Escritor diz que proibir biografias pode trazer prejuízos

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Mário Magalhães tocou no nervo da questão. A ação do grupo Procure Saber poderá causar imenso prejuízo à historiografia brasileira. “O grupo Procure Saber, na prática, impede que se saiba o que passou na nossa história”, acrescenta Mário.

“Um torturador notório como o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra tem, conforme o Código Civil, o direito de impedir que seus atos sejam contados numa biografia independente. Não se constrói uma nação democrática com biografias chapas-brancas”, afirma.

Mário enfatiza que “trata-se de crime grave de lesa-história. Os direitos humanos contemplam universalmente o acesso à memória. É importante enfatizar que qualquer cidadão tem o direito de recorrer à Justiça em caso de ser vítima de crimes como calúnia e difamação. A censura prévia é que é antidemocrática”, afirma.

 Nem todos os biógrafos pensam da mesma forma. Marcela Matos, biógrafa de Mazzaropi, pondera que “liberdade de expressão não pode invadir a vida pessoal de outras pessoas”, escreveu por e-mail.

“Sei que o assunto é bem polêmico e há casos de biografias censuradas porque os parentes temem que alguns assuntos podem ser levantados, mas há também muita gente querendo ganhar dinheiro em cima da história de famosos, nem sempre com apuração criteriosa e preocupação com a checagem dos dados”, pesou Marcela.

Parca remuneração

Felizmente, este (ainda) não é o tom da maioria das biografias brasileiras, que costumam ser fruto de anos de pesquisa e da paixão pura e simples pelo trabalho – parcamente remunerado, mesmo para biografias que vendem muito, como Marighella – o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo (Cia. das Letras) rendem pouco aos autores, como contou Mário Magalhães em sua carta aberta.

“Ao todo, já saíram 30 mil exemplares (…). Somando os direitos autorais a que tive direito e a remuneração que receberei pela cessão para o cinema, o valor representa nanicos 15% do total dos salários de que eu abri mão ao me despedir do jornal. Voluntariamente, perdi ou deixei de ganhar 85 em cada 100 reais”, afirma.

Autor de Memórias das Trevas, em que relata suas escaramuças com o ex-governador Antonio Carlos Magalhães, o jornalista João Carlos Teixeira Gomes vaticina: “O pior que pode acontecer é a vigência desta proibição. Se existe alguma legislação proibitiva inibindo as pessoas de escreverem sobre vultos históricos, trata-se de um absurdo que precisa ser revogado”, disse, por telefone.

Fonte: A Tarde

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