Como petroleiras omitem dados sobre emissões potencialmente cancerígenas

Esme Stallard, Owen Pinnell e Jess Kelly

Ali Hussein Julood, de 19 anos, em frente às chamas da queima de gás em Rumaila
Ali Hussein Julood, um sobrevivente de leucemia infantil de Rumaila, no Iraque, em frente às chamas da queima de gás perto de sua casa

As principais empresas petrolíferas não estão declarando uma fonte significativa de emissões de gases de efeito estufa, revelou uma investigação da BBC News.

A BBC descobriu milhões de toneladas de emissões não declaradas da queima de gás em campos de petróleo onde a BP, Eni, ExxonMobil, Chevron e Shell operam.

A queima de gás natural, conhecida como flaring, é a queima “esbanjadora” do excesso de gás liberado durante a produção de petróleo.

As empresas disseram que seu método de apresentação de relatório era uma prática padrão da indústria.

Os gases da queima emitem uma mistura potente de dióxido de carbono, metano e fuligem preta que poluem o ar e aceleram o aquecimento global.

A BBC também encontrou altos níveis de substâncias químicas potencialmente cancerígenas em comunidades iraquianas perto de campos de petróleo em que há queima de gás. Esses campos têm alguns dos níveis mais altos de flaring não declarado do mundo, de acordo com nossas descobertas.

Em resposta, David Boyd, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre direitos humanos e meio ambiente, comparou essas comunidades a “zonas de sacrifício modernas, áreas em que o lucro e os interesses privados são priorizados sobre a saúde humana, os direitos humanos e o meio ambiente”.

As companhias reconhecem há muito tempo a necessidade de eliminar tudo, exceto a queima de emergência.

A BP, Eni, ExxonMobil, Chevron e Shell se comprometeram com a meta de 2015 do Banco Mundial de declarar e eliminar a queima de rotina até 2030 — no caso específico da Shell, até 2025.

Mas as companhias dizem que quando contratam outra empresa para executar as operações do dia a dia, é responsabilidade dessa outra empresa declarar as emissões da queima.

Estes campos são uma grande parte da produção de petróleo — representando, em média, 50% do portfólio dessas cinco empresas.

No entanto, ao longo de meses de análise, a BBC encontrou dezenas de campos de petróleo em que esses operadores também não estão declarando as emissões, o que significa que ninguém está.

Usando dados de satélite do monitoramento da queima de gás do Banco Mundial, conseguimos identificar as emissões de cada um desses locais. Estimamos que, em 2021, quase 20 milhões de toneladas de CO2 equivalente provenientes dessas queimas não foram declarados. Isso corresponde às emissões de gases de efeito estufa que 4,4 milhões de carros produziriam em um ano.

Homens pescando no rio em Nahran Omar

Em resposta, todas as cinco empresas disseram que a abordagem de declarar as emissões apenas dos locais em que operam diretamente era uma prática padrão do setor.

A Shell e a Eni afirmaram ainda que fornecem um valor geral de emissões que inclui a queima de locais em que não operam, mas afirmaram que isso não está discriminado ou incluído em sua meta do Banco Mundial de reduzir as emissões.

Uma investigação do serviço de notícias em árabe da BBC indica que a queima do gás aumenta o risco de alguns tipos de câncer para pessoas que vivem perto de campos de petróleo no Iraque.

As pessoas que vivem em alguns dos maiores campos de petróleo do mundo em Basra, no sudeste do Iraque — Rumaila, West Qurna, Zubair e Nahran Omar — suspeitam há muito tempo que a leucemia infantil está aumentando e que a queima de gás está por trás disso.

Garota correndo em frente às chamas em Nahran Omar
A queima de gás virou pano de fundo da vida das crianças em Basra

Na região de Basra, novos casos de todos os tipos de câncer aumentaram 20% entre 2015 e 2018, de acordo com um relatório vazado do Ministério da Saúde do Iraque, ao qual o serviço de notícias em árabe da BBC teve acesso. O documento culpa a poluição do ar.

A BP e a Eni são os principais contratantes nos campos petrolíferos de Rumaila e Zubair, respectivamente, mas como não são os operadores, não declaram as emissões. Tampouco os operadores.

 

O serviço árabe da BBC trabalhou com especialistas em meio ambiente e saúde perto dos quatro locais em 2021 para realizar testes para substâncias químicas causadoras de câncer associadas à queima de gás por duas semanas.

As análises do ar indicaram que os níveis de benzeno, ligados à leucemia e outras doenças do sangue, atingiram ou ultrapassaram o limite nacional do Iraque em pelo menos quatro lugares.

Amostras de urina coletadas de 52 crianças indicaram que 70% tinham níveis elevados de 2-naftol, uma forma da substância possivelmente cancerígena naftaleno.

“As crianças têm níveis surpreendentemente altos… isso é preocupante para a saúde e sugere que elas devem ser monitoradas de perto”, diz a médica Manuela Orjuela-Grimm, professora especializada em câncer infantil da Universidade de Columbia, nos EUA.

Shukri testando níveis de poluição em Nahran Omar
Shukri, um dos especialistas ambientais que trabalharam com a BBC, fez medições da poluição do ar em comunidades ao redor dos campos de petróleo

Aos 11 anos, Fatima Falah Najem foi diagnosticada com um tipo de câncer no sangue chamado leucemia linfoblástica aguda. A exposição ao benzeno pode aumentar o risco de as pessoas desenvolverem essa condição.

Fatima vivia com os pais e seis irmãos perto do campo petrolífero de Zubair, onde a Eni é a principal contratante.

Nem a Eni, nem a empresa operadora de Zubair declaram as emissões da queima de gás lá.

Por motivos de saúde, a lei iraquiana proíbe a queima de gás dentro de 10 km das casas das pessoas.

Mas as labaredas em Zubair ardem quase continuamente, a apenas 2,5 quilômetros da porta de casa da família.

Fatima desenhou as “chamas ardentes” que cercavam sua casa, durante seu tratamento de quimioterapia.

Ela nos disse que gostava de observá-las à noite, normalizando-as.

Mas para o pai, vê-la adoecer era “como estar pegando fogo sem poder apagá-lo”.

Fatima morreu em novembro passado, enquanto sua família buscava desesperadamente um transplante de medula óssea. Ela tinha 13 anos.

Fatima, aos 13 anos, no hospital enquanto recebia tratamento para leucemia
Fatima permaneceu forte até seu último dia, sua mãe nos contou

Quando solicitamos uma resposta, a Eni disse que “rejeita veementemente qualquer alegação de que suas próprias atividades estejam colocando em risco a saúde do povo iraquiano”.

A Eni afirmou que contratualmente não tem responsabilidade pela queima de gás em Zubair.

O campo de petróleo de Rumaila, a 40 quilômetros de distância, queima mais gás do que qualquer outro local no mundo, de acordo com cálculos da BBC — o suficiente para abastecer quase três milhões de residências no Reino Unido por ano.

A BP é o contratante principal — ajudou a estabelecer e agora supervisiona o operador, a Rumaila Operating Organization (ROO). Nenhum dos dois declara qualquer queima de gás do campo de petróleo.

Os padrões operacionais da ROO, que a BP assinou, dizem: “Aqueles que são impactados por níveis de poluição que excedem os limites nacionais têm direito legal à compensação”.

Mas Ali Hussein Julood, um sobrevivente de leucemia de 19 anos, diz que ele e o pai foram recebidos com silêncio quando pediram uma indenização à BP em 2020 e 2021.

A BP afirmou: “Estamos extremamente preocupados com as questões levantadas pela BBC — revisaremos imediatamente essas preocupações”.

Em relação ao relatório vazado sobre câncer na região de Basra, o ministro do petróleo do Iraque, Ihsan Abdul Jabbar Ismail, nos disse: “Instruímos todas as empresas contratadas que operam nos campos de petróleo a respeitar os padrões internacionais”.

Se todo o gás natural queimado globalmente fosse capturado e usado, poderia substituir mais de nove décimos das importações de gás da Europa da Rússia, com base em dados da Agência Internacional de Energia.

Foto aérea do campo petrolífero de West Qurna

CRÉDITO,ESSAM ABDULLAH MOHSIN/BBC NEWS

Capturar o gás pode ser inicialmente caro e tecnicamente difícil, de acordo com o Banco Mundial. A organização estima que acabar com toda queima de rotina pode custar até US$ 100 bilhões.

Mas Mark Davis, presidente-executivo da Capterio, que assessora empresas petrolíferas na captura do gás queimado, disse à BBC que países como a Noruega mostraram que isso é possível com a ajuda de uma regulamentação forte.

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