Primeiro, um empréstimo de quase R$ 31 mil cai na conta sem ter sido solicitado. Depois, transferências via Pix em sequência levam parte dos valores para pessoas desconhecidas. E tudo isso numa conta que você sequer tenha aberto. O susto e os transtornos para evitar o prejuízo financeiro foram vividos pela empresária Dulce Rossi, de 63 anos.
No fim de novembro, ela recebeu um e-mail dizendo que um crédito de R$ 30.801 tinha sido depositado em sua conta no Mercado Pago. Cliente do Mercado Livre, ela estranhou a mensagem, já que não era correntista da fintech do e-commerce. Parcelada em 36 vezes de R$ 1.715, a dívida ultrapassava os R$ 61 mil.
Antes mesmo que tivesse tempo de questionar a transação junto a empresa, Dulce recebeu outros e-mails, sobre transferências via Pix da conta dela para outras pessoas, primeiro em valores baixos, de R$ 4 a R$ 6, bloqueados após ela informar ainda via e-mail que desconhecia as transações. Depois, porém, outras transferências foram liberadas. A “maratona” para tentar interromper a ação dos golpistas durou uma hora, até que ela ligou para a central de atendimento do banco, que bloqueou a conta. Apesar disso, os criminosos conseguiram tirar mais de R$ 3 mil.
— Só descobri a existência da conta quando o golpe aconteceu. Nunca tinha entrado na conta, então nem sabia como acessar — destaca.
Empresa diz que ‘lamenta’ o ocorrido
Dulce registrou registrou o caso na Polícia Civil, e a empresa pediu, inicialmente, cinco dias para avaliar o caso. Depois, retornaram informando que a instituição financeira que recebeu os valores não faria a devolução. Ela conta que o problema só foi resolvido depois de nove dias, e só após ela registrar o caso no portal “Reclame Aqui”. A empresa, então, voltou atrás, suspendeu as transações feitas na conta e tirou a dívida do nome da empresária.
— Vou levar o caso à Justiça para pedir danos morais, porque passei muito mal, tive crises de ansiedade, foi uma semana horrorosa — lembra.
O Mercado Pago foi procurado, mas não explicou se abre automaticamente contas na fintech para os clientes cadastrados no Mercado Livre. Em nota, a empresa afirmou que lamenta o ocorrido e que o caso foi avaliado e solucionado “imediatamente para preservar os direitos da usuária sem que a mesma sofresse prejuízos financeiros”.
“A empresa tem equipes especializadas e dedicadas à segurança da informação e prevenção à fraudes, que atuam na adoção dos mais altos padrões de segurança, seguindo normas internacionais e em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelos órgãos reguladores”, disse a empresa.
Casos aumentaram até 159%
Advogado da empresária, Bruno Sion observa que o caso dela não é isolado. Ele diz que recentemente uma outra cliente teve a conta invadida, com a contratação de um financiamento de carro que chegava a R$ 120 mil.
O volume de fraudes do tipo vem crescendo. Só na plataforma ProConsumidor — que reúne dados dos Procons estaduais e municipais —, no ano passado foram mais de 9 mil registros de empréstimos não reconhecidos, mais que o dobro do registrado em 2022. Quando observados especificamente os casos envolvendo segurados do INSS, o volume salta para 48 mil reclamações nos últimos doze meses.
Diretor de relações institucionais do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Igor Britto analisa que o caso evidencia a vulnerabilidade da plataforma.
— Nitidamente não foi uma prática maliciosa da empresa, e pode ter sido uma mera coincidência ela ter sido vítima disso sendo cliente do Mercado Livre. Tem muito mais indícios de ser uma falha do sistema de contratação do banco, com a ação dos golpistas provavelmente a partir de um vazamento de dados — afirma: — Isso atinge majoritariamente os aposentados e pessoas mais idosas, que tem uma experiência de cuidado e atenção com a segurança de dados menor.
Fui vítima. E aí?
- Autoridades: A vítima deve registrar o caso na polícia e nos órgãos de defesa do consumidor, como os Procons. Dessa forma, ela tem como questionar que as transações feitas em seu nome são fraudulentas.
- Serasa e SPC: Um caminho também é buscar bureaus de crédito como o SPC e o Serasa e fazer o registro da fraude. Segundo Britto, do Idec, isso dá uma consistência positiva para os credores de que você foi vítima, e ajuda a coibir novas fraudes. Mas nesse caso é importante atualizar os dados posteriormente, porque se não você mesmo pode enfrentar dificuldades para contratar transações.
- Empresas: Depois, a vítima deve buscar a instituição financeira para tentar uma solução administrativa. Se não, a saída é procurar a Justiça.
- Monitore: Dá para acompanhar no portal Registrato, do Banco Central, se alguma movimentação desconhecida foi feita com seus dados.