor. Nós já tivemos muitas tentativas com os órgãos públicos por meio de ofícios, mas a única coisa que chegou até nós foi uma cesta básica nos últimos 2 meses, e nem todos receberam. Alguns dos que recebem estão dividindo entre si”, comenta.

Dificuldades

Além disso, Wilson ressalta que muitos motoristas não possuem o carro próprio e ainda precisam arcar com o valor do financiamento. “É uma situação delicada, você está com dificuldade para alimentar sua família e ainda tem que honrar suas dívidas. O que é fundamental pra gente hoje são as cestas básicas, um auxílio emergencial de pelo menos um salário mínimo para se manter e a prorrogação do pagamento dos veículos, que em sua maioria são financiados”, diz.

Apesar do cenário de dificuldades, ele entende que as medidas tomadas pelos governantes são “necessárias e precisas”, já que se refere à “garantia da saúde de todos”, mas que a situação da categoria precisa ser vista, e não “negligenciada”.

Sobrevivência

Com dificuldades para manter a família e arcar com as despesas mensais, o motorista de transporte escolar Jefferson Brandão, 40 anos, precisou reunir as economias e abrir um pequeno box no Centro Fashion para continuar sobrevivendo neste período de pandemia. Atuante no segmento há 14 anos, ele conta que, desde abril, não recebe renda pelo serviço e nem auxílio do governo para garantir o sustento de sua esposa e dos dois filhos.

“Minha esposa e eu somos transportadores escolares, então nossa renda é toda proveniente disso. Desde abril, nós não recebemos. Achei, por justiça, que eu não deveria cobrar aos pais, já que não estaria prestando serviço e não achava justo eles pagarem. Mas não tinha em mente que essa pandemia iria se estender por tanto tempo. Nisso, fiquei em uma situação crítica”, comenta.

Além da venda de roupas no box no Centro Fashion, Jefferson conta com a ajuda de outros familiares para sobreviver. A renda a mais que entra na receita da casa arca com contas como água, luz e manutenção do carro.

Grupo de risco

A situação ficou um pouco mais crítica para Francisco Nunes Chaves, 58 anos. Motorista há 24 anos, ele e a esposa estão sendo sustentados pelos familiares, e pelo auxílio emergencial do governo. Ele conta que desde o começo da pandemia não sai de casa, pois é pré-diabético e está inserido no grupo de risco.

“Estamos enclausurados em casa, ainda mais nós que somos grupo de risco, como é o meu caso. Estou sobrevivendo pela ajuda da família. Eu não recebi a cesta básica que eles (governo) prometeram nenhuma vez. Sou sindicalizado e regularizado pela prefeitura, mas não recebi nada” comenta.

Nunes comenta que o auxílio de R$ 600 só o ajuda para quitar as contas de casa no final do mês. Além disso, ele pontua que o auxílio prometido pelos governantes até o momento, só ficou “em palavras”.

“Nós que somos transportadores escolares e não temos outra fonte de renda, estamos passando por um período muito difícil. Os governantes disseram que iam nos ajudar, mas até agora só está em palavras, muitos de nós não conseguiram nada”, diz.

Perspectivas

O presidente do SETRECE pontua que, em sua visão, as aulas não irão voltar ao normal ainda neste ano, o que impossibilita ainda mais o sustento dos profissionais da categoria. O motorista Jefferson Brandão compartilha do mesmo ponto de vista e, por esse motivo, pensa em se desfazer de um dos seus veículos para operar com apenas em um deles em 2021 e partir para outros mercados.

“A gente vai tentar ver um outro mercado, porque sinceramente, em termos de transporte, penso em me desfazer de uma das vans e só operar com uma no próximo ano. Eu não acho que as aulas voltem esse ano e não posso esperar pelos outros. Estou vendo se entro nesse ramo da confecção, de vendas, pelo menos provisoriamente”, comenta.

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