Direita, volver! Para ter Luciano Huck, PSB abraça social-democracia
Por Sérgio Roxo, de O Globo
De olho na eleição presidencial de 2022, o PSB iniciou uma reformulação de seu programa partidário para retirar do texto pontos de defesa da implantação do socialismo considerados ultrapassados e fora da realidade atual. A ideia é que a legenda assuma princípios mais próximos da social-democracia. Para a próxima disputa ao Palácio do Planalto, a sigla busca atrair um candidato de fora do mundo da política para encabeçar a chapa, como a empresária Luiza Trajano ou o apresentador Luciano Huck.
Um dos itens do programa diz que o “objetivo do partido, no terreno econômico, é a transformação da estrutura da sociedade, incluída a gradual e progressiva socialização dos meios de produção, que procurará realizar na medida em que as condições do país a exigirem”. “Não faz mais sentido nesta altura dos acontecimentos falar de socialização dos meios de produção. Isso é anacrônico e não corresponde ao nosso pensamento atual”, afirma o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira.
Fundado em 1947, o Partido Socialista Brasileiro foi extinto pela ditadura militar. Refundado em 1985, após a redemocratização, adotou o programa original. Em 2014, quando lançou candidatura encabeçada por Eduardo Campos, o partido enfrentou questionamentos nas redes sociais em razão dos textos de seu programa e de seu manifesto. Campos, que defendia propostas liberais como a autonomia do Banco Central, chegou a prometer rever as publicações para tirar as referências ao socialismo, mas isso acabou não acontecendo.
Refundação da legenda
A ideia agora é aprovar, até novembro, um novo programa, que, segundo Siqueira, significará uma refundação do partido. O processo foi batizado de autorreforma. Um texto usado para as discussões internas critica a desigualdade social brasileira e diz que doutrina liberal tem falhado para combatê-la, mas defende a “adoção de políticas públicas que promovam o crescimento e a prosperidade”.
Apesar das mudanças de rumo, o partido não planeja deixar o termo socialismo para trás. No texto que está em discussão, o PSB fala em “socialismo criativo” para tratar da revolução tecnológica e em “ecossocialismo” ao abordar as saídas para a crise ambiental do planeta.
Uma alteração do nome da legenda está descartada. “Não precisamos mudar de nome, não nos envergonhamos de ser socialistas”, afirma Siqueira, que cita os triunfos eleitorais recentes de partidos socialistas em Portugal e na Espanha.”
O dirigente descarta que as mudanças no programa partidário tenham sido planejadas para atrair Huck ou Luiza Trajano, mas reconhece que a alteração possa ser útil nesse processo: “Precisamos colocar os nossos interesses partidários um pouco à parte e filiar uma pessoa que represente muito além do PSB, embora possa aproveitar muito do que o partido vai apresentar na sua renovação programática.”
Defensor da renovação promovida pelo PSB e integrante da executiva do partido, o ex-prefeito de Campinas Jonas Donizette acredita que a alteração facilitaria a entrada de Huck. “A gente não está fazendo (a mudança) pensando num nome, está pensando numa ideia. Mas acho que o Huck se sentiria confortável (com esse novo programa)”, reconhece.
Para Donizette, a autorreforma ajudará também a evitar que o partido seja atacado pelos rivais de direita, que muitas vezes relacionam a sigla aos regimes de países como Cuba, Venezuela e Coreia do Norte. “Não tenho dúvida de que o PSB vai se diferenciar muito dos partidos de esquerda. A gente vai querer ampliar o nosso leque de diálogo”, afirma o ex-prefeito de Campinas.

























